quarta-feira, 29 de maio de 2013

O resto é silêncio

Afegão Khaled Hosseini, autor do sucesso “O Caçador de Pipas”, lança novo romance

Best-seller planetário com seu O Caçador de Pipas, gerando inclusive o que na época foi uma grande “onda afegã” nas prateleiras, o médico e escritor Khaled Hosseini está lançando seu terceiro romance.

Menos linear do que os anteriores e composto por uma intrincada estrutura de saltos cronológicos, O Silêncio das Montanhas parece o livro que Hosseini resolveu escrever para provar-se um escritor com mais recursos do que a habilidade de contar histórias.

O Silêncio das Montanhas começa com a narração de uma história folclórica em que um Dev, monstro mitológico afegão, força uma dolorosa separação familiar. Esse será, com variações, o refrão que se repetirá ao longo do livro, orquestrado em nove capítulos que vão e vêm no tempo, de 1952 a 2012, e em que várias e trágicas separações familiares serão ditadas por entidades menos sobrenaturais mas não menos poderosas: o inverno rigoroso, a culpa, a guerra, o Talibã, a fraqueza humana. No início e no fim de uma trama que alterna narradores e pontos de vista, está a tragédia familiar de dois irmãos, o jovem Abdullah e sua irmã Pari (“fada”, em persa), vendida pelo pai na infância a um casal rico e sem filhos.

Já em sua estreia, o sucesso O Caçador de Pipas (2002), Hosseini provava ser um novelista interessante, mas punha o livro a perder por ser um romancista desastrado. O Caçador... era claramente segmentado em três histórias – duas delas boas – cujos pontos de união eram de uma incômoda inverossimilhança melodramática. Em O Silêncio das Montanhas, Hosseini sai-se melhor em boa parte do texto – favorecido pela estrutura fragmentada que transforma o romance em contos passados em diferentes circunstâncias de tempo e espaço mas interligados pelo retorno eventual de personagens mostrados em capítulos anteriores.

A estrutura é similar à que a americana Jennifer Egan utilizou em seu recente (e elogiado) A Visita Cruel do Tempo, mas a comparação desnuda algumas fraquezas técnicas da obra de Hosseini: o uso de golpes baixos melodramáticos, uma prosa pausterizada que abdica da tensão em favor do sentimentalismo e personagens clichês como a artista volúvel e torturada (neste livro há duas) ou descrições recorrentes de imagética batida (mais de um personagem tem o nariz adunco comparado a um bico de pássaro, por exemplo).

Mas Hosseini é um autor com leitores. E, para estes, sua assinatura deve bastar, ainda que na capa de um livro tão apegado ao melodrama que por vezes derrapa no excesso de açúcar.

Trecho:

Seus dias em Shadbag estavam contados, como os de Shuja. Agora ele sabia disso. Não havia mais nada para ele aqui. Não havia mais um lar. Ia esperar até o inverno passar, até o degelo da primavera, levantaria numa manhã antes do amanhecer e sairia pela porta. Escolheria uma direção e começaria a andar. Continuaria andando até estar o mais longe possível de Shadbag, para onde o levassem seus pés. E se um dia, caminhando por um vasto campo aberto, se sentisse tomado pelo desespero, iria parar de andar, fechar os olhos e pensar na pena de falcão que Pari achara no deserto (...). Teria uma sensação de assombro e de esperança também, que tais coisas acontecessem. E mesmo sem se deixar enganar por essa sensação, reuniria suas forças, abriria os olhos e continuaria andando.

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carlos.moreira@zerohora.com.br
Reportagem por CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Fonte: ZH on line, 29/05/2013
Imagem da Internet

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