sexta-feira, 18 de maio de 2012

A ficção que sente vergonha

José Castello*

Os críticos literários não suportam a ideia de que a crítica literária é, ela também, um tipo (ainda que envergonhado) de ficção. A hipótese os horroriza, pois desmorona a torre de conceitos e preconceitos desde a qual eles observam, com a postura de metódicos cientistas, a produção literária. Afasta-os das garantias de verdade que eles supõem inerentes ao trabalho crítico. Esfacela suas armaduras e os expõe.
A crítica trabalha, ela também, com a ilusão de verdade. Arcabouços teóricos, tradições analíticas, protocolos de leitura, nenhuma dessas couraças garante, contudo, a presença da verdade. Todo crítico é, antes de tudo, um leitor comum. Por mais que lute contra isso, nenhum crítico consegue calar o leitor comum que traz dentro de si. Uma grande diversidade de aspectos subjetivos entra, sempre, em jogo em sua atividade. A crítica - mesmo a mais "pura" delas - está impregnada de memória, de superstições mentais, de devaneios e imaginação. Também ela deriva da fantasia e, em consequência, se aproxima ("é") da ficção.
Juan José Saer, o grande escritor argentino, observou certa vez que a ilusão da não-ficção se tornou, em nossos tempos, o gênero da moda. O rechaço da ficção seria, nesse caso, uma garantia de verdade. Vivemos no século da ciência e da tecnologia - logo, no século da verdade. Mas será? Como desprezar a ficção se somos sujeitos de sonho e de fantasia? Se estamos, desde a mais remota infância, aprisionados às lendas íntimas da imaginação? Se, apesar de nossos esforços sinceros, continuamos prisioneiros de nossa subjetividade - que é sempre limitada, nublada e parcial? "A superioridade da verdade sobre a ficção é apenas uma fantasia moral", escreveu Saer. A ficção não descarta a verdade objetiva, apenas enfatiza sua turbulência e complexidade. A ficção não mata a verdade, em vez disso, a expande.
A razão crítica surge amarrada, ela também, à ficção. Recordo aqui um pensamento do escritor húngaro Imre Kertész: "Quanto mais argumentos apoiam a minha razão, tanto mais longe fico da verdade, porque participo de um jogo de linguagem cujos componentes são todos falsos, me encontro num sistema de ideias que deturpa tudo". Kertész conhece, muito bem, os aspectos utilitários da noção de verdade. Diz mais: "Se esse sistema de ideias cria uma realidade, a minha realidade dentro dele só pode ser uma realidade instrumental". Na leitura de uma ficção, uma grande parte da verdade nos escapa. O mais dramático: ela escapa, da mesma maneira, a seu autor. Essas zonas de sombra são, a rigor, o que chamamos de ficção. Só temos acesso ao indizível através do recurso da fantasia.
A crítica, porém, parte do pressuposto de que o autor é senhor de seu texto. Acredita, ainda, que, feito de segredos, jogos e armadilhas, o texto - como em uma escavação arqueológica -, se oferece à sua decifração. Mas é o contrário! Quando lê um livro, um crítico - como qualquer leitor comum - é, mais, objeto da interpretação do que sujeito da interpretação. É como no consultório do psicanalista. Supomos, em geral, que, durante a leitura, o livro se deita no divã (e se oferece para interpretação e decifração do leitor), enquanto o leitor se acomoda na cadeira do analista. Ocorre, porém, o contrário. Quem ocupa a cadeira do psicanalista -quem lê, interpreta e provoca -é o livro. Quem se deita no divã e "sofre" do que lê é o leitor.
Parte majoritária da crítica se aferra a um modelo clássico, que vê a literatura, apenas, como um objeto de estudos. Enquanto isso, ela esconde e renega os impactos que a leitura provoca no espírito de quem lê, afetando assim, diretamente, a leitura que será capaz de fazer. Os críticos desprezam o modo como a literatura os atinge, os desloca e os transtorna. Mas todo crítico, mais que o algoz, é uma vítima do que lê.
Diante de um livro, o crítico deveria seguir a sabia lição formulada por Ernesto Sabato: "Se ele se glorifica, eu o rebaixo; se ele se rebaixa, eu o glorifico; e o contradigo sempre, até que ele compreenda que é um monstro incompreensível". Contudo, admitir que a leitura é uma atividade inesgotável e impossível é, ao mesmo tempo, admitir que ela o atinge e o atravessa. Um dia, como o Gregor Samsa, de Franz Kafka, o leitor acorda transformado no que não é- ou, pelo menos, no que costumava ser. Eis o efeito da leitura: atravessar o peito de quem lê, seja o leitor autorizado, seja o leitor comum. A mesma faca que fere é a faca que cura. Cada um faz com ela o que pode.
Quando tinha 19 anos, adoeci depois de ler, pela primeira vez, "A Paixão Segundo G. H." de Clarice Lispector. Chamado por minha avó, um médico de cabelos brancos diagnosticou: "A senhora não se preocupe, é só uma paixonite". Foi a primeira grande crítica literária que ouvi - proferida não por um literato, mas por um clínico geral. Ele soube entender que eu sofria de uma paixão. Que um livro me derrubara. E que só a digestão do próprio livro me curaria. Tanto que prescreveu apenas tempo e paciência. De fato, com o passar dos dias voltei a mim. Mas, então, eu já era um outro: a leitura de "G. H.", para o melhor e para o pior, me transformou. Eu era Gregor Samsa, agora incapaz de ler a mim mesmo.
Volto a Saer, para quem a ficção não é uma negação da realidade, mas uma conexão extrema entre a realidade e a imaginação. A mesma conexão fundamenta o trabalho da crítica. A realidade - as convenções, as tradições, as normas - se expressa no arcabouço teórico que o crítico manipula. Mas nenhum crítico, nem o mais austero, "sai de si" quando se critica um livro. Ao contrário: a leitura o lança para dentro de si mesmo. O livro, como "uma faca só lâmina" - para pensar em João Cabral - o atinge e fere. Toda ficção, de alguma forma, nos adoece, isto é, faz nosso corpo sangrar. Diz Saer: "A ficção não põe em dúvida a verdade, ao contrário, ela realça seu caráter complexo". A ficção deixa profundas feridas no leitor - mesmo no mais bem equipado deles.
Dizia Clarice Lispector que a ficção não é feita de respostas, mas de perguntas. Quando lemos um livro, essas perguntas se multiplicam e nos ferem. Por mais que lutemos, não conseguimos respondê-las - tanto que lemos, quase sempre, em silêncio. As respostas que esboçamos se transformam em novas perguntas. A grande ficção, em vez de nos apaziguar, nos atordoa. Que outra coisa é o trabalho crítico senão a arte de formular novas perguntas a partir das perguntas primeiras propostas pela ficção? A matéria da literatura não é a verdade, mas algo que a ultrapassa: o enigma. Um enigma não pode ser decifrado, pode apenas ser rondado. Todo crítico, mesmo o mais austero deles, dança em torno de seu enigma. Essa dança é a crítica. Imersa na fantasia e na invenção, a crítica literária não passa, no fim das contas, de um desdobramento da ficção.
Ainda que não escreva na primeira pessoa; ainda que não diga uma só palavra a seu próprio respeito; ainda que lute para se conservar objetivo e imparcial, o crítico será sempre um prisioneiro da ficção que tem diante de si. Ela o transpassa, o deforma e reelabora seus pensamentos. Ela o afeta e altera sua maneira de ler. Mesmo a mais ortodoxa crítica literária é, sim, uma forma - ainda que discreta e envergonhada - de ficção.
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*José Castello é jornalista e escritor, colunista do suplemento "Prosa & Verso", de "O Globo", e autor de "Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão" (Companhia das Letras), "Inventário das Sombras" (Record) e "Ribamar" (Bertrand Brasil), dentre outros.
Fonte: Valor Econômico on line, 18/05/2012

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