segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Feminismo do #MeToo é ofensivo aos homens, diz Catherine Millet



Bettina Rheims/Reprodução
Imagem de arquivo mostra Catherine Millet em seu escritório, com a parede recheada de nus dela; abaixo, foto de 2014
Imagem de arquivo mostra Catherine Millet em seu escritório, com a parede recheada de nus dela
Em 2001, a escritora e crítica de arte Catherine Millet lançou um romance autobiográfico no qual conta detalhadamente uma vida sexual regada a orgias, sexo com desconhecidos em meio a bosques e todo tipo de libertinagem.

"A Vida Sexual de Catherine M." foi um best-seller mundial e rendeu a Millet a simpatia de milhares de mulheres, maravilhadas com aquela que parecia levar ao limite a máxima "meu corpo, minhas regras".

Isso até a terça-feira (9), quando assinou, junto a outras cem francesas, um manifesto no jornal "Le Monde" no qual defendem a "liberdade de importunar" dos homens. Um ato contra o que chamam de "puritanismo" do movimento #MeToo.

Millet foi uma das autoras do texto do manifesto. Suas declarações ao longo da semana -como dizer que sente compaixão por homens que se esfregam em mulheres no metrô- rendeu-lhe críticas vindas dos quatro cantos do planeta.

*
Folha - A senhora imaginou que o manifesto publicado no 'Le Monde' teria essa repercussão mundial?
Catherine Millet - Não. O que queríamos fazer era contrabalancear essa onda que consideramos como a afirmação de uma forma de feminismo muito puritano. Na verdade, queríamos dizer "podemos ser mulheres, conscientes dos direitos das mulheres e não ter o mesmo discurso em relação à sexualidade". Em momento algum imaginei que terminaria respondendo a um jornal brasileiro sobre essa questão.

Valeu a pena?
Sim, pela proporção que as reações ao manifesto tomaram. Talvez muitas outras além de nós também estivessem cansadas de escutar apenas um ponto de vista sobre todas essas questões ligadas às relações entre homens e mulheres. Como anunciamos no nosso manifesto, estamos liberando uma outra palavra, um outro ponto de vista.

A senhora se sente sufocada com movimentos como o #MeToo?
Eu vivi isso como um bombardeio midiático. Todos os dias os jornais publicavam artigos nos quais davam a palavra a mulheres que tinham sofrido assédio ou violência. E, sinceramente, muitas vezes essas violências não me pareciam ser graves -havia algumas e eu não nego isso, mas em certos casos não era tão grave. Em outros, o comportamento das mulheres não era tão evidente.

Em que sentido?
No sentido de que podia haver -e eu não condeno isso- uma certa ambiguidade das mulheres antes que o homem passasse ao ato. Isso me chamou a atenção em alguns testemunhos que li e eu me dizia: publicam o testemunho dessa mulher que acusa um homem de tê-la obrigado a uma relação sexual, mas alguém foi perguntar a esse homem seu lado da história? Isso me parece um pouco desequilibrado. Acho que o trabalho do jornalista é tentar ouvir os dois lados, fazer um trabalho de investigação que seja minimamente equilibrado e esse não foi o caso. Foi isso o que me fez reagir.

Joël Saget - 11.jun.2014/AFP
(FILES) This file photo taken on June 11, 2014 shows French writer and jury member for the French literary prize Prix Sade, Catherine Millet posing in Paris. Feminists and one of the women who accused fallen Hollywood mogul Harvey Weinstein of rape turned on French actress Catherine Deneuve on January 10, 2018 after she signed an open letter attacking the #MeToo movement for leading a witch-hunt against men. It was also signed by Catherine Millet, whose explicit 2002 memoir, "The Sexual Life of Catherine M.", was a defence of libertine lifestyles. / AFP PHOTO / Joël SAGET ORG XMIT: 5063
Retrato da escritora francesa Catherine Miller em Paris, em 2014
 
O manifesto começa falando sobre a "cantada insistente e desajeitada". Mas onde termina essa cantada e começa a violência? Qual é o limite?
Eu adoraria que alguém me explicasse.

A senhora nunca passou por esse tipo de situação?
Sem dúvida, se eu procurar na minha memória, posso encontrar exemplos, mas nada que me chocasse tanto ao ponto de eu lembrar de uma maneira precisa. É verdade que nunca fui vítima de violência real, nunca fui estuprada, nem apanhei para ceder a uma relação sexual. Nunca conheci uma situação extrema.

O que uma mulher vai considerar como assédio, eu posso considerar como uma cantada insistente e não dar tanta importância. Acho que nesse domínio cada um de nós tem uma escala de valores, de tolerância. O que me incomoda em particular nessa campanha [#MeToo] é que, de alguma maneira, essas mulheres querem instaurar, como se fosse uma lei universal, uma fronteira precisa a partir da qual existiria assédio. Em uma entrevista recente, por exemplo, eu disse não considerar um homem que toca nas minhas coxas no metrô como um predador.

Essa sua declaração levou a secretária de Estado encarregada da igualdade entre homens e mulheres, Marlène Schiappa, a lhe responder que "o corpo de uma mulher não é depositário da miséria sexual dos homens". A senhora pensa realmente isso?
Acho que em muitos casos esses homens que tocam ou se esfregam em mulheres no metrô ou em lugares públicos são homens que vivem uma miséria sexual. É a minha opinião. Pessoalmente, tenho compaixão por esses homens.

Publicidade
Error setting up player:
Invalid license key
A senhora também criou um escândalo ao falar sobre estupro.
Sim. Antes de mais nada, falei a título pessoal. Além disso, era uma maneira de polemizar e antes de escrevermos esse manifesto. Talvez se tivessem me perguntado a mesma coisa depois, eu tivesse sido mais prudente. Mas acredito que, ao invés de trancar as mulheres nessa posição de vítima, é preciso, ao contrário, ensiná-las a superar o traumatismo.

Penso que se seu corpo sofreu um ultraje, a sua alma não deve sofrer esse mesmo ultraje, e sim permitir a você superar a violência que foi feita ao corpo.

Não é fácil para alguém como a senhora, com uma sexualidade tão forte e pronunciada, falar isso?
Claro que é. Mas eu também tenho o mesmo direito de me expressar que uma mulher que não esteja na mesma posição que a minha. Estou aqui para contar a minha própria história, a maneira como pude viver a minha sexualidade, e espero que isso possa servir às outras, se não como modelo, para refletir sobre as relações que elas têm com sua sexualidade.

Para a senhora um "não" é sempre um "não"?
Existe esse velho discurso machista que consiste em dizer que se uma garota diz "não" é porque ela quer dizer "sim", como se fosse um tipo de manobra, por acreditar ser mais decente não dizer "sim" na hora, ou até como artifício para aumentar o desejo do homem. Evidentemente, não concordo com esse discurso e muitas vezes acho que "não" é "não".

Mas também é verdade que em uma aproximação sexual -e isso de ambos lados, do homem e da mulher- pode existir um momento de confusão, em que não sabemos se temos ou não vontade.

A senhora é vista como uma mulher liberada, forte, independente. De uma certa maneira, na vanguarda de um feminismo que defende esse "empoderamento" do próprio corpo. Esse mesmo feminismo é o que lhe ataca agora. A senhora se considera feminista?
Sim. Mas nunca fui militante. Costumo contar que me tornei "feminista" depois
do lançamento de "Vida Sexual" porque evidentemente esse livro me aproximou muito das mulheres. Eu contei a minha vida, e em troca recebi muitos testemunhos de mulheres.

No entanto, acredito que deveríamos parar de falar de apenas um feminismo e lembrar que existem várias correntes. Na minha opinião, esse feminismo que se manifestou na campanha #MeToo é muito bélico e ofensivo em relação aos homens. Elas acham que são progressistas, mas na verdade são muito retrógradas.

O que mudou no mundo desde o lançamento de seu livro "A Vida Sexual de Catherine M.", em 2001?
Houve uma grande regressão moral. Se você perguntar a outras pessoas da minha geração, todas lhe dirão, com pesar, que essa liberdade que nós acreditávamos ter conquistado regrediu consideravelmente nos últimos 20 anos. E não falo somente da liberdade sexual no sentido de que podemos fazer de nossa vida e nosso corpo o que temos vontade, mas também da liberdade de pensamento, da tolerância relacionada à vida dos outros e seus comportamentos sexuais, das expressões artísticas etc.

Qual é a causa disso?
Quanto mais você libera a sociedade, mais gente que é hostil a essa liberdade vai gritar mais alto e se manifestar. O que está acontecendo é grave. Uma parte liberal da sociedade, por razões complexas, está cedendo espaço a essa minoria que eu considero como retrógrada. E repito e assumo: esse feminismo que se manifestou a favor de #MeToo é um feminismo retrógrado.

Como a senhora define a "liberdade de importunar" defendida em seu manifesto?
Várias pessoas pediram que retirássemos a palavra "importunar" do manifesto. Mas, em francês, "importunar" quer dizer "incomodar" ou, vulgarmente, "encher o saco". Não é algo pior que isso. Existe uma grande diferença entre "importunar" e "assediar".

A senhora foi acusada de pertencer a uma elite cultural e social na qual a realidade dessas violências sexuais não ocorre da mesma maneira que para a maior parte das pessoas.
Isso eu não posso negar. Eu realmente pertenço e tenho a sorte de exercer uma profissão onde o trabalho das mulheres é amplamente reconhecido. E não nego e nem ignoro que existam problemas em outros setores da sociedade.

RAIO-X
 
Idade
69 anos
Origem
Nascida, em Bois-Colombes, na França
Carreira
> Crítica de arte, especialista em Salvador Dalí e fundadora e diretora de Redação da revista "Art Press";
> Como escritora se destacou com "A Vida Sexual de Catherine M." (2001) e "A Outra Vida de Catherine M." (2009)
------------
 Reportagem por  MÁRIO CAMERA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE PARIS

Proibir carne em certos dias da semana só pode ser ideia de fascista

Luis Felipe Pondé*


Editoria de Arte/Folhapress
  

Muitas vezes você deve ter se perguntado para que serve um deputado estadual no Brasil. Uma resposta que deve vir à sua mente é: para nada. Mas, você pode, infelizmente, estar errado. 

Para além da inutilidade estrutural de grande parte dos políticos no Brasil, a organização política do Brasil determina a quase inutilidade dos deputados estaduais porque tudo é decidido em Brasília. 

Como disse um amigo meu, se você cometer um crime no Brasil e se esconder na Assembleia Legislativa estadual, provavelmente, o crime prescreverá, porque quase ninguém vai lá. 

As coisas sempre podem piorar: alguns entre os muitos inúteis podem resolver "legislar" e aí, a emenda sai pior do que o soneto. Inúteis são menos perigosos quando ficam quietos. 

Por incrível que pareça, alguém parece estar tentando proibir restaurantes e bares de vender produtos de carne às segundas-feiras no Estado de São Paulo, em nome da defesa animal. 

Temos em Brasília as bancadas da bala, da Bíblia, do boi, e agora, em São Paulo, temos a bancada da rúcula. Para essa bancada, a humanidade de sete bilhões de Sapiens pode sim se alimentar de rúcula com alface, apesar de toda a história da seleção natural dizer o contrário. 

Tudo bem, modas são modas, e vivemos uma era de modas ridículas, principalmente entre jovens riquinhos. Veganos de todos os tipos, seguindo o guru Peter Singer e seu "Animal Liberation" de 1975, afirmam que comer animais é "especismo". O termo é cunhado como analogia a "racismo". Bicho também é gente. 

Partilho da sensibilidade de cuidado com os animais e desconfio de quem maltrata animais. Mas, como seres naturais que somos, precisamos nos alimentar. 

Não existe a natureza que os veganos imaginam em suas vidinhas protegidas e cheias de pequenos luxos alimentares presentes em restaurantes descoladinhos. A natureza é uma besta fera que devora tudo. 

Câncer é tão natural quanto uma praia maravilhosa e deserta. Entrega um vegano desses pra besta fera que é a natureza e você verá o que acontece: os vermes carnívoros comerão os veganos, assim como comerão os frequentadores de churrascarias. A riqueza material corre o risco de deixar todo mundo abestalhado. 

Afora o fato evidente de que as pessoas podem gostar ou não de carne, sentir-se bem comendo carne ou não, ter nojo ou não (e ninguém deve se meter nessa questão de gosto pessoal), a ideia de transformar em lei algo assim (proibir as pessoas de comer carne em locais públicos num dia da semana) só pode passar pela cabeça de algum fascista verde radical. Ou de alguém financiado por algum grupo de interesse em "dinheiro verde". Ou de um neoidiota contra a carne. 

Se leis assim passarem um dia, teremos chegado ao fundo do poço de uma tendência contemporânea que é o fascismo de butique. 

O que é fascismo de butique? É gente que transforma suas pequenas manias em pautas universais, do tipo: "A humanidade tem que viver como eu acho que ela deve viver". 

Jovens que vêm de boas famílias, normalmente, compõem o grosso desse fenômeno. Na Europa, como bem dizia o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017), esse tipo de jovem é produto do Estado de bem-estar social, mas no Brasil e nos EUA são frutos de pais com razoável grana que pagam escolas caras que abraçam árvores. 

Eduque seu filho para ser uma "pessoa com outra qualidade de consciência" e terá um idiota pra sempre a ser sustentado em suas manias narcísicas de comportamento "puro". Nunca se prepararam tão mal os jovens para a vida real como nos últimos anos. Jovens assim não enfrentariam desafios, dos Neandertais a Hitler. 

Faça um teste consigo mesmo: se você achar que sabe como as pessoas deviam viver para serem melhores, a chance de você ser um fascista de butique é enorme. 

Enfim: alguém quer proibir você de comer um churrasquinho na segunda-feira. Quer ir jantar à noite? Estaria a fim de comer um steak com molho poivre e fritas? A Assembleia Legislativa de São Paulo, do alto da sua infinita utilidade, quer proibir. 

A bancada da rúcula vai obrigar a você a comer o que ela quer que você coma. 
------------
*Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. 
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/01/1950426-proibir-carne-em-certos-dias-da-semana-so-pode-ser-ideia-de-fascista.shtml

sábado, 13 de janeiro de 2018

Catherine Millet: “É preciso deixar de pensar que a mulher é sempre uma vítima”


A escritora francesa Catherine Millet, em sua casa, em abril de 2016.

Catherine Millet, promotora do manifesto contra o #MeeToo, denuncia seus métodos e consequências

A escritora francesa Catherine Millet, em sua casa, em abril de 2016. Aurimages
Seu manifesto conseguiu semear o caos na França e em boa parte do mundo. A escritora e crítica de arte Catherine Millet (Bois-Colombes, 1948), autora do best-seller A Vida Sexual de Catherine M., é uma das cinco mulheres por trás do manifesto contra o #MeToo, assinado por 100 personalidades da cultura francesa, lideradas pela atriz Catherine Deneuve, a cantora Ingrid Caven e a editora Joëlle Losfeld. Millet diz que esse movimento, que rotula de “puritano”, favorece a volta da “moral vitoriana”. Ela defende “a liberdade de importunar”, inclusive no sentido físico, considerando-a indispensável para assegurar a herança da revolução sexual. É o que afirma em seu escritório parisiense, um quarto cheio de catálogos amontoados onde o telefone não para de tocar desde que começou a dirigir a revista Art Press, que cofundou em 1972.

Pergunta: Vocês esperavam as violentas reações que o texto provocou?
Resposta: Absolutamente. Só quisemos reagir ante a palavra das feministas radicais, que era a única que líamos na imprensa. Aquilo nos incomodava, pois não era um ponto de vista que compartilhássemos e porque, ao nosso redor, conhecíamos muitas mulheres que não pensavam assim. No meu entender, você não fica traumatizada durante anos porque um homem tocou na sua coxa. A ideia era contar que nem todas as mulheres reagimos da mesma forma ante gestos que podemos considerar grosseiros ou indelicados.

P. Criticaram sua falta de solidariedade em relação às outras mulheres...
R. Ninguém pede a um homem que compartilhe as opiniões de todos os demais homens do planeta. Isso é impossível. Não estamos dizendo que achamos bom que estuprem as mulheres; o que fazemos é mostrar os deslizes cometidos por esse movimento. Por exemplo, questionar certos homens por atos mínimos e que tiveram consequências graves em suas carreiras. Foi criado um tribunal público onde eles nem ao menos tiveram a chance de se defender. De repente, tivemos a sensação de que todos os homens eram porcos. É preciso estar na pele dos que sofreram violência sexual, mas também pensar nos homens que foram vítimas de acusações muito rápidas e com sérias consequências para suas vidas profissionais.

“Se me estuprassem, tentaria esquecer”

P. Ressaltando as disfunções do movimento e não seus acertos, vocês não correm o risco de prejudicar essa tomada de consciência sobre a violência sexual e os abusos de poder, que seu próprio manifesto considera “necessária”?
R. As feministas não dizem que a palavra foi libertada? Então, se é assim, nossa palavra vale o mesmo que a delas. A censura que esse caso pôde provocar me parece ridícula. É muito grave que se remova um ator de um filme [Kevin Spacey, substituído por outro ator em Todo o Dinheiro do Mundo após ser acusado de agressões sexuais]. São métodos que me fazem lembrar os do stalinismo...

P. Seu movimento fala de “uma onda purificadora” que acabaria instalando “uma sociedade totalitária”. Não é um pouco excessivo?
R. Justamente, você cita uma frase que eu escrevi. Em todo texto polêmico há um pouco de exagero, mas eu o assumo totalmente. Vejo surgir um clima de inquisição, em que cada um vigia seu vizinho, como acontecia nos regimes soviéticos, e depois o denuncia nas redes sociais. Todos os cantos da sociedade estão sob vigilância, incluindo nossa esfera íntima...

“A codificação de nossas relações é impossível, a não 
ser que nos transformemos em robôs”

P. Essas acusações não são o resultado de uma Justiça imperfeita, por causa das prescrições de crimes e da falta de provas?
R. Concordo, mas esse não é o melhor método. Se cada cidadão faz justiça com as próprias mãos, retornamos aos tempos do faroeste. A Justiça tem defeitos, e é inegável que não dá conta de tudo, mas vivemos numa sociedade que aceita que é ela a encarregada de julgar, não um tribunal popular. Nisso eu sou radical.

P. A senhora foi acusada de antifeminista. É de fato?
R. Se falamos desse feminismo específico, realmente sou contra. Mas hoje existem várias correntes feministas... Me sinto mais próxima das feministas que integram o sexo em seu discurso — que costumam ser mais jovens que eu — do que das que expressam, através do movimento #MeToo, posições radicais que nunca compartilhei, nem agora nem durante os anos setenta. O feminismo continua sendo muito justificado no entorno social. Por exemplo, no que se refere à igualdade salarial. Também defendo essa igualdade na liberdade sexual, isso damos por certo...

P. Vocês também são criticadas por serem quase todas brancas e burguesas. Por defenderem, no final das contas, uma postura elitista.
R. Sim, nos criticaram por não andarmos de metrô. Na verdade, eu pego o metrô várias vezes por dia. Quando era mais jovem, certa vez um homem passou a mão em mim no transporte público, e nem por isso morri ou me tornei uma inválida.... Entre as signatárias do manifesto, há uma mistura geracional e de origens. Por outro lado, as mulheres que nos atacam também são intelectuais e universitárias, assim como nós. Catherine Deneuve deve ter um modo de vida um tanto diferente, mas todas as demais somos bastante parecidas com as que nos atacam...

“A censura já não provém de círculos extremamente conservadores, mas de mulheres que 
se consideram feministas”

P. Considera que o famoso “direito de importunar” que o texto defende é mais importante que o direito de não ser importunado?
R. É que as duas coisas andam juntas.... Quando um homem te incomoda, você tem a liberdade de lhe dizer que pare com isso. Temos a capacidade de dizer que não. Por outro lado, importunar é uma palavra bastante leve. Não é o mesmo que assediar, nem de longe. Alguém pode importunar você fumando do seu lado num lugar público...

P. Não é o mesmo grau de intrusão que tocar em alguém.
R. Sei que criticaram muito essa palavra, mas abram os dicionários. Veja, vou buscá-la... [procura a definição em seu tablet]. Importunar é sinônimo de incomodar, aborrecer, causar desconforto, irritar...

P. Mas a senhora entende que existam mulheres que não querem ser importunadas quando passeiam pela rua ou vão ao metrô?
R. Não. Acredito que há uma margem em que o comportamento dos demais pode acontecer sem que seja considerado um crime. Você pode achar desagradável e reclamar, mas nem por isso é um crime. E, como tal, não quero que esteja regulado, nem por uma moral superior nem pela lei. É preciso aceitar que existem impertinentes na vida. Essas mulheres parecem almejar uma sociedade utópica e regulada nos mínimos detalhes, onde um homem deverá tomar precauções antes de se dirigir a uma mulher. A codificação de nossas relações é impossível, a não ser que nos transformemos em robôs.

P. A senhora afirma que esse direito de importunar é indispensável para garantir a liberdade sexual. Em que sentido?
R. Numa relação entre dois indivíduos, sempre há um momento confuso e ambíguo, em que um dos dois não sabe muito bem o que quer. Quando um homem tentava me seduzir, às vezes sentia uma atração que não era grande o suficiente para ceder de imediato. Um momento de dúvida. Às vezes você acaba cedendo; em outras, não. Essas mulheres dizem que um “não” sempre é definitivo, mas eu acredito que existam nuances. Às vezes, os homens têm uma oportunidade se insistirem novamente.

“Se comparo minhas possibilidades com a vida que minha 
mãe teve, numa única geração 
ganhamos muito”

P. Seu movimento denuncia um retorno à moral vitoriana. De novo: não é um pouco exagerado, numa sociedade em que a sexualidade é onipresente?
R. Há tempos acredito que, quanto mais liberdade existe no discurso e na circulação de imagens, mais se exasperam os setores que a consideram incômoda – e sua reação se torna cada vez mais violenta. O surpreendente é que essa vontade de censura já não provém de círculos extremamente conservadores, mas de mulheres que se consideram feministas. Não sei se você viu as duas meninas que pediram ao Metropolitan de Nova York que retirasse um quadro de Balthus: eram duas jovens modernas e provavelmente de esquerda...

P. São casos pontuais, que já ocorriam muito antes do movimento #MeToo. Pintores como Balthus e Schiele, ao qual seu texto também se refere, geram escândalos há décadas. Não tomam a exceção como se fosse a regra?
R. Sim, mas acredito que devemos reagir com rapidez, pois os efeitos podem ser imediatos. Veja o caso desse professor norte-americano demitido por mostrar imagens do século XVIII, provavelmente um tanto libertinas, aos alunos. Alguns dos pais as haviam considerado pornográficas!

P. “Lamento muito não ter sido estuprada, porque assim poderia dar fé de que um estupro também pode ser superado”, disse a senhora em dezembro. Sua frase gerou um enorme escândalo. Se arrepende de tê-la pronunciado?
R. Não. Foi uma formulação um tanto cômica e sem reflexão, mas só porque não queria me expressar com um tom excessivamente grave. Tendo a vida sexual que tive, na qual contei com muitos companheiros diferentes — alguns deles, perfeitos desconhecidos —, sempre disse que, se me encontrasse numa situação de estupro, não me defenderia. Assim sofreria menos riscos, pois conseguiria neutralizar a violência do agressor. Se a violência desse ato tivesse me transtornado, acredito contar com a capacidade moral suficiente para superar esse fato e tentar esquecê-lo. Essa é minha resposta pessoal. Há pouco tempo, li uma entrevista de uma advogada que havia sido estuprada quando jovem e que desaconselhava suas clientes a denunciar e processar, porque isso só te faz prisioneira do sofrimento. Salvo em casos em que haja consequências físicas graves, acredito que a mente consegue vencer o corpo.

“Vejo surgir um clima de inquisição, em que cada 
um vigia seu vizinho”

P. Não acha que um estupro também tem consequências psicológicas?
R. Elas existem para algumas mulheres, mas não para todas. É preciso deixar de pensar que a mulher é sempre uma vítima. Pode ser vítima desse ato num instante, mas também pode encontrar a capacidade de reagir...

P. Uma das signatárias do texto, a filósofa Peggy Sastre, é autora de um ensaio intitulado A Dominação Masculina Não Existe. Concorda com isso?
R. Existe, mas não em todas as partes. Em nossa sociedade, atualmente e na classe média, as mulheres contam com um grande poder. No âmbito doméstico, com frequência são elas que impõem sua vontade dentro do casal, por causa da culpabilidade dos homens jovens e do fato de trabalharem e serem economicamente livres...

P. Então, onde persiste a dominação masculina?
R. Vou esquivar a pergunta... Houve tantos avanços nas últimas décadas... Se comparo minhas possibilidades com a vida que minha mãe teve, numa única geração ganhamos muito. Mas as feministas continuam interessadas em nos fazer acreditar que nossa sociedade é unicamente patriarcal. Isso não é verdade. Acho que também existe um matriarcado...

P. Considera que o patriarcado é coisa do passado?
R. Digamos que foi drasticamente reduzido.
--------
Reportagem por  / París 12 JAN 2018 
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/12/cultura/1515761428_968192.html 

A ameaça das ‘fake news’



A Pepsi superou a Coca-Cola em vendas porque a imagem de Jair Bolsonaro passará a estampar as latinhas de refrigerante da marca. A “notícia”, publicada em 4 de dezembro no site News Atual, foi replicada em cinco páginas do Facebook com um total de 1,8 milhão de seguidores. Em poucos dias, ela teve mais de 20 000 curtidas e um número considerável de compartilhamentos. Era, obviamente, falsa — uma genuína fake news. Mas, como se vê, muita gente não só acreditou como passou a mentira adiante para depois, pelo menos em alguns casos, morrer de vergonha. Pesquisa exclusiva feita a pedido de VEJA pela consultoria Ideia Big Data, com 2 004 pessoas ouvidas por telefone entre 9 e 10 de janeiro, mostra que 83% dos entrevistados temem compartilhar notícias falsas em suas redes sociais e grupos de WhatsApp.

O levantamento, feito em 37 cidades das cinco regiões do país, mostra ainda que o cuidado em confirmar a veracidade das informações varia de acordo com a renda e a idade dos entrevistados. Nas classes mais altas, A e B, 52% e 46% afirmaram checar (muito ou sempre) se as notícias que divulgam nas suas redes são reais. Esse porcentual cai drasticamente, para 24% e 13%, nas classes D e E. Considerando-se o total dos entrevistados, sem levar em conta níveis de renda específicos, 63% das pessoas ouvidas afirmaram não se preocupar em checar a veracidade das notícias antes de compartilhá-las, ainda que a esmagadora maioria tenha receio de cair no conto do vigário. Por fim, o estudo mostrou que 45% dos brasileiros nunca ouviram falar em fake news — o que, evidentemente, não significa que não as tenham consumido.


A tomada que virou Bíblia – Uma das lorotas que se seguiram à sentença de Lula dada por Sergio Moro dizia que o juiz havia se debruçado sobre a Bíblia ao condenar o ex-presidente no caso do tríplex. A foto foi feita quando Moro procurava uma tomada sob a mesa em um evento. O autor da mentira é Fabrício Iachaki (no detalhe, seu perfil do Facebook) (André Dusek/Estadão Conteúdo)
Há dois tipos de propagadores de fake news à solta: militantes empenhados em atacar a reputação dos adversários políticos de seus candidatos e empresas ou indivíduos que fabricam notícias falsas com o intuito de ganhar dinheiro por meio dos anúncios — sobretudo vindos do Google AdSense, braço de publicidade do Google. Em resumo, tirando malucos e gente que não tem o que fazer, as fake news são disseminadas por pessoas interessadas em colher dividendos políticos ou pecuniários. VEJA examinou o conteúdo de doze sites conhecidos por difundir inverdades. Depois de analisar 534 notícias comprovadamente falsas divulgadas por esses sites, VEJA constatou que os alvos prediletos das mentiras são, pela ordem, o ex-presidente Lula, o presidente Michel Temer e o juiz Sergio Moro.

(Arte/VEJA)

No ramo argentário, o site Sociedade Oculta é um exemplo de como o mecanismo das fake news opera — e prospera. A página, criada no ano passado pelo paranaense Fabricio Iachaki, divulgou algumas das notícias falsas mais compartilhadas do país. Entre elas estava uma em que o juiz Sergio Moro aparecia numa foto sentado em uma cadeira e curvado sobre a mesa. O texto dizia que o juiz estava debruçado sobre a Bíblia depois de ter anunciado a condenação de Lula — a foto era real, mas a intenção do magistrado com o gesto era bem outra: ele procurava uma tomada sob a mesa para recarregar seu laptop.

A VEJA, Iachaki disse que, originalmente, criou a página com o intuito de divulgar notas de grande apelo popular, mas que, quando experimentou publicar notícias falsas, sua audiência explodiu. O site chegou a ter, segundo ele, 12 milhões de acessos mensais. Graças aos anúncios do Google atraídos por sua alta audiência, Iachaki declarou ter chegado a faturar de 2 000 a 3 000 dólares por mês. Hoje, com a investida do Google e do Facebook para reduzir o alcance de páginas propagadoras de fake news, Iachaki afirma ter mudado seu “modelo de negócio”, começando por contratar um “jornalista profissional”. “Quero trabalhar com notícias sensacionalistas, mas reais”, diz. Em tempo: o nome Iachaki, apesar da semelhança com “e achaque”, é uma piada involuntária.

Punir um propagador de fake news ainda é uma tarefa complicada no Brasil. Na véspera das eleições de 2014, uma notícia da internet gerou um enorme burburinho no Espírito Santo. Um site que mimetizava um dos portais de notícias mais conhecidos do estado publicou o resultado de uma suposta pesquisa em que o então candidato à reeleição ao governo do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), aparecia com 52,3% dos votos enquanto seu concorrente, Paulo Hartung (MDB), corria atrás com 39,8%. Todas as outras pesquisas indicavam o contrário. A notícia falsa logo se alastrou pelas redes sociais. No dia seguinte, antes da votação, a equipe de Hartung desmentiu os boatos sobre a suposta virada e fez um comunicado de crime às autoridades. O caso virou uma investigação da Polícia Federal — uma das primeiras do país a envolver eleições e fake news. O inquérito, ao qual VEJA teve acesso, foi concluído apenas três anos depois, em junho do ano passado, com o indiciamento de um empresário apontado como o responsável pela notícia mentirosa e pela página que a difundiu. Ele foi indiciado por dois crimes eleitorais: divulgação de pesquisa fraudulenta e obstrução do exercício do voto. Se for condenado, poderá pegar até um ano e seis meses de prisão e receber multas que podem chegar a 100 000 reais.

O caso capixaba será utilizado como referência pela força-tarefa criada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para combater as fake news nas eleições presidenciais deste ano. Até março, o TSE pretende baixar uma norma que estabelece punições para quem fabricar fake news ou propagá-las com o intuito de influenciar os eleitores. As regras ainda não foram definidas, mas a equipe do tribunal quer mirar em robôs que disseminam notícias falsas sobre candidatos, na publicidade direcionada nas redes sociais para espalhar informações difamatórias e em perfis falsos usados para popularizar posts negativos. Recentemente, a PF fez um pedido de cooperação ao FBI para que especialistas venham ao Brasil nos próximos meses compartilhar a experiência das eleições americanas de 2016 — em que um esquema de propagação de informações falsas, supostamente fabricadas por agentes do serviço secreto da Rússia, atuou contra a candidata democrata Hillary Clinton.

Nos Estados Unidos, a tentativa de controlar o contágio da internet por conteúdo falso foi deixada a cargo da tecnologia. O Google criou um selo para indicar “notícias confiáveis” e mudou regras para evitar que sites propagadores de notícias mentirosas continuem lucrando com o AdSense. Já o Facebook desenvolveu algoritmos para reconhecer conteúdos compartilhados por robôs, aperfeiçoou o sistema para identificar e remover contas falsas e passou a exibir dicas contra fake news na linha do tempo de seus usuários. Nada disso, porém, é muito eficaz.

Na Europa, o presidente francês Emmanuel Macron anunciou que enviará ao Congresso um projeto de lei para conter as notícias falsas. Macron fala em dar aos juízes o poder de derrubar conteúdos falsos ou bloquear o acesso aos sites não confiáveis. Um órgão estatal ficaria encarregado de vigiar as transmissões para detectar tentativas desestabilizadoras controladas ou influenciadas por outros países. Mas quem tiver o poder de retirar conteúdos do ar o fará de forma isenta? Qual o risco de que essa prática esbarre na censura pura e simples? O governo francês, é óbvio, não sabe dizer. Além do risco, há o perigo de que reportagens e posts verdadeiros sejam confundidos com notícias falsas e deletados.

OS MAIORES ALVOS DA MENTIRA

VEJA Analisou 534 postagens com notícias falsas sobre a política brasileira no Facebook, publicadas em doze páginas conhecidas por disseminar fake news*. Abaixo, o ranking com os nomes mais citados, exemplos de frases ou inverdades atribuídas a eles e o viés das manchetes, desfavoráveis ou não aos personagens retratados (em número de citações)

*Foram consideradas as 4591 postagens campeãs de compartilhamento entre cerca de 12 000 publicações das páginas “Apoiamos a Operação Lava Jato – Juiz Sergio Moro”, “Bruno Gagliasso Amor e Fé”, “Click Política”, “Diário do Brasil”, “Operação Militar”, “Pensa Brasil”, “Pensa Brasil 2”, “Platão Brasil”, “Por um Brasil Melhor”, “Mexeu com o General Mourão, Mexeu com Toda Nação”, “Notícias Brasil On-line”, “Você Precisa Saber” (Arte/VEJA)

O caso da pesquisa eleitoral do Espírito Santo, por exemplo, envolvia uma notícia clara e propositalmente mentirosa. Mas a classificação de “falso” nem sempre é tão objetiva assim — e aí o problema se torna mais complexo. Embora haja muitos sites dedicados a fabricar mentiras, predomina nas redes sociais o compartilhamento de sites que exageram ou distorcem informações. “São sites engajados politicamente que trabalham para promover sua posição com imprecisão maliciosa, exagero ou especulação apresentada como fato, além, evidentemente, da mentira pura e simples”, diz Pablo Ortellado, professor do curso de gestão de políticas públicas e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, ambos da Universidade de São Paulo (USP). Ortellado acrescenta: “Nem sempre é simples determinar o que é erro de apuração e o que é uma mentira criada maliciosamente”.

Também virou moda chamar de fake news o que simplesmente incomoda. Na semana passada, depois que o jornal Folha de S.Paulo publicou reportagem mostrando que o patrimônio imobiliário da família Bolsonaro subira para 15 milhões de reais, o deputado Jair Bolsonaro reagiu dizendo que se tratava de “mais uma mentira da esquerda desesperada”. Pode até existir desespero de esquerda, mas a informação não era mentirosa: documentos oficiais obtidos pelo jornal revelam que Bolsonaro e seus três filhos, apesar da dedicação à política nos últimos vinte anos, conseguiram enriquecer. Afinal, até em Mônaco um patrimônio de 15 milhões de reais — o equivalente a 5 milhões de dólares — é coisa de rico. Só falta explicar por que a notícia verdadeira incomodou tanto o deputado. Se o patrimônio é lícito e o dinheiro também, a família merece aplausos por seu notável tino comercial. Bolsonaro seria o único exemplo conhecido no Brasil de um militar que, depois de trocar a farda pela política, conseguiu, honestamente, chegar aos 62 anos com alguns milhões de dólares no bolso.


O eleitor mordeu a isca – A falsa notícia de que Hillary Clinton participava de rede de pedofilia no porão da pizzaria Comet Ping Pong, em Washington, se tornou tão forte dias antes das eleições americanas, em 2016, que um homem armado com fuzil foi ao local “investigar pessoalmente” o caso. Não encontrou nada, disparou sem rumo, mas não deixou feridos — exceto Hillary, abatida nas urnas (Carolyn Kaster/AP)

Bolsonaro é único em outro aspecto. Talvez seja um raro exemplo de político que pode se beneficiar da avalanche de fake news. No levantamento de VEJA, ele aparece em sétimo lugar na lista dos mais citados em notícias falsas, mas fica em primeiro quando se computa o conteúdo positivo das mentiras. Cerca de 70% das notícias falsas a seu respeito servem para engrandecer sua biografia. Entre as notícias falsas que lhe jogam confete aparecem coisas assim: RedeTV! ultrapassou a Globo em audiência ao entrevistar o deputado. (O programa em questão registrou, na verdade, pouco mais de 1 ponto no Ibope.)

Emmanuel Macron
Busca da verdade – Macron quer que juízes possam derrubar sites enganadores: proposta ainda longe do consenso (Ludovic/Marin/Pool/Reuters)

“Há um ano, a maioria das pessoas nem sequer saberia o que é notícia falsa”, diz Maurício Moura, diretor da Ideia Big Data e coordenador da pesquisa feita para VEJA. “Só agora vemos a preocupação com a disseminação das fake news acontecer em todos os estratos da sociedade.” Os primeiros estudos sobre o impacto do fenômeno apenas começam a vir à tona. Nesse contexto, as perspectivas sobre o poder de fogo das notícias falsas e seu efeito real na política podem não ser tão sombrias como se supunha. Uma pesquisa das universidades de Dartmouth, Princeton e Exeter mostrou que o consumo de notícias mentirosas nos Estados Unidos, por exemplo, é um fato: durante a eleição presidencial, um em cada quatro americanos leu conteúdo falso. Isso, porém, não significa necessariamente que as inverdades foram relevantes para a tomada de decisão dos eleitores. Apesar do alcance das fake news, eles continuam se informando com muito mais frequência pelos veículos da imprensa profissional, diz o estudo. O que os pesquisadores verificaram, no fim, foi que as fake news circularam com mais força nas extremidades do espectro político, em que a decisão de voto já está tomada e a notícia falsa serve apenas como “viés de confirmação”.

Não existe bala de prata contra as fake news. Apenas o monitoramento de conteúdo e a punição dos propagadores das mentiras não serão suficientes para debelá-las. Para boa parte dos estudiosos do fenômeno, a solução passa, sobretudo, pela educação da população. “Não se pode proibir as pessoas de mentir e de compartilhar coisas falsas. E muitas vezes essas pessoas são nossos pais, tios e irmãos, que fazem isso inadvertidamente”, diz Francisco Rolfsen Belda, professor e pesquisador do programa de pós-graduação de mídia e tecnologia da Unesp. Com otimismo, é possível supor que daqui a um tempo disseminar notícia falsa pela internet será como atirar lixo na rua, uma prova de falta de civilidade e inteligência — e, a depender da qualidade da “notícia”, também de compaixão pelo próximo.


A psicologia por trás do consumo de notícias falsas


Em entrevista a VEJA, Shyam Sundar, diretor do laboratório de pesquisa em mídias sociais da Universidade do Estado da Pensilvânia, diz que as pessoas tendem a acreditar apenas nas declarações que confirmam aquilo que corresponde às suas crenças (//Divulgação)
Em entrevista a VEJA, Shyam Sundar, diretor do laboratório de pesquisa em mídias sociais da Universidade do Estado da Pensilvânia, diz que as pessoas tendem a acreditar apenas nas declarações que confirmam aquilo que corresponde às suas crenças
Por que as pessoas acreditam em fake news? Por causa de um fenômeno psicológico chamado “viés da confirmação”. Temos uma tendência inata a acreditar em informações que confirmam ou correspondem melhor às nossas crenças e concepções. Da mesma forma, temos uma propensão a descartar tudo o que contradiz nossa visão de mundo. Isso acontece porque buscamos satisfazer determinadas necessidades perceptivas em vez de avaliar objetivamente a veracidade das informações. Os consumidores de notícias não agem como jornalistas e cientistas. Eles não procuram deliberadamente pontos de vista alternativos. Eles são impulsionados pelo desejo de preservar seu ego, o que significa que eles tenderão a acreditar em coisas que se adaptam às suas convicções anteriores.
Por que as pessoas tendem a ser menos céticas diante de notícias on-line? Nossos filtros cognitivos se enfraquecem quando deparamos com notícias que surgem em nossas redes sociais. Isso ocorre porque elas são espaços íntimos que refletem a nossa identidade e nos quais estamos cercados por amigos e seguidores, que consideramos sempre bem-intencionados. Acabamos atraídos por um falso senso de credibilidade. Então, baixamos a guarda e nos deixamos persuadir por histórias compartilhadas por pessoas próximas sem parar para pensar que elas não são os indivíduos mais capacitados e treinados nem têm os recursos necessários para verificar as notícias antes de encaminhá-las. Antes, as fontes de informação vinham da academia e dos veículos de comunicação. Hoje, vêm de todos nós, os leigos.
Por que notícias falsas viralizam mais do que as reais? Elas geralmente vêm com títulos sensacionalistas que mexem com o emocional das pessoas e são projetadas como iscas de cliques. Também proliferam de maneira muito mais rápida do que as agências de checagem de fatos conseguem verificar, como uma espécie de vírus com alto poder de propagação. Por último, elas já nascem no ambiente das redes sociais, diferentemente das reportagens tradicionais, publicadas antes em veículos da mídia profissional.

Com reportagem de André Lopes, Claudio Goldberg Rabin, Guilherme Venaglia, Jennifer Ann Thomas, João Pedroso de Campos, Marina Rappa, Ricardo Helcias, Sofia Fernandes e Victória Serafim
Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2017, edição nº 2565
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/a-ameaca-das-fake-news/

A catástrofe é igualitária

 

 

 

 

 

(Alcir N. Da Silva/VEJA)

 Historiador Walter Scheidel analisa diferença de renda entre pobres e ricos através dos tempos e diz que ela só diminui em caso de ocorrências desastrosas

12 jan 2018
O combate à desigualdade é uma das poucas brigas capazes de unir países em diferentes estágios de desenvolvimento. No Brasil, políticas para reduzir o abismo entre pobres e ricos visam a tirar pessoas da pobreza. Na Europa, a intenção é sobretudo criar mais emprego (e, como consequência, minar a força dos movimentos extremistas). O historiador Walter Scheidel, da Universidade Stanford, acredita, contudo, que políticas públicas com esse fim podem dar mais conforto à população mas tendem a ser pouco eficazes na busca por diminuir diferenças de renda. Nas 528 páginas de seu livro The Great Leveler: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century (O Grande Nivelador: Violência e a História da Desigualdade da Idade da Pedra ao Século XXI), festejado como um dos melhores do ano passado, Scheidel refaz o caminho da riqueza desde os primórdios da humanidade e chega a uma constatação pouco animadora: o mundo só experimentou momentos de redução contundente da desigualdade em períodos de terror, grandes guerras, revoluções totalitárias, pragas e desastres naturais. “Por mais que o mundo tenha evoluído, os maiores vetores para a redução da desigualdade nunca foram o desenvolvimento econômico e as revoluções tecnológicas”, explicou Scheidel a VEJA. A seguir, sua entrevista, feita por telefone.

A desigualdade é um mal impossível de controlar? Desde que o homem decidiu fincar os pés em uma região, com o adven­to da agricultura, a desigualdade entrou no DNA da civilização. Nossos ancestrais começaram a desenvolver utensílios que eram herdados por seus descendentes, colocando algumas famílias em relação de vantagem sobre outras. Mais tarde, com a formação dos impérios, os grupos próximos do poder prosperavam à custa dos impostos da população, da corrupção e da coação. É claro que, de lá para cá, o aprimoramento do comércio quebrou essa dinâmica arcaica de ganhos. Mas, por mais que o mundo tenha evoluído, os vetores para a redução da desigualdade nunca foram desenvolvimento econômico e revoluções tecnológicas.

Quais foram esses vetores? Os grandes choques trazidos por guerras, revoluções e epidemias. Mas somente os ultraviolentos e socialmente invasivos, que levaram a sociedade a um nível de destruição que permitiu um “recomeço” do zero. Nos gráficos que retratam o movimento da desigualdade ao longo dos anos, só é possível ver quedas relevantes em períodos de catástrofe. No caso das duas grandes guerras mundiais, a redistribuição foi ainda acentuada pelo confisco, aumento de impostos, intervenção estatal e, consequentemente, pela redução do fluxo de capital entre os mais ricos. Em um processo traumático como esse, ricos têm sempre mais a perder. Na época da peste negra, no século XIV, tantas pessoas morreram que os trabalhadores se tornaram escassos, o que valorizou o emprego, mas, por outro lado, desvalorizou a terra, fazendo com que as classes mais abastadas perdessem capital. A história mostra que, ao final de processos como esses, muitos perecem. Mas, quando passa a crise, a distância entre pobres e ricos é menor. É uma constatação não muito inspiradora para os governantes interessados em reduzir o abismo social.
 
 "Houve uma grande quantidade de guerras civis na América Latina nos últimos séculos, e elas não tiveram 
quase nenhum impacto 
na desigualdade."

A violência urbana, quando cresce em grande velocidade, pode resultar em uma instabilidade social com efeitos equivalentes aos de uma catástrofe ou guerra? Não acredito. Há muitos países violentos no mundo. E, para que essa violência interfira na desigualdade, é preciso que ela afete profundamente o topo da pirâmide. Houve uma grande quantidade de guerras civis na América Latina nos últimos séculos, e elas não tiveram quase nenhum impacto na desigualdade. Para que a situação mude, é preciso que o caso seja extremo, como aconteceu na Síria, por exemplo.

Então uma nação que atinge grandes superávits, cresce economicamente e eleva sua renda per capita pode estar aumentando a desigualdade? O crescimento econômico gera riqueza, emprego e consumo, mas isso não quer dizer que reduza a desigualdade. Ocorre que essa geração de riqueza costuma ser muito maior, proporcionalmente, no topo da pirâmide. Então, ainda que a renda per capita aumente, não há nenhuma relação automática entre esse fator e a redução da desigualdade. É verdade que todos se beneficiam, mas quem já tem o capital ganha mais. Medir a desigualdade analisando a evolução da renda no topo da pirâmide é o legado de Thomas Piketty e seu grupo de pesquisadores, que produziram um material extremamente instrutivo sobre o assunto.

Políticas temporárias como o Bolsa Família e outros programas de assistência social são ineficazes no combate à desigualdade? Como se trata de um programa que age diretamente na renda, ele é positivo de início. O problema é a manutenção. O dinheiro precisa vir de algum lugar. E num momento de crise, como o que vive o Brasil, esse dinheiro pode não estar disponível. Então, embora seja uma política positiva, sua eficácia em longo prazo, a ponto de modificar uma tendência, ainda não se comprova.

Países com Estado de bem-estar social e baixo índice de desigualdade, como os escandinavos, não precisaram de grandes rupturas e guerras. Sim, mas há uma grande complexidade na evolução dos países escandinavos nesse aspecto. A Suécia, por mais que fosse um país neutro nas grandes guerras, estava próximo de grandes atores, como a Alemanha e a Rússia. Por isso, preparou-se para o pior, com grande racionamento e subida de impostos. Quando a poeira baixou, a sociedade aproveitou essa nova realidade para direcionar a arrecadação para políticas sociais. O curioso no caso dos países escandinavos não é a baixa desigualdade, mas o fato de eles terem conseguido manter essas políticas até hoje. Replicar o modelo escandinavo em outro lugar me parece mais improvável que a chegada de um fenômeno da natureza ou um choque de descontinuidade que reconfigure o estado das coisas, penalize a renda e leve um país a um nível mais baixo de desigualdade.

A sofisticação da tecnologia militar, associada ao avanço da medicina, não subtraiu esse caráter avassaladoramente catastrófico das guerras e pestes? A evolução da tecnologia transformou a guerra em algo muito diferente do que era um século atrás. Hoje teríamos uma guerra mais cara, high-tech e rápida, como já vemos acontecer. Não mobilizaria tantos países e teria alvos precisos. Com isso, o efeito na redução da desigualdade é próximo de zero. Além disso, o mundo se tornou um local mais pacífico. Por último, se compararmos o cenário atual com as ameaças de guerra das décadas passadas, veremos que o contexto mudou. No âmbito da esquerda, ninguém no mundo quer hoje uma revolução comunista que confisque as riquezas dos cidadãos. No âmbito da direita, no caso de um hipotético movimento autoritário, dificilmente haveria um caráter distributivo. Os nazistas, por exemplo, quando tomaram o poder, não tinham o menor interesse na ideia da igualdade por trás de sua retórica. Era justamente o contrário. O mesmo ocorreria na saúde pública. Numa eventualidade de pragas e epidemias, o avanço da medicina também dificilmente permitiria uma situação similar à que aconteceu durante a peste negra, no século XIV.

 "Mas, por outro lado, a tecnologia criou um abismo 
que separa os que estão conectados dos que não estão, e quem 
está conectado acaba se beneficiando 
de modo desproporcional."

A revolução tecnológica no mundo do emprego, eliminando carreiras e criando outras, em especial a economia compartilhada, como é o caso de Uber e Airbnb, pode funcionar como motor para reduzir a desigualdade? Dificilmente. Por um lado, a tecnologia permitiu mais transparência no mundo, o que acaba coibindo situações de manipulação de mercado que muitas vezes resultam em aumento despropositado de preços, e isso é positivo no sentido de evitar a subida da desigualdade. Mas, por outro lado, a tecnologia criou um abismo que separa os que estão conectados dos que não estão, e quem está conectado acaba se beneficiando de modo desproporcional. No caso da economia compartilhada, é verdade que permite um dinamismo positivo no mercado de trabalho. Mas é preciso lembrar que, tanto para dirigir um Uber quanto para ser anfitrião do Airbnb, é necessário ter um bem. Quem não tem está fora. Por isso, a tecnologia acaba aumentando a distância entre quem não tem nada e os que têm relativamente pouco.

Então não há saída? Políticas de transferência de renda que sejam sustentáveis e melhorem a vida das pessoas sempre serão desejáveis. A história, porém, mostra que não são suficientes para reduzir a distância entre pobres e ricos. Existe um consenso, contudo, de que a desigualdade não pode aumentar indefinidamente. É preciso haver um limite, um teto. Economistas costumam medir a desigualdade de modo objetivo, com base em números, em especial o coeficiente de Gini. Mas deve-se estudar também, ainda que de forma empírica, qual é o limite de desigualdade que uma sociedade pode suportar para que não se destrua. A economia global permite que recursos sejam buscados num país e investidos em outro, onde os rendimentos são maiores. Até que ponto essa globalização pode ser excludente e criar desigualdade? Essa é uma questão sobre a qual os governantes precisam se debruçar. No campo da genética, há outra variável. Conforme o avanço da ciência, pais poderão, no futuro, escolher características que transformem seus embriões em “super-humanos”. Há que discutir os aspectos éticos desse avanço, que pode aumentar ainda mais o abismo entre as nações.

Ainda que a desigualdade tenha aumentado no decorrer dos séculos, a vida da população pobre melhorou, como mostram as cifras de renda per capita. Por que, mesmo assim, é uma questão tão central hoje? Claro que é mais importante tirar as pessoas da miséria do que melhorar os índices de desigualdade. Mas a desigualdade preocupa, hoje, também porque é considerada uma ameaça ao avanço da democracia. No caso dos Estados Unidos, desde a crise financeira de 2008, em que milhões de famílias perderam muito, houve uma conscientização sobre como é difícil rastrear a riqueza dos mais ricos. Ficou patente ainda a percepção de que os ricos são menos penalizados. Isso trouxe repercussões políticas e psicológicas à sociedade, criando frustração nas camadas que mais sofreram os efeitos da crise. E esse sentimento pode resultar no surgimento de líderes populistas, o que é ruim para a democracia.

Há alguma razão para otimismo? Definitivamente. Outras desigualdades estão caindo, como a de gênero e a racial. A desigualdade entre países também cedeu, com nações em desenvolvimento crescendo mais. Essas terríveis forças niveladoras de renda, como grandes catástrofes, deixaram de existir, o que é bom, pois significa que não teremos algo equivalente à II Guerra no horizonte. E, se o preço que temos de pagar é tolerar até um certo limite de desigualdade, que assim seja. Só precisamos saber qual é o limite.
--------------------
Publicado em VEJA de 17 de janeiro de 2017, edição nº 2565
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/a-catastrofe-e-igualitaria/

Francisco, o Papa da discórdia


P. Gonçalo Portocarrero de Almada*
 Resultado de imagem para papa francisco

Graças a Deus, no nosso país não constam clérigos com relevância eclesial, ou presença significativa nos meios de comunicação social, que publicamente sejam críticos do Papa Francisco.

Se o pomo da discórdia é, segundo a etimologia e a mitologia, uma maçã, o papa da discórdia é, sem dúvida, Francisco. Andrew Brown, num extenso artigo do The Guardian e do Público, fez uma declaração bombástica: “O Papa Francisco é actualmente um dos homens mais odiados do mundo. E quem mais o odeia não são ateus, protestantes ou muçulmanos, mas alguns dos seus próprios seguidores”.

Desculpe-se ao jornalista o manifesto exagero da sua afirmação, mas reconheça-se o que é patente: o Papa Francisco tem sido muito criticado por alguns católicos. Todos os papas, de algum modo, o foram. Mesmo São João Paulo II, não obstante a santidade da sua vida, não só foi contestado por alguns teólogos – L. Boff, H. Kung, etc. – como também por bispos e até cardeais: Martini, arcebispo de Milão, assumia-se publicamente como o cardeal da mudança; e Casaroli, que foi cardeal secretário de Estado de João Paulo II, tinha pontos de vista muito diferentes dos de Wojtyla.

A novidade da oposição a Francisco está, talvez, na sua dimensão mediática, potenciada pelo facto do próprio Papa ter dado relevo e publicidade a essas críticas. Já em 2015, na tradicional mensagem de Boas Festas à cúria, o Papa Francisco acusou alguns dos seus colaboradores de “arrogância, de ‘Alzheimer espiritual’, de hipocrisia típica dos medíocres e progressivo vazio espiritual (…) bem como de vão materialismo e gosto pela bisbilhotice e maledicência”. Esta crítica, que fez as delícias dos anticlericais do mundo inteiro, “não é – como anota Andrew Brown – o tipo de coisa que se quer ouvir do chefe na festa de Natal da empresa”. Em 2017, o tom da pontifícia alocução natalícia não foi mais conciliador: “Permiti-me aqui uma palavra sobre outro perigo: o dos traidores da confiança ou os que se aproveitam da maternidade da Igreja, isto é, as pessoas que (…) se deixam corromper pela ambição ou a vanglória e, quando delicadamente são afastadas, se autodeclaram falsamente mártires do sistema”.

É lamentável que o Papa Francisco não seja respeitado e querido por aqueles que lhe são mais próximos, mesmo que se pense, como Andrew Brown, que uma mensagem de Natal talvez não seja a melhor ocasião para um ajuste de contas público, sobretudo quando essa aparente retaliação poderia erradamente parecer eivada de um amargo ressentimento. É verdade que o Santo Padre tem nas suas mãos os meios necessários para afastar quem entenda menos digno da sua confiança, como aliás já fez, segundo o mesmo jornalista, com alguns membros da cúria, como o Cardeal Raymond Burke, que destituiu da presidência do Tribunal Supremo da Assinatura Apostólica, relegando-o para um cargo, mais honorífico do que executivo, na Soberana Ordem Militar de Malta. Talvez o dramático apelo do Santo Padre se propusesse evitar outras destituições mas, se é esse o caso, seria porventura preferível que a dura advertência tivesse sido feita apenas aos visados, evitando-se que uma injusta suspeição de deslealdade recaísse sobre todos os cardeais, na sua esmagadora maioria venerandos prelados, com muitos anos de serviço à Igreja e fiéis ao Papa, que aliás elegeram por larga maioria.

Também em relação aos padres, o Papa Francisco nem sempre tem sido compreendido nas suas declarações que, dado o seu carácter marcadamente crítico, são logo reproduzidas com indisfarçável satisfação pela imprensa laica. Por vezes, acusa-os de serem meros funcionários da Igreja, burocratas que dificultam aos fiéis o encontro salvífico com a graça de Deus e que estão mais interessados na sua carreira eclesiástica do que no bem das almas, de que era suposto serem dedicados ministros. Mais uma vez, a crítica é certeira e oportuna mas, ao ser injustamente generalizada pela imprensa, favorece uma imagem negativa de todos os presbíteros, pagando os justos – que são, graças a Deus, a esmagadora maioria dos padres – pelos pecadores, que infelizmente também há. Ora estas abusivas generalizações debilitam a confiança dos católicos na Igreja e nos seus pastores, fragilizada já pelo escândalo da pedofilia. Também não facilitam que os não católicos procurem no padre a ajuda de que podem precisar para o seu aperfeiçoamento espiritual e para a salvação das suas almas.

Andrew Brown, no seu extenso artigo, diz que, “sempre que dois padres se encontram, falam de quão horrível Bergoglio é”! Felizmente, a afirmação não corresponde à realidade portuguesa, pois entre nós não constam clérigos com relevância, ou presença significativa nos meios de comunicação social, que publicamente se oponham ao Papa Francisco. Mesmo os que foram críticos dos papas anteriores, são agora, graças a Deus, muito favoráveis ao Papa Francisco, cujos propósitos reformistas não se cansam de louvar. Portanto, pelo menos em Portugal, a nação ‘fidelíssima’ pela sua histórica união à sede de Pedro, o Papa Francisco logrou uma significativa unanimidade.

Se se me permite uma confidência, aproveito para esclarecer o que é óbvio para os leitores das minhas crónicas ao longo deste pontificado: depois de superada uma inicial surpresa pelo estilo de Francisco, não tive dificuldade em transferir para o actual Papa a mesma efectiva e afectiva fidelidade que sempre professei, pública e privadamente, aos seus antecessores, reservando-me o direito de manter as minhas opiniões sobre o que é, também em questões de fé e de moral, discutível. Se adiro ao magistério pontifício, qualquer que seja o papa, não é por inércia, oportunismo carreirista ou respeitos humanos, mas por uma questão de coerência na fé e de amor à comunhão eclesial.

É certo, contudo, que alguns católicos, pouco numerosos mas muito combativos, contestam, sobretudo nas redes sociais, as supostas heresias do Papa Francisco, tema a desenvolver numa próxima ocasião. É verdade que a ‘Amoris laetitia’, que é susceptível de uma leitura coerente com o precedente magistério da Igreja, foi também interpretada por alguns eclesiásticos de forma contrária à doutrina católica. Mas convirá recordar que Cristo prometeu a infalibilidade da sua Igreja (cfr. Mt 16, 18) e rezou, eficazmente, por Pedro e pelos seus sucessores, para que, não obstante as suas deficiências pessoais, confirmem sempre os fiéis na verdadeira fé (cfr. Lc 22, 32).

Outros há ainda que, fora da Igreja católica e da razoabilidade da sua doutrina, levam o seu zelo até ao limite do paradoxo, como aquele disparatado devoto que dizia: “Eu faço a vontade de Deus, quer ele queira ou não!”
 --------------
* O Padre Gonçalo Nuno Ary Portocarrero de Almada nasceu em Haia, Holanda, a 1 de Maio de 1958. Licenciou-se em Direito na Universidade de Madrid (Complutense) e, posteriormente, doutorou-se em Filosofia pela Universidade Pontifícia da Santa Cruz, em Roma. Ordenado sacerdote em 1986, exerce desde então o respectivo ministério no âmbito da prelatura do Opus Dei. Além de escrever regularmente na imprensa periódica, é autor, entre outras obras, de Histórias e Morais (Alêtheia, 2011) e co-autor de Auto-de-Fé, a Igreja na inquisição da opinião pública
Imagem da Internet