segunda-feira, 17 de maio de 2010

Sem lenço, sem documento = sem identidade?

Maria Clara Bingemer*
RIO - Xenofobia é palavra definida como dificuldade com tudo o que é diferente e proveniente de outra cultura que não é a minha. Da família de outras antipáticas palavras como preconceito e aversão, a xenofobia constrói uma blindagem entre o eu protegido e egoísta e todo aquele ou aquela que não fala minha língua, não nasceu em meu país, não tem meus hábitos.

Estrangeiro – ou gringo, como mais vulgarmente é chamado – aquele ou aquela que não é daqui é considerado como não pertencente aqui. Fora de seu lugar, lhe será feito sentir sua excentricidade. Isso poderá acontecer sob forma de discriminação, de caçoada mais ou menos ferina ou, em casos mais graves, de hostilidade declarada.

Na Europa e nos Estados Unidos, o problema dos imigrantes que chegam sem papéis, em busca de uma vida melhor, vai tomando proporções assustadoras. São milhares de africanos no primeiro caso e no segundo, ao lado das imigrações africana e asiática, a latina vai se firmando a ponto de constituir quase um outro país dentro do país.

Na fronteira de San Diego, na Califórnia, com Tijuana, no México, uma infinidade de cruzes se alinham ao longo de um imenso muro. Cada uma tem o nome de um migrante latino, homem ou mulher, que cruzou a fronteira ilegalmente em busca do sonho americano e perdeu a vida em meio à aventura. Muitas vezes, porém, a prisão ou a deportação chegam antes da morte. E o migrante é devolvido a seu país sem contemplação.

Muitos recomeçam uma e outra vez o doloroso êxodo. Algumas ONGs os ajudam na busca por documentos, por trabalho, com maior ou menor sucesso. Alguns que tinham uma carreira universitária e uma profissão digna em seu país aceitam um trabalho menos qualificado para ganhar mais e poder garantir um futuro melhor para seus filhos. Estes, por sua vez, gerarão filhos americanos que cada vez mais se distanciarão da pátria, da cultura, da terra e da língua que foi sua origem.

No último dia 1º de maio milhares de latinos foram às ruas em todo o país para recordar ao presidente Obama sua promessa de campanha: frear a deportação dos indocumentados e promover a reforma migratória. Em vez de celebrar o Dia do Trabalho, os latinos clamavam pelo direito ao trabalho e à cidadania. Pelo direito aos documentos que os tornarão cidadãos plenos no país onde foram em busca de uma vida mais humana.

Nós, brasileiros, olhamos para os irmãos do Norte pensando que o problema é deles. Assim como fazemos com o racismo. Será mesmo? Último país a abolir a escravidão, o Brasil ostenta um antirracismo de salão que ainda manda negros entrarem pela porta dos fundos e diz que têm “cabelo ruim”. Com jeito cordial, ao ouvirmos o estrangeiro esforçar-se por falar nossa difícil língua, cheia de sons nasais, rimos e zombamos. “Gringo, aperta a tecla SAP”.

Os ativistas políticos nos EUA gritam sem cessar a palavra de ordem: “Todo americano é imigrante”. Seria bom que aqui nos lembrássemos das muitas matrizes raciais e culturais que formam a grande nação que somos e nos tornássemos um pouco mais abertos. Xenofobia é anti-humanidade, é atraso civilizatório, é vexaminoso preconceito. A convivência com o diferente, o estrangeiro, é sempre preciosa oportunidade de aprendizagem, que só nos faz crescer em todas as dimensões.
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*Maria Clara Bingemer é autora de A argila e o espírito: ensaios sobre ética, mística e poética (Garamond), entre outros livros. ()
Fonte: JB - 16/05/2010

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