quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Um hipopótamo chamado Jorge

António Lobo Antunes*

Tudo isto porque uma rapariga de olhos cor do musgo nas árvores velhas pegou no filho pequeno e lhe começou a meter letras dentro. A culpa é sua, senhora. De modo que ando assim. O único medo que tenho é que me apareça um hipopótamo macho chamado Jorge: não me apetece ficar o resto da vida na Penitenciária. Matar um bicho daqueles deve dar uma pena pesadíssima

Foi a minha mãe, que tinha olhos da cor do musgo nas árvores antigas, que nos ensinou a ler, aos meus irmãos e a mim. Sentava-se numa cadeira baixa, chamava-nos com um livro aberto nos joelhos, ela que em matéria de educação formal chegara à terceira ou quarta classe, mostrava-nos as letras com uns bonecos por cima, isto durante cinco ou dez minutos de cada vez porque na sua óptica as crianças, explicou-nos depois, não aguentam a atenção durante muito tempo, assim que nos afastávamos a aula acabava e em pouquíssimas semanas, sem nunca nos forçar, éramos capazes de decifrar aquilo tudo. Às vezes tento recordar-me do seu método e a única coisa que ficou é o dedo espetado e a gente a passear com ele. Não sei como a minha mãe fazia. Era uma rapariga de vinte e tal anos que parecia quinze ou dezasseis: quando almoçávamos com ela, sem o pai, o empregado que trazia a ementa perguntava-lhe sempre 

– E para os irmãos da menina?

o que me indignava imenso por ser a minha mãe, não menina nenhuma

uma ocasião passeávamos com ela no Jardim Zoológico, onde havia um casal de hipopótamos e eu zangado com o tratador porque o macho se chamava Jorge e a fêmea Margarida, zangado 

ainda me põe zangado isso 

visto que o Margarida estava certo, a minha mãe Margarida, portanto exigia que o macho João como o meu pai, não um Jorge qualquer, e ela teve de me agarrar o braço por eu considerar um insulto horrível a Margarida casada com um Jorge em lugar de um João, queria bater no sujeito que lhes dava hortaliça 

– Não é Jorge é João, o meu pai é João

e a minha mãe, aflitíssima, a puxar-me os calções. Podem achar idiota mas até hoje, palavra de honra, me irrita que tenha havido um Jorge no mundo de uma Margarida, mesmo que imensa e gorda e não pequena e elegante como ela, que em lugar de concordar comigo me ameaçava com uma palmada no rabo, e só conceber a minha mãe de João ao lado. Claro que contei ao meu pai e julgo que ele, ciumento como era, pensa igual a mim. Claro que volta e meia nos levavam de novo ao Jardim Zoológico comigo atento ao Jorge, pronto a saltar para o tanque à menor aproximação daquele monstro. Em casa, quando o meu pai não estava, abria a porta do escritório e espreitava com desconfiança não fosse haver um Jorge, também médico, também de cachimbo, também ao microscópio, a olhar para mim, o idiota, instalado na cadeira do meu pai: felizmente que isso não aconteceu, mas se a gente não andar a pau nunca se sabe. Acho que foi a única vez na vida em que senti ciúmes, conforme ainda hoje os hipopótamos machos não me são simpáticos. Mudemos de conversa antes que me aborreça. Estamos a falar de leituras, não é? Bom, como em casa não havia bichos, nem sequer um hipopótamozinho para amostra, raios o partam, comecei a escrever. Devia ter cinco anos ou assim, e isso não foi a minha mãe quem me ensinou, comecei sozinho. Fiz um primeiro romance, enorme, de uma página inteira, chamado, nunca me vou esquecer do título, “A Voz do Campo”, sei lá o motivo. Devia ser fresco. E, a partir dessa obra prima, não parei mais. Romances, poemas, sobretudo depois só poemas até que aos dezoito ou dezanove anos descobri que não tinha talento algum para versos e entrei, que me recorde pela única vez, numa depressão horrível: o que é que eu faço agora? Como já tinha o vício voltei à prosa e mal acabava destruía tudo, enquanto ia insultando a minha mãe em silêncio por me ter ensinado a ler. Depois passei dez anos com um romance imenso que não destruí e que ao voltar da guerra abandonei não sei onde. Dez anos de trabalho diário naquilo e lá foi para o boneco. Não prestava para nada mas eu já estava convicto

(aliás já estava convicto desde o princípio) 

que era o melhor do mundo

(Isso, claro, continuo a estar)

e nisto aconteceu-me uma cambalhota interior qualquer, e após numerosas falsas partidas em que gastei um bom par de anos, comecei, quase sem dar por isso, uma coisa que se veio a tornar a Memória de Elefante, levou-me um tempão, depois do hospital, depois do consultório, e ia fazendo-o todos os dias, até durante os bancos, no intervalo de dois doentes. Não contei isso a ninguém. Mal o acabei mostrei à minha cunhada, igualmente Margarida, a Margarida disse 

– Acho que devias publicar

e apareceu um editor, já eu terminara os Cus de Judas e estava às voltas com o Conhecimento do Inferno. Tudo isto porque uma rapariga de olhos cor do musgo nas árvores velhas pegou no filho pequeno e lhe começou a meter letras dentro. A culpa é sua, senhora. De modo que ando assim. O único medo que tenho é que me apareça um hipopótamo macho chamado Jorge: não me apetece ficar o resto da vida na Penitenciária. Matar um bicho daqueles deve dar uma pena pesadíssima. Se ao menos eu fosse banqueiro ou ex primeiro ministro ou, na pior das hipóteses, administrador de empresas, andava aí a declarar-me inocente. De quê? O meu advogado havia de saber, que era para isso que lhe pagava.
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 *  É um escritor e psiquiatra português.
Ilustração: Susa Monteiro
 http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2017-11-30-Um-hipopotamo-chamado-Jorge

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Ex-Facebook: “As redes sociais estão a destruir a sociedade”

Chamath Palihapitiya teve alto cargo no Facebook, na área da expansão de utilizadores, e hoje sente uma "culpa tremenda" por ter criado uma máquina que "explora vulnerabilidades na psique humana".

As redes sociais estão a “destruir as bases da sociedade” e estão a “programar” o cérebro dos cidadãos de uma forma que “elimina o discurso civil e a cooperação, fomentando a desinformação e a mentira”. Esta é a análise de Chamath Palihapitiya, que foi vice-presidente do Facebook para a área da expansão de utilizadores e que hoje vive com uma “culpa tremenda” e garante que, no que diz respeito a redes sociais, não usa essa “m…”, não deixa os filhos usarem e recomenda que todos os que usam façam uma “pausa a sério“.

“Vocês têm de refletir, fazer uma introspeção” sobre a forma como se utilizam as redes sociais, recomendou Chamath Palihapitiya. “Os vossos comportamentos, vocês não se apercebem mas estão a ser programados”, avisou, referindo-se aos “efeitos de curto prazo, de libertação de dopamina que está na origem de ciclos que estão a destruir a forma como a sociedade funciona”.

A mensagem foi transmitida no mês passado, numa conferência da Stanford Graduate School of Business, mas foi noticiada segunda-feira pelo The Verge. Palihapitiya, que foi trabalhar para o Facebook em 2007 e chegou a um cargo de topo na empresa, explicou que sente uma “culpa tremenda” por ter criado uma máquina que “explora vulnerabilidades na psique humana”.
Gerimos as nossas vidas em torno de um sentido percecionado de perfeição porque somos recompensados com sinais de curto prazo — likes, polegares para cima, corações — e misturamos isso com o valor, com a verdade. Na realidade, tudo isso é falso, uma popularidade momentânea que vos levam a querer ainda mais — admitam-no — e, depois, que vos deixa a sentirem-se ainda mais vazios do que estavam antes. O que vos leva a viver de acordo com o raciocínio: o que é que eu preciso de fazer a seguir para voltar a sentir o mesmo?”
A pergunta original era sobre os anúncios russos ligados à campanha eleitoral, mas o ex-vice do Facebook salientou que o problema é muito maior do que isso — e é “global”. Quais os riscos? Palihapitiya deu um exemplo que se passou na Índia em que sete pessoas foram mortas — linchadas, na realidade — por ter havido um conjunto de mensagens falsas no Whatsapp (detido pelo Facebook) que fizeram várias pessoas acreditarem que um grupo de visitantes eram raptores de crianças.

Se levarmos estes casos “ao extremo”, podemos “imaginar que pode haver um conjunto de maus atores que têm agora uma ferramenta para manipular grandes grupos de pessoas para fazerem aquilo que tu queres. É um estado de coisas muito, muito perigoso”.

Palihapitya tinha responsabilidades na área do crescimento da base de utilizadores, que hoje supera as dois mil milhões de pessoas em todo o mundo (no caso do Facebook). Não é o primeiro ex-responsável a falar sobre a forma como as redes sociais cativam novos e atuais utilizadores: Sean Parker, um dos fundadores, admitiu recentemente que o conceito do Facebook sempre foi, desde o início, explorar a psique humana.
 Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=PMotykw0SIk 
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Reportagem por Edgar Caetano 
Fonte:  https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1573693655200632246#editor/target=post;postID=3293473691354096978

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Adeus às armas

Benjamin Lessing, cientista e político americano

Professor Benjamin Lessing diz que Estado e autoridades policiais deveriam deixar claro que certo nível de narcotráfico pode ser tolerado, mas sem violência

O americano Benjamin Lessing, professor de ciência política na Universidade de Chicago, viveu no Rio de Janeiro entre 2000 e 2005, quando estudou o tráfico de drogas e a criminalidade na cidade. O resultado desse trabalho está em um livro recém-lançado nos Estados Unidos, Making Peace in Drug Wars: Crackdowns and Cartels in Latin America (Construindo a Paz na Guerra do Tráfico: Repressão e Cartéis na América Latina). Nele, Lessing analisa o que levou o tráfico no Brasil, no México e na Colômbia a se voltar contra o Estado. Falando em bom português, com sotaque carioca, Lessing defende alguma permissividade com o tráfico, mas não vê a legalização das drogas como solução. “É melhor reduzir a violência e aceitar certo nível de tráfico, desde que não seja violento. Uma guerra militarizada no meio da cidade é intolerável”, diz. Atualmente, Lessing está estudando a expansão das facções criminosas por todo o Brasil. Ele falou a VEJA por telefone, de Chicago.

A legalização da maconha poderia reduzir a criminalidade no Brasil? Resolveria o problema para o consumidor de Cannabis, para o indivíduo de classe média que de vez em quando é pego numa dura, mas não solucionaria o problema do tráfico. O Brasil já está entre os maiores consumidores de cocaína do mundo, e essa demanda continuará. Os traficantes ganham dinheiro com cocaína, crack e maconha, mas lucram sobretudo com os dois primeiros. Se, em uma situação hipotética, o governo legalizasse o consumo e a venda dessas drogas, equiparando essas atividades ao comércio de cigarro, aí sim o tráfico como o conhecemos deixaria de existir e os narcotraficantes teriam de buscar outra fonte de renda. O exército de jovens que o tráfico emprega não teria mais emprego. Provavelmente, contudo, haveria uma explosão de outras formas de crime. Isso já está acontecendo no Rio de Janeiro, com a ascensão do roubo de carga. Apesar da diversificação da atividade criminal, haveria ao menos a esperança de que as outras formas de criminalidade fossem mais fáceis de combater do que o tráfico.

Mas ninguém está falando em legalizar a cocaína ou o crack, certo? Descriminalizar totalmente o tráfico da cocaína é uma impossibilidade política. Não vai acontecer. A discussão que existe é para, no máximo, legalizar a maconha. Sobre essa medida, eu seria a favor, não acho que faria mal.

Qual seria a melhor solução? A ideia é planejar a intensidade da repressão para, assim, condicionar o comportamento do traficante. Se ele for pego vendendo drogas, recebe uma punição mais branda do que se for flagrado comercializando-as com um fuzil ou pistola na mão. Quando a polícia seguiu essa regra, os criminosos entenderam que o melhor era andar desarmado. Foi essa a chave inicial da pacificação no Rio de Janeiro, com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Ao entrar nas favelas, autoridades policiais deixaram claro que a missão não era acabar com o tráfico de drogas. José Mariano Beltrame, que foi secretário de Segurança Pública do Rio entre 2007 e 2016, passava sempre a mensagem de que vender drogas não era tão ruim quanto fazê­-lo usando armas. A prioridade era restabelecer a presença do Estado.

Essa atitude não equivale a uma legalização branca das drogas? No início, as UPPs foram criticadas porque teriam feito um pacto com o tráfico. Esse é um tema politicamente tóxico também em outros países. Quando era presidente da Colômbia, Álvaro Uribe foi contra negociar com as Forças Armadas Revolucionárias (Farc). Depois, quando o seu sucessor, Juan Manuel Santos, fechou um acordo de paz com as Farc, Uribe, na oposição, continuou batendo nessa tecla. Hoje, o maior grupo que resta é o dos gaitanistas, um cartel de drogas que se vende como grupo político para poder negociar com o governo. A verdade é que negociar com grupos traficantes violentos não significa compactuar com eles. Os brasileiros precisam se perguntar que tipo de traficantes querem: os que são empreendedores e homens de negócio ou os que são guerreiros, que não se importam em matar policiais e andam com fuzis pesados?

Por que a violência voltou com tanta força no Rio de Janeiro? A situação em que o estado se encontra hoje não se compara com a do início dos anos 2000, mas está chegando ao mesmo patamar. Em 2007, a guerra estava no auge e Beltrame fracassou em entrar na favela do Alemão. A pacificação reverteu o jogo. As UPPs reduziram a violência entre 2008 e 2013. O número de autos de resistência caiu 66%. O Comando Vermelho perdeu território. Agora, eles estão reconquistando muito do que tinham antes.

Por que o jogo virou? Não há como comparar o quadro econômico que existia entre 2008 e 2012 com o atual. É o oposto. Naquela época, o Brasil estava bem economicamente. Havia uma confluência de fatores. O empresário Eike Batista até doou 20 milhões de reais às UPPs. O problema começou quando o projeto passou a crescer demais. Acredito que as UPPs foram vítimas do próprio sucesso. No início, elas não eram muito custosas. Dois ou três anos depois, já tinham se expandido de forma descontrolada. Como tinham funcionado bem, foram colocadas em vários lugares. Mas esse é um programa caro, que consome muita mão de obra policial e especializada. Para funcionar, a UPP precisa de recrutas novos. Não pode contar com aquele policial militar que está há muitos anos na corporação e já foi contaminado pela corrupção. As novas favelas que foram pacificadas eram enormes, como a do Alemão, a da Maré. Eram muito maiores que as da Zona Sul, como a Dona Marta. Os custos se expandiram enormemente. Quando veio a crise econômica no Brasil inteiro, o orçamento estourou.

Países como o Brasil, o México e a Colômbia nunca conseguirão acabar com o tráfico? Na área de segurança, existem três objetivos que não podem ser atacados com total intensidade ao mesmo tempo: o tráfico de drogas, a corrupção policial e a violência. Eles são como uma trindade profana. Não dá para combater as três coisas ao mesmo tempo. É preciso decidir antes qual é a mais importante e investir nela. Ao fazer isso, contudo, é possível que outra acabe aumentando. Das três, a mais importante, na minha opinião, é a violência. Não sei como isso não é óbvio para todo mundo. O fato de alguém comprar e consumir maconha e cocaína não se compara com um tiroteio, com o risco de as crianças não conseguirem ir à escola — todo esse caos que há no Rio. Em toda a história, não existiu até hoje uma sociedade que tenha acabado totalmente com o consumo de drogas. Talvez o Talibã, no Afeganistão, tenha conseguido isso durante um tempo, com as medidas mais repressoras que se possam imaginar. Para mim, a violência é o pior mal de todos. É melhor minimizar a violência e aceitar certo nível de tráfico, desde que esse não seja violento. Uma guerra militarizada no meio da cidade maravilhosa é intolerável.

A guerra de facções que existe no Brasil tem paralelo com outros países? Passei uns seis meses no Brasil em 2017 visitando vários estados para estudar a expansão do PCC, do Comando Vermelho e de facções locais. Fui para o Amazonas, o Ceará, o Rio Grande do Norte e Santa Catarina. O país inteiro está sendo atingido por isso. É um fenômeno brasileiro. Existem gangues prisionais nos Estados Unidos que, em certos aspectos, se parecem com as facções brasileiras. Também há os Maras, em El Salvador. Mas não há nesses países uma organização como o PCC, tão grande, bem estruturada e capilarizada, com tanta capacidade de se expandir.

O que atraiu a sua atenção na forma como as facções brasileiras funcionam? A capacidade que elas têm de controlar a criminalidade na rua a partir das prisões. Isso, a expansão das facções, acontece, entre outras razões, porque há um encarceramento massivo no Brasil. Existem muitas prisões em vários lugares do país.

Como assim? Como há muitos presídios e muitos homens encarcerados, o crime organizado pode recrutar muita gente. Na megarrebelião de 2006, o PCC tomou conta de cerca de noventa cadeias em São Paulo. Uma organização só pode controlar noventa cadeias quando existem noventa cadeias à disposição em algum lugar. Se o sistema carcerário fosse menor, essa capacidade de recrutamento seria menor. Além disso, muitos jovens pobres vivem com a expectativa de que um dia serão presos. Se eles forem negros ou pardos e viverem na periferia, essa possibilidade é ainda mais alta. O encarceramento massivo dá a eles todo o incentivo do mundo para que queiram chegar à prisão já conhecidos. Para não ter problemas na cadeia no futuro, eles acatam as ordens e as regras das facções antes mesmo de serem pegos pela polícia e julgados.

O senhor dá aulas na Universidade de Chicago, que fica muito perto do perigoso bairro de South Side. Como é a criminalidade ali? A Zona Sul de Chicago é muito associada à população negra. Na cidade, a violência tem escalado nos últimos anos, seja porque há brigas entre gangues, seja por causa de problemas com os agentes de segurança. Há várias denúncias de violência policial. Um oficial foi gravado matando um cidadão com dezessete tiros. Alguns dizem que a polícia também está usando a tortura. A violência entre gangues está associada ao tráfico de drogas e a enfrentamentos com a polícia. É uma coisa paradoxal. O câmpus da Universidade de Chicago é lindo. Parece Oxford. Se alguém caminhar quatro ou cinco quadras ao sul, no entanto, verá casas malcuidadas ou abandonadas, que às vezes são usadas para vender drogas.

Qual abordagem tem funcionado melhor em Chicago? Nos Estados Unidos, a repressão também é feita de forma a tentar condicionar o comportamento dos criminosos. Por aqui, é extremamente raro que eles atirem contra um policial ou que matem um policial. A razão para isso é que, quando acontece algo assim, toda a corporação vai atrás do autor. Qualquer traficante, de qualquer esquina, sabe que, se investir contra a polícia, a vida dele acabou. Outra medida é tentar coibir as disputas entre as gangues. Já foram propostos alguns acordos de cessar-fogo em Boston e em Chicago. A lógica é a mesma: os traficantes que atuavam em determinadas zonas estavam sujeitos à repressão normal, mas, se houvesse mortes em alguns bairros, os policiais iam com tudo. E isso funcionou.

Publicado em VEJA de 13 de dezembro de 2017, edição nº 2560 - Folhas Amarelas.
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Foto por - Nima Taradji/POLARIS//
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/adeus-as-armas/08/12/2017

A paz que todos desejamos

  MILTON SELIGMAN*
 U.S. President Donald Trump holds up the proclamation that announces the United States recognizing Jerusalem as the capital of Israel and moving its embassy there, during an address from the White House in Washington, U.S., December 6, 2017. REUTERS/Kevin Lamarque ORG XMIT: WAS202
da realidade. 

Em 1949, um ano após a fundação do moderno Estado de Israel, Jerusalém tornou-se oficialmente a capital do país. É lá que se encontram instituições como o Parlamento, a Suprema Corte, os ministérios e os gabinetes do primeiro-ministro e do presidente. 

Essas instituições, é importante ressaltar, situam-se na parte ocidental da cidade, de população quase totalmente judaica, que faz parte do território israelense desde a fundação do Estado de Israel —precedendo, portanto, o conflito de 1967 e sem contestação internacional sobre a soberania israelense na área. 

Há mais de 3.000 anos, Jerusalém tem sido o centro da vida judaica. Mesmo nos períodos em que não havia liberdade religiosa na cidade, os judeus da diáspora lembravam sua cidade dourada. 

Atualmente, as três religiões monoteístas podem ser exercidas em sua plenitude, e cada religião, inclusive, administra os seus próprios locais sagrados dentro da Cidade Velha. 

Mesmo sendo um reconhecimento de matéria de fato, infelizmente a realidade costuma passar ao largo das discussões sobre Israel e seu conflito com uma vizinhança hostil que, desde sempre, não só nega qualquer direito judaico naquela região como, em boa parte, promete destruir o país. 

As ameaças seguem muito vivas. O Irã e as milícias terroristas armadas e guiadas por Teerã, por exemplo, costumeiramente prometem destruir Israel, sem que isso cause condenação ou comoção relevante por parte da comunidade internacional. Na sexta-feira passada (8), essas ameaças voltaram a ser repetidas

O desejo de derrotar militarmente Israel, tentado sem sucesso desde a promulgação da partilha pela ONU, em 1947, deu lugar a uma interminável campanha difamatória, baseada em acusações falsas e contaminada pelo velho e invencível antissemitismo. 

Diante dos indignados protestos de várias partes do mundo contra a decisão de Trump —muito reforçados pela própria impopularidade global do presidente americano—, Israel e os judeus ficam se perguntando onde está essa indignação quando uma organização multilateral como a Unesco (braço de cultura e educação das Nações Unidas) aprova resoluções negando qualquer ligação do povo judeu com a sua capital eterna. 

Entretanto, essa "blitzkrieg" permanente para isolar Israel e atacá-lo de forma irracional não tem sido boa estratégia para aqueles que querem a paz. 

Na verdade, ela tem sido uma das maiores causas do impasse nas negociações que deverão, é sempre bom lembrar e ressaltar, ter como resultado a criação de um Estado palestino que conviva em paz lado a lado com Israel. 

Quanto mais Israel se sentir ameaçado por um mundo hostil e indiferente às suas legítimas aspirações e necessidades de segurança, menos os israelenses e os governos que democraticamente os representam estarão dispostos a fazer concessões difíceis, de alto risco, mas necessárias para o processo de paz. 

Nesse sentido, o gesto do governo dos Estados Unidos, que, além de cumprir promessa de campanha, segue lei sancionada pelo Congresso americano em 1995, pode ajudar a aumentar a sensação de segurança de Israel e contribuir para a paz na região. 

O povo judeu, ao longo dos séculos, nunca teve outra capital e sempre orou por Jerusalém. A recente decisão de Washington reconhece essa realidade histórica, sem que isso signifique impedimento real algum para se alcançar uma paz justa e duradoura naquela sofrida região. 

Quanto mais Israel estiver seguro e for aceito e compreendido pela comunidade internacional, mais rápido virá a paz que todos nós tanto desejamos. 
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*MILTON SELIGMAN, ex-ministro da Justiça (1997, governo Fernando Henrique Cardoso), é diretor da Confederação Israelita do Brasil (Conib) 
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2017/12/1942010-a-paz-que-todos-desejamos.shtml

domingo, 10 de dezembro de 2017

É em volta da mesa que a gente vive os melhores momentos

 Claudia Tajes*

Obra: Reprodução/ Van Gogh
 Obra: Reprodução/ Van Gogh

É em volta da mesa que muitos dos melhores momentos que a gente vive ficam guardados em alguma caixinha da memória. O sabor, o cheiro, a mão de alguém na sua pela primeira vez. A cada almoço, a cada jantar, a mesa pode ser um país desconhecido onde quem chega nunca sabe ao certo o que vai encontrar.

Mesa lembra comida de vó e de mãe. E agora que a cozinha deixou de ser território exclusivo das mulheres – muitas só pisavam lá por obrigação, diga-se –, a mesa também já está lembrando comida de pai, de avô, de namorado, de marido, de filho. Na minha família sempre foi assim. Se para a mãe a cozinha era uma tortura que se traduzia nos pratos que ela nos oferecia, as receitas do pai transformavam a segunda-feira mais ordinária em dia de luxo.

Mesa também é igual a aniversário. Muitos amigos, poucos amigos, só a família, um batalhão, depende da popularidade – ou da discrição – de quem comemora. Houve um tempo em que o aniversariante levava os convidados ao restaurante e pagava tudo para todos. Atualmente, só ganhando na Mega Sena da virada. Uma coisa que me perturba nos aniversários em certos restaurantes é quando uma horda de garçons irrompe com velas acesas em um bolo, batendo palmas e cantando o Parabéns com o alcance vocal dos Três Tenores. Muito cliente já deve ter se engasgado com a costela nessa hora. Há o aniversariante que se constrange um pouco, há o que curte e se diverte. É o que importa. Quem tem que gostar é ele, não a vizinha chata da mesa ao lado.

Mesa é romance. Quanta simpatia não virou amor entre um risoto de funghi e um brownie com sorvete? Pedindo entrada e cafezinho, então, quantos não tiveram tempo de comprovar que gostariam de estar com a pessoa do outro lado da mesa pelo resto da vida? Dependendo da eternidade para a maquininha de cartão chegar, deu tempo até de planejar as reformas no apartamento dela, necessárias para quando a cadelinha dele, chamada Luna, mudar para lá com o dono.

É na mesa, também, que grandes negócios são fechados – mesmo que, na manhã seguinte, passado o efeito do vinho, a gente caia na realidade e desista de dar o peitaço que vai nos tirar de vez da vida de assalariados. Isso quando se está recebendo salário, claro. Não faz mal. Enquanto duraram os planos, apenas de pensar em não ver a cara do chefe todos os dias, todo mundo foi feliz. Mesa é, pois, felicidade.

Mas mesa, óbvio, não é só delicadeza. O que se faz de tramoia e maracutaia em volta dela não é para amadores. Esses lautos jantares que o Temer oferece aos políticos da sua base em troca de apoio para isso e aquilo, por exemplo. Coitados daqueles aspirantes a vereador que ofereciam um sanduíche de apresuntado para quem votasse neles. Agora, os menus são muito mais elaborados, sempre tem salmão e, de preferência, alguma receita com tapioca para conferir a brasilidade que a ocasião exige. Muitos dos candidatos que distribuíram sanduíches para o eleitorado foram escorraçados da política – e com razão – por más práticas. Mas o que dizer do presidente que, na cara dura, enche a barriga dos parlamentares nos convescotes em que o cardápio somos nós?

Seja como for, o Natal e o Ano-Novo já batem na porta. E com essa tendência de não pagar mais o 13º salário para funcionários que trabalharam o ano todo, as chamadas festas não são lá grande motivo de festa para muitas pessoas. Explicar para o filho que o presente não vem, vender muito menos que o esperado, contrair dívidas novas. Não que vá resolver, mas parece que a única coisa a fazer é reunir todo mundo em volta de uma mesa e ficar junto, bem junto de quem se gosta. Porque os problemas não desaparecem quando uma fatia de peru se desmanchando depois de horas no forno aterrissa no prato. Mas que ajuda a guardar boas lembranças de um ano que está pedindo para ser esquecido, ah, isso ajuda.
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* Escritora.
Fonte:  http://revistadonna.clicrbs.com.br/coluna/claudia-tajes-e-em-volta-da-mesa-que-gente-vive-os-melhores-momentos-claudia-tajes/ 09/12/2017

Clara Averbuck faz uma mixagem de seus superpoderes com seus supervacilos

Martha Medeiros*

Ilustração: Gilmar Fraga
 
Sempre gostei da literatura de estilhaços, aquelas publicações meio guerrilheiras feitas pelos chamados outsiders, se é que ainda se usa essa palavra. Livros contendo versos soltos, confissões durante ressacas, palavras com gosto de álcool e fumaça, súplicas desesperadas para amores que não deram certo, tudo misturado com fotos, ilustrações, manuscritos, enfim, um álbum de figurinhas da solidão do autor, e da nossa também.

No início dos anos 1980, havia fartura desses desabafos poéticos e mergulhos na alma, uma espécie de panfletagem da liberdade que me fazia sentir representada e compreendida. Caio Fernando Abreu, Charles Bukowski, Roberto Freire (o de Sem Tesão Não Há Solução), Luciano Alabarse (que na época publicava uns livrinhos bacanas de forma independente) e poetas como Cacaso, Ledusha, Chacal, Leminsky, Alice Ruiz e Ana Cristina Cesar eram a minha turma da porta do quarto pra dentro. Com eles eu embarcava num tour pelas entranhas, as minhas e as deles.

Não tenho visto muito disso. A rebeldia anda mais asséptica, os sentimentos menos intensos. Tudo vira uma postagem rápida e nem dá tempo de pensar sobre o que acontece dentro da gente.

Acho que é por isso que eu sempre gostei do trabalho da Clara Averbuck. Porque, mesmo sendo uma mulher do aqui e agora (ativista, empoderada, com presença forte nas redes), ela mantém vivo o espírito outsider, é uma Rê Bordosa clássica, atemporal. Acabei de ler Toureando o Diabo, seu livro de 2015, mas que poderia ser de 1979 ou de 2036, já que ela escreve sobre uma sensação de abandono que, vitalícia, nunca nos abandona. Clara faz uma mixagem de seus superpoderes com seus supervacilos – um tributo à ambiguidade. E lá vamos nós, com ela, embarcar na viagem alucinante das emoções e reconhecer a potência do sexo, do desejo, de tudo que é ilógico, que subverte, enlouquece, desestabiliza, de tudo que seduz, que nos encanta, que faz sofrer, que nos arrebata, enfim, desse caos que atende também pelo nome de amor.

Neste mundo de bilhões de seres conectados, eu espicho o olho para quem, sem medo, escancara sua perdição, sua atrapalhação, sua indefinição. Adoro bilhetes de S.O.S., mensagens dentro de garrafas, confidências literárias que parecem conversas de fim de festa, que provocam o mesmo calafrio de quando a gente se apaixona à primeira vista.

A paixão é sempre um ato de sobrevivência. Clara é uma apaixonada pelas buscas – quem não? Alguém já encontrou a resposta definitiva para o que está fazendo aqui?

Enquanto a gente tenta levar uma vida organizada e a salvo de espantos, os outsiders se jogam, toureiam o diabo e nos ajudam a pensar sobre o que nos acontece dentro. Um olé para essas mulheres perfeitamente imperfeitas e meio kamikases, que não perdem a coragem e brigam pela sua voz.
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* Escritora.
Fonte:  http://revistadonna.clicrbs.com.br/coluna/martha-medeiros-clara-averbuck-faz-uma-mixagem-de-seus-superpoderes-com-seus-supervacilos/

Richard Thaler. Damos importância demais ao presente (e isso é um erro): este Nobel explica o por quê

Richard Thaler, nobel de economia

Richard Thaler, professor da Universidade de Chicago. AFP

Esta é a história do Nobel de Economia, Richard Thaler, que lançou as bases de uma ciência mais ‘real’



Tudo começou com uma lista de “coisas absurdas que as pessoas fazem” escrita em um quadro-negro. Richard Thaler, laureado com o prêmio Nobel de Economia nesta segunda-feira, andava entediado com a carreira que havia escolhido e tentava se divertir observando o mundo à sua volta e fazendo perguntas como Por que alguém atravessa a cidade para economizar 30 reais em um rádio de 120 reais, mas não se anima a percorrer essa distância para economizar a mesma quantia na compra de um televisor de 1.850 reais?



Seu orientador não esperava muito dele com esse tipo de questionamento. Thaler se divertia vendo a irritação de muitos colegas economistas com suas perguntas enquanto tentava encontrar uma forma de investigar os temas que lhe chamavam a atenção. Tudo mudou no dia em que descobriu na biblioteca um estudo de dois psicólogos israelenses, Daniel Kahneman e Amos Tversky. Viraram seus ídolos. Thaler foi até a Califórnia para conhecê-los. Conseguiu ficar um ano ali como professor. Os três se tornaram muito amigos e começaram a colaborar. Foi o início de um dos capítulos mais relevantes do making of do que hoje se conhece como economia do comportamento: a fusão da economia com a psicologia.

Quarenta anos mais tarde, em 4 de janeiro de 2016, na sala Continental do hotel Hilton de San Francisco, Thaler proferia sua última conferência como presidente da Associação Norte-americana de Economia. “Os loucos estão no comando do hospício!”, brinca o professor quando recorda sua nomeação à frente da prestigiada instituição. O título de sua palestra era: “Economia do comportamento: passado, presente e futuro”.

Thaler argumentou que estava na hora de passar para um enfoque mais construtivo. A teoria econômica neoclássica precisava abrir os olhos para o fato de que seu estudo estava centrado na existência de uma “criatura mitológica” chamada Homo economicus. O mundo real é habitado por pessoas que nem sempre tomam as melhores decisões, ou as mais racionais. São simplesmente humanos.


O ambiente, a forma e a ordem em que as opções nos são apresentadas também influenciam nossa decisão: são os chamados fatores supostamente irrelevantes

“Depois da Segunda Guerra Mundial tentou-se dar rigor matemático à economia, mas a profissão parece ter perdido a intuição sobre o comportamento humano. Nos textos de economia não há mais humanos. Como isso pôde acontecer?”

Os pontos-chave dessa conferência estão reunidos em um estudo que resume muito bem a trajetória profissional de Thaler e suas principais ideias (bem como os argumentos apresentados por seus colegas para justificar como vinham fazendo as coisas). O vencedor do Nobel de Economia deste ano recorre à física para explicar o que acontecia:

“As pessoas começam a estudar física analisando o comportamento dos objetos no vácuo; a atmosfera pode ser acrescentada depois. Em vez de negar a existência ou a importância do ar, os físicos trabalharam para construir modelos mais complexos. Durante muitos anos, os economistas reagiram às dúvidas sobre o realismo de seus modelos fazendo o que equivaleria a negar a existência do ar ou sua importância.”

Preferimos comprar algo que nos satisfaça hoje em vez de um ganho futuro. Essas preferências podem nos levar 
a decisões pouco coerentes


O que Thaler propunha era abrir as janelas para deixar o ar entrar, e não tirar os móveis da sala. Era preciso aprimorar a teoria já existente. Aumentar a complexidade do modelo com a evidência dos dados e das reações humanas. Era preciso começar reconhecendo os pontos fracos do sistema.

Todas as decisões são iguais?

No modelo tradicional não havia níveis de dificuldade, por assim dizer. Uma pessoa precisava ser igualmente racional tanto decidindo o número de ovos do café da manhã como a quantidade de poupança necessária para a aposentadoria. Os ortodoxos se defendiam argumentando que o que a teoria dizia era que as pessoas prestariam mais atenção às decisões mais importantes e se comportariam “como se fossem especialistas”. Se não fossem, acabariam aprendendo com a prática. Thaler discordava.

“Consideremos a seguinte lista de atividades econômicas: decidir quanto leite comprar no mercado, escolher um suéter, comprar uma casa, escolher uma profissão, quanto poupar… É verdade que a prática melhora os resultados na maioria das atividades. Muitas famílias chegaram a dominar a arte da gestão do estoque de leite com base em tentativa e erro. Mas poucos de nós compramos carros com frequência suficiente para ficarmos bons nisso. Nas grandes decisões há pouco espaço para a aprendizagem.”

O falso movimento da mão invisível

Outra linha de defesa da teoria era que, quando as coisas não saíam como se esperava, os mercados corrigiriam a situação. Como em um passe de mágica imporiam a sabedoria que faltava aos humanos.
“Acredito que a ideia de que os mercados acabarão com os comportamentos aberrantes mostra que falta entendimento sobre a maneira como os mercados funcionam. Consideremos duas estratégias possíveis para duas empresas em relação a consumidores que estão cometendo erros (como pagar a mensalidade da academia para ir duas vezes por mês). As empresas podem tentar ensinar a esses consumidores qual é o custo de seu descuido ou podem pensar em uma estratégia para ganhar com essa situação. Esta última opção sempre será mais rentável.”

Antes da crise, alguém ficou rico dizendo às pessoas para não comprar uma casa ou não fazer o financiamento porque não poderia pagar? Não existe, portanto, um Panoramix com uma poção mágica dos mercados que transforme um Homer Simpson irracional e impulsivo em um Dr. Spock frio, calculista e brilhante.

Além disso, é bastante habitual que os seres humanos venham com um defeito de fábrica chamado viés do presente. Tendemos a dar mais peso ao presente em nossas decisões e acabamos cometendo erros. Preferimos comprar algo que nos satisfaça hoje em vez de um ganho futuro. Essas preferências podem nos levar a decisões pouco coerentes ou irracionais.

O ambiente, a forma e a ordem em que as opções nos são apresentadas também influenciam nossa decisão. São os fatores supostamente irrelevantes (SIFs, supposedly irrelevant factors). A poupança para a aposentadoria é um dos terrenos onde mais se documentou a relevância desses fatores “irrelevantes”. Segundo a teoria, as pessoas deveriam saber qual seria seu consumo ideal no futuro e definir um plano de poupança e investimento que levasse em conta a probabilidade de se divorciar ou adoecer. “Essa decisão faz uma partida de xadrez com um campeão mundial parecer fácil. O xadrez não tem incerteza nem problemas de autocontrole que ofusquem o resultado. Apesar disso, com a ajuda de alguns SIFs, pudemos ajudar as pessoas nessa pesada tarefa.” Um exemplo seria estabelecer a opção de poupar uma quantidade definida todo mês. Isso seria um pequeno empurrão para alcançar o objetivo (ou nudge, o termo que Thaler cunhou junto com o advogado Cass Sunstein). É uma de suas contribuições práticas mais relevantes.

“Chegou a hora de adotar a economia baseada na evidência. Isso não deveria ser difícil de vender. Os economistas usam as técnicas mais sofisticadas da estatística e têm acesso a poderosas bases de dados. Nesse contexto, a economia do comportamento é apenas uma parte do importante trabalho empírico que está sendo realizado.”

Thaler encerrou sua palestra e passou a palavra a outro “louco”: Robert Schiller, também laureado com o Nobel por um enfoque semelhante aplicado ao campo das finanças.
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Reportagem por   
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/10/economia/1507644381_971684.html?rel=mas

Martin Wolf: “A recessão democrática leva a acreditar em autoritarismos”

Martin Wolf: “A recessão democrática leva a acreditar em autoritarismos”

O colunista do ‘Financial Times’ alerta que o crescente desapego à democracia no mundo alimenta “a reação tribal e nacional”

Martin Wolf (Londres, 1946), chefe da seção de opinião econômica do jornal britânico Financial Times, participou no mês passado em Sant Cugat (Barcelona) de um simpósio do Instituto Aspen e da universidade Esade. Concedeu esta entrevista armado com um café puro duplo e uma eloquência transbordante. Sua única condição: não falar da crise independentista na Catalunha.

Pergunta. Que pontos em comum o senhor detecta entre os movimentos que questionam o modelo da democracia ocidental no mundo?
Resposta. Esses movimentos têm um fundo mais político do que econômico. Há 10 anos eu esperava uma maior hostilidade contra o capitalismo e menor contra a democracia liberal. No entanto, contra o capitalismo houve um movimento débil, que se estancou agora. O protecionismo de Donald Trump continua me preocupando, mas a antiglobalização e o anticapitalismo são muito fracos em comparação com os anos trinta do século passado. Por exemplo, foram pouco limitados os movimentos de capitais e só houve uma pequena regulação do sistema bancário. É verdade que não foram dados novos passos para a liberalização dos mercados, mas também não houve um enorme crescimento do protecionismo. O prestígio dos políticos parece ter caído mais que o do sistema econômico.

P. Quando terminou a Guerra Fria, diminuíram as intromissões em outros países.
R. É verdade que o ocidente já não precisava defender o capitalismo apoiando homens fortes, mas também havia a percepção de que a democracia era um movimento de sucesso e de bons resultados. Larry Diamond, um dos grandes estudiosos da democracia, destaca que entre 1989 e 2007 cresceu o número de democracias no mundo: não eram perfeitas, mas foram muitos os países que adotaram esse sistema político, não só os do antigo bloco do Leste, mas também da América Latina e da África. No entanto, desde 2006, segundo a Freedom House, o número de democracias diminuiu. Podemos ver uma clara redução dos valores democráticos em todo o mundo, inclusive nas jovens gerações dos países desenvolvidos. Vários acadêmicos de prestígio escrevem sobre o que chamam de “recessão democrática”. As gerações de pós-guerra como a minha têm maior apego à democracia como princípio do que as jovens. Há uma recessão global da democracia, o que leva à crença em autoritarismos. E como a esquerda continua muito desacreditada, a maioria desses autoritarismos vem da direita. A globalização era de certa forma percebida como um movimento homogêneo que traria uma cultura global. Há uma reação nacional, tribal, religiosa, simbólica contra essa globalização, principalmente da direita.

P. O senhor não vê movimentos populistas também da esquerda?
R. A característica mais habitual dos populismos não é a ideologia, e sim a fé em um líder carismático. As diferenças entre Hugo Chávez e Donald Trump são enormes ideologicamente, mas o atrativo comum é “eu sou o líder; se você me apoiar, mudarei tudo”. Nesses movimentos é frequente o discurso contra o sistema democrático. A maior parte é de direita, com exceções como o chavismo. Para a maioria das pessoas, isso é tolerável, e vemos isso no Reino Unido, porque consideram que a esquerda fracassou. Na hostilidade contra a globalização, em questões de nacionalismo, a opção é a direita.

P. O senhor escreveu que o prestígio político fica particularmente abalado com o Brexit. Considera possível que não se chegue a nenhum tipo de acordo com a União Europeia?
R. É mais que possível, é provável, sim.

P. Mesmo sendo uma situação negativa para todas as partes?
R. Hoje o Reino Unido está muito dividido. A sociedade, o Governo e a oposição estão divididos. Se não alcançarmos um acordo, o impacto econômico no curto e médio prazo será muito negativo; no longo prazo, será negativo. Os partidários do Brexit culparão os europeus e também aqueles que estão no poder por não conseguir chegar a um acordo.

P. Lembro-me de algumas palavras suas assinalando que “quando a política soma zero, as pessoas começam a olhar para fora”.
R. Os partidários do Brexit acusarão quem está contra; os trabalhistas culparão os conservadores, e com bastante razão. O país acabará ficando mais tenso e dividido do que está agora. Na Europa também haverá perdas, mas serão menores. A maioria dos europeus dirá que tudo é culpa dos britânicos, não se sentirão responsáveis e provavelmente não será um assunto de divisão na UE. Começou um processo que terá consequências danosas para o Reino Unido e deixará danificadas as relações com a UE. Mas a Europa superará bem isso.

P. Há muitos anos que analistas como o senhor preveem uma crise na China pelo desequilíbrio entre sua liberalização econômica e sua ditadura política. No entanto, ela não chega.
R. A China tem mantido a demanda graças a um extraordinário nível de investimento, expandindo o nível de crédito e de dívida a grande velocidade. O retorno desse investimento tem caído, a margem é zero ou negativa. No longo prazo, é insustentável. O problema mais grave da China é a redução substancial do crescimento. Também há uma incompatibilidade fundamental entre o fortalecimento de um Estado autocrático e a abertura para uma nova fase que permita um crescimento rápido durante os próximos 30 anos. E a dependência do crédito é cada vez maior, porque a economia não se reforma. Com o tempo, a máquina econômica pode reduzir sua velocidade, o poder central do partido pode aumentar, e poderíamos ver como a China, em 20 ou 30 anos, começa a declinar, como aconteceu com a União Soviética. Se ocorrer isso, será gerada uma crise política. O que querem construir em 30 anos é uma autocracia que administre uma economia de mercado, a maior e a mais avançada do mundo. Mas, se você analisa a história, é normal ser cético.

P. O senhor disse que a Espanha é um exemplo de história de sucesso colocando em prática reformas estruturais para sair da crise. Por quê?
R. O PIB por habitante é mais ou menos o mesmo que há 10 anos. Uma década perdida. Mas o crescimento da produtividade antes da crise era próximo de zero, e agora é maior. Antes da crise havia um déficit externo de 10% do PIB, e agora há superávit. As duas coisas indicam ajustes estruturais extraordinários, maiores do que eu havia esperado da Espanha levando em conta sua história. Isso ocorreu por causa de reformas no mercado trabalhista que permitiram aumentar a produtividade. A competitividade melhorou muito, o que facilitou um grande crescimento das exportações, uma menor dependência do crédito e um controle do déficit. Mas isso não teria sido possível sem a recuperação da economia global e a ação do Banco
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Fonte:  https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=1573693655200632246#editor/target=post;postID=4499346357697719450

A TECNOLOGIA É MÁ?

DAVID BROOKS*

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A CONECTIVIDADE É ÚTIL PARA O ENTRETENIMENTO, MAS PODE CAUSAR DEPENDÊNCIA E NÃO CONTEMPLA AS FORMAS MAIS PROFUNDAS DE CONSCIÊNCIA



Pouco tempo atrás, a tecnologia era a indústria mais legal. Todos queriam trabalhar no Google, no Facebook e na Apple. No último ano, essa atitude mudou. Agora, há quem acredite que a tecnologia seja semelhante à indústria do tabaco - corporações que ganham milhões de dólares impulsionando um vício destrutivo. E há quem acredite que seja como a NFL, a liga nacional de futebol americano: milhares de pessoas adoram, mas todos sabem os estragos que causa às pessoas. Obviamente, o pessoal da tecnologia - que geralmente procura melhorar o mundo - não quer seguir esse caminho. Será interessante observar se irá tomar as atitudes necessárias para impedir que suas empresas se transformem em párias sociais.

Há três críticas primordiais às grandes companhias de tecnologia. A primeira é que ela está destruindo a juventude. As redes sociais prometem acabar com a solidão, mas, na verdade, promovem o aumento do isolamento e uma intensa sensação de exclusão social. Mensagens de texto e outras tecnologias lhe dão mais poder sobre sua interação social, mas também levam a interações mais frágeis e menos engajamento com o mundo real. Como escreveu a psicóloga Jean Twenge, desde a popularização dos smartphones, os adolescentes estão menos propensos a sair com os amigos, a namorar e a trabalhar.

Alunos do oitavo ano do Ensino Fundamental que passam 10 horas ou mais em redes sociais têm 56% mais tendência a dizer que são infelizes do que os que passam menos tempo. Esses alunos que são usuários constantes de redes sociais têm um risco 27% maior de desenvolver depressão. Adolescentes que passam três horas ou mais em aparelhos eletrônicos são 35% mais propensos a exibir um comportamento suicida, criando, por exemplo, um plano para se suicidar. Meninas são especialmente afetadas, com um aumento de 50% nos sintomas de depressão.

A segunda crítica a essa indústria da depressão é que ela está viciando as pessoas de propósito para ganhar dinheiro. As empresas de tecnologia sabem o que causa surtos de dopamina no cérebro e mostram seus produtos com "técnicas de sequestro" que nos atraem e criam "laços de compulsão".

O Snapchat tem o Snapstreak, que recompensa amigos que trocam snaps todos os dias, encorajando assim o comportamento viciante. Feeds de notícias são estruturados como poços sem fundo, nos quais uma página leva a outra, e a outra, e assim por diante, sem fim. A maioria das redes sociais cria recompensas dadas em intervalos irregulares de tempo; você precisa checar seu aparelho compulsivamente porque nunca sabe quando haverá uma explosão de afirmação social gerada pelas curtidas do Facebook.

A terceira crítica é que Apple, Amazon, Google e Facebook são quase monopólios que usam seu poder de mercado para invadir as vidas privadas de seus usuários e impor condições desleais a criadores de conteúdo e concorrentes menores. O ataque político nessa frente está ganhando força.
Obviamente, a jogada inteligente seria a indústria da tecnologia sair na frente e limpar sua própria poluição. Há ativistas como Tristan Harris, do Time Well Spent ("tempo bem gasto", em tradução literal), que está tentando levar o mundo da tecnologia para a direção certa. Há também algumas boas respostas de engenharia. Eu uso um aplicativo chamado Moment, que rastreia e controla meu uso do telefone.

O grande avanço chegará quando os executivos de tecnologia reconhecerem claramente a verdade central: seus produtos são extremamente úteis para as tarefas e lazer que exigem formas de consciência mais superficiais, mas muitas vezes dominam e destroem as formas mais profundas de consciência - das quais as pessoas necessitam para prosperar.

O mundo online é um lugar para o contato humano, mas não para a intimidade. É um lugar de informação, não de reflexão. Fornece o primeiro pensamento estereotipado sobre algo ou alguém, mas é difícil criar o tempo e o espaço para o 3º, o 15º e o 43º pensamentos.

O mundo online é um lugar para a exploração, mas desencoraja a coesão. Ele assume o controle de sua atenção e a dispersa por uma vasta gama de entretenimento. Porém, nos sentimos mais felizes quando levamos nossas vidas com uma meta, quando focamos a atenção e a vontade em uma coisa, com todas as nossas forças.

O rabino Abraham Joshua Heschel escreveu que fazemos uma pausa das distrações do mundo não como um descanso que nos dá mais força para voltar, mas como o clímax da vida. "O sétimo dia é um palácio no tempo que construímos. É feito de alma, alegria e reticência", disse ele. Ao diminuirmos a quantidade de trabalho e o uso da tecnologia, entramos em um estado de consciência diferente, uma dimensão do tempo e uma atmosfera diferentes, uma mina na qual o metal precioso do espírito pode ser encontrado.

Imagine se, ao invés de reivindicar o papel de nos oferecer as boas coisas da vida, a tecnologia se visse como fornecedor de dispositivos eficientes. Suas inovações podem nos poupar tempo em tarefas de nível inferior para que possamos ficar offline e experimentar o que a vida nos dá de melhor. Imagine se a tecnologia se propusesse a fazer isso. Esse seria um show de humildade, que, hoje em dia, é a tecnologia de ponta mais problemática.
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* Colunista de política e ciências sociais do jornal The New York Times
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=6df53cef666327a334686e16b14d0faa 09/12/2017
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Quem sou eu

Lya Luft*

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Não foi a primeira vez que, em tantos anos, me perguntaram isso assim diretamente. "D. Lya, quem é a senhora?" ou: "Afinal, quem é Lya Luft?". 

Ah, eu queria saber. Ou não quero correr esse perigo? Desde menina, essa curiosidade: quem sou eu, quem somos nós, a família, os amigos, essas pessoas todas, o que faz o vento soprar, as nuvens ficarem vermelhas, a chuva cair, alguém adoecer? (Muito pequena, eu só sabia que morriam passarinhos e borboletas.) 

Quero saber, isso me interessa? O que sei, ou penso, é que sou cada dia, cada hora, cada riso, cada pranto, cada golpe, cada perda, cada carinho. Talvez nem queira descobrir, eu que tanto escrevi sobre esse mistério que somos todos nós, mergulhados num enigma infinito, e de vez em quando nos afogando nele. Não sei, de verdade. 

Mas, em geral, fui o que chamam uma pessoa legal. Nada de mais: péssima aluna, teimosa, pouco ambiciosa, que diferença fazia tirar o primeiro lugar na turma (isso naqueles tempos aparecia no boletim), ou a mais conversadeira, a que ria fora de hora, a que não prestava atenção? O bom mesmo era ser a mais divertida, e talvez aquela com alguns segredos. Por exemplo, as coisas que eu lia em casa, além das castíssimas revistas de amor, como Cinderela e outras. Pegava livros à vontade da biblioteca do pai, ou a da mãe, esta na sala. Romances na sala, teatro grego, filosofia, naturalmente Direito, no escritório do pai. Alguns, considerados "fortes", ficavam bem em cima, onde sem escada eu não alcançaria. Curiosidade e medo. Ao rés do chão, uma fileira longa de livrinhos amarelos, finos, capa mole, a série de histórias de detetive que meu pai dividia comigo e me fizeram gostar até hoje de séries como Criminal Minds ou SVU (não vivo só de Goethe ou Machado!). 

Colegas não tinham ideia dessas minhas leituras bizarras, que em geral eu nem entendia bem, mas achava - especialmente teatro grego - lindo todo aquele sofrimento. Volumes e volumes de história, que eu adorava, enquanto na escola não conseguia decorar as datas mais simples. Um velho professor certa vez disse que eu "aprendia pra trás", isto é, ou intuía na hora, ou, quanto mais me explicavam, menos entendia. Era verdade, e continua assim. 

Uma coisa eu sabia que era e sempre serei: amadora de livros. Quero ficar em paz acomodada na poltrona ou no sofá, pés em cima da mesinha (Melanie, minha mimadíssima spitz encolhida ao lado), lendo, lendo, lendo. Descobrindo que não há muitas respostas - mas o desejo de saber me mantém viva, apesar do assalto que arrancou sem anestesia um pedaço do meu coração recentemente. Primeiro, porque há toda essa família que eu amo, e eles a mim. Algumas amizades essenciais, que seguram minha mão ainda que pelo whats. O parceiro aguenta com delicadeza meu silêncio, a falta das bobagens e palhaçadas habituais, mas quem sabe elas retornam. E esse filho que se foi, para não sei onde, e que - isso eu acredito - ainda nos enxerga, nos ama, e não quereria ver sua mãe feito um trapo que mal sai da cama e passa o dia enrolada num velho robe. 

Por todos eles e, sim, pelo leitor que lê isto, e quem sabe vai ler este novo livro, meio órfão, A Casa Inventada - que acaba de nascer, eu devo ser alguma pessoa. Esta pessoa.
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* Escritora. Tradutora. Colunista da ZH
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=a706b4d72de0eae9e9682f3ba03adfd7 09/12/2017
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Sarah-Jayne Blakemore: “É possível mudar o cérebro dos adolescentes. O que é bom e mau”


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Entrevista Sarah-Jayne Blakemore

Os adolescentes precisam de ser “assim”, como são. De se afastarem dos pais, de se aproximarem dos amigos, de correrem mais riscos. Precisam de exercitar a autonomia, treinar a independência. É uma necessidade biológica adaptativa, constata a neurocientista Sarah-Jayne Blakemore, que estuda o (cada vez menos) misterioso mundo do cérebro do adolescente.

A neurocientista britânica Sarah-Jayne Blakemore costuma contar uma história para mostrar uma das muitas diferenças entre crianças e adolescentes. Quando os mais pequeninos se irritam, podemos tentar acalmá-los sugerindo cantar a sua canção favorita. E, muitas vezes, isso resulta. Para os adolescentes, esta estratégia pode ser usada em sentido contrário, constituindo nada mais, nada menos do que uma ameaça. “Ou paras de fazer isso ou canto aqui a tua canção favorita” é uma frase capaz de os travar pela vergonha.

Quando chegam à adolescência, os filhos afastam-se dos pais, aproximam-se do seu grupo de pares, correm mais riscos, são impulsivos. Além das hormonas, do ambiente e da genética, o seu cérebro está a mudar. Pode parecer óbvio, mas a descoberta de que o cérebro continua a desenvolver-se durante a adolescência, e não apenas durante os primeiros cinco anos de vida, é recente.

Uma boa parte dos créditos por esse conhecimento sobre a plasticidade do cérebro adolescente pertence à investigadora do University College de Londres que esteve em Lisboa numa conferência, organizada pela Fundação Manuel dos Santos, em homenagem a João Lobo Antunes, para falar sobre “O cérebro adolescente”. Graças às novas tecnologias que nos permitem espreitar para este misterioso mundo, sabemos hoje que é possível mudar o cérebro dos adolescentes. Mas ainda sobram muitas perguntas que nos podem ajudar a perceber como e o que fazer para um final (adulto) feliz. Numa entrevista ao P2, a cientista fala sobre o que aprendemos com as imagens cerebrais que denunciam as diferentes estratégias cognitivas nesta conturbada fase da vida. Ficam também alguns conselhos simples. É preciso que todos (pais e filhos) saibam que esta é uma fase de mudança e que é transitória. Recomenda-se ainda uma boa dose de paciência. Tanta (ou mais) como a que tivemos quando eles eram crianças.

O que mudou nos últimos anos sobre o que sabemos dos adolescentes?
Até há cerca de 20 anos havia muita coisa que não sabíamos sobre o cérebro dos adolescentes. Não tínhamos a tecnologia para olhar para dentro de um cérebro humano a funcionar e perceber como muda ao longo da vida. Não sabíamos quando o cérebro parava de se desenvolver. Nos últimos 20 anos, os cientistas têm sido capazes de usar técnicas como a ressonância magnética, funcional e estrutural, para despistar mudanças no cérebro de crianças e adolescentes. Essa investigação, que está a ser feita em todo o mundo, já mostrou que o cérebro não pára de se desenvolver na infância, mas, na verdade, continua a desenvolver-se, em termos de estrutura e funções, ao longo da vida. Durante a infância e também durante a adolescência e no princípio da fase adulta. 

Esse processo de desenvolvimento explica o comportamento de um adolescente? Correr riscos, afastar-se dos pais, ser influenciado sobretudo pelos seus pares.
Provavelmente. Até sabermos que o cérebro continua a desenvolver-se na adolescência, todos estes comportamentos típicos dos adolescentes eram atribuídos a alterações hormonais, mudanças no ambiente, sociais, esse tipo de factores. Agora percebemos que as mudanças de comportamento na adolescência são causadas por uma combinação de factores diferentes, incluindo mudanças muito substanciais no cérebro.

E o que podemos fazer com esse conhecimento?
É útil perceber que correr riscos, a consciência de si mesmo, a influência dos pares e a impulsividade, que são comportamentos mais evidentes na adolescência comparando com outras idades, acontecem por razões biológicas, adaptativas. Não é nada que os adolescentes tenham possibilidade de controlar. São coisas que precisam de fazer e o seu cérebro está a mudar de uma forma que permite que as façam. Estes comportamentos provavelmente coincidem com pressões evolutivas para que se tornem independentes dos pais, para explorar o ambiente que os rodeia, correr riscos, experimentar, para se ligarem aos seus pares, ao seu grupo, para que, eventualmente, muitos anos depois se tornem adultos independentes.

Até sabermos que o cérebro continua a desenvolver-se na adolescência, todos estes comportamentos típicos dos adolescentes eram atribuídos a alterações hormonais, mudanças no ambiente, sociais.

Mas podemos ajudá-los ou resta-nos ser pacientes?
Somos pacientes com as crianças, permitimos que se desenvolvam. Eu tenho dois filhos. Sei que permitimos que façam tolices, tomem decisões tolas, ajudamo-los, sentimos empatia, não esperamos que sejam completamente independentes e que tomem excelentes decisões para eles próprios. Precisamos de fazer isso com os adolescentes. É a mesma coisa. Eles também estão a passar por mudanças substanciais do seu desenvolvimento cognitivo. Como adultos, colocamos muito mais pressão e expectativas nos adolescentes do que nas crianças pequenas. Talvez porque os adolescentes se pareçam com adultos. Esperamos que se comportem como adultos e que tomem boas decisões e que sejam capazes de planear; todo o tipo de comportamentos que, na verdade, sabemos que ainda estão em desenvolvimento.

Por vezes, as coisas correm mal nesta altura da vida, seja na escola seja noutro tipo de situações mais graves, que envolvem crimes, drogas ou álcool. Como cientista, acredita que é possível interferir neste processo de desenvolvimento e, assim, prevenir ou reabilitar estes casos problemáticos?
Sim. As neurociências já mostraram que o cérebro dos adolescentes tem muita plasticidade, é possível mudá-lo. O que é bom e mau, ao mesmo tempo. É mau porque significa que, se o cérebro está a mudar na adolescência, os acontecimentos stressantes no ambiente que os rodeiam podem ser uma má influência para o desenvolvimento do cérebro. Mas também existe aqui uma oportunidade.

Na área da educação e da reabilitação?
Sim, é uma potencial oportunidade em que intervenções, aprendizagens, reabilitações terão um grande impacto, porque o cérebro ainda é maleável. Muito maleável. Se tivermos um adolescente que não teve muito bons resultados na escola primária, por exemplo, não é demasiado tarde para esperar uma mudança. O cérebro ainda se está a adaptar e a aprender.

Encontrou diferenças entre rapazes e raparigas?
Na verdade, não. Os estudos iniciais sobre o desenvolvimento cerebral sugeriam uma diferença de género. Isso foi há 17 anos. Desde essa altura, estudos com mais participantes, apoiados em técnicas de imagem com mais qualidade e melhores técnicas de análise, mostraram que, na verdade, essas diferenças de género não existem de forma evidente.

PÚBLICO -
Há 17 anos, estudos sobre o desenvolvimento cerebral sugeriam uma diferença de género. Agora, estudos com mais participantes, apoiados em técnicas de imagem com mais qualidade e melhores técnicas de análise, mostraram que essas diferenças não existem 

Mesmo olhando para fenómenos como a diminuição da matéria cinzenta e o aumento da matéria branca do cérebro que já se percebeu que ocorrem neste período da adolescência?
Sim, é quase a mesma coisa nos rapazes e nas raparigas. Acho que isso faz sentido, porque, mesmo que estejam lá, há tanta sobreposição entre os dois géneros que é muito difícil ver diferenças nas médias.

Então não há razão para dizer que as raparigas “crescem” mais rapidamente, são mais sensatas, mais “adultas”?
Essa é uma grande questão. Há tantos estereótipos de género nas culturas.

Isso é um estereótipo?
Não sei. Mas não há provas científicas que mostrem que isso não passa de um estereótipo. Embora, por outro lado, se saiba que há diferenças de género, por exemplo nas doenças mentais. A seguir à puberdade, a depressão é mais comum nas raparigas do que nos rapazes. O mesmo pode dizer-se para os distúrbios alimentares e automutilações. As adições, por outro lado, são ligeiramente mais comuns em rapazes do que em raparigas. Ou seja, há diferenças entre géneros, mas é muito difícil saber por que é que elas existem. Se isso é o resultado de diferenças hormonais... acho que parcialmente será por causa das hormonas, porque as diferenças de género revelam-se na puberdade, quando as hormonas estão a mudar.

Mas também pode ser, em parte, por causa das expectativas. As expectativas sociais para as mulheres são muito diferentes das que existem para os rapazes. Podemos ver isso de forma clara nos distúrbios alimentares, que, já agora, estão a tornar-se mais comuns nos rapazes. Mais uma vez julgo que isso acontece porque a sociedade está a colocar mais pressão e expectativas na imagem que os rapazes devem ter: musculados, bronzeados, e essas coisas. Mas há mais pressão nas raparigas do que nos rapazes. Sobretudo na sua aparência.

Estas descobertas sobre o cérebro dos adolescentes são recentes e, por isso, é impossível fazer comparações. Porém, acredita que este mundo de informação, tecnologias, redes sociais, jogos de computador, novas formas de comunicar, que envolve os adolescentes de hoje, está a mudar o seu cérebro?
Não sabemos, não temos essas informações, mas sabemos que o ambiente muda o cérebro. Sabemos que isso acontece na adolescência. Então, parece-me lógico assumir que passar muito tempo em frente de um ecrã nas redes sociais, nos jogos de computador, funcionará como um input ambiental. Portanto, provavelmente, vai influenciar o desenvolvimento do cérebro. No entanto, o mais importante é saber se isso é bom ou mau. Se isso danifica o cérebro ou não. E isso não sabemos. É importante lembrar que, para cada tempo e nova tecnologia que surgiram, se olharmos, por exemplo, para a televisão, rádio, imprensa escrita, mesmo recuando até à invenção da escrita, os adultos dessas gerações também se preocuparam com as consequências destas tecnologias nas mentes dos mais jovens. Platão, por exemplo, tem citações muito interessantes sobre o impacto da escrita. Ele diz que a escrita iria destruir as memórias dos mais jovens, porque eles já não iriam precisar de se lembrar de nada, porque tudo estaria escrito. Portanto, não devemos entrar em pânico sem conhecer exactamente as provas científicas sobre como os ecrãs estarão a afectar o desenvolvimento do cérebro. Actualmente, não temos essas provas.

PÚBLICO -
"A sociedade está a colocar mais pressão e expectativas na imagem que os rapazes devem ter: musculados, bronzeados... Mesmo assim ainda há mais pressão nas raparigas do que nos rapazes. Sobretudo na sua aparência", diz a neurocientista miguel manso 

A sua investigação nesta área começou pelas doenças mentais, mais precisamente pela esquizofrenia, sabendo que muitas delas se manifestam na adolescência. Ainda está à procura dos “gatilhos” destas doenças no cérebro dos adolescentes?
Não estou a trabalhar nisso. Estou a trabalhar ainda no desenvolvimento típico do cérebro dos adolescentes. Ainda há muitas perguntas sem resposta sobre isso. Mas há outros investigadores que estão a procurar neuroprecursores de doenças mentais. Esses estudos ainda estão no início, mas há algumas indicações que mostram que o cérebro se desenvolve de forma diferente, na sua estrutura e funções, em adolescentes que acabam por desenvolver esquizofrenia ou outras doenças mentais.

Do que está à procura no cérebro dos adolescentes?
Estamos a olhar para a plasticidade do cérebro e a tentar perceber se é particularmente bom a aprender certos tipos de informação na adolescência. Se é um período especial para a aprendizagem.

Recentemente foi publicado um artigo por membros da sua equipa sobre as capacidades para a matemática. É esse tipo de estudos que estão a fazer?
Sim. Mostrámos que o raciocínio não verbal, relacionado com a matemática, acaba por ser mais bem apreendido na adolescência mais tardia do que na inicial. Isso contradiz o que a maioria das políticas educativas defende, acreditando que este tipo de aprendizagem diminui com a idade.

O início da adolescência tem um marco biológico que é o início da puberdade. Costuma dizer que está estabelecido que o fim da adolescência acontece quando aquele indivíduo conquista um papel independente na sociedade. O que, na sociedade em que vivemos, pode significar os 30 anos. Não há nenhum marco na evolução do cérebro que possa servir para separar os adolescentes dos adultos?
Não sabemos quando é que o cérebro se torna adulto. Julgo que será diferente para cada pessoa. Há uma série de regiões do cérebro que param de mudar em idades diferentes. Um dia poderemos ter um neuromarcador para quando o cérebro se torna adulto. Porém, neste momento, ainda não temos.

Mencionou a influência das hormonas, do ambiente social, entre outros factores, no desenvolvimento do cérebro dos adolescentes. E a genética?
A genética, obviamente, interage com o ambiente e influencia o desenvolvimento do cérebro. Já há alguns trabalhos que mostram isso. Por exemplo, a esquizofrenia é mais comum em jovens que são emigrantes, que se mudaram para diferentes populações e sociedades, e mais comum em jovens que fumam muita cannabis. Mas isso só é verdade para as pessoas que têm uma predisposição genética para a doença. Assim, o ambiente pode funcionar como um “gatilho” para o factor de risco genético.

O que pode dizer aos pais que têm ou vão ter adolescentes em casa que possa ajudá-los a lidar com esta fase?
Acredito que é muito útil ajudar os pais e os adolescentes a perceber as mudanças que eles estão a atravessar e explicar-lhes a ciência que está por detrás destas mudanças. Trabalhei com muitos adolescentes que acharam muito útil o que descobriram sobre o seu cérebro. Lembro-me de ser adolescente e sei que teria sido útil saber o que se estava a passar no meu cérebro e, sobretudo, saber que isso não iria durar para sempre.
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Não sabemos quando é que o cérebro se torna adulto. Será diferente para cada pessoa. Há uma série de regiões do cérebro que param de mudar em idades diferentes 

Isso não é dar-lhes uma desculpa? Eles podem fazer o que quiserem justificando apenas que é o cérebro que está a mudar.
Talvez, mas essa desculpa serve para todos nós. Tudo o que fazemos é causado pelo nosso cérebro. Todos podemos fazer coisas más e dizer, bem, não fui eu, foi o meu cérebro. Na verdade, acho que os ajuda saber estas coisas. Dá-lhes a garantia, que os pode tranquilizar, de que esta fase é transitória e que está a acontecer por uma razão, e que não são só eles que estão a passar por isso.

Foi uma adolescente difícil?
Acho que não fui muito difícil, era uma adolescente típica. Fiz tudo o que o adolescente normalmente faz. Era muito ligada aos meus amigos, corri riscos que hoje não correria, tomei algumas más decisões e esse tipo de coisas. Lembro-me que era muito ligada à música e à moda. Aliás, a ligação à música é muito comum no período da adolescência. Curiosamente, a música que ouvimos nessa altura é algo que continuamos a gostar de ouvir mais tarde. Não tudo, mas uma parte. Há um lugar especial da música na adolescência.

A música poderia ser uma boa ferramenta para trabalhar e perceber o desenvolvimento do cérebro? Se colocássemos um adolescente a ouvir heavy metal durante um ano inteiro e outro a ouvir música clássica, podíamos ver diferenças no desenvolvimento do cérebro?
É um bom exemplo de uma experiência hipotética que, infelizmente, por razões óbvias, não podemos fazer. Se começássemos com um grupo de adolescentes exactamente iguais, com os mesmos antecedentes socioeconómicos, a mesma escola, o sítio onde vivem, o mesmo QI, o género e tudo o resto, e fizéssemos uma experiência, dividindo-os em dois grupos, expondo um a música clássica e outro a música pop, durante um ano, uma hora por dia... sim. Eu estaria à espera de ver diferenças no cérebro destes adolescentes, ainda que fosse com manifestações muito subtis. Não seria uma surpresa para mim. Algo que também poderia traduzir a forma como a música os fez sentir.

A influência das drogas e do álcool será mais fácil de observar?
É outro tipo de experiências que não podemos fazer, por razões éticas. O que alguns investigadores procuram fazer é olhar para as diferenças no desenvolvimento entre grupos de crianças que beberam muito álcool e outros que não beberam, ou que fumaram muita cannabis e outros que não o fizeram, mas não é uma experiência, é uma observação.
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"Quando pensam nas outras pessoas, e nas suas perspectivas e emoções, os adolescentes usam a mesma rede de regiões cerebrais que os adultos. Porém, o padrão de actividade é diferente. É a denominada 'rede social do cérebro'”, diz Sarah-Jayne Blakemore 

Um dos projectos (MYRIAD) em que está envolvida visa o desenvolvimento de programas escolares apoiados no treino de mindfulness para adolescentes e professores. Essa é uma experiência que já se pode fazer?
Sim, tivemos de passar por procedimentos éticos muito cuidadosos e assegurar que vamos monitorizar estas crianças para detectar qualquer possível efeito negativo. Estamos confiantes de que não vamos ter efeitos negativos, mas vamos estar atentos. Aliás, esperamos que a meditação mindfulness tenha efeitos positivos, com a sensação de bem-estar e menos pressão nos adolescentes que vão receber este treino. Mas ainda não começámos este estudo. Vai durar sete anos e foi conseguido pela Universidade de Oxford (no Reino Unido), eu sou apenas uma das colaboradoras.

Estas tecnologias que nos permitem ver o que se passa dentro do cérebro também têm as suas limitações. Há muitas coisas que acontecem e que uma ressonância magnética não mostra, certo?
Certo. A ressonância dá-nos informação sobre o desenvolvimento do cérebro, mas não nos mostra o que acontece a um nível celular. Assim, vemos que a matéria cinzenta e a branca estão a mudar no cérebro ao mesmo tempo, mas não sabemos por que é que isso acontece, o que é que está a acontecer a um nível celular, nos neurónios e nas sinapses. A ressonância não tem a resolução para nos mostrar as informações a esse nível. Estamos à espera dessa nova tecnologia, mas ainda vai demorar muitos anos.

Mas já foi possível perceber, por exemplo, que a percepção do outro é muito diferente entre adolescentes e adultos. Usam estratégias diferentes?
Sim. Quando pensam nas outras pessoas, e nas suas perspectivas e emoções, os adolescentes usam a mesma rede de regiões cerebrais que os adultos. Porém, o padrão de actividade é diferente. É a denominada “rede social do cérebro”. Os adultos usam a parte do córtex pré-frontal menos do que os adolescentes; e usam a região temporal mais do que os adolescentes. A actividade nas regiões pré-frontais diminui com a idade durante a adolescência, e a actividade na região temporal aumenta. Usam as mesmas regiões, mas os níveis de actividade são diferentes nestas redes.

Hoje sabemos muito mais sobre o cérebro dos adolescentes do que há 20 anos, como disse, mas os adolescentes ainda são um mistério?
Há muito menos mistério do que já houve, e o conhecimento destas mudanças no cérebro contribui para isso.

Quando um adolescente está mal-humorado, é rude ou mesmo se revolta contra nós, é muito difícil para os pais. Estamos habituados a que façam o que dizemos e que nos tomem como exemplo e, de repente, eles não estão a fazer nada disso. Mas saber que essa é uma parte muito importante do seu desenvolvimento e da sua independência, é útil.

Quais são as questões em aberto mais importantes para si?
As diferenças individuais. Como é que a cultura, o ambiente, a nutrição, o exercício físico, o tempo passado no ecrã, o ambiente social... como é que todas essas coisas afectam o desenvolvimento do cérebro na adolescência. Sabemos que devem afectar, mas não sabemos como. Outras questões: por que é que alguns adolescentes desenvolvem doenças mentais e outros não? Por que é que alguns correm muitos riscos e outros nem tanto? São questões importantes sobre diferenças individuais. Até agora, o campo do desenvolvimento cerebral na adolescência tem estado muito focado em médias. Agora temos de começar a olhar para as diferenças entre indivíduos e o desenvolvimento do cérebro.

Mas será sempre o resultado de muitos factores.
Claro. O ambiente social muda de uma forma tremenda durante a adolescência, e as hormonas, e também a forma como os pais e a sociedade tratam os adolescentes. Eles permitem mais independência e liberdade. Todas estas coisas vão contribuir para o desenvolvimento dos adolescentes, para o seu comportamento e da sua mente.

Tem dois filhos pequenos. Está com medo da adolescência que vem aí?
Não, não, não, não! Os meus filhos estão prestes a tornar-se adolescentes, um tem 12 anos e meio e outro 10 anos e meio. Acho que é realmente um momento emocionante. É um tempo em que desenvolvem o sentido de si mesmos, a sua identidade de uma forma mais profunda.

Isso não será porque é cientista? Está entusiasmada com a ideia de fazer investigação em casa?
(risos) Talvez. Mas, mais uma vez, insisto que ajuda saber o que se passa no seu cérebro. Às vezes, quando um adolescente está mal-humorado, é rude ou mesmo se revolta contra nós, é muito difícil para os pais. Estamos habituados a que façam o que dizemos e que nos tomem como exemplo e, de repente, eles não estão a fazer nada disso. Mas saber que essa é uma parte muito importante do seu desenvolvimento e da sua independência, é útil. Eles precisam de experimentar e exercitar a independência, a autonomia, a tomada de decisões. Eles precisam de ser um pouco rebeldes contra os seus pais.

Por que é a influência dos pares tão importante na adolescência?
É uma forma de se filiarem num grupo e se tornarem gradualmente independentes dos seus pais, e mais integrados numa rede social própria, com uma hierarquia social. Eles precisam de ser independentes. Como nós também precisámos um dia.

Os adolescentes ainda a podem surpreender, como cientista?
Sim. A vastidão das diferenças individuais é muito interessante. Embora, no fundo, isso não seja assim tão surpreendente, porque todos somos diferentes.

A entrevista encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO 
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 Reportagem por Andrea Cunha Freitas (Texto) e Ricardo Lopes (Fotografia) 10 de Dezembro de 2017