terça-feira, 17 de outubro de 2017

Anne Bert. Último desabafo da escritora que viajou à Bélgica para morrer

A escritora francesa Anne Bert 
A escritora francesa Anne Bert AFP
A Francesa Anne Bert virou sucesso editorial com livro publicado dois dias após submeter-se a eutanásia

Na semana passada a escritora francesa Anne Bert cruzou a fronteira de seu país com a Bélgica, entrou pela porta de um hospital e deu o consentimento final ao médico que há meses supervisionava seu pedido de eutanásia. Era o fim de uma longa batalha: a tentativa fracassada da autora em convencer as autoridades francesas da necessidade de acabar com o sofrimento de doentes incuráveis legalizando a ajuda médica para morrer, proibida na França, mas permitida desde 2002 na vizinha Bélgica. Dois dias depois de sua morte em uma cama belga chegou às livrarias seu legado póstumo, Le Tout Dernier ÉtéO Último Verão, só disponível em francês. “Gosto de me levantar antes que amanheça, como se assim pudesse adiantar a chegada do dia. Nesta manhã acordei cedo. A noite foi curta. Há dois anos que a ELA rouba meus sonhos e corta em pedaços minhas noites vazias, já nunca tranquilas e profundas”, começa a narração.

Sua nova obra é um percurso emocional em que transita pelo angustiante momento em que o médico lhe informa que sofre de esclerose lateral amiotrófica, em 2015, e o leitor a acompanha pelo último verão, o de 2017, em que já tomou a decisão de encerrar sua vida com ajuda médica. No meio, a frustração diante da progressiva deterioração de seu corpo, momentos agradáveis com sua filha na praia com a eterna sombra da doença pairando a cada instante, e uma enorme impotência e incompreensão frente ao sistema de saúde francês, que só permite a sedação profunda até a morte, mas não aceita a eutanásia. “Adormecer um doente para deixá-lo morrer de fome e sede é realmente mais respeitoso à vida do que encerrá-la administrando um produto letal?”, disse em uma carta aberta aos candidatos presidenciais em um de seus últimos pedidos antes de se render à evidência de que morreria em terra estrangeira.

Como a maioria dos escritores, Anne Bert, de 59 anos, era pouco conhecida fora das fronteiras de seu país, e sua obra não foi traduzida. Romancista do “íntimo”, definição que preferia à habitual denominação de autora erótica com a qual era descrita, suas palavras não foram muito mais longe do que as prateleiras do estilo. Também não o fazem agora, mas com a notícia ainda quente de seu falecimento em um hospital belga, a centenas de quilômetros do lugar onde teria desejado morrer, seu livro entrou nas listas de mais vendidos da França com uma primeira edição de 40.000 exemplares e uma reimpressão de outros 30.000.

Bert não queria fugir para morrer. A ideia de estar em um local estranho em um momento de tanta vulnerabilidade emocional a horrorizava. Queria se despedir em seu país. “É escandaloso que na França precisemos ir ao estrangeiro para morrer com dignidade, como na época em que as mulheres precisavam fugir para abortar”, comparou. Batalhou contra essa obrigação de colocar quilômetros de distância para conseguir um médico que cumprisse sua vontade. Em seu último verão manteve uma longa e infrutífera conversa com a ministra francesa da Saúde, Agnès Buzyn, antes partidária da eutanásia, mas nos últimos tempos alinhada à posição do presidente Macron, que não considera a legalização da eutanásia uma prioridade.

A última publicação de seu blog, dez dias antes de seu adeus, foi dedicada a responder a um médico que a acusava de fazer turismo de eutanásia. “Confirmo que sim. Que diante de uma doença incurável e a morte que se aproxima, procurei – e encontrei – médicos profundamente humanistas que não me deixaram de lado”, respondeu.

O anestesista belga François Damas é um dos que entrariam no perfil descrito por Bert. Durante toda sua carreira ajudou 150 pacientes a morrer, entre eles oito franceses, um alemão e um italiano. O médico explica ao EL PAÍS que o número de doentes vindos de fora da Bélgica para morrer ainda é pequeno. “Podemos calcular que são 20 por ano, a maioria procedente da França”. Isso significa somente 1% das aproximadamente 2.000 eutanásias anuais praticadas na Bélgica. A dificuldade de se viajar a outro país para se obter a permissão de dois médicos à eutanásia é uma barreira, mas como explica Damas, uma vez que tenha ocorrido o primeiro contato pessoal, a comunicação pode ser feita por telefone, mensagens de celular e e-mail.

Nesse sábado, a família da escritora cumpriu sua vontade de espalhar suas cinzas no mar. Eles o fizeram no Oceano Atlântico, próximo ao município de Saintes onde ela vivia. Embarcada no processo de se despedir do mundo, consciente de sua partida próxima, em seu livro deixa o depoimento da complexidade das sensações que tomam quem se sabe mais fora do que dentro. Mais morto do que vivo. “Ao contrário das primeiras vezes, as últimas não me transmitem mais do que uma sensação doce e quente, quase triste. Eu gosto de abrir muito os olhos, respirar todo o ar que caiba em meus pulmões, concentrar-me no momento, absorver a beleza do mundo e das coisas. Sem dúvida minhas últimas vezes têm o aroma da incredulidade. Não tenho mais do que perguntas sem resposta”.
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Reportagem POR  Álvaro Sánchez Bruxelas 16 OUT 2017 
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/12/internacional/1507798467_568423.html

Um padre na Amazônia e o Sínodo: povos indígenas precisam ir a Roma

O padre Luis Miguel Modino (no destaque) e o Rio Negro

Luis Miguel Modino é um padre espanhol que deixou seu país para o desafio de ser missionário no Brasil no século 21. Hoje é pároco na diocese de São Gabriel da Cachoeira, uma das maiores do Brasil, com 293 mil quilômetros quadrados. É o coração da Amazônia, no Estado do Amazonas. Na diocese mais de 90% são indígenas; são 23 povos indígenas e 18 línguas, sendo  o município de São Gabriel da Cachoeira o único a ter quatro línguas reconhecidas como oficiais.

Ele é voz mais que autorizada a falar sobre o Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia, que reunirá em 2019 bispos de todo o mundo, com especialistas e assessores e, espera-se, representantes dos povos indígenas da região. “Não imagino um Sínodo sem a presença dos povos indígenas. O Papa Francisco nunca ia deixar isso acontecer. Ele tem cheiro de ovelha e suas ovelhas na Amazônia são os povos indígenas”, diz o padre Modino. Para ele, a surpreendente convocação do Sínodo “pode mudar decisivamente a presença da Igreja na Amazônia” a partir da escuta “do grito da floresta e seus povos” –leia a entrevista dele ao Caminho Para Casa, concedida inicialmente há pouco mais de uma semana e completada neste domingo depois da surpresa do Sínodo(15).

Para o sacerdote espanhol apaixonado pelo Brasil e a Amazônia, o Sínodo é uma “oportunidade” que a Igreja da região “não pode perder”. Alguns dos pontos da agenda do Sínodo, segundo ele, devem ser as “questões gritantes que hoje estão presentes na Igreja da Amazônia, como a celebração eucarística sem a presença de um ministro ordenado e uma maior e melhor presença nas comunidades indígenas”. Duas questões cruciais para o Sínodo, na visão de Modino: 1) “a Igreja da Amazônia deve escutar o povo, sobretudo os moradores originários, as populações tradicionais. Pôr em funcionamento a colegialidade que o Papa Francisco propõe”; 2) “Tem que ser um Sínodo que brote do chão amazônico e que mesmo celebrado em Roma não respire os ares contaminados da Cúria e sim os ares puros das florestas que os povos indígenas trouxeram até nós.”

Com 46 anos de idade, Modino está no país desde os 35, em 2006. É padre diocesano de Madri e missionário Fidei Donum, e coordenador para o Brasil da Obra de Cooperação Sacerdotal para Hispanoamérica (OCSHA), organismo da Conferência Episcopal Espanhola.  Durante nove anos esteve na diocese de Ruy Barbosa, no interior da Bahia, antes de instalar-se em São Gabriel da Cachoeira.

Uma prática de seu trabalho pastoral são as itinerâncias, visitas que ele realiza –de barco- às comunidades da diocese, à beira dos rios Negro e Xié, que duram em geral uma semana. As fotos que acompanham a entrevista são todas de Modino, durante as breves viagens. Ele é jornalista, correspondente no Brasil de Religión Digital, o mais relevante site católico progressista em língua espanhola do mundo, com mais de três milhões de visitas/mês.

É uma união interessante essa, a do sacerdócio com o jornalismo: “Como Igreja somos chamados a dar a conhecer aquilo que a gente do povo  vive. Uma vez escutei uma afirmação que me marcou: aquilo que não é conhecido não existe. Como comunicador, penso que minha missão é mostrar ao mundo a realidade dos povos e das pessoas com quem convivo e da natureza maravilhosa que nos cerca. Escrever e fotografar é um jeito de evangelizar, de ajudar as pessoas a refletir sobre situações muitas vezes desconhecidas.”

Leia a seguir a entrevista com Luis Miguel Modino:

 

Como você recebeu a notícia surpreendente da convocação do Sínodo sobre a Amazônia?
Recebi de fato como como uma grande surpresa e enorme alegria, pois  pode mudar decisivamente a presença da Igreja na Amazônia. Agora cabe à Igreja da Amazônia não deixar passar esta oportunidade que a história e o Papa Francisco estão nos oferecendo.

Quais devem ser, na sua visão, os temas do Sínodo?
Em primeiro lugar, é preciso um Sínodo que escute o grito da floresta e seus povos. Tem que ser um Sínodo que brote do chão amazônico, que mesmo celebrado em Roma não respire os ares contaminados da Cúria e sim os ares puros das florestas que os povos indígenas trouxeram até nós. Espero que sejam abordadas questões gritantes que hoje estão presentes na Igreja da Amazônia, como a celebração eucarística sem a presença de um ministro ordenado e uma maior e melhor presença nas comunidades indígenas.

 

Os povos indígenas devem estar presentes em Roma?
Não imagino um Sínodo sem a presença dos povos indígenas. O Papa Francisco nunca ia deixar isso acontecer. Ele tem cheiro de ovelha e suas ovelhas na Amazônia são os povos indígenas, em quem recentemente ele reconhecia no discurso aos bispos da Colômbia, uma “arcana sabedora”. Espero que a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e as dioceses da região cuidem de garantir essa presença.

E como será a preparação do Sínodo na Amazônia?
A Igreja da Amazônia deve escutar o povo, sobretudo os moradores originários, as populações tradicionais. Pôr em funcionamento a colegialidade que o Papa Francisco propõe.

 

Quando você chegou ao Brasil?
Cheguei ao Brasil pela primeira vez em 1999, acompanhando um grupo de jovens de uma paróquia de Madri, para visitar nossa paróquia irmã, Senhora Santana de Serrinha, Bahia, onde trabalhava como missionário um sacerdote de Madri. Após aquela experiência pedi ser enviado como missionário para o Brasil, o que finalmente aconteceu em 26 setembro de 2006, quando cheguei na diocese de Ruy Barbosa, no interior da Bahia, onde fiquei mais de nove anos.

Qual foi o impacto dessa mudança radical, da Espanha para o interior da Bahia?
Foi um tempo em que descobri outro jeito de ser Igreja, diferente daquele que vivi na Espanha. Conheci uma Igreja onde a teologia do Vaticano II se faz presente numa Igreja Povo de Deus, com protagonismo laical, uma Igreja inserida na realidade, nas questões cidadãs, que luta por vida em abundancia para todos, organizada em redes de comunidades, onde as decisões das Assembleias são assumidas também pelo bispo.

Nesses anos coloquei como prioridade do trabalho missionário a formação dos leigos, sempre visando uma maior autonomia que faça possível uma melhor caminhada das comunidades. Um bom animador de comunidade faz que ela se torne instrumento do Reino na vida do povo, pois são os leigos os grandes protagonistas do trabalho cotidiano das comunidades, onde o padre não consegue estar presente no dia-a-dia.

 

Como é essa diocese encravada no coração da Amazônia?
Moro em Cucuí, um distrito de São Gabriel, na beira do Rio Negro, bem na fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, acompanhando comunidades indígenas espalhadas pelos rios Negro e Xié. A maioria do povo pertence às etnias baré e werekena.

Navegar pelos rios ajuda a descobrir a grandiosidade da Amazônia e de uma floresta preservada excepcionalmente ao longo dos séculos. Tradicionalmente, os povos indígenas da região foram mestres em preservação ambiental, o que atualmente está em perigo. A ameaça das mineradoras está chegando. O atual prefeito de São Gabriel da Cachoeira foi eleito em base em promessas de que a chegada de mineradoras que iria trazer trabalho para o povo, o que se torna uma grave preocupação, pois nada pior poderia acontecer do que isso.

 

E a Igreja, diante dessa realidade?
Como Igreja somos desafiados a dar respostas mais firmes contra essas situações, a nos pronunciarmos e deixar claro que existem realidades que não podemos aceitar como cristãos. Muitas vezes a gente sente que existe certo medo na Igreja local a adotar uma postura firme, a falar alto e claro. A Igreja deve ser voz de um povo tradicionalmente oprimido e dominado por pequenos grupos de poder. Preocupar-se mais com o que acontece fora da sacristia.

O que são suas “itinerâncias”?
Um dos grandes desafios é nos fazermos presentes nas comunidades do interior. Visitando esse povo, uma das queixas é a pouca presença dos padres no meio deles. Se aparece pouco e quando a gente vai é com muita pressa, o que é totalmente contrário ao jeito de entender a vida desses povos indígenas. O povo se empenha em acolher e muitas vezes não valorizamos esse esforço, conformamo-nos com sacramentos celebrados às carreiras, enquanto o povo procura conversa, ser escutado, partilhar a vida.
Outro dos grandes desafios é a formação. Acabei de voltar de uma visita de doze dias nas comunidades do Rio Xié, onde a gente fez um encontro de formação de catequistas. Há cinco anos não acontecia um encontro desses.

 

Como é sua vivência na Igreja hoje?
É triste, mas é preciso constatar que o espírito capitalista tem invadido nossa Igreja. Parece que só interessam os números, e não as pessoas. Gastamos muito em estruturas e pouco naquilo que muda a vida das pessoas. No nosso caso aqui: parece que é muito mais grave deixar o povo da catedral um domingo sem missa do que deixar as comunidades do interior abandonadas durante dois anos.

E o Brasil?
Vivemos numa sociedade onde cada vez mais se privilegiam os que integram os grupos de poder. A desigualdade é cada vez maior e estamos voltando a situações que provocam angústia nos mais pobres, que aos poucos estão tendo que se preocupar em como dar um prato de comida para seus filhos no dia seguinte. Escuto o governo falar que a crise está sendo superada e me pergunto: eles pensam que ainda tem gente que acredita em suas mentiras?
Diante desta situação me questiona a passividade do povo, que não reage diante de tamanhas injustiças que sofre cada dia. Tem-se instaurado um sentimento de “não tem outro jeito” cada vez mais preocupante.

 

A Igreja brasileira tem tido uma posição mais firme nos últimos tempos…
Sim, tenho me surpreendido muito positivamente com a firmeza do episcopado brasileiro diante desta situação. Os pronunciamentos têm sido firmes e deixam claro de que lado a Igreja está, sobretudo a Presidência da CNBB, o que tem incomodado, e muito, ao governo. Posso dizer que a Igreja do Brasil tem voltado aos tempos pós-concilares, com bispos profetas, que despertam gratas recordações em muitos de nós. Mas ao mesmo tempo não podemos esquecer que no Brasil também há grupos de católicos totalmente contrários a esse espírito manifestado pelos bispos.

Uma coisa é que noto, desde que cheguei no Brasil, um renascimento, talvez com outras características, do jeito de ser Igreja que vive nas comunidades eclesiais de base. Acho que esse jeito, em que se une fé e vida, está tomando corpo de novo no Brasil, segmentos expressivos do episcopado vão reconhecendo que tantas críticas contra esse modo de viver o cristianismo eram injustas.

É esse o norte do Papa Francisco, não?
O Papa Francisco nos mostra o que significa viver desde a confiança em Deus e seu projeto, um Deus que se faz gente e caminha no meio do povo, que não tem medo de enfrentar os poderosos e ser voz dos pobres e oprimidos, com quem se identifica até no modo de viver. Isso incomoda dentro e fora da Igreja. Na Igreja  estão os verdadeiros inimigos de Francisco, gente que se aproveitou e aproveita da estrutura para ter vida boa enquanto ignora o sofrimento dos pobres.

 

Você é padre e jornalista. E revelou-se um fotógrafo dos bons. Como é esse jeito de unir sacerdócio e jornalismo?
Como Igreja somos chamados a dar a conhecer aquilo que a gente do povo  vive. Uma vez escutei uma afirmação que me marcou: aquilo que não é conhecido não existe. Como comunicador penso que minha missão é mostrar ao mundo a realidade dos povos, das pessoas com quem convivo e da natureza maravilhosa que nos cerca. Escrever e fotografar é um jeito de evangelizar, de ajudar as pessoas a refletir sobre situações muitas vezes desconhecidas.

 

Tiro fotos dos lugares por onde vou. Na Amazônia, acho que isso ajuda a mostrar como os povos indígenas têm preservado e cuidado da Casa Comum. É uma forma de assumir as propostas e o espírito da Laudato Si e de promover a conversão ecológica. Na era da imagem, essas fotos ajudam as pessoas a se encontrarem com o Deus Criador e a agradecer porque existem pessoas, os povos indígenas, que pensam no cuidado como atitude vital.

[Entrevista a Mauro Lopes]
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Publicado em

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A epidemia da inovação

Luiz Felipe Pondé


Ricardo Camadura /Folhapress
"A epidemia da inovação no plano psicológico corrói a capacidade, principalmente dos mais jovens, de lidar com o tédio, o fracasso e a as frustrações "normais" da vida, impondo-nos o imperativo do sucesso crescente, que nos assola das nossas camas, a vida profissional, a lida com filhos até o esgotamento de nossas capacidades intelectuais e afetivas."

O mundo corporativo é a distopia perfeita. De um lado, um modo inequívoco de produção de riqueza que elevou a condição material de vida dos seres humanos a um nível jamais imaginável, do outro lado, um sistema que esmaga o sujeito obrigando-o a competir cotidianamente, sem descansar nunca. Se a perfeição da vida material é uma utopia contínua no mundo contemporâneo, essa mesma perfeição produz níveis elevadíssimos de mal estar, provavelmente garantindo um futuro de mais riqueza regada a desespero a cada dia. Ninguém aguenta mais, mas ninguém pode parar.

Dentro desse quadro, chama atenção a obsessão pela ideia de "inovação". Ela aparece em todos os níveis da vida, do corporativo as pressões psicológicas sobre os mais velhos e mais jovens, num nível epidêmico.

A ideia, profundamente inscrita no "DNA" (como gosta de dizer o mundo corporativo quando "reflete sobre identidades") da modernidade, tem raízes filosóficas claras em obras como a do inglês Francis Bacon (1561-1626), entre outros. Seu projeto de "atar a natureza" a fim de conseguir as respostas necessárias para a melhoria das condições materiais de vida "na natureza" numa futura "Nova Atlântida", associado aos avanços do saneamento básico de Londres ao longo do século 19, são fundamentos básicos dos ganhos técnicos e de gestão de problemas na modernidade. Da natureza ao esgoto, o projeto é o mesmo.

Na vida pessoal, essa epidemia da inovação aparece no modo nefasto como as pessoas buscam "se reinventar" a todo momento. Ela obriga as pessoas a se vem como start ups contínuas num mercado infinito de demandas que vão da saúde física permanente, a beleza sustentável as custas de obsessões, a espiritualidade a serviço da commoditização da alma, enfim, a uma insatisfação existencial contínua como "motivação" para o imperativo da inovação.

É evidente que a proposta é patológica no nível humano, inclusive porque, apesar dos reais avanços tecnológicos na engenharia médica, marchamos para o envelhecimento e a morte, e isso tem impactos definitivos, mesmo que a indústria da inovação, regada a moda da Singularity University, a bola da vez, venda a ideia de que seremos imortais.

A epidemia da inovação no plano psicológico corrói a capacidade, principalmente dos mais jovens, de lidar com o tédio, o fracasso e a as frustrações "normais" da vida, impondo-nos o imperativo do sucesso crescente, que nos assola das nossas camas, a vida profissional, a lida com filhos até o esgotamento de nossas capacidades intelectuais e afetivas.

Um fato evidente nesse processo é o que muitos chamariam de "pressão do capital". Essa pressão nos obriga a pensar em nós mesmos como uma commodity buscando "investimento" no mercado de um mundo em "movimento", em direção a multiplicação do próprio capital que se expande a medida em que habita a inovação como condição sine qua non de adaptação a ele.

No mundo corporativo, que gasta dinheiro com palestras circenses, a fim de fazer seus "colaboradores riem", assim como uma sessão de meditação em meio ao massacre cotidiano, a epidemia da inovação é um mercado em si mesma.

Neste mundo, o futuro é uma commodity em si mesmo, vendido pelas consultorias de futuro. Citando casos conhecidos como a implantação de fake memories (diante destas, fake news é conversa de crianças), esse mercado da inovação vende a ideia de que num mundo próximo, a indústria de implantação no cérebro de memórias falsas, mas "felizes", eliminará a depressão e toda uma série de quadros clínicos indesejáveis.

Para além do absurdo da ideia, de um ponto de vista meramente médico, a própria noção de uma humanidade vivendo continuamente num parque temático "cognitivo" assusta não pelo suposto avanço médico em si, mas pelo modo como as consultorias do futuro vendem a ideia como o máximo da felicidade e da saúde. É a condição definitiva de idiotas cognitivos, sonâmbulos que caminham pela vida como um pós-humano em processo de extinção. Os neandertais, do alto de sua sabedoria de espécie já extinta, chorariam de pena de nós.
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 * Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/10/1927325-a-epidemia-da-inovacao.shtml

sábado, 14 de outubro de 2017

Os iconoclastas e um vaga-lume

Lya Luft*

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Na última semana, escrevi, quinta-feira (como interina do Verissimo, que está de férias), que andamos demasiadamente parecidos com aquele burro falante que meu pai gostava de mencionar: fala alto, muitas palavras, grande convicção, feliz da vida..., sobre assuntos de que pouco ou nada sabe. Ou "para se fazer de interessante!", dizia minha mãe, já que hoje dei pra citar os pais. 

Mais se entusiasma ainda essa criatura quando, achando-se original, segue uma parte da manada derrubando conceitos sem analisar, dando pontapés em filosofias sem entender, fazendo suas necessidades 1 e 2 em cima de coisas que nem consegue avaliar. Algumas manifestações de leigos ou artistas nesses dias me impressionaram, como alguém comendo (espero que de mentirinha) um absorvente de onde escorria sangue (espero que falso). A que levaria isso? Por que estamos tão agressivos, dispostos a decepar cabeças e cuspir nos outros? Por que assumimos essas brigas e cruzadas hiperbólicas? Inquietação, medo, indignação, decepção - confusão mesmo? 

Falando com um filósofo (de verdade...) outro dia, ele me lembrou de que estamos mais para iconoclastas do que para criadores de boas coisas. Tanto se desfez o conceito de arte, tanto se destruiu, tanto bancamos os moderninhos e seguimos - sem informação e humildade, essenciais - o que nos pareciam novidades luminosas, que aos poucos tudo foi-se esboroando. Cada um fala o que quer, apresenta o que bem entende, e ai de quem não considerar arte panela de fezes ferventes, pingolim cortado e outras belezas. 

Se estranhamos, vêm os que vociferam: então vocês defendem a censura? Então vamos quebrar o David de Michelangelo, cobrir teto e paredes da Capela Sistina... e outros delírios mais. Um momento, gente! Um pouco de bom senso e humildade faz bem! Ninguém pensa em censurar arte. Por outro lado, nem todo mundo quereria suas criancinhas induzidas a manipular uma pessoa nua (que não é uma escultura...). Em muitas casas, nudez é natural. Não em todas. Então a primeira lei seria respeitar as diferenças de costumes, assunto do dia - o que acho muito bom! Mas não precisamos exagerar. Logo, quem não é gay nem trans nem bi ou poli será objeto de preconceito e terá de sair às ruas para se defender. Que cansaço. 

Melhor prestar atenção no que acontece aqui neste pobre país, onde até no Supremo reina confusão, onde está quase decretado que raposas serão julgadas por raposas, e as galinhas vão se ferrar de maneira fenomenal. Onde a miséria reina, gente morre de falta de higiene, mulheres dão à luz no chão, velhos morrem em macas, crianças estão sem escola, e corremos nas ruas como ratazanas caçadas. 

Mas fiquei feliz na última semana com a conversa, na Federasul, no Tá na Mesa: carinho, respeito, cumplicidade, ótimas perguntas, e a sensação de que, sem romantismo algum - como é meu caso em relação ao país -, sempre há uma luz logo ali. Pode ser só um vaga-lume... mas é luz.
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* Escritora.
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=58dcf38e3941ea8a0e4bd27dca3326a4 - 13/10/2017
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O QUE SE PASSA NA CABEÇA DESSES JOVENS

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"A minha geração se ferrou", diz Dado Schneider a uma plateia predominantemente jovem, em uma das tantas campus parties de que já participou. "Quando eu era criança, no século 20, o melhor bife na mesa ficava com os adultos. E agora que sou adulto, no século 21, e tenho filhos pequenos, o melhor bife fica com as crianças. Ou seja, eu nunca comi o melhor bife. O mundo mudou bem na minha vez. Quando eu era jovem, tive de me adaptar aos velhos. Agora, para ser um velho aceitável, eu tenho de me adaptar aos jovens."

Nesses jovens aos quais tenta se adaptar, Schneider, 56 anos, mestre e doutor em comunicação pela PUCRS, enxerga seres humanos de um novo tipo. Eles são a geração Z, a primeira a nascer em um mundo já dominado pela internet, na virada dos anos 2000, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta.

Para adaptar-se a eles, é preciso entendê-los, e esse tem sido o foco das pesquisas do professor e palestrante nos últimos anos.

COMO DEFINIR OS JOVENS QUE NASCERAM NO ANO 2000?
Eles são da geração Z. O conceito é um pouco flexível, mas se diz que a Z começou com a chegada da internet para valer. Eles são diferentes. Por exemplo, nós lembramos de quando o computador entrou na nossa vida, da primeira compra que fizemos na internet, da primeira vez que acessamos o Google. Eles, não. São nativos digitais, e nós somos imigrantes digitais. Nós fazemos um distinção entre mundo online e mundo offline. Eles não fazem diferenciação alguma. Para eles, mundo é mundo. Realmente batem numa frequência diferente.

O QUE ISSO SIGNIFICA EM TERMOS COMPORTAMENTAIS?
Em vez do contato físico, eles preferem o contato digital. Inúmeras pesquisas comprovam. Inclusive com a pessoa que está na frente deles, eles falam pela interface digital. Obviamente, essa característica vai mudar a forma de trabalhar, de comprar, de se relacionar.

ESSA RELAÇÃO COM A TECNOLOGIA ACABA SENDO CENTRAL NA VIDA DELES?
Acho que sim. Quem não está entendendo nada somos nós. Eles estão vivendo o tempo deles, com os equipamentos que estão disponíveis a eles. Quem faz um esforço para se ajustar, uns mais, outros menos, somos nós. É por isso que digo que somos imigrantes digitais, porque vida de imigrante não é fácil. Eles estão vivendo a vida normal. Ali é a praça onde todo mundo se reunia para bater papo.

DE QUE FORMA ISSO REPERCUTIRÁ NO FUTURO?
Muita gente está fazendo previsões. Eu estou mais curioso do que fazendo previsão. Por exemplo, acho que isso efetivamente afeta a capacidade de focar em um assunto só. O grau de dispersão é muito maior. Eles vão ter maiores dificuldades de trabalhar, porque nosso trabalho está estruturado ainda do jeito do século 20. Abandonei o e-mail em 31 de dezembro de 2012, quando detectei que essa geração não usa e-mail, porque é uma conversação estanque, você envia e não sabe quando a outra pessoa vai abrir. Eles usam plataformas de conversação permanente, Messenger, grupos de WhatsApp, Snapchat, Twitter. É em tempo real. Vai ser difícil trabalhar com a gente. Já vi isso. O rapaz chegou numa empresa em que dei consultoria e ficou um turno no estágio, não ficou nem um dia. Foi embora na hora do almoço e não voltou mais, porque tudo que deram para ele fazer tinha de usar o e-mail. E ele disse: "Mas eu não uso e-mail". E foi embora.

O QUE ELES ESPERAM EXATAMENTE DO TRABALHO?
Querem trabalhos que sejam estimulantes, divertidos, em que o convívio não seja necessariamente físico. E que tenham uma causa. Essa, para mim, é a grande boa notícia dessa geração. Eles estão mais preocupados em salvar as pessoas da fome, em consertar o esgoto da cidade, em fazer uma aplicativo para que as pessoas leiam em todos os idiomas. Sou da geração hippie, que queria mudar o mundo, só que chegou uma hora em que nos atrapalhamos. Eles não querem mudar o mundo. Querem melhorar o mundo.

É REALÍSTICO IMAGINAR QUE TODOS CONSEGUIRÃO ESSE TIPO DE TRABALHO?
Não. Vai ter ter aquela menina lá que resolveu o problema tal. Mas o nosso mundo não está estruturado para isso. Muitos vão se frustrar. Duas previsões: se a rotatividade no emprego hoje já está alta, pode botar aí umas duas ou três vezes mais com eles. A outra é: se eles não conseguirem mudar o Brasil, eles se mudam do Brasil.

COMO ESSES JOVENS LIDAM COM A HIERARQUIA?
Respeitam a autoridade quando ela é conquistada, não quando é imposta. Mas não se rebelam. A minha geração engoliu a autoridade, foi educada assim. A geração seguinte se rebelou contra a autoridade. Acho que essa nova geração vai fazer memes e chacotas e simplesmente dar as costas, ir embora. Nós respeitávamos a autoridade por temor. Eles vão seguir autoridades que se façam respeitar por amor e humor.

A EDUCAÇÃO É IMPORTANTE?
Está começando a diminuir a importância do diploma. O que mais ouço os RHs falarem é sobre competências e habilidades. Aumentou a quantidade de pessoas fazendo curso superior. Mas eles vão ter habilidades em que serão autodidatas, está tudo na internet, há cursos de todas as especialidades possíveis, reconhecidos ou não pelo MEC (Ministério da Educação), isso não interessa para eles, eles nem sabem o que é o MEC. Se tiver um curso universitário, beleza, mas acho que eles dificilmente vão completar os cursos com a duração que têm hoje. São capazes de começar três, quatros cursos e não completar nenhum. Porque um ciclo de quatro anos é uma coisa impensável para eles, é como 30 anos para mim.

HÁ UMA PROPENSÃO MAIOR AO EMPREENDEDORISMO?
Com certeza. De dois tipos: o verdadeiro, gente com brilho no olho que cava financiadores ou levanta o negócio ralando mesmo; ou o empreendedorismo de paitrocínio, que é aumentar o tempo durante o qual ele vai ser sustentado.

ESSAS QUESTÕES PERPASSAM TODAS AS CLASSES SOCIAIS?
Sim. Quando entrevisto gente de favela, vejo que as mães, porque muitos não têm pai, estão focando em educação. Elas estão criando os futuro chefes, porque esses jovens vêm com uma gana de vencer na vida e com a educação sendo posta em primeiro lugar dentro de casa. Vejo muita gente das classes mais elevadas sem garra. Vão ter o acesso a educação, vão fazer cursos fora, mas provavelmente terão como chefes esses digitalizados das classes mais baixas, com garra para subir na vida.

COMO É A RELAÇÃO DESSES JOVENS COM A POLÍTICA?
Pouca, quase nula. São totalmente descrentes. Se por um lado sou otimista por achar que os bons vão se rebelar, por outro lado acho que haverá um grupo tão alienado que não quer nem saber de política, que será facilmente manipulável. Vejo duas tendências: gente que vai mudar a cara do Brasil por não aceitar essa política podre e uma massa que vai fazer "kkkk" e memes e votar em aberrações.

É POSSÍVEL POSICIONÁ-LOS MAIS À DIREITA OU MAIS À ESQUERDA?
Tirando o grupo que está sendo verdadeiramente forjado, o que em geral é mais estruturado na esquerda, eu não vejo eles de lado nenhum. Acho inclusive que, por rejeitar tantos as coisas antigas do século 20, eles também vão rejeitar os rótulos de direita ou esquerda.

É UMA GERAÇÃO MAIS ABERTA EM SEXUALIDADE E GÊNERO?
Cem por cento. Até estranham nossos preconceitos. Se apaixonam pela pessoa. Não são definidos e não são definitivos.

HÁ PERFIS BASTANTE DIFERENTES DENTRO DESSA MESMA GERAÇÃO, NÃO?
Sim, eles têm mais nichos do que as gerações anteriores. Tem muita diversidade. E tem uma coisa muito forte. Essa é a primeira geração que não tem nos pais o modelo de trabalho a ser seguido. Muitos me dizem: "Eu não sei o que quero ser na vida, mas de uma coisa tenho certeza, não quero ser nem o que o meu pai faz, nem o que a minha mãe faz, porque eles estão muito estressados e não têm prazer onde trabalham".

QUE CARACTERÍSTICAS PREOCUPAM MAIS NESSES JOVENS DO ANO 2000?
Um aspecto preocupante é se sustentarem. Porque se você só vai fazer o que gosta, a capacidade de aguentar pressão diminui, a capacidade de ser resiliente é quase inexistente, a capacidade de persistir é zero. Então quando é que começa o período em que você vai se sustentar? Se a geração Y está ficando na casa dos pais até 30 e poucos anos, eles vão passar dos 40.

CONVERSANDO COM ELES, ÀS VEZES HÁ A IMPRESSÃO DE QUE O MUNDO PARA ELES COMEÇOU DEPOIS DO ANO 2000. TÊM POUCAS REFERÊNCIAS SOBRE O QUE VEIO ANTES. ISSO ASSUSTA?
Eles não sabem de Beatles. Roberto Carlos é aquele velho de que a avó gosta. Não sabem quem foi o Tancredo. Eu brincava em aula: "Não precisa fazer a prova quem me disser o que veio primeiro, Napoleão Bonaparte ou a Revolução Francesa". Ele não sabiam o que eram essas coisas, o que dizer a cronologia.

POR QUE SÃO ASSIM, TENDO TANTA INFORMAÇÃO DISPONÍVEL?
Justamente porque está disponível. Então não precisam se aprofundar. Só gruda na cabeça deles o que dá para ver.
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Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=e056e52c8dcd019a63e6a3f169892cc9
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sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O burro falante

 Lya Luft*
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Talvez a gente esteja precisando olhar no espelho ou para dentro de nós mesmos

Quando alguém menos informado se punha a falar, a discorrer e, se possível, doutrinar para os pobres presentes, às vezes, meu pai – discretamente ou depois do ocorrido – comentava: “Uma das piores coisas numa reunião é o burro entusiástico falante. Aquele que não entende direito, mas se acha doutor no assunto”.
“Somos muitos”, bradava o diabo que tinha possuído um pobre sujeito, depois libertado por Cristo, segundo os Evangelhos. Pois atualmente parece que nos multiplicamos, nunca vi tanta gente entendendo de arte, ética, moralidade (não falo em moralismo, que detesto), política, economia e o resto que anda nos atormentando.
Existirá mesmo um conceito universalmente adotado ou adotável de arte? Ou dezenas deles por este mundo conforme a cultura, as crenças, as filosofias e o conhecimento  ou arrogância?
No fundo mais fundo, confesso que não me interessa muito, estou cada vez mais individualista. Me perdoem os politicamente corretos, mas sempre detestei o politicamente correto, que acho falso, hipócrita, pobre e dispensável. Prefiro a vida, a coisa vital, espontânea, viva, até para admitir que não sabemos muito, e que é melhor não opinar (ou zurrar).
As mais loucas opiniões sobre arte vêm sendo expressas, igualmente as mais confusas noções de censura, por exemplo. Se havia conceitos gerais sobre ela, foram sendo desfeitos nas últimas décadas, e também isso não vou comentar: cabe aos filósofos e teóricos do assunto. Não me atrevo a dar mais um pio sobre o assunto de certa exposição ou exposições que levantaram grande alarido pelo país inteiro (estou apenas rodeando a Coisa), até porque me considero dos que pouquíssimo sabem. Dos que aproveitam esta fase mais calma da vida para aprender mais e melhor, eu que nunca fui boa aluna, embora as escolas que frequentei hoje afirmem o contrário: mil assuntos a recuperar antes do último suspiro.
Estamos falando demais, escrevendo demais, berrando demais, acusando demais, nos achando, demasiadamente, o máximo. Outro dia, relendo uma biografia da atriz Katharine Hepburn, a quem muito admirei e admiro, encontrei a deliciosa passagem em que, no seu primeiro encontro com Spencer Tracy, grande ator que seria seu parceiro em muitos filmes e na vida, ela lhe disse: “Mr. Tracy, lamento, mas acho que sou um pouco alta para você”. E ele, curto e simples, respondeu: “Não se preocupe, Miss Hepburn, eu vou reduzi-la ao tamanho exato”.
Talvez a gente esteja precisando olhar no espelho, ou para dentro de nós mesmos, e ver se nosso tamanho não está inadequado para outra pessoa, outras pessoas, ou as realidades deste momento conflitado e confuso. Do qual, esperemos, há de surgir alguma luz, uma paisagem com menos burros zurrando alegremente seus discutíveis conceitos. A vida já está difícil sem isso.
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* Escritora
Fonte:  https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/lya-luft/noticia/2017/10/o-burro-falante-cj8nfidul021501mqk76xz715.html
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QUE ENSINA OU QUE EDUCA?

LEANDRO DE ARAÚJO*

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O papel educador da escola passa, essencialmente, pelo professor. Toda vez que ele pede ao estudante que espere sua vez, sente direito ou "tire o lápis da boca, seu relaxado", está indo além do seu papel de ensinar e tratando de devolver à sociedade uma pessoa melhor do que recebeu de nós, pais.

Esta característica formadora de caráter está cada vez mais nas mãos dos educadores, pois se foi o tempo em que o pai trabalhava e a mamãe ficava em casa tomando conta dos pimpolhos. Hoje os pais muitas vezes trabalham até em casa, durante o jantar. Os preciosos minutos com seus filhos acabam não sendo "desperdiçados" com algo tão desinteressante quanto torná-los pessoas melhores. Sobra para quem, então?

O professor assume o papel de pai, mãe e, por vezes, até de avós de seus alunos. Aconselha, acolhe e exige. Muitas vezes, passa mais tempo com nossos filhos do que nós mesmos, se considerarmos o tempo em que, mesmo estando em casa, não podemos atendê-los como merecem. Ele conhece nossas crianças reais, aquelas que elas exibem próximo de seus iguais e longe dos nossos olhos apaixonadamente cegos. O professor sabe que seus alunos são humanos e, consequentemente, sabem persuadir e dissimular. Nós preferimos não ver isto, porque o defeito do filho reflete diretamente no pai, que o imagina (e deseja) a sua imagem e semelhança. Ao mestre, corriqueiramente, cabe o fardo de ser defesa, acusação e juiz. E carrasco, se for o caso. Isto não o deixa feliz, mas faz parte de sua missão.

Aos professores, o agradecimento por serem um pai para meu filho, melhor do que eu tenho tido tempo para ser. Por ensiná-lo muito além do bê-á-bá e dos números. Por terem que encarar cerca de trinta desafios diários, quando eu me atrapalho com apenas um. Muito obrigado a todos os mestres que, mais do que ensinar, vão educar, pois, além de todo o conhecimento que vão transmitir, ainda vão fazer de nossos filhos pessoas melhores.
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* Fotógrafo e educador da Rede Marista aquecimento@aquecimentocenico.com.br
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=9b2325e0e39703a0f619db7032e9d279
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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

“Foi duro dar a ordem para eliminar o Che”

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O agente da CIA que participou da captura de Guevara diz que os EUA o queriam vivo para interrogá-lo

Ele lhe comunicou que o executariam: "Melhor assim", respondeu o guerrilheiro


O agente cubano da CIA que participou da captura de Ernesto Che Guevara na Bolívia, Félix Rodríguez, recebe a reportagem aos seus 76 anos em sua casa de Miami, nos EUA, rodeado de recordações de sua carreira de soldado da Guerra Fria. Pistolas, punhais, granadas e fotografias suas com presidentes dos Estados Unidos e espiões que já não existem. A produtora espanhola Scenic Rights prepara um documentário sobre sua vida. Veterano do Vietnã e envolvido no combate à insurgência na América Central, Rodríguez afirma que a CIA queria o guerrilheiro vivo para interrogá-lo, mas o Governo da Bolívia ordenou a sua execução. “Tentei salvá-lo, sem sucesso”, diz, apesar de considerar Ernesto Guevara de la Serna “um assassino”. Ao lado, em uma mesinha, tem uma velha pistola Star de fabricação espanhola. “Cuidado se pegar, está carregada. Eu sempre tenho algo por perto, caso necessário”, diz o homem que aparece com ares de satisfação à direita de Che em sua última foto – esfarrapado, de pé – antes de ser executado por um sargento boliviano.
50 anos da morte de Che Guevara
Félix Rodríguez, no último sábado em sua casa em Miami.
–Essa é sua última imagem vivo.
–Sim –responde–. A última tirada antes de ele morrer.

Rodríguez, codinome El Gato em seus tempos de operações especiais, precisa entrar em detalhes para responder a esta pergunta. Retornar em sua memória à Bolívia no ano de 1967 e contar aquilo detalhadamente. “Me deixe contar a história”, diz.

Durante 20 minutos, pega o fio e o estende do momento em que o avisam da captura de Che Guevara até uma câmera retratar seu último olhar.

O monólogo –abreviado– diz assim:

“Nós recebemos a informação da captura do Che no domingo, oito de outubro, pela manhã. Um grupo de jovens soldadinhos que falavam quéchua, aymara e guarani foi treinado para ir na vanguarda do batalhão para recolher informações e inteligência em roupas civis, porque assim era mais fácil falar com os camponeses. E essas pessoas em roupas civis retornam às sete da noite, no sábado, e dão a informação ao capitão Gary Prado de que um camponês lhes mostrou uma área chamada La Quebrada del Yuro onde estavam escondidos os guerrilheiros; porque esse camponês tinha uma plantação bem perto dali e os viu.

Então, com essa informação o capitão Gary Prado cerca a Quebrada del Yuro às sete da noite. E no domingo, oito de outubro, começa a avançar de manhã e aí começa o tiroteio. Nessa operação o Che é ferido na perna esquerda, um tiro entre o joelho e o tornozelo, mas nada muito sério. Lá morre a maior parte dos guerrilheiros e morrem alguns soldados, e é onde cai preso Che Guevara, que estava sendo auxiliado para tentar escapar por Simeón Cuba Sarabia, codinome Willy, um guerrilheiro boliviano baixinho, moreninho, com uma barba enorme, acho que uma barba maior do que a dos próprios cubanos, e esse não tinha um arranhão. Che é preso com ele. E no momento em que vão prendê-lo, os soldadinhos me contam, Che diz: “Não atirem que sou o Che. Eu valho mais vivo do que morto para vocês”. E então o levam e o mandam à escolinha de La Higuera e o colocam – olhando a escolinha de frente – na sala da esquerda, e atrás dele, no mesmo quartinho, colocam os cadáveres dos cubanos.

Aí então eles me mandam a informação de manhã em código, que dizia: “Papai cansado”, o que significava que o líder da guerrilha estava preso e vivo. Mas não sabíamos se “Papai” era Che Guevara ou se era Inti Peredo, que era o líder da guerrilha do lado boliviano. De modo que voamos à área de operações e verificamos que “Papai cansado” era Che Guevara.

O estrangeiro. Não disseram o Che, disseram “o estrangeiro".

Essa noite tivemos uma recepção em um hotelzinho de Vallegrande, com velas porque não havia eletricidade, e eu peguei duas garrafas de scotch que havia comprado havia tempos para um evento como este, para comemorar. Isso era na noite de domingo, o dia em que ele foi preso.

No dia seguinte, nove de outubro, às sete da manhã decolamos em um pequeno helicóptero pilotado por Niño de Guzmán. Aterrissamos ao lado da escolinha onde Che estava preso e estavam nos esperando todos os oficiais do batalhão, entre eles o tenente coronel Selich que estava com toda sua documentação. Che usava uma bolsa de couro como as que as mulheres carregam, grande, de cor clara, e dentro tinha um livro grande que era um diário com os meses escritos em alemão, de 67, mas claro, escrito por ele em espanhol. Dentro tinha uma série de fotografias da família, medicamentos para a asma, livrinhos para mensagens em código numérico de uma só via, que são impossíveis de se decifrar. Tinha alguns caderninhos negros de espiral escritos à máquina de escrever e assinados por um tal Ariel, que eram as mensagens que ele recebia de Cuba. Mas ele não podia transmitir a Cuba porque Cuba lhe deu para isso um transmissor quebrado, porque ele foi enviado para lá para ser morto. Porque Che era pró-China e Cuba dependida da URSS. Ou seja, os soviéticos não tinham nenhum interesse no sucesso de Che Guevara na Bolívia. Foi deixado só, para que o matassem ali, definitivamente.
Ernesto Che Guevara ver fotogalería
A última fotografia de Che Guevara na Bolívia antes de sua execução. Ao lado direito dele,
 o agente cubano da CIA Félix Rodríguez.
Então entramos na escolinha e em uma sala estava o Che jogado no chão, com as mãos e os pés amarrados embaixo de uma janela que havia ao lado da porta, e atrás os dois cadáveres. O único que falou foi o coronel Centeno Anaya. Fazia perguntas, mas o Che olhava para ele e não respondia nada. Nem falou com ele. A tal ponto que o coronel disse: “Escuta, você é um estrangeiro, invadiu meu país. Pelo menos poderia ter a cortesia de responder”. Nada.

Aí pergunto ao coronel se pode me fornecer a documentação do Che para fotografá-la para meu Governo e ele dá ordem ao tenente-coronel Selich que entregue tudo para mim. Ele me entrega aquela carteira de couro e vou trabalhar com a documentação em outro lugar. Ia fotografando o diário e voltava para falar com o Che. Entrava e saía constantemente, de manhã até a uma da tarde. Quando estava fazendo isso toca o telefone e um dos soldados me diz: “Meu capitão, uma ligação”. Vou até o telefone e me dão “ordens superiores: 500–600”. 

Era um código muito simples que tínhamos estipulado.

500 era o Che Guevara.
600, morto.
700, mantê-lo vivo.
Peço que repitam. Voltam a confirmar.
“Ordens do Alto Comando: 500–600”.

Quando Centeno Anaya chega, eu o chamo de lado e digo: “Coronel, chegaram instruções do seu Governo para eliminar o prisioneiro. As do meu Governo são de tentar salvar a vida dele e temos helicópteros e aviões para levá-lo ao Panamá para um interrogatório”. Ele responde: “Olha, Félix, as ordens são do Presidente e do Comandante das Forças Armadas”. Olhou para o relógio e disse: “Você tem até as duas da tarde para interrogá-lo. E às duas horas você pode executá-lo da maneira que quiser porque sabemos o dano que fez para seu país. Mas eu quero que você, às duas da tarde, me traga o cadáver do Che Guevara”. Eu respondi: “Coronel, tentei que o senhor mudasse de ideia, mas se não chegar uma contraordem dou minha palavra de homem que vou entregar o cadáver do Che”.

Mais tarde, ao falar com o Che, vem o piloto Niño de Guzmán com uma câmera Pentax do chefe de Inteligência. “Meu capitão, o major Saucedo quer uma foto com o prisioneiro”. Olho para o Che e digo: “Comandante, você se importa?”. Ele disse: “Não me importo”. Então caminhamos. Ele andava com dificuldade pela bala na perna esquerda. Saímos da escolinha e foi aí que paramos para fazer aquela foto. Eu dou minha própria câmera ao piloto e digo ao Che: “Comandante, olhe o passarinho”. Ele começou a rir, porque é o que falamos em Cuba para as crianças.

“Criança, olhe o passarinho”.

“Se puder, diga para a minha mulher se casar de novo e tentar ser feliz”. Essas foram suas últimas palavras

Na verdade, acho que ele estava rindo no momento em que a foto foi batida. Mas, obviamente, mudou para esta expressão que você vê agora. Eu usava o uniforme das tropas especiais dos EUA, mas sem nenhuma insígnia. Eu tinha aí 26 anos. Ele, 39. Parecia um mendigo. As roupas estavam surradas, sujas. Não tinha botas, eram uns pedaços de couro amarrados nos pés. O cabelo ensebado. Realmente, às vezes eu estava falando com ele e não prestava atenção ao que estava dizendo, porque nunca o tinha visto pessoalmente, mas me lembrava das imagens do Che quando visitou Moscou, quando estava com os russos ou quando visitou Mao Tsé-Tung em Pequim. Aquele homem arrogante, com aqueles casacos bonitos. E ver este homem agora como um cara que estava pedindo esmola. Dava pena.

- Qual foi para você o maior defeito e a maior virtude do Che?
- Virtude acho que não tinha nenhuma. O que posso dizer é que o homem era dedicado aos seus ideais, que obviamente estavam errados e foram um desastre total. E que nos próprios treinamentos, me disse gente que treinou com ele, era muito persistente. Estava cansado, morto e tentava continuar. Não desistia. Mas, por outro lado, foi um assassino que gostava de matar pessoas e estava cheio de ódio pelo inimigo. Uma pessoa que mandou fuzilar milhares de cubanos.

- A captura dele foi a maior conquista de sua carreira?
- Uma das principais, embora seja a que ficou mais famosa.

- Existe alguma operação que não gosta de se lembrar?
- Possivelmente o episódio mais duro foi precisamente quando tive que comunicar a ordem, de parte do Governo boliviano, para que eliminassem o Che. Embora também tenha pensado no desastre causado em minha pátria no momento em que deixaram Fidel Castro em liberdade.

- Comunicou a ordem na frente de Guevara?
- Não, eu recebo a comunicação e depois entro na sala, paro na frente dele e digo: “Comandante, sinto muito, é uma ordem superior”. E ele entendeu perfeitamente o que eu estava dizendo.

- O que ele disse?
- “É melhor assim. Eu nunca deveria ter caído prisioneiro vivo”. Então tirou o cachimbo e disse: “Quero dar este cachimbo a um soldado boliviano que se portou bem comigo”. Guardei o cachimbo e perguntei: “Quer algo para sua família?”. E ele me respondeu, diria que de forma sarcástica: “Bem, se puder diga a Fidel que logo verá uma revolução triunfante na América”. Eu interpreto como se tivesse dito a Fidel: “Você me abandonou, mas isso vai triunfar de qualquer maneira”. Depois mudou de expressão e disse: “Se puder, diga para a minha mulher se casar de novo e tentar ser feliz”. Essas foram suas últimas palavras. Ele se aproximou de mim, apertamos as mãos, demos um abraço, ele deu uns passos para trás e ficou parado pensando que era eu que ia matá-lo.
- O que aconteceu com o cachimbo?
Félix Rodríguez, em sua casa de Miami.
Félix Rodríguez, em sua casa de Miami.
- Olha, foi uma das coisas que me arrependo. Tirei o tabaco e guardei. Inclusive na culatra de um dos revólveres que uso tenho parte do fumo da última vez que ele usou, enfiada em um vidrinho. Depois veio o sargento Mario Terán dizendo: “Meu capitão, quero o cachimbo! Eu o matei, eu mereço!”. E eu, que por dentro, não queria ter que cumprir um desejo dele, sabendo tudo que tinha feito com a minha pátria, peguei o cachimbo e dei ao sargento: “Tome, para que se lembre do seu feito” [diz com tom de rechaço]. Pegou o cachimbo, abaixou a cabeça e foi embora.

- O que mais chamou sua atenção quando viu o Che?
- Ver um homem tão destruído.

- O que sentiu ao falar com ele?
- Naquele momento, honestamente, não tinha percepção do que estava acontecendo, a magnitude que tinha aquela operação. Para mim, era mais uma operação. Para mim, o Che Guevara não era grande coisa, não era a figura que Cuba depois fabricou.

- Ficou surpreso com algo que ele disse?
- Toda vez que eu fazia perguntas de interesse tático para nós, ele respondia: “Você sabe que não posso responder isso”. Por outro lado, houve um momento em que começamos a falar sobre a economia cubana, e ele começou a culpar o embargo americano por tudo. Disse a ele: “Comandante, você foi presidente do Banco da Nação e nem era economista” Então, ele respondeu: “Você sabe como cheguei a presidente do Banco?”. E me conta: “Um dia entendi que Fidel estava pedindo um comunista dedicado e levantei minha mão. Mas estava pedindo um economista dedicado”.

- Presenciou a execução dele?
- Não. Não tinha nenhum interesse em ver aquilo. Fui para outro lugar e me sentei em um banquinho a uns cem metros para tomar notas. Ouvi uma rajada curta e anotei: uma e quinze da tarde. A hora exata em que foi executado.
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Reportagem por  Corresponsal en Miami Miami

Religião, ética, moral

Luiz Ruffato*
ensino religioso nas escolas 
Fiel segura uma vela em uma cerimônia religiosa pela paz. AFP

A religião deveria ser ensinada em casa, pelos pais, e praticada no seio das comunidades confessionais. Nas escolas públicas, deveria prevalecer a discussão de princípios éticos

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de autorizar o ensino religioso vinculado a uma crença específica em escolas públicas é mais um indício de que caminhamos velozmente para trás. O Brasil é um Estado laico e, portanto, deveria incentivar o diálogo entre as mais diferentes confissões, no intuito de formar cidadãos tolerantes com as opiniões divergentes. Optando pelo ensino doutrinário de uma religião exclusivista, afundamos ainda mais no pântano do sectarismo em que estamos estacionados.

O que a sociedade deveria exigir do Estado é a implantação de um sistema público de ensino de qualidade que privilegiasse a educação para a cidadania. E isso se obtém com discussões sobre ética, que encontra-se no domínio da filosofia, e não sobre moral, submetida a preceitos religiosos. Embora alicerce as religiões, a ética as suplanta, pois seus princípios são universais, ou seja, valem em qualquer tempo e em qualquer lugar – enquanto a moral muda conforme os hábitos e costumes e interesses característicos do tempo e do lugar.

Um exemplo: a inviolabilidade da vida humana, “não matar”, é um conceito ético, que independente da época e do país em que se vive e que está presente, acredito, na base de todas as religiões do mundo. No entanto, como as religiões defendem princípios morais e não éticos, em nome de Deus cristãos matam judeus, muçulmanos matam cristãos, budistas matam muçulmanos... Deveríamos lutar para que nas escolas públicas se ensinasse o princípio ético “não matar” em geral, ou seja, o respeito à vida de todos igualmente, e não sua derivação moral, de que a ideia de “não matar” não serve para aqueles que pensam ou agem diferente de nós.

Recente pesquisa do departamento de Psicologia da Universidade de Chicago (EUA) concluiu que crianças educadas em lares não religiosos são mais tolerantes e generosas que as criadas segundo princípios religiosos. Os investigadores recrutaram 1.170 crianças de diferentes crenças em seis países (Canadá, China Jordânia, Turquia, EUA e África do Sul) e demonstraram que há maior coesão entre os membros de grupos religiosos e maior nível de intolerância com quem está de fora. As pessoas que não têm religião tendem a ser mais solidárias, exatamente por não fazerem distinção entre as diversas crenças religiosas.

Nos últimos tempos, a sociedade brasileira, imersa em denúncias de corrupção e acuada pela incompetência generalizada da gestão do Poder Público, vem ancorando seu desencanto na falsa segurança do moralismo. Falsa segurança porque o moralismo – diferente da ética – funda-se em interesses momentâneos de alianças espúrias. Em geral, o moralismo é uma cortina que esconde a hipocrisia e o cinismo. O moralismo censura obras de arte, persegue confissões divergentes, reprime opiniões contrárias, e, pior, mata homens e mulheres.

Em nome de moralismo, quatro mulheres morrem por dia devido a complicações provocadas por abortos clandestinos – mulheres pobres, diga-se de passagem. Em nome do moralismo, todo dia uma pessoa LGBT é assassinada. Em nome do moralismo, as religiões afro-brasileiras (umbanda e candomblé) são cada vez mais hostilizadas, principalmente pela militância fundamentalista evangélica, a ponto de praticamente desaparecerem em alguns nichos tradicionais, como as comunidades do Rio de Janeiro. Em nome do moralismo, julgam-se e proíbem-se obras de arte...

A religião deveria ser ensinada em casa, pelos pais, e praticada no seio das comunidades confessionais. Nas escolas públicas, deveria prevalecer a discussão de princípios éticos, comuns a todas as pessoas, sejam elas ligadas ou não a crenças religiosas. Só assim poderíamos pleitear uma sociedade mais justa e tolerante. Infelizmente, parece que estamos optando por trilhar o caminho contrário, de repressão, do obscurantismo, da intransigência.
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* Luiz Ruffato é um escritor brasileiro. Seu romance Eles eram muitos cavalos, de 2001, ganhou o Troféu APCA oferecido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/09/opinion/1507561856_745482.html

"A violência é o pecado original da religião"

 http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/banco/abstrato/abstrato_verlmelho_fonte_pixabay.jpg
Os textos sagrados das grandes religiões há milhares de anos estão encharcados de sangue. É um clichê, mas é verdade. Contudo, a inspiração pela violência é frequentemente abandonada e, outras vezes, ao contrário, tragicamente explorada. A pergunta que se repete é: como e por que isso acontece. Vamos apresentá-la a José Casanova, espanhol de Zaragoza, mas residente em Washington (Georgetown University), um dos principais especialistas no mundo em sociologia da religião, traduzido em várias línguas (em italiano conhecemos a sua obra Oltre la secolarizzazione, Il Mulino, 2000).

A intoxicação originária não é incurável, diz ele, as fases violentas ocorrem em ciclos. Sites na web em todo lugar contabilizam com fanatismo a violência "dos outro": mãos cortadas e matança de infiéis invocados no Alcorão ou extermínios realizados ou propiciado pelo Deus da Bíblia ou mesmo as cabeças cortadas das escrituras hindus, o tridente de Shiva. Nenhuma religião é inocente.

"A violência está nas origens da sociedade, ou como diria Durkheim no sagrado social, mais que na religião em si. E isso sem dúvida alguma se reflete nas Escrituras, mas com o tempo as coisas mudam. Na Bíblia, por exemplo, é necessário distinguir entre textos anteriores ao exílio babilônico e os sucessivos. O Deus de Israel sacraliza a violência contra os outros povos, era um Deus monolátrico, não monoteísta, um Deus de Israel não de toda a humanidade. Depois do exílio na Babilônia, naquela que chamamos de era axial (Casanova usa a expressão de Jaspers para indicar a época entre o oitavo e o terceiro século a.C., ndr), os profetas não sacralizam mais a violência, ao contrário, o Deus da história usa o Império romano para punir o seu povo".

A entrevista é de Giancarlo Boselli, publicada por Repubblica, 10-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.


Eis a entrevista.

Isso vale para todas as religiões?
Todas as culturas tribais das origens sacralizam a violência do "nosso grupo" contra os outros. A novidade das religiões axiais é que a dessacralizam: chegam assim à crítica profética da violência e ao fim dos sacrifícios sangrentos.

A violência, no entanto, permanece para sempre inscrita nos textos sagrados.

Encontramos nas Escrituras uma mistura de textos da sacralização da violência e de outros que expõem a crítica da violência. Isto levanta a questão de como os textos foram e são interpretados e utilizados na história.

E nenhuma religião é exceção, embora cada confissão seja tentada a acusar as outras.

Nós poderíamos usar as palavras do Papa Francisco: ‘Diante das atrocidades cometidas em nome de Deus ou da religião, nenhuma religião é imune a formas de decepção pessoal e extremismo ideológico’, nenhuma, incluindo o Cristianismo e o Catolicismo. Eu venho de Espanha católica, onde a religião e a violência estão intimamente ligadas: as Cruzadas, a Inquisição, a expulsão dos judeus e dos muçulmanos, a Conquista e a evangelização forçada, as guerras civis.

Também os ateus militantes contabilizam a lista das violências a cargo das religiões. Os religiosos respondem lembrando a lista dos massacres do século XX e as páginas negras do ateísmo.

A religião não é a única fonte de violência. Entre o final do século XIX e início do século XX, vimos a sacralização da violência anarquista; com a Primeira Guerra Mundial o Estado moderno, que reivindica o monopólio da violência, a sacraliza no do nacionalismo; tem o genocídio armênio; tem a violência comunista dos anos 1930, o Gulag, Hitler e o Holocausto; da década de 1960 temos o IRA, o ETA, as Brigadas Vermelhas, os padres guerrilheiros na Colômbia, os católicos Montoneros na Argentina. O século XX foi o mais violento na história da humanidade e a maior parte da sua violência não era religiosa.

Mas hoje temos uma onda de terrorismo religioso, o terrorismo islâmico.

Mais uma vez, devemos nos perguntar quais os fatores que desencadeiam o fenômeno do terrorismo jihadista e por que esta religião se torna fonte de violência. Seu crescimento ocorre durante uma globalização para a qual determinados setores do Islã legitimam a violência contra o que eles consideram uma ordem mundial que usa de violência contra ele.

O próprio Catolicismo no passado considerava a modernidade um assalto aos seus princípios morais.

Claro, contudo sofreu ao longo do tempo uma grande transformação. Junto com os protestantes, os católicos criaram na Alemanha, a Democracia cristã. Diante dos sangrentos conflitos entre xiitas e sunitas dos nossos dias, acredito que se a transformação ocorreu para os cristãos, pode acontecer também com os muçulmanos, quando as vozes em favor da pacificação vierem a superar aquelas que sacralizam a violência.

O budismo é candidato ao papel de primeiro da classe, por que é mais pacífico? O imperador Ashoka no século III a.C. converteu-se do hinduísmo ao budismo e deixou gravados na rocha seus editais sobre a tolerância. Mas agora sobe ao palco o terror budista.

Os monges budistas são uma ordem armada como todas as outras que se associaram a um poder estatal e aconteceu a eles o que aconteceu com todos quando uma religião se torna sacralização do Estado. Mas há sempre a possibilidade de que as religiões axiais façam prevalecer o rosto pacífico e a parte de sua tradição que as leva a dizer Salam, Shalom ou Paz.

Mas o Islã com a Sharia não apresenta problemas maiores do que as outras religiões no caminho para a modernidade?

A Sharia não era um problema no nascimento das primeiras constituições no Irã ou no Paquistão, na virada do século entre 1800 e 1900. Tornou-se mais tarde. A própria tradição pode ser lida de outras maneiras. A violência jihadista não será diferente das outras do passado, daquela anarquista ou marxista.

A tentação iluminista é de imaginar na história um processo de redução da violência. Mas a realidade nos diz o contrário.

Não é possível fazer generalizações. A combinação de religião e estruturas de poder é a chave explicativa tanto no bem como no mal. Na Espanha, houve a época da convivência entre cristãos, judeus e muçulmanos, e o mesmo aconteceu em outros lugares, mas com o surgimento do Estado moderno, das monarquias católicas, afirmou-se o impulso para a limpeza étnico-religiosa. Sempre que o modelo westfaliano - cuius régio eius religio – foi afirmado, o fenômeno se repetiu. No fim dos impérios, daquele otomano e do britânico. Não há nisso uma única trajetória, mas ciclos. Mas também existem boas notícias e ciclos de paz. A América Latina em uma única geração passou do monopólio católico à perda de hegemonia da Igreja e a um pluralismo compartilhado com os protestantes. Sem violência.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/572559-a-violencia-e-o-pecado-original-da-religiao