segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Quanto mais raros os filhos, maior a precariedade psíquica deles

Luiz Felipe Pondé*
Ilustração da coluna de Luiz Felipe Pondé - Ilustrada de 19/2/2018
Se você anda pela cidade e presta atenção nas coisas, especialmente no movimento do mercado, e lê sobre isso, perceberá três fenômenos, aparentemente sem relação uns com os outros, mas que falam diretamente do futuro. Ao mesmo tempo que cresce o número de pet shops, cai o de maternidades, no mesmo passo que sobe o número de casas de repouso pra idosos. Qual a relação entre os três fenômenos?

O aumento de pet shops indica a opção de afeto que os mais jovens estão fazendo: melhor cachorros do que filhos, estes duram muito e custam muito mais caro. A falência das maternidades é fruto direto dessa racionalização por parte dos casais mais jovens: ter filhos é um mau negócio. Não ter filhos é índice de autonomia e emancipação, só mulher sem "opção" teria filhos. O terceiro, por sua vez, aponta para o envelhecimento da população, acompanhado pela solidão derivada da atomização das famílias. Os idosos viverão muito, mas abandonados em depósito para idosos.

O que fazer com esse efeito colateral da longevidade? O mercado, na sua "infinita sabedoria", percebe que a tendência é a gradual substituição dos vínculos afetivos por serviços que esses vínculos garantiam no passado. Serviços que visam preencher o vácuo das famílias serão um grande negócio no futuro.

É interessante perceber que ao lado da decisão de reduzir a quase zero a reprodução humana, o grau de atenção neurótica sobre os poucos rebentos que caminham sobre o mundo cresce. Coitados desses jovens que viverão na condição de espécie em extinção. Pais que querem ganhar o prêmio de mais divertidos, participativos e atenciosos beiram o ridículo nos espaços de lazer para esses seres em extinção, as crianças. Os pais, então, competindo com as mães, buscando o direito de serem reconhecidos como portadores de um "útero social", são patéticos.

A proporção entre você ser um pai neuras ou uma mãe neuras e ter "projetos" sobre a educação dos seus filhos é quase direta. Quanto mais você tiver "certeza" que a escola deve formar seu filho para ser uma pessoa melhor, pior será o grau de ansiedade dele ao virar adolescente. Filhos, hoje, quando existem, são projetos narcísicos dos pais, que, no fundo, prefeririam não tê-los.

De onde surgiu essa ideia idiota de que pais devem ser pais 24 horas por dia? Neuróticos que usam câmeras de vídeo pra vigiar a respiração dos rebentos a distância. Esse "excesso" de cuidado é sintoma do desejo de que os filhos não existissem.

Há uma relação direta entre melhorar de vida e recusar a maternidade. A vida sem filhos é mais segura, mais autônoma, mais barata. Quando você decide que para você é melhor não ter filhos, e isso atinge impacto estatístico, você não está consciente desse impacto. A relação entre riqueza e não ter filhos é direta.

Há aquelas pessoas que agem assim simplesmente porque acham que tem gente demais no mundo. Um argumento falsamente social, mas de teor radicalmente individualista. Arriscaria dizer que quanto mais você se vê como alguém que quer "salvar o mundo", maior a chance dessa intenção estar assentada na mais pura natureza narcísica. A revolução moral moderna (o egoísmo) condena a condição de pai e mãe a obstáculo contra competitividade. O mundo corporativo diz que não, mas mente.

À medida que os filhos se tornarem mais raros, a condição de precariedade psíquica deles se radicalizará. Como toda espécie em extinção, o blábláblá sobre a importância deles crescerá à sombra da sua inexistência real. Se já sabemos que os jovens hoje são mais ansiosos, inseguros e incapazes de viverem vínculos afetivos consistentes, é porque os efeitos colaterais da extinção já estão em curso. A ampliação "oficial" da adolescência até os 24 anos de idade, determinada no Reino Unido, indica a incapacidade do amadurecimento, agora já na forma da lei.

Assim como especialistas em macacos em extinção, especialistas em jovens serão profissionais que estudarão, ainda que negando, esse processo inexorável. O futuro pertence a idosos solitários cheios de aplicativos para divertimento em seus dias vazios.
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas. 
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/02/quanto-mais-raros-os-filhos-maior-a-precariedade-psiquica-deles.shtml

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Robin Lane Fox: “Ler Homero muda você para sempre”


O ensaísta Robin Lee Fox, nos jardins da New College da Universidade de Oxford.
O ensaísta Robin Lee Fox, nos jardins da New College da Universidade de Oxford.
 


Ensaísta e professor, ele divide sua vida entre os clássicos e a jardinagem; entre as aulas em Oxford e as plantas, sobre as quais escreve para a imprensa britânica. Acredita que muitas respostas às questões da atualidade estejam nos textos de séculos atrás.


Robin Lane Fox tem uma dupla vida profissional que transcorre em algum lugar entre Atenas e os jardins ingleses. Por um lado, é um dos grandes classicistas do Reino Unido, professor emérito da New College de Oxfod e autor de ensaios como The Classical World (O Mundo Clássico), que foi escolhido como um dos melhores livros do ano em 2007 pelos críticos de Babelia. Também escreveu uma célebre biografia de Alexandre, O Grande, que Oliver Stone utilizou como base para seu filme sobre o conquistador macedônio, para o qual ele trabalhou como assessor – e como figurante, já que integrou as tropas do famoso general. Eruditos, amenos e surpreendentes, seus livros serviram como introdução à Grécia para muitos leitores. E além disso Lane Fox, de 71 anos, é um jardineiro profissional. Há quase meio século, ele assina uma seção de jardinagem no caderno de fim de semana do Financial Times, além de supervisionar vários jardins em Oxford. Ele concedeu esta entrevista em Córdoba, onde compareceu como jurado da primeira edição do Festival Internacional das Flores, realizado em outubro. Estava encantado com o evento e com a temperatura da Andaluzia no final do outono boreal, mas também ansioso por retornar. Lane Fox é um homem cordial, com muito humor, mas não está brincando quando diz que não gosta de passar muito tempo longe de seus jardins. “Se precisasse ficar três noites fora de casa, sofreria do que chamo de ‘sonhos verdes’. Sonharia com meu jardim, mas logo teria pesadelos pensando que tudo foi queimado, e teria que voltar para casa.”

Qual era a relação dos gregos e romanos com os jardins? Por exemplo, na Domus Aurea (Casa Dourada), o palácio de Nero em Roma, as plantas eram um elemento essencial. Para os gregos, os jardins significavam sobretudo frutas e hortaliças. As flores eram um luxo só para os ricos, e não havia muita água. Quando a estrutura social mudou e chegaram os reis, os jardins ficaram na moda entre os gregos poderosos. No mundo romano, os líderes gostavam de exibir seus parques e jardins. Cultivavam algumas flores, mas não tantas quanto vemos num jardim inglês. Os imperadores romanos eram ditadores como Ceausescu e Saddam Hussein, ou os dois ao mesmo tempo, e adoravam construir parques onde mostravam sua grandiosidade. Um exemplo é o enorme parque de Adriano em sua vila de Tivoli. Mas eu respeito as pessoas que fazem as coisas crescerem. Não me impressionam tanto as que pagam para manter grandes jardins.

“Adoro a jardinagem, não a contemplação das plantas. Respeito as pessoas que fazem as coisas crescerem, não as que 
pagam para manter grandes jardins.”

A diferença é muito grande? Enorme. Às vezes é a mesma pessoa, mas nem sempre. O que adoro é a jardinagem, não a contemplação de jardins.

Em seus livros, o senhor explica que os primeiros jardins botânicos foram gregos, de um discípulo de Aristóteles. Teofrasto, que determinou que seria enterrado em seu jardim. Conhecemos algumas das plantas que ele cultivou, mas seu objetivo era mais científico do que estético.

E qual é seu jardim botânico favorito? Existem dois grandes no mundo: o de Munique e o de Edimburgo. Trabalhei em Munique em 1965, quando tinha 18 anos, e é o melhor jardim do mundo. Tem plantas excepcionais. Em Edimburgo, os escoceses realizam um trabalho excelente e têm acesso às plantas que vêm da China e do Extremo Oriente. Admiro o jardim botânico de Madri, perto do Museu do Prado. Comecei a admirá-lo nos anos noventa, quando foi renovado. É maravilhoso. No Reino Unido, gosto dos jardins privados. Os botânicos não têm nada a ver com a jardinagem, que é um ofício, uma arte relacionada com a exposição. Estão interessados na ciência, num esforço ridículo de salvar as plantas do mundo.

Por que diz que é ridículo? É algo que não se pode fazer. Atualmente, 30% das plantas do mundo só são conservadas em jardins botânicos. Por que as salvam? Os Kew Gardens [os jardins botânicos de Londres] mantêm um projeto para reunir todas as sementes do mundo, mas ninguém planta essas sementes. Lá estão, num refrigerador. O que vão fazer com elas? Sou bastante cético quanto a isso.
Exemplares de Cosmos Rubenza, presentes no jardim da New College que Lane Fox supervisiona.
Exemplares de Cosmos Rubenza, presentes no jardim da New College que Lane Fox supervisiona.
Como a mudança climática afeta seu trabalho como jardineiro? Enormemente. Na Inglaterra, meu jardim dura muito mais tempo com flores. Mas sei que, na Itália, este ano foi uma catástrofe para jardins como o de Ninfa, ao sul de Roma, que depende das fontes naturais. Sofreu uma enorme crise após nove meses sem chuva. Nunca houve nada igual em seus oito séculos de história. E suponho que Espanha enfrentará o mesmo desastre. Na Inglaterra, é magnífico. Os invernos são cada vez mais brandos. Em fevereiro o jardim fica fantástico, e tudo floresce em março. Meu jardim está maravilhoso nesta época do ano, e por isso não estou plenamente feliz por estar em Córdoba porque não posso vê-lo.

Em quantos jardins o senhor trabalha? Neste momento, tenho três responsabilidades. [Uma delas é com] os jardins da New College de Oxford, os melhores da cidade. Temos muitíssimos visitantes, sobretudo por causa dos filmes. Uma das árvores foi usada na série Harry Potter, e todo ano 50.000 jovens japonesas nos visitam para tirar fotos debaixo dessa árvore. O jardim também foi utilizado em Mamma Mia 2: veremos como uma jovem Meryl Streep deixa a universidade nesse jardim e teremos outros 50.000 visitantes, porque as pessoas não diferenciam entre realidade e ficção. Também supervisiono um segundo jardim, Yarnton Manor, perto de Oxford, que é uma academia de verão. E, acima de tudo, trabalho em meu próprio jardim.

Sabe quantas plantas tem? Não, não conto, são muitíssimas. Há 60 anos sou jardineiro.
De que tipo de jardins mais gosta: dos barrocos ou dos simples? Gosto de cultivá-los. Não importa se é com sementes ou com plantas compradas num viveiro de mudas. O ruim é que os jovens já não podem comprar casas, pois são caras demais. Eu pude ter meu próprio jardim aos 30 anos, mas hoje seria impossível. Isso representa uma tremenda crise para a jardinagem inglesa.

Em Córdoba, existem alguns jardins muçulmanos. São reais ou recriações românticas? Sabemos como eram os jardins da Antiguidade? Em alguns casos, podemos recriá-los. Graças a fontes árabes, temos uma lista de plantas que foram trazidas da Síria e do Egito e cultivadas no sul da Espanha, mas não as veremos na Alhambra. Da Antiguidade conhecemos poucos jardins. O de Plínio é um deles – e poderíamos recriá-lo. Mas os nossos são muito mais interessantes do que os romanos e os gregos poderiam ser, graças à China. O oeste da China e o Tibete são o paraíso para as plantas e as flores silvestres. Na Inglaterra, temos hoje 90.000 plantas para escolher.
Robin Lane Fox: “Ler Homero muda você para sempre”
Recentemente, o senhor publicou um artigo relatando uma viagem à Romênia em busca de flores silvestres. Qual é a flor que nunca viu na natureza e que gostaria de ver? A Gentiana farara, mas isso significaria viajar à China. Também gostaria de ver de novo a Campanula covadonga nos Pirineus. Ela foi encontrada nos anos trinta por um grande pesquisador inglês, cujo filho me deu algumas sementes. Tem uma coloração roxo escura. Eu a tive há 50 anos, mas a perdi. Não consegui reproduzi-la.

Podemos contar a história do mundo através das plantas? Seria muito interessante, pois isso nunca foi feito adequadamente. Quero realizar um programa de TV sobre lugares da Grécia onde ainda crescem plantas famosas na literatura clássica. Na Ilíada, o poema mais importante do mundo, Hera quer seduzir Zeus, o rei dos deuses, no monte Ida. É irresistível, e Zeus faz amor com ela sobre um leito de flores. Casal de sorte. E se você for em março ao monte Ida, poderá encontrar as mesmas flores... Também há surpresas com a origem das plantas. Por exemplo, sempre se pensou que os pêssegos chegaram da China na Idade Média. No entanto, arqueólogos alemães encontraram em Samos [uma ilha grega] um caroço de pêssego muito antigo. Ainda me pergunto se eles o colocaram ali. A história antiga das plantas é muito disputada.

Quando a conversa se concentra na outra profissão de Lane Fox, o professor logo pergunta ao interlocutor se é capaz de ler grego clássico. Ante a resposta negativa, ele explica que “nunca é tarde demais” e realiza uma defesa da necessidade de aprender aquele idioma. “Temos muitos motivos para estudar o grego clássico, mas um se destaca. Se você leu os podemos de Homero em sua língua original, sua vida tem sentido. No final do dia, você pensará: ‘O que fiz hoje?’ Gravei uma entrevista em inglês, li alguns artigos. Mas se você lê Homero, isso te muda para sempre.”

Há um ano entrevistei o latinista Paul Veyne... Eu o conheço, um homem muito inteligente.
Exemplares de clemátide Bill Mackenzie do jardim da New College.
Exemplares de clemátide Bill Mackenzie do jardim da New College.
E ele me explicou sua teoria: restam tão poucas pessoas que falam latim e grego, que faria mais sentido utilizar o tempo que se dedica a essas línguas na universidade para a leitura dos autores clássicos. Em outras palavras, é mais importante ler Homero da forma que for do que ler alguns versos de Homero com dificuldade na língua original. Isso não faz sentido. Veyne é um historiador, muito importante, mas não é um homem de letras. Não me importa quem leia grego, de fato às vezes eu gostaria que alguns professores de grego não o soubessem por causa das coisas que escrevem, mas Homero está aí para todos. Por que deveríamos negar à maioria da humanidade o acesso ao que de mais importante ela produziu em sua história? Não posso concordar. As escolas deveriam ensinar Homero em grego clássico. A pergunta correta, na verdade, é por que temos que aprender francês no colégio.

A literatura clássica nos ilumina sobre os grandes períodos de crise, como o helenismo e a queda da República romana. Acredita que estamos vivendo um desses momentos de mudança total? Não. Basicamente, não está acontecendo nada. O Brexit é uma estupidez, mas não significa, nem de longe, uma crise comparável a uma conquista romana ou à ascensão de Alexandre. Não deveríamos achar que podemos aprender lições com o mundo clássico. Eles tinham escravos. Às vezes, me pergunto se não deveria escrever toda vez: “Péricles, o ateniense dono de escravos”. De fato, existe uma poderosa lição moral que tiramos do mundo clássico: não se pode tratar as outras pessoas dessa forma.

“As escolas deveriam ensinar Homero em grego clássico. A pergunta correta é por que temos que aprender
francês no colégio.”

Por que o senhor termina seu livro O Mundo Clássico com Adriano, imperador de 117 a 138 d.C., e não com o final do Império Romano do Ocidente, no século V? Porque acredito que ele tenha sido a primeira pessoa que olhou para trás e contemplou o mundo grego como se fosse clássico. É a primeira vez que um olhar clássico sobre o mundo se transforma em dominante e, com ele, muda o olhar sobre o passado. E além disso é espanhol...

Sabemos ao certo por que o mundo se converteu em cristão, por que os velhos deuses foram abandonados para a adoção de um novo? Sim, conhecemos muitas razões. Uma delas foi a conversão do imperador Constantino, que além disso destinou muito dinheiro à Igreja e aos cristãos. Isso incentivou muita gente a seguir esse caminho. A conversão do mundo clássico à cristandade foi um processo lento, que terminou somente no final do século V. Foi uma religião que uniu as crenças à ética, coisas que antes haviam estado separadas; e que prometeu uma vida após a morte...
Exemplares de sálvia Royal Bumble.
Exemplares de sálvia Royal Bumble.
Mas, em seu livro, o senhor diz que Jesus devia ter cerca de 30 seguidores quando morreu. Sim, sem dúvida isso é extraordinário. É uma das grandes histórias da humanidade. Não acredito na mensagem, mas respeito o que conseguiu.

Seu livro explica que Cícero construiu uma enorme casa em Roma, que podia ser contemplada de muitos lugares porque ele gostava de se expor em público. Não estaria ocorrendo, neste momento, algo parecido com as redes sociais? Nunca tinha pensado nisso, mas me parece muito interessante. Como Cícero publicaria suas mensagens no Twitter? Eu adoraria reconstruir os tuítes de Cícero.

E era Cícero um idiota, com um ego gigantesco, ou um dos homens mais inteligentes de todos os tempos – ou um pouco das duas coisas? Se você é de esquerda, não poderá suportá-lo, mas muitas vezes ele te impressiona. Não posso deixar de sentir simpatia por ele. De verdade. Pouquíssimos colegas meus simpatizam com ele, salvo os especialistas em sua obra. Os historiadores o consideram um horror, alguém que nunca se preocupa com o povo, um novo rico que erra em tudo… Mas o que posso dizer? As cartas são maravilhosas. Ele erra sempre: sempre pensa que todo mundo o está esperando para que volte e resolva as coisas, e isso nunca acontece. Sempre que pode errar, ele erra. Mas o mundo seria muito mais cinza sem Cícero. Quando tiver 80 anos e já não escrever livros, voltarei a ler todas as suas cartas. Sendo já velho, ele relata a visita feita por Otávio [o futuro imperador Augusto]. E temos a descrição daquele encontro entre o jovem mais letal do mundo e um homem de Estado ancião que deseja voltar a ser importante... É irônico quando escreve: “Acredito que fará tudo o que lhe sugeri”? É maravilhoso. E noutra ocasião ele recebe a visita de César, pois este gostava de Cícero desde que não falassem de política. [César] chega com um séquito de 2.000 pessoas, e eles passam a noite toda falando de teatro grego, quando Cícero desejava que lhe perguntasse sobre a atualidade política. Após a visita, Cícero escreve um comentário: “Acho que não é o tipo de pessoa que convidaria de novo.” São coisas imortais.
Ceratostigma willmottianum no jardim que Fox supervisiona.
Ceratostigma willmottianum no jardim que Fox supervisiona.
O senhor escreve há 40 anos para o mesmo jornal... Mais ainda: 47.
Qual é a maior mudança que viu no jornalismo neste meio século? No meu trabalho, [a mudança é que agora] sou melhor. Chego a mais leitores. Quando comecei, escrevia para pessoas que moravam no sul da Inglaterra e que queriam aprender a cultivar plantas e flores. Agora, o Financial Times do fim de semana é um jornal global, um dos mais importantes e lidos do mundo. Escreverei sobre minha viagem a Córdoba. As pessoas querem ler sobre muitas coisas, não só sobre jardinagem. Sou [hoje] muito menos provinciano.

E do ponto de vista técnico? No início eu não escrevia. Acredito em Homero e na literatura oral: ditava meus textos. Depois escrevia à mão e enviava o texto a um editor, que o mandava à sua secretária, que o escrevia à máquina. Depois voltei a ditar. E agora tudo se transformou em digital e já não dito. Gostaria de voltar a fazê-lo, mas sei que não vão me deixar.
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Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/04/eps/1512412299_415603.html
Fonte:

Byung-Chul Han: Nós somos o ‘Big Brother’

Nós somos o ‘Big Brother’: o que Byung-Chul Han escreve sobre as redes sociais

Byung-Chul Han escreve sobre as redes sociais

Indignação digital não serve para nada, porque preferimos teclar em vez de agir

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização.” Com esta frase o EL PAÍS intitulou sua reportagem sobre a conferência do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em Barcelona. Não se trata de uma frase provocadora, pensada para chamar a atenção da plateia, e sim de uma ideia que se repete em seus livros.

Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, já publicou uma dezena de títulos centrados na sociedade atual e nos efeitos da tecnologia. O último é Die Austreibung des Anderen (“a expulsão do diferente”). Todos eles são breves, densos, mas não difíceis, e com muitas ideias em comum.

Um dos temas que trata com frequência é o das redes sociais, com as quais é muito crítico. Quando fala desses assuntos, “Han não se interessa tanto pela análise das causas, e sim pela mudança que produziram em nossas vidas, com o que é muito fácil que o leitor se identifique imediatamente”, diz Manuel Cruz, catedrático de Filosofia e diretor da coleção Pensamento, da editoria Herder, que publicou os livros de Han em espanhol.

Assim, em A Sociedade da Transparência (editora Vozes), ele fala sobre a inclinação a nos expormos nas redes, um hábito que Han compara à pornografia e que é “contagioso e fictício”. Porque essa transparência na verdade é enganosa. Alinhado com a teoria do filtro-bolha de Eli Pariser, Han recorda que as redes só se dispõem a nos apresentar aquelas partes do mundo que nos agradam. Ou seja, essa interconexão digital, afinal, não facilita o contato com outros, pois serve apenas “para encontrar pessoas iguais e que pensam igual, nos fazendo passar longe dos desconhecidos e de quem é diferente de nós”, escreve em A Expulsão do Diferente. A consequência é que nosso horizonte de experiências “se torna cada vez mais estreito”.

Vigiamo-nos mutuamente

Outro efeito dessa exposição constante é que criamos um panóptico digital. Com seu panóptico, Jeremy Bentham propôs um modelo de prisão em que o vigilante sempre podia observar todos os detentos. Em sua versão digital, todos somos ao mesmo tempo vigilantes e vigiados: “O Grande Irmão digital transfere seu trabalho aos reclusos”.

As redes “geram um efeito de conformidade, como se cada um vigiasse o outro, e isso previamente a qualquer vigilância e controle por serviços secretos”, escreve em Psychopolitik (“psicopolítica”). Não necessitamos da Agência de Segurança Nacional dos EUA para procurar e expor tuítes alheios que nos pareçam inadequados e submetê-los ao que, na sua opinião, é o “autêntico fenômeno da comunicação digital”: os linchamentos.

A indignação sem discurso

Essa vigilância acaba gerando ondas de indignação que “são muito eficientes para mobilizar e aglutinar a atenção”. Mas que também são “muito incontroláveis, incalculáveis, instáveis, efêmeras e amorfas” para “configurar o discurso público”, escreve em Im Schwarm (“no enxame”).

Nesta mobilização não há comunicação real nem nenhuma identificação com a comunidade. Tampouco se desenvolve “nenhuma força poderosa de ação”. Gera muito ruído, mas nenhuma voz, nenhum público articulado. As multidões indignadas são fugazes e dispersas, “enxames de unidades simples”.

A indignação não dá em nada, porque “o novo homem tecla em vez de agir”. Somos consumidores e, perante a política ou os movimentos sociais, só reagimos de forma passiva. E, como se de qualquer serviço ou produto se tratasse, nos limitamos a resmungar e a nos queixar, sem ir além.

Uma sucessão de instantes

Compartilhamos todo tipo de informação nas redes: nossas opiniões, nossas fotos, nosso currículo… “Sem saber quem, nem o que, nem quando, nem em que lugar se sabe de nós”, recorda em Psicopolítica. Tudo o que publicamos é passível de ser empacotado e vendido em forma de dados. Ou seja, somos explorados não só durante o tempo de trabalho; o que cedemos é “toda a pessoa, a atenção total, inclusive a própria vida”. Fazemos isso, além do mais, de forma voluntária e gratuita.

O big data pode ser até pior que o big brother, pois não esquece nada. Qualquer erro ou indiscrição continuará aparecendo no Google daqui a décadas.

Talvez não pensemos no que ocorrerá dentro de décadas porque também mudou a forma de vivenciarmos o tempo. Não é que tenha se acelerado, como às vezes se diz, e sim que se trata de um tempo atomizado, no qual “todos os momentos são iguais entre si” e “destrói-se a experiência da continuidade”, explica em Ein Duft der Zeit (“um aroma do tempo”). Vivemos em um “choque do presente”, como apontava o ensaísta Douglas Rushkoff: nosso dia a dia se organiza em torno das notificações do celular, sem nos permitir nem um só momento vazio.

Nossos tuítes não narram “nenhuma história de vida, nenhuma biografia”. É só adição sem narração. O mesmo acontece com tudo o que acumulamos no Facebook: fotos, publicações, comentários... Essa memória digital se parece com um armário onde amontoamos tudo o que não usamos, nem jogamos fora. Ou seja, afinal de contas não somos capazes nem de esquecer nem de recordar.

Esses instantes não têm nenhum elemento em comum, “nenhum processo vital além da busca pela excitação contínua”, diz Cruz. E daí procede o ritmo nervoso que caracteriza a vida atual. Volta-se repetidamente a começar, zapeia-se entre as “opções vitais”. Temos pressa em passar de um presente a outro sem aprender com o vivido nem planejar o futuro. “Assim é como o indivíduo envelhece sem acumular idade”, escreve Han. E acrescenta, para concluir, “por isso a morte, hoje em dia, é mais difícil”.

Embora Han não seja muito otimista, ele oferece uma solução: a contemplação, o silêncio. Mas não se refere a distanciar-se do mundo nem recuar a uma sociedade pré-moderna, esclarece Cruz, “e sim parar para pensar, para olhar”, para assim poder refletir a respeito de nossas vidas e lhes dar esse sentido, essa narrativa que se corre o risco de perder. E, também, para evitar incorrer em erros, como quando confundimos a autoexploração com a realização pessoal, ou quando esquecemos que o trabalho é só um meio e não um fim em si mesmo.
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Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/09/cultura/1518186464_156425.html

Minimalismo

Martha Medeiros*

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Tenho uma amiga que mora na Europa há anos. Vive com a filha num apartamento de frente para um parque, tem um carro, um emprego e um namorado. Em tese, ela não tem do que se queixar, mas conversávamos outro dia sobre o que significa estar tudo bem. Para ela, tudo bem é experimentar novas formas de existir. A gente assina um contrato de locação de um imóvel, se acostuma com a mercearia da esquina e quando vê está enraizado num estilo de vida que se repete dia após dia, sem testar nosso espanto, nossa coragem, nossa adaptação ao novo. Humm. O que você está inventando?, perguntei a ela. 

- Vou morar num barco. 

Ainda bem que eu estava sentada. Pensei: "Essa garota é maluca". E logo: "Que inveja". 

Tenho zero vontade de morar num barco. Minha inveja foi do desapego e da facilidade com que ela escreve capítulos surpreendentes da sua biografia. "Tenho coisas demais, Martha. Livros demais, roupas demais, móveis demais. Está na hora de viver com menos para poder redefinir o significado de espaço, tempo, silêncio". O gatilho da nossa conversa foi o documentário Minimalism (disponível na Netflix), que escancara a estupidez do consumo compulsivo, como se ele pudesse preencher nosso vazio. Vazio se preenche com arte, amor, amigos e uma cabeça boa. Consumir feito loucos só produz dívidas e ansiedade. 

Temos perdido tempo, nas redes sociais, criticando o bandido dos outros e defendendo o nosso, sem refletir que o caos político e social têm a mesma fonte: nossa relação doentia com o dinheiro. A ideia de "poder" deveria estar associada à gestão do ócio, às relações afetivas, ao contato com a natureza e à eficiência em manter um cotidiano íntegro, produtivo e confortável (nada contra o conforto), no entanto, "poder" hoje é sinônimo de hierarquia, acúmulo de bens, ostentação e lucratividade non-stop. É por isso que, para tantas pessoas, é natural incorporar benefícios imorais ao salário, ganhar agrados de empreiteiras e fazer alianças com pessoas sem afinidades, mas que um dia poderão vir a ser úteis. 

A sociedade não se dá conta do grau de frustração que ela mesma produz e continua cedendo a impulsos. Uma vez, eu estava na National Portrait Gallery, em Londres, quando, na saída, passei pela loja do museu e percebi, ao lado do caixa, um aquário cheio de latinhas de metal à venda, pouco maiores que uma moeda. Era manteiga de cacau no sabor "chocolate & mint". Sem hesitar, comprei uma latinha e trouxe-a comigo para o Brasil: hoje ela reside na bancada do banheiro, intocada, para me lembrar de como se pode ser idiota - eu estava dentro de um dos maiores museus do mundo e mesmo assim fiquei tentada a comprar a primeira besteira que vi. O exemplo é bobo, mas ilustrativo de como certos gritos ecoam dentro de nós 24 horas: Compre! Leve! Aproveite! Você nunca mais será o mesmo depois de usar a triunfante manteiga de cacau da National Gallery! 

O único excesso que preciso é de consciência para não me deixar abduzir por essa forma equivocada de dar sentido à vida.
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* Jornalista. Escritora. Colunista da ZH
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=f4401dd087608e344ac946c2f5a982e4 17/02/2018

Gostar de Carnaval

Lya Luft*
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Esta vai ser mais uma coluna sem grande aprovação: os apaixonados por Carnaval vão torcer o nariz e passar adiante. 

Não desgosto de Carnaval. Quando mocinha, fui a bailes de clube e achava muito divertido, fantasia de holandesa, que combinava comigo, ou de odalisca, que não tinha naaaada a ver. 

Éramos adolescentes meio inocentes do Interior, mas, estranhamente, todo mundo usava lança-perfume, hoje condenado. As mães só recomendavam para não aspirar direto nem cheirar lenço molhado com o produto, cujo cheiro aliás eu adorava, lembrava alegria e descontração. 

Não havia quase Carnaval de rua, nada parecido com os blocos de hoje, as multidões suadas e não muito vestidas, num aperto meio indigno de não haver onde fazer xixi nem o resto, gente de porre vomitando é quase normal, peitos e bundas oferecidos com generosidade absoluta. 

Acho que éramos cheios de manias naquele tempo. Carnaval era mais alegria do que deboche. Talvez ainda fôssemos moralistas ou bobos. 

Hoje me entristece um pouco: não a alegria, a diversão, a catarse de um povo explorado e sofrido, mas a capacidade meio desesperada de por vários dias e noites esquecer a situação do país - que beira o dramático ou trágico - pulando, requebrando, chacoalhando numa felicidade ímpar. 

Por um breve tempo de ilusão, esquecem-se as contas atrasadas, a comida cara, a condução desconfortável, o pagamento atrasado, o terror da violência tão habitual, o temor de adoecer e não ter hospital nem remédio. 

Talvez esses dias de total alienação - estranha para quem não participa - sejam um intervalo necessário e misericordioso num país em tamanhas dificuldades. A imagem que fica é a de um povo rico, saudável, despreocupado, bem empregado e feliz, não dando a menor bola para os chatos que, como esta colunista, assistem com um vago espanto às sucessivas e intermináveis (e incansáveis) ondas de corpos suados, caras desfeitas, risos abertos e copos sempre cheios que por dias e dias e dias e dias enchem ruas e avenidas numa alegria atroz. 

Quem sabe hoje escreve aqui uma bruxa nem tão boa, nem tão divertida, mas com certeza um bocado preocupada e atenta ao que fazem conosco e com este país que a gente ama.
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* Escritora. Tradutora. Colunista da ZH 
Imagem da Internet
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=73619c7b11b447e069e92d80914bc329 17/02/2018

As confissões da carne

Vladimir Safatle*

Ilustração Marcelo Cipis\ Coluna Safatle

Volume encerra 'A História da Sexualidade', de Michel Foucault, um dos pilares da filosofia contemporânea

Na semana passada, as livrarias francesas receberam o último volume de um dos projetos filosóficos mais influentes do que poderíamos chamar de filosofia contemporânea, a saber, "A História da Sexualidade", de Michel Foucault.

Mais de 30 anos após sua morte, coube a Frédéric Gros a organização póstuma de "As Confissões da Carne", que deveria terminar a série de quatro livros que Foucault planejara escrever para perscrutar a maneira com que a experiência de si foi constituída no Ocidente por meio, principalmente, da relação com o sexo e o desejo.

A escritura do que deveria ser o último volume de "A História da Sexualidade" encontrava-se já bastante avançada à ocasião da morte de Foucault, em 1984. Certamente, o texto passaria apenas por revisões pontuais. Por isso, o volume que o leitor tem atualmente em mãos está longe de constituir um simples manuscrito. Ele é um livro orgânico cujos eixos estão claramente organizados, como era próprio da generosidade didática de Foucault.

Mas o que traz esse último volume de "A História da Sexualidade"? Lembremos, inicialmente, qual era o ponto de partida de Foucault. Em dado momento do século 20, ficou claro como algo de fundamental em nossas expectativas de emancipação social só poderia ser pensado se voltássemos nossos olhos ao sexual.

Nesse sentido, é possível dizer que estava claro como sexo é política, que questões maiores a respeito de nossas formas de reprodução social passavam pela crença em uma relação profunda entre sexo e verdade. Não por acaso, a política se moverá em direção a problemas relacionados às práticas repressivas, as estruturas disciplinares, à problematização das identidades de gênero, entre outros.

No entanto, havia algo de singular na maneira com que Foucault abordava esse problema. Ele começava por lembrar que nossas sociedades modernas ocidentais são as únicas que transformaram o sexo em objeto de uma ciência. Não mais uma ars erotica, mas uma scientia sexualis. A sexualidade é a experiência sexual submetida à disciplina de um discurso médico-terapêutico-científico.

Sendo assim, Foucault tentará mostrar como falar sobre sexo a partir da perspectiva de alguém que é sujeito de uma sexualidade específica, que vê sua identidade definida a partir da sexualidade que lhe é própria, será sujeitar-se a discursos sociais que procuram legitimar formas diversas de intervenção.

Caberá à filosofia entender como tais discursos foram formados, como eles demonstram a natureza produtiva de um poder capaz de produzir individualidades.

Isso nos permitirá pensar o poder não apenas como uma forma de coerção imposta que nos coage de fora, mas principalmente como um modo de produzir formas de vida, de dar forma a nossos desejos, sejam nossos desejos de normas, sejam nossos desejos de transgressões.

Dentro desse projeto, Foucault vai dedicar a maior parte de seu esforço para desvelar formas de relação ao sexo e aos desejos que estariam na base das sociedades ocidentais, mas que foram, de certa forma, esquecidas e submetidas ao modelo hegemônico de nossa sexualidade atual. Daí a ideia de voltar aos gregos e romanos a fim de redescobrir as práticas de cuidado de si que poderiam servir de fundamento uma crítica social renovada.

 "Foucault lança nova luz sobre a complexa relação 
entre nossas práticas ditas científicas e a moralidade 
própria ao cristianismo."


Nesse contexto, o último volume de A História da Sexualidade vem para explicar como o cristianismo impõe modificações importantes na concepção antiga dos prazeres de sua economia. Não será o cristianismo que criará as práticas de contenção, de verbalização, de regulação, a submissão do sexo à reprodução no interior do casamento, a importância da virgindade, que associamos atualmente, de forma tão clara, às dinâmicas de controle do sexual.

O que o cristianismo fará, e isso Foucault mostra com uma riqueza de detalhes que lhe é própria, é fornecer uma significação inédita a todas essas práticas que já eram prescritas dentro da moral estoica ou mesmo epicurista. Ele submeterá todas elas a um logos que se enuncia na natureza, na razão humana ou na palavra de Deus.

Nesse sentido, o que vemos no último volume é uma verdadeira genealogia da moralidade cristã através de seus vínculos orgânicos com o debate moral greco-romano. No que Foucault lança nova luz sobre a complexa relação entre nossas práticas ditas científicas e a moralidade própria ao cristianismo.
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* Professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas. 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2018/02/as-confissoes-da-carne.shtml 16/02/2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Quatro quartos da vida

Juremir Machado da Silva*
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Adoto a tese de que a vida de uma pessoa nos tempos que correm pode ser dividida em quatro quartos de 20 anos. Um modelo simples: até os 20 anos, nascimento, crescimento e entrada na vida adulta. De 21 a 40 anos, vida adulta. De 41 a 60, começo do processo de envelhecimento. De 61 a 80 anos, velhice e morte. Alguns furam a fila e ficam pelo caminho. Outros, agarram-se à vida e superam as metas.
Na média, fica por aí. A expectativa de vida chegando aos cem anos, como parece se encaminhar, aparecem mais 20 anos para cada um administrar.
Pela tabela vigente quem chegou aos 60 entrou no último quarto. Uma luz acende. Não se trata de pânico nem de obsessão, mas de uma nova realidade. Aos 20, a pessoa pensa em como será a sua profissão, ou qual, quantos amores terá, quantos filhos, que grandes acontecimentos viverá e que bifurcações encontrará pela estrada. Aos 40, se nada de extraordinariamente ruim ou bom tiver ocorrido, o sujeito anda envolvido com sua consolidação. Há quem chegue à presidência do seu país com essa idade e há quem se sinta desorientado. Em geral, os trilhos enquadram os vagões por essa etapa do percurso. Aos 60, aposentado ou contando dias e anos para escapar das reformas que sempre despontam, é hora de ajustar o foco e saltar.
Encontrei Josué. Ele fez 60 em 29 de janeiro de 2018. É do mesmo dia que eu, com meus 56. Josué descansava à sombra de uma mangueira. Conversamos. Ele sonha com um grande amor, quer abraçar uma nova profissão, pretende viver mais 40 anos, sonha em viajar muito e especula sobre as curvas que a sua vida poderá encontrar. Tudo para ele está em aberto. Questiono que caminhos pretende trilhar. Ele pensa, sorri, coça a cabeça, ri alto, diz “rapaz” e então responde:
– Penso até em ser presidente da República.
– Mesmo?
– A política é bom jogo para quem já se aposentou – diz.
– Por quê?
– Rapaz, vou te dizer com sinceridade: dá sensação de importância, alguma coisa para fazer, certa utilidade social e mata o tempo.
– Ah, é isso?
– Como sou honesto, tenho algo para dar.
– Não corre perigo de também cair na vala comum?
– Não caí até agora.
– E se não der a presidência?
– Posso ser síndico do meu prédio ou porteiro de boate.
– Futuro garantido então?
– Tudo em aberto. Uma nova vida está começando.
Sorrio. Josué percebe o meu ceticismo.
Espero que ele reflita. Sei que vai me dizer alguma coisa. Ele não tem pressa. Espera que eu compreenda por conta própria. Não me adianto. Ele ainda matuta o que vai afirmar. Há uma aura de generosidade no seu rosto luminoso e franco. Finalmente, com um sorriso suave, ele está para pronto:
– Se pensar o amanhã com cabeça de ontem, rapaz, não passa de hoje.
Nada como estar vivo para ver uma escola de samba, a Paraíso do Tuiuti, escrever a história na avenida e botar chope na água das críticas políticas genéricas como as feitas pela Beija-Flor do sistema.
Viver é um grande desafio. Sempre tem surpresa.
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Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/02/10617/quatro-quartos-da-vida/ 
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Natália Nunes: “O amor é um estado de graça”

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O Expresso republica uma entrevista à escritora Natália Nunes, publicada originalmente a 13 de junho de 1998. A autora morreu esta terça-feira aos 96 anos

ESCRITORA com mais de 20 títulos publicados, nasceu em Lisboa em 1921. Loucos diz-se terem sido esses anos vividos depois da I Grande Guerra; mas contidos continuavam a ser no país provinciano que era Portugal. Portas adentro, o século XIX teimava em marcar a moral e os costumes. Assim cresceu Natália Nunes, a mais velha de quatro irmãos, filhos de gente da pequena burguesia. Licenciada em Histórico-Filosóficas, bibliotecária, foi pela escrita que deu visibilidade ao nome. Por um físico e poeta, Rómulo de Carvalho (António Gedeão), se enamorou mais do que se apaixonou. Mulher de emoções controladas, jamais se permitiu «amar perdidamente». Mais de meio século de vida partilhou com o homem que um dia conheceu na Biblioteca Nacional e lhe ofereceu um lápis quando o bico do dela se partira. Pela ausência dele sofre hoje do desajustamento dos dias e dos lugares: «Por vezes, na rua, chego a sentir pânico de estar sozinha.» Diz «profundamente religiosa», com um «sentido metafísico da vida». Aos 76 anos, é ainda pela escrita que Natália sublima as perdas; os lutos.

EXPRESSO - Nasceu numa família republicana?
NATÁLIA NUNES - O meu pai era republicano. A minha mãe era ainda jovem quando se deu a queda da monarquia.Ficou-lhe uma espécie de saudosismo da mitologia, do folclore da monarquia. O assassinato do rei e do príncipe foi um acto tão violento que impressionou muitas pessoas. A minha mãe viveu tudo aquilo tão intensamente, a ponto de lhe ter preenchido a existência.

EXP. - A que estrato social pertencia?
N.N. - Muito pequena burguesia. O meu pai, que era da província, vinha de gente que vivia do trabalho, pequenos agricultores e artesãos, que migrara da Beira Alta para a cidade. A minha mãe já era lisboeta de segunda geração.

EXP. - Era gente letrada?
N.N. - A minha mãe era uma pessoa muito inteligente e senhora de um vocabulário muito rico, ainda que tivesse feito apenas a instrução primária.

EXP. - E o pai?
N.N. - Gostava muito de ler. Sabia grande parte dos Lusíadas, bem como peças do Marcelino Mesquita, de cor! Era um frequentador de ópera. Infelizmente, foi atingido pela tuberculose, o que lhe limitou a vida.

EXP. - Economicamente, tiveram uma vida de dinheiro contado?
N.N. - Sim, mas sem grandes privações. Os meus pais tiveram quatro filhos: duas raparigas e dois rapazes. Eu e a minha irmã tirámos cursos superiores porque tínhamos um tio, muito rico, que se dispôs a ajudar, sobretudo as sobrinhas. Os meus pais pagaram os estudos dos rapazes. O meu irmão mais velho suicidou-se, e o António Alfredo (ilustrador, pintor e arquitecto de cena) andou nas Belas-Artes, mas creio que nem acabou o curso, porque se envolveu na política, na altura do MUD Juvenil, e foi expulso juntamente com o Dias Coelho, o escultor comunista que seria morto pela PIDE.

EXP. - Cresceu com o Estado Novo e com os retratos de Salazar e Carmona nas salas de aulas. Que pensava de Salazar?
N.N. - Quando era muito jovem, na idade de criar heróis, tive uma grande admiração por Salazar. Achava-o muito importante e nada feio. Tive mesmo o retrato dele à cabeceira. Creio que tive por ele um «amorzinho» platónico. Depois, comecei a ouvir as críticas do meu pai ao regime e as fúrias dele contra Salazar...

EXP. - E o «amorzinho» feneceu com a consciencialização política?
N.N. - Eu não sou nem nunca fui política mas sempre defendi ideais sociais. Lembro-me, ainda muito nova, de pensar que todos os prédios deveriam ter caixas do correio para os carteiros não terem de subir escadas e os telhados ter beirais que protegessem os operários.

EXP. - O liceu que frequentou, o Maria Amália, tinha fama de ser extremamente repressivo...
N.N. - Não podemos esquecer que estávamos em pleno Estado Novo. A directora, a doutora Maria Guardiola, era uma personalidade extraordinária.

EXP. - As regras no liceu eram muito rígidas?
N.N. - Comparando com o que se passa hoje nos liceus, as pessoas diriam que a disciplina no Maria Amália era pior do que a dos conventos. Não era. Quero dizer que apreciava a disciplina mas sem amordaçar a minha rebelião.

EXP. - No Verão, não podiam andar sem meias. E não podiam usar maquilhagem.
N.N. - Nos finais dos anos trinta, as raparigas não andavam de pernas nuas. Em adolescentes, usavam meias até aos joelhos e depois meias compridas. Eu comecei a pôr «baton» e «rouge» aos treze anos e nunca deixei, mesmo quando era proibido, de ir maquilhada para o liceu.

EXP. - Os rapazes podiam entrar no liceu?
N.N. - Nem pensar. Se um homem transpusesse o segundo portão da entrada, era o pânico. Ainda me lembro de o pai de uma aluna o ter feito. Foi tal o pandemónio que meteu até o chefe do pessoal menor. Apenas o carpinteiro do liceu podia ultrapassar a barreira do segundo portão.

EXP. - O liceu era um «ghetto» de mulheres...
N.N. - Sem dúvida.

EXP. - Quantas alunas andavam no Maria Amália?
N.N. - Na altura do meu segundo ano, havia mil e duzentas.

EXP. - Foi educada a acatar o conceito de virgindade, que marcou a vida de várias gerações de mulheres...
N.N. - Era um conceito social tanto como moral. Não o respeitar representava, além de uma transgressão social violenta, um pecado. O fim da mulher era casar e, para o fazer, tinha de ser virgem. Nos anos 50 (eu vivia na altura em Coimbra, com o meu marido), a costureira que ia trabalhar lá a casa contou-me, com um certo tom de escândalo, que uma estudante tinha sido apanhada a dar um beijo ao namorado: «Aquela já está queimada!», comentava, «já está queimada!».

EXP. - Casar de branco, de véu e flor de laranjeira era uma espécie de «certificado» de virgindade. Seguiu a tradição?
N.N. - Casei-me em 1945 e, para marcar bem a minha posição contra os convencionalismos, levei um vestido curto, verde-claro. Os sapatos, chapéu e flores, é que eram brancos.

EXP. - Para designar uma rapariga que tivesse perdido a virgindade, havia expressões como: «enganada», «desflorada», «dar uma cabeçada». Recorda-se?
N.N. - Recordo, mas o termo «dar uma cabeçada» era mais aplicado às mulheres casadas que prevaricavam. A expressão «enganada» era mais usada nos meios rurais, nas aldeias. O que tinha um certo fundo de verdade. Dentro da mesma moral social e religiosa, o próprio rapaz, para seduzir a rapariga, prometia-lhe casamento. Se ela cedia, corria sérios riscos de ser abandonada pelo sedutor, que entendia a entrega como uma prova de leviandade. Não resistira à tentação; não era séria. Não servia para esposa.

EXP. - As mulheres eram também divididas em «sérias» e não «sérias»...
N.N. - A moral vigente era tão rígida que, em Coimbra, uma senhora da alta sociedade, mulher de um catedrático, sempre que o marido ia a um congresso, partia para um retiro.

EXP. - Aceitou a regra ou subverteu-a?
N.N. - Nunca a aceitei. Sempre me revoltou.

EXP. - Teve relações sexuais antes do casamento? A família soube?
N.N. - Tive apenas com o meu futuro marido. A família não sei se soube. A minha mãe, que era muito esperta e atenta, acho que descobriu.

EXP. - Teve uma filha. Conversou com ela sobre sexualidade?
N.N. - Tive conversas esporádicas. A minha filha foi criada com muita liberdade, não foi reprimida. O pai, que era bastante puritano, não concordava com muitas coisas, mas, como era muito tolerante, acabava por aceitar.

EXP. - Quando era rapariga, as «meninas» saíam sozinhas com amigas? E, à noite, podiam sair em grupo?
N.N. - As meninas só podiam sair acompanhadas pelos pais ou por um irmão mais velho. Tinham de ir sempre com um «chaperon».

EXP. - Como eram os serões da sua adolescência?
N.N. - Como o meu pai era doente, a minha casa era muito triste; demasiado sossegada. Deitávamo-nos cedo, pelas nove horas. Enquanto andei no liceu, punha o despertador para as quatro da manhã, e era a essa hora que estudava.

EXP. - Os domingos, o dia de descanso antes da institucionalização do fim-de-semana, como eram passados?
N.N. - Por vezes, ia a casa de uma amiga, filha de um conterrâneo do meu pai. Outras vezes ia com a família em excursão até à Baixa. Íamos com o meu pai aos museus e também ao Campo Grande para andarmos de bicicleta. No entanto, ao contrário da minha adolescência, a minha infância, apesar da doença do meu pai, foi uma época extraordinária. Na altura, a tuberculose era endémica e ele não lhe escapou. A cura processava-se no sanatório do Caramulo. E foi para lá que o mandaram. A terra dele ficava muito perto e, como havia a casa de família, fomos todos viver para lá. O meu pai, em vez de ficar internado, privado da nossa companhia, só tinha de se deslocar ao sanatório para tratamento.

EXP. - Como foi o encontro com os parentes da província?
N.N. - A parentela do meu pai ia dos mais ricos aos muito pobres. As «senhoras», como se dizia das mulheres das famílias mais ricas e conceituadas, tinham lugar cativo na igreja. Naquela época a Igreja estava dividida em escalões sociais.

EXP. - As «senhoras» da família aceitavam que a mulher do parente não fosse à missa?
N.N. - Não aceitavam isso, como também não lhe perdoavam ela sair em cabelo. No final dos anos 20, as senhoras não andavam sem chapéu. E as nossas parentes abastadas jamais saíam de casa de cabeça descoberta. Ora, a minha mãe entendia que numa pequena vila de província era pelo menos pretensioso usar chapéu em deslocações que não ultrapassavam os 20 metros.

EXP. - Apercebia-se desses desajustamentos familiares?
N.N. - Não tinha consciência destas coisas, nem sequer do perigo de ficar órfã de pai. Eu vivia num círculo muito interessante. A casa da família ficava dentro do adro da igreja e fora construída no antigo passal (terreno anexo à residência paroquial). Tínhamos assim a casa, a igreja e a escola. Estávamos no centro de tudo... E, depois, o convívio com o meu pai. Ele explicava-nos tudo: os nomes das plantas, das árvores, dos pássaros. Quando melhorou e começou a ir à caça, eu ia com ele. A relação com o meu pai foi tão importante que criou em mim o desejo de ter sempre um pai. Julgo que ter escolhido casar com um homem mais velho tenha a ver com a imagem que eu retive do meu pai...

EXP. - Tinham automóvel?
N.N. - Não tínhamos. Quando íamos a Viseu ou a Aveiro, viajávamos de comboio.

EXP. - As deslocações eram complicadas?
N.N. - As partidas de Lisboa para Aveiro eram verdadeiras epopeias. Partíamos às dez da noite para chegarmos no dia seguinte à uma da tarde. Treze horas de viagem. Antes da partida havia que cumprir o ritual do banho: uma imposição da minha mãe. Mesmo quando saíamos de madrugada, as crianças tinham de ir com o banho tomado! E o trabalhão que isso lhe dava; aquecer a água em máquinas a petróleo...

EXP. - Tinham quarto de banho com banheira?
N.N. - Não tínhamos quarto de banho, e as banheiras, tanto em Lisboa como na terra do meu pai, eram de folha, enormes, redondas e com um grande bico. Eram iguais à da Luísa do Primo Basílio...

EXP. - Foi uma adolescente namoradeira?
N.N. - Não. Tive um namorado com o qual me aproximei do mito do amor. Ele era muito moreno, fascinou-me. Inventei o amor. É claro que o amor existe mas, para mim, não tem propriamente a ver com os sentidos. O amor é antes um estado de graça.

EXP. - Como namorava?
N.N. - À janela, do segundo andar para a rua, e por carta. Por vezes ele ia-me buscar ao liceu.

EXP. - O pretendente podia entrar em casa da pretendida?
N.N. - Só depois do «pedido».

EXP. - Os «atrevimentos» iam até onde?
N.N. - Aos beijos.

EXP. - Falar de sexo era tabu em sua casa?
N.N. - Não só na minha - em todas as famílias o assunto sexo era inabordável.

EXP. - O casamento era considerado sobretudo um estatuto socio-económico?
N.N. - Exactamente.

EXP. - Foi a paixão que a levou a casar com Rómulo de Carvalho?
N.N. - Nunca pensei no casamento para constituir família e não me casei por paixão. Não tenho paixões: tenho perseverança. Procuro ser na vida como na escrita: racionalista.

EXP. - Então porque se casou?
N.N. - Por encantamento. Fui seduzida pela personalidade dele. Na altura, eu namorava com um jovem bonito, filho da famílias nobres, oficial da marinha. Pois não hesitei em deixá-lo por um homem quinze anos mais velho do que eu, divorciado e com um filho...

EXP. - Como se conheceram?
N.N. - Andava no segundo ano da faculdade e precisava de ler um livro que não tinha. Fui à Biblioteca Nacional, e à mesa onde me sentei estava um senhor, mais velho, de fato e gravata. A certa altura, parti o bico do lápis e ele ofereceu-me o lápis dele. Disse-lhe que não era preciso, que tinha um apara-lápis comigo. Ele insistiu, e eu aceitei. Quando me levantei para sair, ele levantou-se também e disse-me que me poderia emprestar o referido livro e mo mandava a casa. Fiquei tão surpresa com a oferta que achei por bem mostrar-lhe o meu bilhete de identidade. Dei-lhe a morada.

EXP. - O livro foi o pretexto para o iniciar o namoro?
N.N. - Ele mandou-me o livro e ficámos a corresponder-nos.

EXP. - E, em casa, como reagiram os seus pais a tão generoso oferecimento?
N.N. - Com desconfiança. Acharam esquisito, muito esquisito.

EXP. - Não teve problemas quando souberam que o pretendente era divorciado e tinha um filho?
N.N. - O meu pai não gostou, ficou muito aborrecido. O namoro continuou durante dois anos e, como entretanto fizera 21 anos, era maior, deixámo-nos de platonismos e passámos à prática; «adiantámo-nos», como então também se dizia.

EXP. - Outra das preocupações da época era a preparação do enxoval das meninas. Preocupou-se com isso?
N.N. - Fiz um enxoval, mas não no estilo das meninas que começavam aos 13 anos a bordar monogramas nas peças para o enxovalinho. Tratei da maior parte do meu enxoval, mas como uma tarefa necessária.

EXP. - As despesas com a roupa de casa competiam aos pais da noiva?
N.N. - Mandava a tradição que o bragal (roupas de casa) fosse da responsabilidade dos pais da noiva. A compra das mobílias cabia ao noivo...

EXP. - E os gastos com a boda?
N.N. - Aos pais ou a parentes da noiva.A boda da minha irmã foi paga por uns tios nossos, enquanto a minha foi da responsabilidade dos meus pais.

EXP. - Quando casou comprou frigorífico, esquentador, aspirador?
N.N. - Apenas comprei um esquentador.

EXP. - Sem frigorífico, como conservava os alimentos?
N.N. - Estamos a falar do que acontecia há 40 anos. Como a maioria das famílias não tinha frigorífico, na altura um objecto apenas acessível a famílias abastadas ou com alguma modernidade, a comida guardava-se nos armários com portas de rede - os mosquiteiros -, por causa das moscas. Para a sopa não azedar, era fervida várias vezes e, no Verão, punha-se a panela numa bacia com água, na varanda, para apanhar o relento da noite.

EXP. - A inexistência do frigorífico obrigava à compra diária de alimentos frescos?
N.N. - Não era bem assim. Nos anos 50 - eu casei em 1945 - tinha criada e era ela que ia às compras. Em solteira havia ainda os vendedores à porta. Às tantas passava a hortaliceira, a peixeira, a leiteira, o padeiro. Ia-se ao talho, à mercearia. Até o jornal era atirado para as janelas e varandas das casas. Como em frente do nosso prédio havia uma carvoaria, bastava bater as palmas e lá aparecia o carvoeiro para receber a encomenda gritada da janela para a rua. Passavam ainda as raparigas dos limões e as vendedeiras de flores. Toda esta forma de organização de vida se manteve até muito tarde.
EXP. - Tinha telefone, quando casou?

N.N. - Não tinha. Em Coimbra também não tínhamos. Só quando viemos morar para Lisboa, em 1957, é que mandámos instalar telefone em casa e comprámos o primeiro frigorífico e aspirador...

EXP. - E automóvel.
N.N. - Não. Eu tive automóvel aos 40 anos, idade com que tirei a carta de condução.

EXP. - Só comprou aspirador nos finais da década de 50. Até essa data, como limpava o pó dos tapetes?
N.N. - Depois da meia-noite - assim estava regulamentado pela Câmara -, punham-se os tapetes na varanda e batiam-se com um batedor de vime até sair todo o pó. Toda a gente fazia o mesmo. Na rua onde os meus pais viviam havia um palacete de uma família muito rica, com muito pessoal, e, periodicamente, as criadas batiam as carpetes, operação que durava às tantas da madrugada.

EXP. - Nos anos 50 já tinha ferro eléctrico?
N.N. - Nos primeiros anos de casada, ainda usei o ferro de carvão, que tinha de ser constantemente «espevitado», como se dizia, e largava cinza e pequenas faúlhas.

EXP. - Até aos anos 60 não havia pronto-a-vestir em Portugal. Onde fazia a roupa?
N.N. - Ia à modista, mas havia quem fizesse a própria roupa, em casa, por moldes. Quando eu era solteira, fazia os meus roupões e a minha roupa interior: combinações, calcinhas, os toalhetes higiénicos (os precedentes dos pensos higiénicos), e até me atrevi a fazer um «soutien». Fazia também os chinelos de casa; comprava as solas de corda e depois fazia a parte de cima em pano e, como remate, punha-lhes pompons ou franjinhas. Depois de casar, mudei muitos colarinhos e punhos das camisas do meu marido; remendei lençóis à máquina, aproveitei panos usados que embainhava e serviam para limpar a loiça. Hoje a minha filha não faz um pano da loiça. Compra tudo feito!

EXP. - Comprou televisão logo no início da emissões regulares?
N.N. - Estive uns anos sem televisão e, mesmo depois do advento da cor, estivemos muitos anos com o mesmo aparelho a preto-e-branco. Só quando se estragou é comprámos outro então a cores.

EXP. - Que importância deu ao aparecimento da televisão?
N.N. - Uma grande importância. Acho a televisão um evento extraordinário, ainda que a mim, culturalmente, não me interesse muito. Prefiro ouvir rádio e, sobretudo, ouvir música que eu escolha.

EXP. - Quanto ganhava um professor do ensino secundário?
N.N. - Não me recordo do montante, mas sei que era muito pouco. Eu entrei para a biblioteca da Escola Superior de Belas-Artes em 1958 e ganhava, como segunda bibliotecária, três mil e duzentos escudos. Pois o meu marido, como professor, ainda ganhava menos. Ganhávamos muito pouco.Tínhamos de ter muito cuidado com os gastos.

EXP. - Com ordenados baixos e sem subsídios, como faziam férias?
N.N. - No princípio de casados, o meu marido dava explicações de física, os meus pais e o meu tio por vezes davam-nos umas ajudas monetárias, e assim lá poupávamos alguma coisa para as férias. Quando me empreguei, comecei também a fazer traduções; traduzi durante 11 anos. Houve alturas que tinha de entregar mensalmente duzentas páginas traduzidas, o que representava um enorme esforço. Como os proventos não davam para luxos, passávamos alguns dias de férias em pensões económicas.

EXP. - As diferenças sociais, na época, eram mais acentuadas. Havia a gente «fina», de «boas famílias», os «bem nascidos», com «berço», e os outros, a arraia miúda, os de condição «humilde». Conviveu com estes preconceitos?
N.N. - Os meus pais não tinham esse tipo de preconceitos. Mas, de facto, havia o hábito dessas designações. O termo «boas famílias» aplicava-se a membros da alta burguesa, gente rica ou gente, mesmo sem dinheiro, de origem fidalga. Depois havia as famílias decentes, gente de trabalho, de bons costumes.

EXP. - Qual era a importância de ter um curso superior? Representava uma promoção social?
N.N. - Era uma promoção social, sim. Chegar a doutor era sobretudo uma aposta das famílias nos filhos homens. No meu tempo, a generalidade das raparigas ia para a faculdade não para serem doutoras mas para tirar um curso - a maioria de professoras - que lhes proporcionasse um emprego decente, um ganha-pão decente.

EXP. - Foi essa a razão que a levou à faculdade?
N.N. - Um pouco por isso, mas também pelo desejo de continuar a estudar.

EXP. - Hoje é uma escritora com mais de 20 livros publicados. A vontade de escrever não influiu na decisão de frequentar um curso superior?
N.N. - Penso que ser-se escritor é uma coisa que está ligada ao nosso temperamento, à nossa mentalidade, à nossa maneira de ser. Em pequena, eu, como todas as crianças, imaginava coisas. Quando tinha certas vivências infantis, embora não estivesse a escrever, estava já a ser escritora.

EXP. - Leu ou leram-lhe histórias quando era criança?
N.N. - Eu não tive literatura infantil nem me contaram as histórias que as avós costumam contar aos netos. Tive outras histórias. Enquanto estive na Beira, a caseira do meu tio contava-nos as coisas mais fantásticas sobre almas penadas; pessoas que durante a missa tinham visto um espírito rebentar ao ver o Santíssimo... Havia também uma mulher meio louca, como há em todas as terras - «la folle du village» -, cujas histórias eram verdadeiros delírios verbais. Depois ouvia as lendas, os romances das criadas da casa. Assistia à armação das eças nas igrejas, aos funerais, aos velórios.

EXP. - Situação hoje impensável nos grandes centros urbanos, onde o cerimonial da morte é oculto às crianças.
N.N. - Hoje as crianças têm contacto com as mortes virtuais, as mortes pela televisão. Eu tive um contacto directo com a morte desde pequena. Como, na época, a mortalidade infantil era muito elevada, ia frequentemente a enterros de «anjinhos», como então se chamava às crianças de tenra idade que morriam, e acompanhava-os até à cova segurando as asas do caixão. A partir dos oito anos, comecei a interrogar-me: que é estar morto?

EXP. - A convivência tão cedo com a morte ajudou-a a encará-la com naturalidade?
N.N. - A morte é um problema trágico; é um escândalo. Não aceito a morte na condição humana, embora creia em Deus e seja muito religiosa. Como presentemente preciso de um amparo moral e de uma consolação perante o escândalo que é a morte, estou a tentar reelaborar todos os conhecimentos que tenho de antropologia, de psicanálise, de psicologia e de filosofia, para ver se consigo aceitar coisas da religião católica que ainda não consigo.

EXP. - Quando observa os novos comportamentos não faz comparações com a maneira como viveu?
N.N. - Se faço!... Muitas!

EXP. - E chega à conclusão.
N.N. - Há vários factores a considerar. Julgo que nenhuma mulher, por exemplo, repudia os electrodomésticos, os detergentes. Actualmente, o trabalho doméstico está muitíssimo mais facilitado.

EXP. - Que usavam antes do aparecimento dos detergentes?
N.N. - Sabão, lixívia, potassa. Na província, ainda havia o uso de fazer barrela à roupa. Na cidade, a roupa era lavada nos tanques de cimento domésticos, canalizados, ou, nas casa menos apetrechadas, em alguidares de folha ou de barro. A loiça era lavada com sabão e, para tirar a gordura, usava-se a potassa. Areavam-se os tachos com cinza.

EXP. - Era tudo muito mais calmo.
N.N. - Sim, em compensação, como a maioria das mulheres trabalha fora de casa, leva uma vida frenética. Eu também estive empregada, mas os ritmos eram diferentes, menos «stressantes». Vivia perto do local do trabalho e entrava às dez horas e saía às quatro.

EXP. - As mulheres perderam mais do que ganharam ao quererem ser economicamente independentes?
N.N. - Como tudo na vida, há sempre um lado bom e um lado mau ou menos bom. As mulheres ganharam uma certa independência económica, mas, por outro lado, as que têm filhos criaram uma vida tão extenuante que não lhes dá tempo para elas próprias. De qualquer modo, a independência económica torna-as mais senhoras do próprio destino. No meu último romance, A Vénus Turbulenta, eu trato desse problema. A protagonista, filha da alta burguesia, a certa altura quer fazer uma certa vida mas apercebe-se de que não pode mudar. Como não estudou (assim era hábito, na época, no estrato social a que pertencia), não tem preparação para arranjar trabalho compatível com o estatuto social. Está irremediavelmente dependente dos homens: do marido e do pai.

EXP. - Foi muito importante ter sido mãe?
N.N. - Fui mãe voluntariamente. Queria ter um rapaz, mas tive uma rapariga. Mas só quis um... Aliás, tive um parto com sequelas tão más que não desejei, nem fazia parte dos meus planos, ter mais.

EXP. - Como entende os novos comportamentos das raparigas?
N.N. - Os jovens conquistaram a liberdade sexual. E considero isso muito bom. No entanto, penso que têm de aprender a gerir essa liberdade, para não caírem num desregramento que os poderá conduzir a um certo caos interior, a um certo vazio.

EXP. - De que se lembra da II Grande Guerra?
N.N. - No dia em que começou a guerra, em 1939, eu estava, no Cacém, em férias com a família. Fiquei excitadíssima com a ideia de que ia acontecer uma coisa diferente. Admirava a cultura e a ciência dos alemães, mas era abertamente pelos Aliados.

EXP. - Que acontecimentos a marcaram negativamente neste século?
N.N. - A II Guerra Mundial, o nazismo e o bolchevismo. A prática do nazismo, como a do bolchevismo, foram hediondas. O holocausto dos judeus é o anátema do povo alemão. Também não esqueço que, em nome da mudança, de uma revolução, se fuzilaram entre quatro a cinco milhões de pequenos agricultores! Como diz o Evangelho, «pela árvore se conhecem os frutos». Quem pode querer estas árvores no quintal?

EXP. - E os acontecimentos positivos?
N.N. - A queda de muitas ditaduras, a instauração da democracia e as conquistas da ciência. Neste século, a ciência e a tecnologia têm avançado como nunca.
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Fonte:  http://expresso.sapo.pt/cultura/2018-02-13-Natalia-Nunes-O-amor-e-um-estado-de-graca
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