terça-feira, 11 de maio de 2010

Vamos construir uma casa?

RUBEM ALVES
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É sempre o sofrimento que acorda o pensamento.
Sem sofrimento o pensamento dorme, preguiçoso...

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CRIANÇAS: quando eu era menino, um dos meus brinquedos favoritos se chamava "o pequeno construtor". Era uma caixa cheia de blocos de madeira com que se podia construir casas, igrejas, castelos, tudo dependendo do que se imaginava: porque a imaginação, aquilo que não existe, é o princípio de tudo o que existe.

Pois eu inventei um brinquedo parecido que se chama "Vamos construir uma casa..." E até escrevi um livro sobre ele. Claro que não se trata de construir uma casa de tijolos e cimento. Mas podemos construí-la na imaginação. A importância desse brinquedo está no fato de que é na terra do que não existe, chamada imaginação, que a inteligência bate asas.

Então, o brinquedo "Vamos construir uma casa" é um exercício da inteligência. Sendo que o despertar da inteligência é o objetivo da educação.

Tudo começou com o Amyr Klink.

O Amyr Klink é um navegador. Navega num barco a vela. Vela é uma armadilha para pegar o vento. O vento tem força. O vento vem, enche as velas e empurra o barco.

Antes das velas era preciso remar para fazer o barco navegar. Mas remar dava muita canseira e dor nos músculos. Aí um remador, sofrendo de tanto remar, pensou... (É sempre o sofrimento que acorda o pensamento. Sem sofrimento o pensamento dorme, preguiçoso...) ... pensou se não haveria um jeito de por o vento a seu serviço. Aí ele imaginou a vela.

O vento, empurrando o barco, o deixaria livre para fazer outras coisas. Poderia ficar deitado, contemplando as nuvens, ou pescando, enquanto a vento fazia o seu trabalho ou simplesmente amando...

Toda a nossa história passada é a história dos homens pondo a natureza para trabalhar para eles.

Os moinhos de vento, os moinhos de água, o arco e a flecha, as alavancas, os monjolos, o fogo...

Pois o Amyr Klink, navegador que faz o vento empurrar o seu barco, já fez as viagens mais incríveis pelo mundo todo. Chegou até a Antártida navegando sem combustível...

Na Antártida tudo é gelo. Lá não há árvores. Tudo é branco. Nus, na Antártida, morreríamos em poucos minutos. E o mais incrível das navegações do Amyr Klink é que ele navega sozinho. Já imaginaram? Sozinho, no meio daquele mar sem fim... Eu não teria coragem. Teria medo. Mas a solidão faz o pensamento imaginar.

O Amyr Klink não é só navegador. Ele pensa sobre as escolas. As escolas são importantes porque nelas aprendemos a usar as forças da natureza.

As ciências chamadas Física e Química nos ajudam a entender a natureza para poder usá-la para dar descanso ao corpo. E até um joguinho aparentemente sem força chamado Matemática tem tanto poder que levou os astronautas numa viagem até lua.

Perguntaram ao Amyr Klink: "Qual é a escola que você desejaria para os seus filhos?" Sem citar nenhuma de nossas escolas, ele respondeu: "A que eu desejaria para os meus filhos é uma escola que há na Ilha Faroe. (Procure essa ilha no Google).

Essa ilha era ponto de parada dos Vikings em suas incursões guerreiras e de pilhagem. Lá, nessa ilha, as crianças aprendem tudo o que precisam aprender para viver construindo uma casa Viking..."

Aí eu pensei: se isso é possível na Ilha Faroe, por que não seria possível também para as nossas crianças? Então escrevi o livro, ensinando as regras do jogo prá quem quiser jogar. As crianças acham esse jogo a maior diversão! Vocês também vão achar. Depois eu ensino...
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*Educador. Escritor.
Fonte: Folha online, 11/05/2010

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