domingo, 27 de maio de 2018

Quando a terra parou

Lya Luft* 
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"...acho que nossas autoridades (ministros, por exemplo), além de despreparadas, confusas, ainda são arrogantes. Negociar não é impor, ironizar, decidir, mas ouvir argumentos, imaginar dificuldades e, sobretudo, ser precavido, previdente."
 
Não sei a dos outros, mas a minha terra, isto é, o meu planeta, isto é, o meu Brasil, começou a parar há tempos, parou há uns dias, e agora tenho conhecidos empurrando o carro na rua, aqui ou no Rio ou em outro lugar, porque não acreditaram no pré-caos, não encheram os tanques, e agora não encontram gasolina para levar o carro até em casa.

Também acho que vamos parar de comer, beber, viver, porque até o meu mercadinho tradicionalíssimo, que uso há décadas, em poucas horas ficou desabastecido: pessoas enlouquecidas - ou muito lúcidas - carregaram o que podiam em carne e outros mantimentos. Além disso, a segurança que andava cambaleante agora estourou. Pessoas quebram vidros de carros, de pedágios, quebram a cara umas das outras: nem todas, nem sempre, mas estamos muito sensíveis, irritados, saco cheio arrastando no chão. Estamos todos esfolados, como pessoas que não tivessem pele adequada, e qualquer brisazinha queima feito fogo selvagem.

Estamos decepcionados? Não sei, eu não estou, porque na minha vida já vi coisa demais, e não esperava grande coisa, sempre digo que nada me espanta - mas acho que nossas autoridades (ministros, por exemplo), além de despreparadas, confusas, ainda são arrogantes. Negociar não é impor, ironizar, decidir, mas ouvir argumentos, imaginar dificuldades e, sobretudo, ser precavido, previdente. Um mínimo de bom senso e sabedoria: quem não estava vendo que acabaríamos travados, parados, encurralados na própria incompetência, se há meses aconteciam avisos, pedidos, recados e mais?

Pouco entendo de economia, sou apenas uma ficcionista, colunista, e às vezes poeta. Mas é evidente que um "acordo" com os sofridos caminhoneiros e donos de transportadoras, e motoqueiros e motoristas civis - e brasileiros em geral -, teria de ser claro, imediato, simples, viável, e honesto. Nada de promessas e planos, ou projetos, comissões e mais debates. Promessas temos desde sempre, e os mais antenados pouco acreditam nelas. Do tipo "se você fizer isso, te deixo ir na matinê com as amiguinhas no domingo" (na minha infância, quando não havia shoppings), e na hora de ir, cadê a permissão, quem se lembrava da promessa além de mim?

Agora, aqui na terra brasileira, e desta vez não se tratava com crianças, ou ignorantes, ou cínicos, ou aproveitadores. Éramos nós, o povo brasileiro, ali representado, porque no fim das contas as contas vão pular no nosso bolso, e nos passar belas rasteiras.

Mas acabei tendo de rir ao fechar esta coluna hoje breve (ainda não estou parando, mas...), ao ouvir uma mulher simples mas inteligente que, vendo multidões carregarem toneladas de papel higiênico, comentou com seu maravilhoso bom senso: "Pra que esse alvoroço? Se faltar comida, não vão mais nem precisar disso". Genial: pois estaremos dispensados de fazer dieta, de suar na academia, de correr ao banheiro.

Desculpem o final pouco poético desta vez, mas estou me sentindo bem pouco poética, e, sim, irritada, perplexa, e ridícula porque, afinal, sim, diante de muitas coisas, ainda me espanto.
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* Escritora. Cronista. Tradutora.
fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=9fd10588a886cac5909755e5c69535cb
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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Paris toujours

 Juremir Machado da Silva* 
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Eis-me aqui novamente em Paris. Como todo ano. Cada vez mais em busca da primavera, do sol e das cerejeiras floridas. Refaço o trajeto de uma quadra, na avenida do Maine, numa alça para a estação de Montparnasse, próximo de onde morei tantos anos, só para contemplar as árvores rosadas. Alguns me chamam de francófilo. Nunca fui. Não sou. As culturas para mim não se dividem por nacionalidade. Cada lugar tem os seus encantos. Tenho também os meus amores por Berlim, onde vivi mais rapidamente, Lisboa, onde sempre volto, e pelo Rio de Janeiro, com sua sensualidade. Somente o frio me assusta, desespera e afugenta.

Vítor Ramil consagrou a “estética do frio” para falar do Rio Grande do Sul com a sua alma platina. O frio me traz lembranças de campos gelados, galpões cheios de frestas, vento sibilando, cuscos rengueando e crepúsculos de fazer chorar. Passei onze invernos na Europa. Chorava de saudades do calor. A Paris que eu amo é primaveril. As moças exibem-se em vestidos leves que lhes dão ar de camponesinhas de quadros impressionistas. Os homens alegram-se com a possibilidade de novamente libertar os braços das amarras dos casacos pesados. Tudo renasce. O que venho fazer em Paris todo ano? Durante muito tempo, em junho, participar das “Jornadas do Centro de Estudos do Atual e do Quotidiano”, organizadas por Michel Maffesoli, na Sorbonne. Mas também, em maio ou novembro, das reuniões do conselho editorial da revista científica Hermès, editada, sob a direção de Dominique Wolton, pelo CNRS, o centro nacional de pesquisa científica da França.

Alguns das minhas tantas viagens foram para fazer entrevistas com grandes intelectuais ou dar aula na universidade Paris IV. Já se vai uma vida de troca intelectuais com os franceses. Hermès tem mais de 40 integrantes do mundo inteiro no seu conselho. O Brasil é representado por mim e por Tom Dywer, professor do departamento de Sociologia da Universidade de Campinas. Em volta de uma grande mesa, num prédio de tirar o fôlego, em Meudon, na periferia, debatemos questões de mídia, tecnologias da comunicação, cultura, comportamento, política, trabalho e sociedade. Desta vez, chegamos todos preocupados com a greve ferroviária prevista para os dias 28 e 29 de maio.

É possível ver cerejeiras floridas no Jardim das Plantas ou com a Torre Eiffel de fundo. Mas também à beira do Sena, junto à Notre- Dame. A beleza natural das cerejeiras só pode ser completada pela beleza artística dos vitrais da Santa Capela, a meu ver o interior mais bonito de Paris. Gostar de uma cidade europeia não distingue quem quer seja. Não nos faz melhores nem piores. Não dá troféus. Europeus têm qualidades e defeitos: podem ser muitos racistas, corruptos e fascistas. O que têm praticado de melhor nas últimas décadas? O Estado do Bem-Estar Social, que atende também pelo nome de socialdemocracia.

Um patrimônio que Emmanuel Macron, cada vez mais amigo de Donald Trump, quer solapar. Vai precisar soterrar uma tradição de resistência. Paris toujours. Paris sempre. Na primavera. Com sol. Contra os mitos, os caminhos trilhados e as demais estações.
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* Sociólogo. Escritor. Jornalista
Fonte: http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/05/10879/paris-toujours/
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Ao contrário

Luiz Fernando Veríssimo* 
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A realeza é paga para ser o teatro do poder

Os ingleses fizeram a primeira revolução republicana da História, mas, sabiamente, voltaram atrás e mantiveram a monarquia, intuindo que um poder não pode governar e dar espetáculo ao mesmo tempo. Na Inglaterra, o parlamento governa e a monarquia dá o espetáculo. A sabedoria da decisão se confirmou na era dos tabloides, para a qual o parlamento tem dado sua cota de escândalos e assunto, mas nada parecidos com os fornecidos pela família real. Pois o que são os rituais cotidianos e pecados venais de plebeus comparados com a pompa e as indiscrições de príncipes e princesas? A realeza é paga para ser o teatro do poder, uma representação do Estado como drama familiar, como sitcom, para inspirar, divertir ou indignar os súditos. Ou enternecê-los com cada novo bebê da Kate. Enquanto isso, os parlamentares governam.

No Brasil, ao contrário, somos anti-ingleses. Aqui o rei e sua família dão a sua cota de escândalo e assunto, mas o parlamento e o judiciário é que têm dado o espetáculo. Nos revelam a sua intimidade, os seus conflitos de lealdades e escrúpulos, os seus podres, as suas culpas e expiações - e seus pseudopríncipes, pseudoprincesas e maus atores - e concentram o interesse da imprensa e do público. O rei reteve alguns privilégios da monarquia absoluta, anteriores a todas as revoluções, mas os escândalos do palácio não se comparam aos escândalos do parlamento e das cortes. Com todos os seus problemas, caminhando rapidamente para a irrelevância, Temer não chega nem a ser uma figura trágica. O espetáculo que ele dá é de uma vítima patética das circunstâncias que ele mesmo ajudou a criar, com o golpe na Dilma.

Já se disse que o Brasil está várias revoluções atrasado. Se nem o fim do feudalismo foi providenciado ainda, não se pode pensar em implantar o sistema inglês aqui - como naquele anúncio que oferecia mudas de árvores milenares - nem tentar acertar o funcionamento dessa nossa monarquia parlamentar ao avesso para poupar nossos parlamentares da desmoralização total. Na própria Inglaterra, já tem muita gente achando que a monarquia é um anacronismo condenado, cujo custo não compensa o teatro. Vão acabar dizendo o mesmo do Congresso brasileiro. 
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* Jornalista. Escritor. Cronista
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,ao-contrario,70002321621

O poder dos ultrajovens

 

A geração que vai romper (e já está rompendo) com tudo o que se quis e se imaginou



“Eles se tornam personagens de suas próprias vidas, preocupados com narrativas, contextos, motivações. Estão sempre esperando pelo terceiro ato — que nunca chega”, disse um estudo da Box1824, conduzido pelos pesquisadores Sean Monahan e Sophie Secaf nos Estados Unidos, sobre o que chamaram de GenExit, a geração que opta por experimentar novas possibilidades identitárias, mais livres e menos deterministas, mas não menos disruptivas.

Ainda que esteja cansado depois de um dia longo, o estudante de publicidade Luigi Dalmolin, de 21 anos, só vai para a cama após um banho quente. Por isso, entre uma ensaboada e outra, Dalmolin assiste a vídeos no YouTube ou responde a mensagens no WhatsApp. Graças a uma providencial capinha à prova d’água, ele faz parte de uma minoria — surgida recentemente — que toma banho com o telefone celular dentro do box. Estar com o celular nas mãos o tempo todo como faz Dalmolin, conectado, com os olhos vidrados e os dedos tocando a tela, é um dos principais comportamentos identificadores dos ultrajovens (ou geração Y). São as pessoas nascidas entre 1982 e 2000 (segundo o Census Bureau, agência governamental encarregada pelo censo nos Estados Unidos), ou entre 1981 e 1997 (segundo o instituto de pesquisa americano Pew Research Center). Os jovens apresentam características que os diferenciam das gerações anteriores e refletem mudanças relevantes no mundo.
A principal distinção dos ultrajovens é a necessidade de estar conectado o tempo todo. Smartphones são sua porta de acesso ao mundo; 43% dos jovens são como Dalmolin: não vão ao banheiro sem seus celulares. O aparelho é tão importante que 42% deles afirmam que deixariam de ir à academia se não pudessem levá-lo.

A fixação por smartphones atinge outras faixas etárias, mas, no caso dos ultrajovens, deu origem à “era da distração”. A fartura de dispositivos conectados à internet está reduzindo cada vez mais a capacidade de concentração. No início de maio, Carl Marci, neurocientista e médico especialista em questões ligadas ao consumo e ao comportamento, esteve no Brasil para apresentar o resultado de pesquisas neurológicas realizadas por sua empresa, um braço da gigante teuto-americana Nielsen.
Marci encara a tal distração como resultado da falta de tempo ocioso. Os “nativos digitais” não se enfadam, porque estão sob constante estímulo. Se estão na fila do mercado, não precisam “esperar”; é só sacar o celular e responder a uma mensagem ou dar uma conferida nas notificações das redes sociais e pronto: a fila andou rapidinho.
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Reportagem por  NINA FINCO 24/05/2018
FONTE:  https://epoca.globo.com/sociedade/noticia/2018/05/o-poder-dos-ultrajovens.html 
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Roberto Romano. A solução somos nós



 

 

 

 

Filósofo Roberto Romano acredita que atuação da Justiça sobre corruptos tem alcance limitado e que o Brasil só progredirá se a população fiscalizar o poder

Roberto Romano, de 72 anos, dedica-se ao estudo da filosofia política e da ética há quatro décadas, experiência que lhe permitiu visão privilegiada para analisar o Brasil. Formado em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em filosofia política pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, Romano não crê que os resultados trazidos pela Operação Lava-Jato provoquem mudanças no padrão ético da sociedade brasileira. “A Lava-Jato trabalha com as consequências, não com as causas dos nossos problemas”, diz. Para solucioná-los, explica Romano, será preciso empreender discussões árduas, que abranjam desde a responsabilidade do próprio cidadão em monitorar seu município até a criação de uma nova Constituição. Hoje professor titular da Universidade Estadual de Campinas, Romano falou a VEJA em sua casa, em São Paulo.

A Lava-Jato pode mudar a forma de fazer política no Brasil? Não há procurador nem juiz capazes de fazer essa transformação. Ela só seria possível com mudanças profundas na estrutura do Estado. A Lava-Jato não muda essa estrutura, que é altamente centralizada no governo federal, burocratizada e cara. Também não muda o modus operandi do sistema partidário e do sistema eleitoral. Esse não é o papel da Lava-Jato.

A estrutura estatal é a principal via para a corrupção? Em grande parte, sim. Por isso temos de redesenhar o Estado. Enquanto não federalizarmos o país, ou seja, enquanto não descentralizarmos o poder e os recursos dos impostos, não teremos mudanças positivas. O Brasil cresceu, urbanizou-se e, apesar de a maior parte da população viver nas cidades, quase 70% dos impostos vão para o cofre do Executivo federal. Os municípios são saqueados pelo poder central. Hoje, a única maneira que eles têm de conseguir o retorno da arrecadação retida pela União é por meio da intermediação política. O prefeito tem de ter bom relacionamento com o governador, que tem de ter bom relacionamento com o deputado federal, que, por sua vez, tem de estar na base aliada que está sendo comprada naquele momento pelo presidente da República. O papel dos parlamentares brasileiros atualmente se resume a praticamente intermediar o repasse de verbas entre Brasília e os municípios e estados.

Mas há o outro lado, o dos parlamentares que usam seu poder de voto para pressionar o governo federal. Sim. Por isso a disfunção é total. O Exe­cutivo libera dinheiro aos intermediários que aceitam votar com ele. E ele paga caro para exercer essa ditadura financeira: loteia cargos em estatais, postos no governo, faz mensalão, faz petrolão. Por esse motivo digo que punir o corrupto é enxugar gelo com toalha quente. Não tenho ilusões.

“O papel dos parlamentares brasileiros hoje resume-se praticamente a intermediar o repasse de dinheiro 
entre Brasília, municípios e estados”

Por que é tão importante aumentar a autonomia dos municípios? Primeiro, porque é no município que o cidadão tem, ou deveria ter, a maior parte dos serviços prestados pelo Estado. Depois, porque é preciso acabar com essa intermediação do imposto arrecadado do contribuinte. O dinheiro arrecadado no município deveria ficar no município, em vez de percorrer um enorme caminho burocrático até Brasília e, depois, fazer o caminho de volta na forma de postos de saúde, escolas, ruas asfaltadas, iluminação etc. Mas o mais importante talvez seja o aumento da cultura da cidadania que essa autonomia é capaz de gerar. Se o cidadão tem controle sobre as verbas da sua cidade, ele amplia a vigilância. Mas, se ele entende que não tem controle sobre o dinheiro, deixa de monitorar. Acontece que o Brasil nunca teve municípios de fato.

Como assim? Os municípios são uma invenção do Império Romano. As cidades que não tinham força para resistir a ele eram destruídas. Já aquelas que tinham força econômica e militar eram convidadas a se federar a Roma, e conservavam a autonomia, a religião, a moeda e os costumes. Quando os romanos foram vencidos, as cidades se mantiveram, mesmo diante dos bárbaros. Mais tarde, na construção do Estado absolutista, os reis dedicaram-se a tirar a autonomia dos municípios. O rei da França, por exemplo, confiscou essa autonomia porque eles apresentavam oposição ao desejo de arrecadação absoluta. Esse tipo de confisco estava no auge em 1500, quando o Brasil foi descoberto. Por aqui, os recursos iam todos para o rei de Portugal. Nossa cultura é de centralização desde a colônia.

O que garante que deixar mais dinheiro nos municípios resultaria em menos corrupção e melhor uso dos recursos? É claro que não adianta mudar o fluxo do dinheiro se não tivermos mecanismos de controle. O cidadão tem de ter noção de quanto paga de imposto, de quanto a cidade arrecada e gasta, de como funciona o orçamento. É assim que se cria a consciência de cidadania e o operador do Estado passa a ter a sensação de que está sendo monitorado. Na verdade, a ideia do orçamento participativo, uma das bandeiras do PT no passado e que foi abandonada quando o Lula chegou ao poder, veio da observação do que acontece em Nova York, em Paris e em outras cidades desenvolvidas. Não se trata de uma ideia de esquerda ou de direita, mas da participação do cidadão na elaboração das leis. Para fazer uma ciclovia em uma rua de Nova York, é preciso ouvir todos os habitantes de onde ela vai passar. Isso tem a ver com o princípio mais essencial da democracia moderna, que é a accountability, que significa prestar contas, responsabilizar-se. O operador do Estado precisa prestar contas, e o cidadão precisa também assumir seu papel de fiscalizador.

Essa visão de cidadania não é utópica para a realidade brasileira? As uto­pias todas, como a República, de Platão, são formadas por duas ideias: um diagnóstico dos defeitos de um Estado e de uma sociedade; e a proposta de modificação desse Estado e dessa sociedade. O que fizeram Thomas Jefferson e Benjamin Franklin nos Estados Unidos? Com base na filosofia das luzes, do século XVIII, eles montaram uma utopia, que é a federação americana. A tradução da utopia criada por eles é a Constituição americana. Você não encontra nada da vida empírica na Constituição. Você encontra normas, direções, aconselhamentos, propostas. Se pegar, por exemplo, o texto da Constituição americana, que é maravilhosa, e comparar com a vida real do americano, você encontrará um abismo. Por isso mesmo, a própria Constituição prevê uma instância de interpretação dos casos concretos, que é a Suprema Corte. No Brasil, conseguimos aprovar leis como a da ficha limpa, a lei de transparência e aquela que prevê a delação premiada. Sem elas, a própria Lava-Jato seria impensável anos atrás.

“A corrupção continuará em curso enquanto não houver autonomia de poderes, incluindo o Judiciário, 
que depende dos demais poderes 
para manter seus privilégios”

O senhor fala de aumentar a autonomia de municípios, mas há muitos que não têm receita nem para sustentar sua prefeitura e a Câmara de Vereadores. O que fazer com eles? Eles não podem existir. Por isso digo que é preciso redesenhar o mapa político do Brasil. Essas cidades foram criadas com fins eleitorais, para ter prefeito, vereadores e toda a estrutura burocrática municipal. Na melhor das hipóteses, foram criadas com base no diagnóstico errado de que seus bairros eram preteridos pela prefeitura do município do qual se emanciparam. O problema é que, uma vez emancipada, uma cidade que não arrecada nada ainda cria uma máquina com os privilégios dos operadores do Estado. No Brasil, até o município mais pobre paga o carro, o combustível, as multas e o seguro do prefeito e dos vereadores. Quando o dinheiro chega a esse lugar por meio do Fundo de Participação dos Municípios, ou por meio de uma emenda parlamentar, vai para cobrir os gastos da burocracia, em vez de ir para os munícipes. Como o cofre é o mesmo, o resultado é menos dinheiro empregado no que interessa.

A única saída para o Estado ineficiente é mudar a Constituição? Não falo nem em mudança constitucional, mas em criar uma nova Constituição. Não vamos avançar com a irracionalidade da atual configuração do Estado brasileiro. Temos uma distribuição absolutamente incontrolável de poderes, de recursos e de políticas públicas, que resultam em um gasto delirante. Um rearranjo eficaz só pode se dar com uma nova Constituinte. Hoje, na verdade, já vivemos sob uma nova Constituição, tantas foram as emendas feitas no texto de 1988. Todas, aliás, com um pé no Palácio do Planalto, sendo a emenda da reeleição a mais escancarada de todas.

O senhor diz que o alcance da Lava-Jato é limitado porque ela não muda o sistema partidário e eleitoral brasileiro. O que pode, então, ser feito quanto a isso? Os partidos brasileiros deixaram de ter programas para o país e se reduziram a agrupamentos eleitorais, maiores ou menores. Todos eles, hoje, são oligarquias com o domínio de alguns dirigentes. Os novos candidatos seguem ordens desses donos do partido, que controlam tudo na agremiação: os cofres, as eleições internas, e, delas, as campanhas eleitorais. Esses “oligarcas” mandam nas legendas há trinta anos. Enquanto não tivermos regras que proíbam a reeleição na direção das siglas, que impeçam que membros da mesma família se revezem no comando partidário, não teremos renovação de quadros. É o que vemos no atual quadro de candidatos. Nenhum deles, fora o ex-­presidente Lula, que está preso, e Jair Bolsonaro, apresenta robustez de intenções de voto. Se não temos disputas internas nos partidos, pela liderança, desaparecem as condições para firmar estadistas.

Os presidentes sempre foram reféns de arranjos partidários? Todos, inclusive os militares, foram levados, ou levaram a si mesmos, a determinados pactos políticos para se garantir no poder. O caso de Lula surpreendeu mais porque seu partido dizia defender a ética, lutar contra a corrupção. Mas, se a compra de apoio e o aproveitamento pessoal foram maiores ou não no caso dele, não muda o cerne da questão: o sistema de poder estatal brasileiro segue igual. Todos os que se sentam na cadeira presidencial continuarão comprando apoio e a corrupção continuará em curso enquanto não houver autonomia dos poderes, incluindo o Judiciário, que depende dos demais poderes para manter seus privilégios, como auxílio-moradia e ganhos acima do teto constitucional.

O que o senhor espera das eleições deste ano? As eleições não resolverão o problema. Deverá ser possível, a duras penas, eleger por margem mínima um candidato de centro. Mas tal resultado fará do eleito um refém do Congresso, das maiores bancadas, do toma lá dá cá e de todas as mazelas do nosso presidencialismo “imperial”. Ou seja, a crise do Estado brasileiro continuará, sempre mais grave. Eleições representam ou mudanças efetivas ou arranjos precários. Creio que a de 2018 será do segundo grupo.
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Reportagem  Por Roberta Paduan
Publicado em VEJA de 30 de maio de 2018, edição nº 2584
Fonte:  https://veja.abril.com.br/revista-veja/a-solucao-somos-nos/ 25/05/2018

OS MISERÁVEIS

José de Souza Martins*
 Carvall

 "Discutir segurança, educação, identificação com o destino comum, respeito aos direitos humanos e até mesmo o reconhecimento da humanidade de todos, sem levar em conta a exclusão social de tão extensa parcela de brasileiros, é ingênua concepção dos problemas sociais e dos riscos políticos 
a que o Brasil está sujeito."

Quem são os miseráveis das estatísticas oficiais que nos dizem o que é o Brasil que não gostaríamos que o Brasil fosse? Como é possível que a herança de um regime político que proclamou ter acabado com a pobreza no país seja justamente a de mais de 13 milhões de miseráveis, com aumento de 1,5 milhão em pouco tempo? A de 12,3 milhões desempregados? A de uma política social cuja grande marca é a de um auxílio à sobrevivência a mais de um terço da população de 11 Estados do Norte e Nordeste por meio do Bolsa Família e 21%, um quinto, da população brasileira dele dependente? Sem contar mais de 5 milhões de brasileiros à procura de emprego há mais de um ano? A daqueles com maior incidência de desalentados, os que desistem de procurar emprego, nas regiões Nordeste, Sudeste, Norte? A de um país com mais de 27 milhões de trabalhadores subutilizados?

Esses dados aparentemente desencontrados convergem na indicação de que se trata não só de problemas não resolvidos, mas também de problemas de solução pela metade e em boa parte sem perspectiva de solução. Esses números não nos falam apenas da herança numérica líquida de um desastre social e político, de que não tomamos consciência no devido tempo porque acobertada por induções mágicas de leitura de tabelas.

Neles está aquela parte de solução lenta e não integrativa, a dos milhões que há mais de ano procuram trabalho. Ou aqueles subutilizados que refletem a substituição de trabalho humano por tecnologia. Um cenário de descarte de seres humanos e de falta de criatividade política para estabelecer um nível de emprego capaz de assegurar à sociedade inteira a segurança de que cada brasileiro está social e economicamente integrado. A não integração não é normal nem é decente.

O que resta desse cenário é que pelo menos um quinto dos brasileiros vive hoje à margem do sistema econômico e que estar à procura de emprego já não é temporário, é uma ameaça a muitos e um traço da identidade de milhões de brasileiros. São os situados no limiar da integração estável, os sem motivos para subscrever o pacto social e político que garanta a ordem no país.

Discutir segurança, educação, identificação com o destino comum, respeito aos direitos humanos e até mesmo o reconhecimento da humanidade de todos, sem levar em conta a exclusão social de tão extensa parcela de brasileiros, é ingênua concepção dos problemas sociais e dos riscos políticos a que o Brasil está sujeito.

O Brasil criou um sistema capitalista peculiar em que a reprodução do capital se tornou dependente de técnicas de acumulação que vão da corrupção, à especulação, às formas rentistas de extração de excedentes econômicos dos mais frágeis e desvalidos. Favela não é produto de pobreza, é produto do enorme e descabido custo da renda fundiária urbana, nos preços especulativos dos terrenos, causa da invasão de terras desocupadas. Nas grandes cidades brasileiras é possível ganhar fortunas sem o investimento produtivo de um único centavo, apenas comprando terras por pouco para vendê-las por muito.

A superação capitalista das insuficiências econômicas e das injustiças sociais depende de um retorno ao capitalismo. O que depende de democracia, de equilibrado senso de justiça e da gestão da riqueza em nome do bem comum, e não em nome de concepções egoístas de ganho e propriedade.
O sociólogo alemão Max Weber mostrou que o capitalista verdadeiro é o empresário que atende a vocação impessoal de fazer o sistema funcionar. O próprio Karl Marx, autor da primeira teoria cientificamente fundamentada do que é a sociedade capitalista, já havia apontado que o capitalista é um funcionário do capital, e não um senhor feudal da riqueza injustamente acumulada com base em privilégios de mando e dominação. Lucro é outra coisa.

A abundância do noticiário sobre a corrupção no Brasil é um indicador poderoso de que o capitalismo entre nós sucumbiu à incompetência para prever os ganhos extraordinários da inovação, que é um bem comum, e para gerir os desdobramentos sociais desses ganhos. Sobretudo para compreender em tempo os problemas sociais decorrentes do mau funcionamento do sistema econômico.

Na maioria dos países latino-americanos, e disso o Brasil é "modelo", o sistema econômico vem se tornando o do descarte social de seres humanos, caso da Venezuela. Nessa brutal criação da humanidade mínima, direita e esquerda são reciprocamente cúmplices. O pseudocapitalismo residual latino-americano e o pseudossocialismo regional, resto de concepções dos fracassos do comunismo antimarxiano, são face e contraface das mesmas insuficiências de compreensão do processo histórico e das limitadas possibilidades da região.
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* José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Membro da Academia Paulista de Letras e autor de Moleque de Fábrica (Ateliê Editorial), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente
* Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5547733/os-miseraveis 25/05/2018

A morte: irreversível

 Anselmo Borges* 

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1. No passado dia 6, Jürgen Habermas, que continua a ser o filósofo vivo mais influente do mundo, deu uma longa entrevista ao El País. Logo de entrada, estando de acordo com a afirmação de que há a decadência da figura do intelectual comprometido, diz: "A pergunta nostálgica "porque é que já não há intelectuais?" está mal feita. Não pode havê-los, se já não há leitores aos quais continuar a chegar com argumentos." Se foi "determinante uma esfera pública", o que se passa é que "as suas frágeis estruturas estão agora a sofrer um processo acelerado de deterioração". A esfera pública liberal na sua configuração clássica vivia de bases culturais e sociais, "principalmente da existência de um jornalismo desperto, com meios de referência e uma imprensa capaz de dirigir o interesse da grande maioria da cidadania para temas relevantes e a formação de opinião política. E também da existência de uma população de leitores que se interessa pela política e tem um bom nível de educação, acostumada ao processo conflitual de formação de opinião, dedicando tempo a ler imprensa independente de qualidade. Hoje, esta infra-estrutura já não está intacta. O efeito de fragmentação da internet deslocou o papel dos meios de comunicação tradicionais, sobretudo nas novas gerações. Antes de entrarem em jogo estas tendências centrífugas e atomizadoras dos novos media, a desintegração da esfera cidadã já tinha começado com a mercantilização da atenção pública. Agora os novos meios de comunicação praticam uma modalidade muito mais insidiosa de mercantilização".

2. Esta situação insidiosa promove novas formas de analfabetismo, a desorientação e uma cultura da moleza e do achismo (toda a gente acha que...), como já aqui tentei explicar. No contexto do que aqui me traz hoje - a eutanásia -, poderíamos fazer um teste, com um inquérito aos portugueses (incluindo os deputados), para apurar quantos sabem distinguir claramente entre eutanásia (voluntária e involuntária, activa e passiva, directa e indirecta), distanásia, ortotanásia, suicídio medicamente ajudado, cuidados paliativos... Quando, por exemplo, para afirmar que se é contra a eutanásia, se escreve que se rejeita a morte assistida, é evidente que se está perante a ignorância ou se quer criar a confusão: de facto, quem não quer uma morte assistida? Mais uma razão para não haver pressas, já que, ao contrário do que se afirma, não há esclarecimento suficiente. Fica a pergunta: porquê tanta pressa, não esperando para colocar o tema nos programas dos partidos, com debate alargado na campanha eleitoral próxima? Tem-se medo de quê? Afinal, o tema também não consta no programa de governo. E vai-se votar sem o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida?
É claro que esta questão configura uma mudança civilizacional. E não se pense em progresso, pois é de retrocesso que se trata. A eutanásia significa uma derrota: o que o Estado tem para oferecer às pessoas em extrema dificuldade é conceder-lhes o direito de pedir que as matem? De facto, se a eutanásia fosse aprovada, ficaria em vigor uma lei que concede o direito de pedi-la e o Estado teria mais um dever: concretizar esse direito, nos casos aceites, matando. Não se fuja às palavras, pois é de homicídio que se trata, ainda que a pedido.

3. Deixando os debates de princípio e em abstracto sobre autonomia - mesmo aqui, é bom reflectir que a autonomia não se pode confundir com auto-suficiência, já que a autonomia é sempre relacional -, sobre compaixão, tolerância, morte digna, vamos aos projectos de lei que vão ser votados no próximo dia 29 (todos os deputados os leram?) e que propõem que um médico possa matar um ser humano, a seu pedido, em determinadas condições. Miguel Oliveira da Silva, ex-presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, e Germano de Sousa, ex-bastonário da Ordem dos Médicos, analisaram-nos e verificaram que "são muito semelhantes ao modelo holandês, pioneiro mundial, e ao modelo belga inicial, os quais, apesar das restrições e garantias iniciais, derraparam de tal modo que hoje as mortes por eutanásia aumentam nesses países em dez por cento ao ano aceitando-se cada vez mais indicações (como doença psiquiátrica e demência) inicialmente recusadas, chegando-se ao extremo de praticar eutanásia em crianças." Continuam: "A simples existência de leis com este teor afecta a vontade dos doentes, influencia a respectiva família e os profissionais de saúde, como provam exemplos recentes na Bélgica e na Holanda em que foi aceite um pedido de eutanásia de um casal de idosos que não queria ser um peso para os filhos. Não podem subsistir dúvidas: se um dos projectos se tornar lei entre nós, o mesmo inevitavelmente sucederá. Não tenhamos a ingenuidade de pensar que somos diferentes ou melhores."

No mesmo sentido, disse outro médico ilustre, A. Maia Gonçalves: a lei da eutanásia "será um fardo para as pessoas de idade". Sobretudo quando se pensa nas situações dramáticas do Serviço Nacional de Saúde.

4. No ano passado, 2017, celebraram-se os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, e foi para mim uma honra participar num congresso internacional sobre esse acontecimento histórico, com uma conferência sobre "Teologia e pena de morte". Para nossa honra, Portugal foi pioneiro mundial. Na altura, nos debates, muitos convenceram-se pela abolição ao pensarem nos erros que se podem cometer e de facto se cometem ao aplicar a pena de morte. Passado um ano, lamentavelmente, vai-se votar a eventual legalização da eutanásia. Não há o mesmo perigo de erro na sua aplicação? Pense nisso, senhor deputado. Porque é disso que se trata: da vida e da morte, e a morte é irreversível: não há volta atrás. Ainda bem que será cada deputado a votar individualmente: cada um e cada uma assumirá as suas responsabilidades históricas.
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* Padre católico, professor universitário e ensaísta português.
Fonte:  https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/a-morte-irreversivel-9376341.html - 25/05/2018
Imagem da Internet

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Embrulhem e vão buscar

 António Lobo Antunes*

Ilustração: Susa Monteiro

Apesar da angústia que traz consigo há não sei quê de divertidamente apaixonante na composição de um livro. Escreve-se numa espécie de estado segundo, a flutuar, tudo é ao mesmo tempo denso e leve, resistente e submisso, impossível e fácil. Era o que faltava que me deixasse vencer. A única questão complicada é que é perigoso, não existe rede por baixo como têm os trapezistas


Ando às voltas com um livro dificílimo 
de escrever, chamado “A Outra Margem Do Mar”, tenho quatro capítulos mais ou menos alinhavados depois de não sei quantas versões e ainda não estou contente com elas, ou seja falta-me imenso texto e continuo 
a fazer e a riscar, a fazer e a riscar, a fazer 
e a riscar numa lentidão enervante, passo 
os dias sentado à mesa com isto, não sei 
se vou ser capaz, penso, como os Marines e a Tereza, que se fosse fácil não era para mim de modo que recomeço, e continuo, e teimo e não desisto. E no meio deste penar tenho que interromper uns dois dias por mês a fim de botar cá fora estas prosinhas para a Visão

(logo quatro)

que servem para me complicar o regresso ao romance, que espera aqui na mesa amuado comigo, decidido 
a dar-me cabo da cabeça quando voltar a ele. Se me perguntarem que raio de coisa ando a compor lembro-
-me logo da senhora que falava aos amigos de uma estátua que vira em Itália, alguém quis saber se era equestre, ela pensou no assunto, disse 

– Assim assim

e Cocteau achava que nunca ninguém tinha definido tão bem o centauro. Quanto ao livro lá vai avançando em passitos minúsculos, um quarto de página por dia já não é mau, os húngaros têm uma frase engraçada a respeito disto

(“qualquer bocadito acrescenta, declarou o rato, e fez chichi no mar”)

de modo que lá vou caminhando de mijinha em mijinha, na esperança que estas gotas se transformem em ondas, a avançarem e a recuarem 
no papel, como esses velhos sentados nas praças das aldeias a esfregarem as palmas nos joelhos das calças. Estou para aqui a queixar-me mas não trocava este trabalho por nenhum outro: tudo começa, muito devagarinho, a palpitar de vida 
e eu, ao mesmo tempo fora e dentro da página, avanço como posso, a dançar, a dançar. Ainda por cima está sol, vejo as gaivotas na janela, vejo o lado oposto do rio, 
vejo o bico da esferográfica a comer papel, vejo 
as folhas do bloco que se vão enchendo de palavras por enquanto trémulas, inseguras, apoiadas em bengalas de consoantes que vacilam. Que trabalho mais fascinante este, assistir ao nascimento de sei lá o quê que não entendo bem de onde vem, de uma zona minha cheia de trevas mas com um riso de criança lá dentro. Apesar da angústia que traz consigo há não sei quê de divertidamente apaixonante na composição de um livro. Escreve-se numa espécie de estado segundo, a flutuar, tudo é ao mesmo tempo denso e leve, resistente e submisso, impossível e fácil. Era o que faltava que 
me deixasse vencer. A única questão complicada 
é que é perigoso, não existe rede por baixo como têm os trapezistas. Há uma semana ou duas aprendi num livro de filosofia quem inventou a rede para os artistas de circo e fiquei banzo, como vocês vão ficar quando 
eu disser: foi o imperador Marco Aurélio. E esta? 
O imperador Marco Aurélio que tanto admiro. A certa altura informaram-no que dois ginastas tinham morrido ao caírem do trapézio 

(já havia trapézios nesse tempo, o que eu nem sonhava)

e Marco Aurélio, comovido, mandou que os artistas passassem a trabalhar com uma rede por baixo, ordenando que lhes acrescentassem colchões na ideia de diminuir ainda mais os riscos. Quando aperfeiçoaram a eficácia das redes os colchões desapareceram. As redes ficaram, claro, até hoje. Desde que aprendi isto penso sempre nele ao começar a escrever: já não corro 
o risco de quebrar a espinha. Há uma obra muito curiosa, chamada The Last Word, um best-seller que é uma seleção dos obituários do New York Times. Não são artigos tristes, são celebrações da vida, da mesma forma que não são sobre pessoas famosas, são sobre as criaturas que quase ninguém conhece e mudaram a nossa vida. Por exemplo o sujeito que inventou que a água sai quente puxando o manípulo para um lado e fria puxando para o outro, ou o senhor que descobriu os pacotinhos de chá, o que inventou o guardanapo, que Leonardo da Vinci aperfeiçoou bastante como aperfeiçoou quase tudo, ou o caramelo que nos deu o nylon e tão combatido foi, ou o deus que trouxe a esferográfica, ou a senhora que concebeu as pipocas, ou seja dúzias e dúzias de anjos desconhecidos, de quem dependemos tanto. E cada obituário, em lugar de cinzento e lamentoso é uma festa de alegria. O miúdo que aos dezassete anos fez o Super Homem. Ou a senhora dos quadradinhos de marmelada. Centenas de sobredotados tratados com respeito, carinho, admiração e humor. Não percebo o motivo de nenhum editor português ter publicado este campeão de vendas. Não querem ficar ricos, os idiotas, ainda por cima com uma obra espantosa, divertida, apaixonante. Preferem o lixo: é lá com eles. Na contracapa tem apreciações críticas excelentes. Uma conhecida romancista americana, por exemplo, diz mais ou menos: “estes obituários são magníficos: mal posso esperar para ler o meu”. Os portugueses são estúpidos, não é? Não merecem, não é? Vão à merda.
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Escritor e psiquiatra português. Nascido em Lisboa.
(Opinião publicada na VISÃO 1314 de 10 de maio)
Fonte:  http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2018-05-17-Embrulhem--e-vao-buscar 17/05/2018
 


 

A onda certa no trabalho

Lygia Pontes*

onda - artigo - lygia pontes - bbc
(Imagem: divulgação/BBC)

“Pegar” onda pode ajudar no dia a dia do trabalho. Seja no jornalismo, em outros setores da comunicação ou demais áreas.

Há alguns anos, descobri uma nova paixão: o surf. Estar em contato com a natureza, em especial o mar, é algo que eu sempre gostei e ter a oportunidade de aproveitar muito mais as minhas idas à praia me traz diversos benefícios e ensinamentos, que aplico em todas as dimensões da minha vida. Um deles é encarar os medos e desafios que surgem no dia a dia.

Embora eu saiba nadar, sempre me senti insegura no meio das ondas. Mesmo assim, fui em frente com as primeiras aulas de surf: depois das orientações dos professores, peguei a prancha, fiz exercícios de concentração e me joguei na água. Foi uma sensação indescritível. Ficar sobre as ondas muda a nossa vida e se precisamos enfrentar um medo para fazer isso, a satisfação é ainda maior.

As aulas foram acontecendo, fui melhorando a cada dia e chegou o momento de ir para o outside – fora da arrebentação! Foi uma mistura de sentimentos, mas o que dominava ainda era o medo. Mesmo assim, segui em frente e, mais uma vez, foi uma sensação indescritível.

Com o fim das aulas, voltei para São Paulo e, mesmo na minha rotina longe da praia, eu me lembrava sempre do surf. Afinal, ele me proporcionou mais do que ficar em pé na prancha e deslizar sobre as ondas: ele me ensinou a trabalhar melhor. Como? Explico a seguir os ensinamentos do surf que recomendo que todos os profissionais coloquem em prática:

Conheça os seus recursos

Prancha, leash, parafina e quilha ajudam qualquer surfista. Mas se não forem bem administrados, podem prejudicar. Sempre que eu caía, protegia a cabeça, porque, embora a prancha seja o elemento essencial no surf, pode nos prejudicar – a quilha também. Já pensou se uma delas batesse na minha cabeça? Na vida profissional é a mesma coisa: se não soubermos todos os benefícios dos recursos que possuímos e também de que forma podem nos prejudicar, com certeza vamos nos dar mal. Portanto, tire algumas horas da sua semana e faça uma lista dos pontos positivos e negativos de cada ferramenta, material etc que utiliza no seu trabalho.

Não queira controlar tudo

Sempre que eu entrava no mar, já queria saber como estariam as ondas, em que momento elas viriam etc. Era tanta necessidade de saber todos os detalhes que eu não conseguia fazer o básico para qualquer situação que vivemos: observar. Sem fazer isso, eu não compreendia como o mar estava naquele momento e perdia várias ondas – sem contar os caldos… Na vida profissional é igual! Não tem como sabermos todos os detalhes de tudo o que vamos enfrentar. Por isso, antes de querer ter tudo sob controle, observe.

Respeite o tempo de cada um

Esse aprendizado está diretamente ligado ao anterior, já que, se começamos a observar mais, conseguimos entender que cada pessoa tem o seu próprio tempo. No mar, eu ficava muito ansiosa para chegar uma onda boa, mas, às vezes, ela demorava muito. Isso me deixava irritada e ansiosa, o que tirava a minha concentração e eu acabava não conseguindo pegar nenhuma onda. Quando comecei a entender que eu precisava esperar o tempo do mar, o surf se tornou mais prazeroso e senti que havia criado uma conexão mais forte com a natureza. O mesmo acontece no meu trabalho. Percebo que não perco oportunidades por causa da minha ansiedade ou irritação. Na verdade, eu me dou conta de que existem muito mais possibilidades do que eu imaginava.

Prepare-se

Mesmo que não seja possível saber exatamente tudo o que vai acontecer no mar ou no nosso dia a dia, é essencial que a gente se prepare. Por isso, leia, estude, pergunte, escute. Pense em todos os possíveis cenários – positivos ou não – e defina como deverá agir em cada um deles. Ter um repertório amplo só irá trazer benefícios a você.

Além do surf, tenho tirado também muitos aprendizados de outras atividades que faço. Percebo que tudo o que realizamos nos proporciona momentos de ensinamentos e de sermos profissionais melhores. Por isso, incentivo que você comece a encarar os seus hábitos do dia a dia como possibilidades de se desenvolver no trabalho. Além de ajudar na vida profissional, vai auxiliar a encarar os momentos de lazer como prioridades.
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 * Relações Públicas formada pela USP e com especialização em Administração de Empresas pela FGV - SP. Após mais de dez anos trabalhando em comunicação corporativa, decidiu se tornar advisor, consultora e palestrante para auxiliar empresas e profissionais a alcançarem o sucesso com eficiência e equilíbrio. Por meio de serviços com metodologias exclusivas e apoiados em três pilares (comportamento, comunicação e gestão), colabora com organizações para alcançarem suas metas, a partir do trabalho de funcionários motivados, e auxilia pessoas a encontrarem o caminho para a felicidade na vida profissional.
Fonte:  https://portal.comunique-se.com.br/a-onda-certa-no-trabalho/?info

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O mundo precisa de adultos responsáveis, não de otimismo infantilizado

Eliane Brum*
Crise da água em São Paulo
Carro abandonado em Atibainha, que integra o sistema Cantareira, em 2015 A
 
Como fazer para que as pessoas acordem para a mudança climática na época do entretenimento?

São Paulo, a maior cidade do Brasil, pode enfrentar mais uma vez uma crise da água em ano eleitoral. E não em qualquer eleição, mas nesta que se anuncia como uma das mais duras e truculentas da história recente, agravada ainda pelas fake news. Na primeira crise da água, em 2014, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) reelegeu-se no primeiro turno afirmando que estava “tudo sob controle”. Apesar das evidências cotidianas de que algo muito grave estava acontecendo, a maioria da população de São Paulo preferiu acreditar que tudo ia ficar bem e a vida poderia ser retomada sem maiores alterações. A descoberta mais importante revelada pela crise foi o nível de desconexão com a realidade a que as pessoas podem chegar para não serem obrigadas a enfrentar as dificuldades, fazer mudanças permanentes na vida e pressionar os governantes e legisladores por políticas públicas. E como estão dispostas a acreditar em qualquer um que pronuncie a expressão “sob controle”. O problema é que qualquer pessoa que diga, em tempos de mudança climática, que algo está “sob controle” ou é mentiroso ou é maluco. Mas de novo estamos voltando a esse tipo de irresponsabilidade alimentada pela incapacidade de se responsabilizar de adultos infantilizados que preferem acreditar em qualquer estupidez a ter que enfrentar o mal-estar que sentem nos ossos.

No evento que marcou os 15 anos do Fórum Pacto Global, da Rede Brasil das Nações Unidas, em 16 de maio, Vicente Andreu, ex-presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), fez uma intervenção contundente no palco do auditório do Museu de Arte de São Paulo (MASP): “Não é justo vir a um evento desses e não falar o que (a pessoa) realmente sente. A água no Brasil é uma agenda política rebaixada. O tema da água só aparece na eleição como tragédia e denúncia, sem propostas”, afirmou.

“A normalidade agora é a exceção”

As séries históricas, algo tão mencionado na crise de 2014, já não fazem sentido num planeta alterado pela mudança climática. “As nossas séries históricas, aquele mecanismo que a gente sempre utilizou, de olhar pra trás para projetar o futuro, acabou. Não tem mais condições de se fazer absolutamente nada com as séries brasileiras. Eu sou estatístico de formação... Quem tentar fazer alguma correlação com as séries históricas nos últimos dez anos no Brasil aqui no Cantareira (principal sistema de abastecimento de água de São Paulo) matematicamente faz, mas pra que serve?”, questionou Andreu, um dos principais articuladores do Fórum Mundial da Água, que se realizou pela primeira vez no Brasil em março. “A variabilidade do período do ciclo hidrológico em função das mudanças climáticas está completamente alterada no Brasil e no mundo. E ainda se tenta explicar o amanhã por uma média.... Fica mais ou menos assim: não tá na média nunca. Aí, no ano que dá na média, alguém corre lá e diz: ‘Ó, voltou ao normal, voltou pra média’. Mas a normalidade agora é a exceção.”

Segundo Vicente Andreu, existe a possibilidade de uma crise da água em São Paulo ainda pior do que a de 2014. Ele afirma também que, apesar de o Cantareira ter deixado de abastecer 1,6 milhão de pessoas, o consumo seria hoje de 300 litros por habitante ao dia, o mesmo que antes da crise. “O gráfico de abril no Cantareira bateu em 2014. Se não chover em maio vai ser pior do que 2014. Então não dá mais pra tentar vender para as pessoas uma segurança que não tem. Nós temos que afirmar, sem vergonha: ‘Não sei, não sabemos’”, diz. “Temos que trabalhar com o princípio da precaução. E o princípio da precaução é, por natureza, pessimista. Essas coisas precisam ser tratadas de maneira verdadeira, com a complexidade, com as incertezas que as coisas têm, para que as pessoas acreditem. Se elas não acreditarem, não adianta nada.”

Ser responsável hoje é afirmar que a situação 
NÃO está sob controle

Ser responsável hoje é afirmar que a situação NÃO está sob controle. Por irresponsabilidade geral, a crise de 2014 não provocou mudanças significativas e permanentes nos padrões de consumo. Há muito o que fazer na indústria e na agricultura, que têm muito mais impacto, assim como nas casas das pessoas. Nem foram feitos os investimentos necessários em reflorestamento e recuperação da vegetação do entorno do Cantareira, uma medida mais do que urgente. A Mata Atlântica é uma floresta arrasada. É preciso recuperá-la. Quem se agarra a séries históricas está, de fato, se agarrando a seus empregos num planeta que já mudou.

Pode chover mais ou menos neste ano. A crise da água pode ser maior ou menor. O que é preciso compreender é que não é uma crise e outra crise lá não sei quando, mas uma catástrofe em curso, uma realidade deste momento histórico com a qual temos que lidar, na qual haverá um número maior e mais frequente de eventos extremos. Não é opcional. A mudança climática está aí. E não vai embora porque enfiamos a cabeça dentro de um frasco de Rivotril.

Os adultos de hoje têm mentalidade de século 20 
e criam filhos com mentalidade de século 20

Há várias barreiras travando o enfrentamento desse momento de urgência. A primeira delas é que os adultos dessa época carregam uma mentalidade de século 20 e estão criando filhos com uma mentalidade de século 20. Ainda com a convicção de que bastam obras e tecnologia que tudo se resolverá, na crença absoluta da potência humana. Seguidamente sem perceber que esse “pode tudo” causou uma mudança na Terra. Tanto que cientistas respeitados defendem a alteração do nome desse intervalo de tempo geológico do planeta, que passaria a se chamar de Antropoceno – ou o período em que a espécie humana se tornou uma força capaz de deformar a paisagem global.

Outra barreira é o momento geopolítico, com um pesadelo como Donald Trump liderando a maior potência mundial e as democracias em crise existencial profunda. No Brasil, que abriga a maior porção da maior floresta tropical do mundo e deveria estar dando exemplo, mas não está, perdeu-se a chance de fazer uma grande mudança de paradigma quando São Paulo viveu a crise da água. Os interesses eleitoreiros se impuseram, e a população, já esgotada por tantas dificuldades econômicas e decepções políticas, se deixou alienar mais uma vez.

O debate sério sobre a água e a mudança climática só entrará na pauta das eleições deste ano se houver muita pressão dos eleitores. Sem políticas públicas para enfrentar os desafios do aquecimento global e outras alterações provocadas pelo humano, o que inclui desde zerar o desmatamento na Amazônia até ampliar o saneamento básico para toda a população, não há enfrentamento de fato. Mas o contexto é de rebaixamento da política, de um modo geral, e de baixa credibilidade dos políticos tradicionais. Para agravar, Jair Bolsonaro, que já se revelou incansável no ato de proclamar sua ignorância sobre todos os temas, lidera as intenções de voto em cenários sem Lula.

Quem trabalha com as questões da mudança climática tem se feito uma pergunta recorrente: como fazer com que as pessoas compreendam o que acontece hoje no planeta e passem a agir, o que significa tanto pressionar o poder público para tomar as medidas necessárias quanto mudar padrões arraigados e se adaptar a uma vida que será diferente? Havia a expectativa de que São Paulo, pelo tamanho e importância que tem no cenário brasileiro, pudesse ser um laboratório de conscientização e propostas criativas durante a crise da água que começou em 2014. Mas a oportunidade foi perdida. E a crise da água logo foi esquecida pelos que ainda têm o privilégio de poder esquecê-la, como se tivesse sido apenas um soluço.

Com os índices do Cantareira se revelando mais uma vez perigosos, as falsificações e mascaramentos já começaram. Nesta segunda-feira, 21 de maio, o Cantareira estava com 47,8% da capacidade. Em 2012 e 2013, anos que antecederam à crise, o Cantareira operava com 73,5% e 61,5%, segundo reportagem do UOL. Mas a Sabesp (empresa de saneamento do estado de São Paulo) já afirmou que “não há motivo para preocupação”. A irresponsabilidade do “sob controle” já começa a ecoar. Afinal, Geraldo Alckmin deixou o cargo de governador de São Paulo para disputar a presidência da República pelo PSDB.

A neurose do otimismo converte os pessimistas em traidores

Há ainda uma outra barreira impedindo que as pessoas despertem. E esta pode ser a mais difícil de transpor. Esse momento da história, no qual a mudança climática se torna o maior desafio, encontra um tipo de humano que foi moldado pela indústria do entretenimento. Homens e mulheres se tornaram adultos infantilizados esperando que lhes digam o que está acontecendo, o que pensar e como reagir, e o que têm de consumir a cada vez, de produtos materiais a conceitos. É nessa chave que entra a atual neurose do “otimismo”, que faz com que os “pessimistas” se tornem uma espécie de traidores que não querem que o mundo melhore.

Já escrevi neste espaço e não me canso de repetir: acusar o mal-estar dessa época é um sinal de saúde mental. Agir como carneiros saltitantes de desenho animado enquanto a Amazônia é destruída, a falta de água ameaça São Paulo, o Ártico degela aceleradamente, os eventos climáticos extremos se sucedem e as populações mais frágeis começam a se deslocar pode demonstrar dificuldade para se conectar com a realidade. Com essa negação é preciso se preocupar.

Mas é para esse tipo de comportamento que a indústria de entretenimento preparou a geração de consumidores de emoções que aí está. E está preparando a nova que vai assumir essa encrenca. As carinhas sorridentes, a raivinha e os coraçõezinhos das redes sociais são um estágio a mais na infantilização da humanidade. Somos adultos botando desenhos fofos em posts o dia inteiro.

Por razões profissionais, costumo frequentar eventos sobre temas sérios. Tenho percebido que, de forma acelerada, parte desses encontros têm se tornado, nos últimos anos, cada vez mais parecidos com programas de TV que os americanos adoram e que parte do mundo imita. Ou seja: temas do momento com diversão e muitas piadinhas. De preferência, o palestrante ou debatedor deve se comportar como um artista de stand up. A plateia, gente adulta, claramente espera ser entretida. Diga que o mundo está acabando, mas de um jeito palatável. Em seguida, faça uma graça. A plateia ri. Às vezes faz uhuhuhu. Tudo é performance. Não se trata de condenar o riso, pelo contrário. O que me refiro é ao espanto de que isso seja necessário. Não é algo casual, isso molda a estética e a ética.

O “otimismo” foi alçado a uma espécie de 
superioridade moral

Assim, quem apenas diz o que precisa ser dito é um chato. E o chato ganhou outro nome: “pessimista”. Nesse contexto, o “otimismo” foi alçado a um tipo de superioridade moral. É preciso ter pensamento “positivo” para ser um bom consumidor, também de conceitos. É preciso ser divertido, leve, bem humorado. Se não provocar diversão, é necessário produzir algum sentimento que seja consumível, como enlevar o público. Dar à plateia algo que ela sinta que ganhou naquele momento, mas que não a perturbe além daquele momento. Algo que não a deixe chateada nem estrague o seu dia. A ideia não é produzir movimento, mas oferecer ao consumo do público um produto que venda a sensação de movimento.

No dia 18 de maio, o ambientalista americano Paul Hawken lançou a edição brasileira de Drawdown – 100 iniciativas pra resolver a crise climática (Manole), traduzido por Fernando Gomes do Nascimento. Num evento no Museu de Arte Moderna (MAM), no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ele falou sobre como é preciso encontrar uma linguagem para que as pessoas possam alcançar os conceitos da mudança climática e terem a chance de mudar a si mesmas.

E exemplifica. Se ele chegasse em qualquer lugar de São Paulo e perguntasse sobre o que fazer a respeito dos 2 graus Celsius, ninguém teria qualquer ideia ou interesse no assunto. Mas esse é o limite de aquecimento global que não pode ser ultrapassado, embora tudo indique que será. É talvez o número mais importante desse momento histórico para todas as pessoas. Mas, segundo Hawken, e ele tem razão, é preciso encontrar outra maneira de conversar sobre isso, porque a forma como os cientistas – e também os jornalistas – falam não está alcançando o público. Ele acredita ser preciso dar informações às pessoas, para que elas façam suas próprias escolhas – e não impor a elas o que tem de ser feito.

No evento de lançamento, apresentado pelo jornalista Paulo Lima, com a participação do cientista do clima Carlos Nobre e da modelo Gisele Bündchen, a linguagem parece ter agradado à plateia, que reagia com animação. O livro é importante e faz um esforço de apresentar soluções que a maioria das pessoas pode compreender. E qualquer esforço nesse sentido deve ser bem recebido.

Mas é interessante observar como a “venda” do livro aposta no pensamento positivo, no respeito à escolha do indivíduo e na ideia da superioridade moral do otimismo. Aposta também na “oportunidade” representada pela crise climática de uma mudança para melhor na humanidade. O aquecimento global como uma “benção”, não como uma “maldição”, como chegou a ser dito. “Consideramos o aquecimento global não como um fato inevitável, mas como um convite para construir, inovar e efetuar mudanças, um caminho que desperta a nossa criatividade, compaixão e inventividade. Esta não é uma agenda liberal, nem uma agenda conservadora: essa é a agenda humana”, escreve Paul Hawken.

Na abertura do evento, Pedro Paulo Diniz destacou que essa abordagem da mudança climática pelo pensamento positivo e pelas soluções, em contraposição ao discurso do apocalipse climático, é o que o atraiu nas ideias de Paul Hawken. Herdeiro de uma das famílias mais ricas do Brasil, Diniz tem se dedicado à produção de produtos orgânicos em sua fazenda e é um dos fundadores do Believe.Earth, movimento de histórias positivas por um desenvolvimento sustentável lançado em 2017 no RockInRio.

Se a mudança climática lança a humanidade no mesmo barco, não é permitido esquecer que há barquinhos de 
papel e há iates de luxo

A ideia de uma “agenda humana” é bonita – e os “believers”, como se apresentam, são bem intencionados. Mas é necessário observar que essa ideia tem sido usada por diferentes forças políticas para borrar algo que atravessa a mudança climática: a desigualdade social e racial. Se a mudança climática lança todos no mesmo barco, como espécie humana habitando o mesmo planeta, a realidade é que há barcos que afundam primeiro, há barcos que já estão afundando, e nesses barcos inseguros estão os mais frágeis. Há barquinhos de papel e há iates de luxo e ultratecnológicos. A mudança climática explicita a desigualdade do Brasil e do mundo. Basta ver quem está se deslocando de suas casas, regiões e países, fugindo dos eventos extremos.

Essa ideia da “agenda humana”, se por um lado é bonita e verdadeira, precisa ser vista com cautela, para não ser usada para apagar a desigualdade, que é agenda urgente também no tema da mudança climática. Esse discurso se alinha àquele que busca borrar as diferenças fundamentais entre direita e esquerda. Assim como é preciso olhar com cautela para esse exacerbamento da ideia da mudança individual.

Se é necessário que cada um mude seus padrões de consumo e se responsabilize por sua pegada no planeta, as medidas efetivas, urgentes e importantes para enfrentar os desafios do aquecimento global são medidas construídas no espaço público. É no campo da política que esse debate tem que ser travado. É também por medidas públicas que os mais frágeis são protegidos e a desigualdade é combatida.

Gisele Bündchen, a modelo mais bem sucedida da história, assina um dos prefácios do livro e apoia o projeto. Ela é uma mulher interessante, que tem feito muito para divulgar a causa ambiental quando tantos na sua posição não fazem nada a não ser gastar o dinheiro acumulado. E seu poder de alcance é imenso. Gisele começou a se tornar uma voz em defesa do meio ambiente quando, anos atrás, foi ao Parque Nacional do Xingu. Esperava uma Amazônia mítica, no gênero Avatar, blockbuster de James Cameron, e se deparou com a realidade de uma floresta corroída junto com seus povos.

Há um depoimento de Gisele Bündchen durante o debate que pode ajudar alguns pais nesse momento em que é tão necessário educar um filho para o mundo que aí está. Na prática, Gisele parece escolher uma linguagem mais dura do que fofa para tratar da destruição do planeta com suas crianças:

“Seu brinquedo vai parar na barriga da baleia”, 
diz Gisele Bündchen ao filho

– Todos nós temos que tomar responsabilidade sobre como vivemos a nossa vida, porque todos temos impacto. Claro que, quando empresas grandes mudam, o impacto é muito maior do que uma casa e outra casa. Mas acho que a consciência começa em cada ser humano. Qual é a minha responsabilidade aqui? Em casa nós temos nosso jardim, solar panels (painéis solares), a gente usa filtro. Se entra uma garrafa de plástico na minha casa eu viro monstro, entendeu? Eu mostrei um vídeo pros meus filhos esses dias, em que abriram uma baleia, e era puro plástico dentro da baleia. As minhas crianças falam que são os protetores da natureza. Eu tô sempre mostrando pra eles, porque eles têm que saber qual é o impacto. Meu filho tem 8 anos, e nos últimos dois ele não quis mais presente. Eu falei pra ele que o presente pode acabar na barriga de uma baleia no mar. (risadas da plateia). Antes de dormir leio um livrinho pros meus filhos, e às vezes eles querem ver fotos. Teve o momento em que eu mostrei as fotos dos órfãos elefantes, e ele ficou muito emocionado com aquilo. Aí, no aniversário de 6 anos ele pediu pros amiguinhos: “Doe pra essa fundação que eles protegem os elefantes”. Trinta crianças chegaram lá em casa e estavam ajudando ele a ajudar os elefantes. Ele fala pra irmãzinha dele agora: “Vivi, escuta aqui, deixa eu te falar uma coisa: Você quer matar os bichos no mar?”. É muito importante a gente ter noção de que a forma que a gente escolhe viver tem um impacto no mundo inteiro. A gente tem que ter noção disso, a gente tem que ver qual é o impacto e como a gente pode melhorar as nossas ações. Essa é a nossa casa, a única que temos. Não vai descer um santo aqui e resolver o nosso problema. Nós vamos ter que resolver.

É interessante que Gisele Bündchen conversa com os filhos sem fazer pirotecnias verbais ou acrobacias psicológicas. Demonstra respeitar a inteligência dos filhos e sua capacidade emocional de lidar com fatos difíceis, assim como apostar na formação de discernimento. Mostra a baleia morta com plástico dentro e diz: “É pra lá que seu brinquedo pode ir. O que você vai fazer a respeito?”. As crianças, filhas de um dos casais mais famosos e ricos do mundo, escutam o que muitos adultos parecem não estar conseguindo escutar. E estão sendo ensinadas a se responsabilizar pelo seu impacto no planeta.

Encontrar uma linguagem para que as pessoas sejam capazes de nomear o seu mal-estar e pressionar por medidas de reversão do aquecimento global é ainda um desafio. Mas não há tempo para esperar que os adultos infantilizados de hoje sejam emancipados. Mudar padrões de consumo não é apenas uma questão de escolha do indivíduo, já que a maioria dos mais atingidos hoje pelos efeitos da mudança climática são os que não têm escolha, os mais pobres e os mais frágeis. Basta lembrar quem sofreu mais na crise da água de 2014 em São Paulo. Mudar padrões de consumo é obrigação ética, compromisso com o coletivo, princípio básico da vida em comunidade.

A chave desse momento histórico não está entre o otimismo e o pessimismo – ou entre o pensamento positivo e o negativo. Não há tempo para esses truques de auditório. A crise climática é gravíssima e seus efeitos só estão começando. Adultos precisam ser capazes de escutar. E de reagir com algo mais do que carinhas sorridentes ou vermelhas de raiva. É preciso romper a estética do entretenimento porque ela não é ética. Nada está “sob controle”. É exatamente isso que precisa ser dito.
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* Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/21/politica/1526914514_866691.html