sexta-feira, 23 de agosto de 2013

OS CONVIVIALISTAS E O PENSAMENTO DE EDGAR MORIN: PROFÍCUAS SINERGIAS EPISTEMOLÓGICAS (pt)

Publicado em 18 agosto 2013
por Marcos de Araújo Silva[1]

O Jornal do Mauss, anteriormente, divulgou aos leitores o Manifesto dos Convivialistas (lançado em 30 de junho de 2013) e, agora, traz  uma recente entrevista do grande pensador francês Edgar Morin, um dos signatários deste Manifesto que vislumbra, dentre outras coisas, concatenar reflexões que permitam visualizar os pontos em comum que existem no ambiente desta heterogênea e diversificada rede de levantes populares que vêm sacudindo o mundo. Isso porque uma das principais intenções dos convivialistas é possibilitar a percepção do grande potencial que estas mobilizações sociais possuem, principalmente se as suas similaridades – e não apenas as suas divergências – forem percebidas e levadas em consideração pelos atores sociais em jogo e por aqueles que se predispõem a refletir sobre tais mobilizações.

As recentes manifestações lideradas por jovens aqui no Brasil e em países como Tunísia, Egito, Turquia, Espanha deixam claro que apesar das suas particularidades, elas possuem importantes características  que lhes conferem uma relativa organicidade: isto é, o despertar de uma consciência coletiva e transnacional, estruturada  com base em sentimentos contrários à manutenção do status quo capitalista-neoliberal que, através das elites econômicas e políticas, se faz presente na maioria dos países existentes na atualidade. Impregnado pela nociva e destrutiva tríade individualismo- consumismo-corrupção, tal status quo já vem sendo questionado há décadas em “mobilizações de rua” feitas por segmentos acadêmicos e da sociedade civil instigados por profundos sentimentos de injustiça, ódio contra a arrogância dos poderes políticos e econômicos estabelecidos e também por indignações diante de práticas endêmicas de corrupção e expropriação dos bens públicos.

Contudo, apenas nos últimos anos, com o início da chamada “Primavera Árabe” e, principalmente, no contexto histórico atual de crescente popularização do acesso aos recursos midiáticos em geral e às redes sociais da internet particularmente – que permitem a efetiva articulação de grupos integrantes do que poderiamos chamar de “global civil society” – estas mobilizações foram revestidas de novas matizes. Matizes estas que instrumentalizaram diversos grupos de atores sociais a perceberem seus anseios comuns e, com isso, vislumbrarem possíveis articulações em torno de pautas para agendas internacionais. Nesse sentido, tratam-se de ações que, efetivamente, podem alertar as sociedades envolvidas e criar novos parâmetros de sociabilidade, através do que pensadores de variadas nacionalidades como Alain Caillé, Christophe Fourel, Ahmet Insel, Paulo Henrique Martins, Gus Massiah e Patrick Viveret (entre outros) chamam de “convivialismo”.

No caso espanhol, por exemplo, os indignados se queixam, especialmente, do fato de terem “deixado de ser ricos sem nunca terem sido”, ou seja, a chamada “bolha imobiliária” que tanto enriqueceu os cofres de banqueiros e de empresas multinacionais e que iludiu boa parte da população com altos (e questionáveis) índices de crescimento econômico, estourou deixando um país insolvente, com altíssimas taxas de desemprego e que cada vez mais luta contra a “cultura do pelotazo[2]. Não por acaso, boa parte das mesmas empresas/organizações e “agências de risco” que tanto se beneficiaram da especulação imobiliária e financeira agora apregoam que os países do Sul da Europa passaram a integrar o “Sul do Mundo”, num claro projeto macro-econômico que pretende defender (e justificar) a “tutela” destas nações por organismos como a União Europeia ou o Fundo Monetário Internacional.

No Brasil, o estopim das manifestações populares se deram na cidade de São Paulo com o “Movimento Passe Livre” (MPL), que defende a adoção da tarifa zero para os transportes coletivos, e foram aos poucos se alastrando por todo o território nacional. Assim, enquanto a maioria da imprensa brasileira a princípio condenou fervorosamente os protestos (em notória defesa dos interesses comerciais das empresas envolvidas) alegando que os “vândalos e baderneiros” estariam promovendo “arruaças” pelo aumento de 20 centavos na tarifa de transportes, os líderes do movimento iniciaram, com êxito, campanhas nas redes sociais da internet esclarecendo e conclamando a população a perceberem o óbvio, ou seja, que todas aquelas mobilizações “não eram apenas por vinte centavos”, mas sim pela luta por reconhecimento, justiça e dignidade social nos diversos âmbitos da vida social, particularmente aqueles que fazem parte do chamado Estado de bem-estar social (welfare state), isto é, saúde, educação formal, mercado de trabalho, segurança pública e mobilidade urbana.

Como veremos, aprofundando um pouco e também atualizando ideias já expostas em obras anteriores, Edgar Morin defende que a ideia de metamorfose seria capaz de “regenerar” o pensamento político tradicional e conservador a fim de que a realidade social a nível planetário possa ser mudada, que as pessoas possam reconhecerem-se apesar das suas diferenças e que, dessa maneira, sejam construídas novas diretrizes de pensamento: mais democráticas, menos imediatistas, menos nacionalistas e que se desviem da atual onipresença dos interesses financeiros hegemônicos. Um importante preceito de Morin que está subsumido em suas obras mais famosas é o de que a sua Teoria da Complexidade se preocupa não tanto com a procura e visualização de “novas realidades”, mas sim de novas perspectivas, de novos olhares reflexivos que permitam uma melhor compreensão das que já existem e que nos circundam. Isso porque é a partir desta consideração que, na visão deste autor, possíveis transformações “locais” poderão transpor fronteiras geográficas, dialogar simetricamente com outras e se concatenar de alguma maneira a elas – num processo dinâmico e democrático que permitirá a percepção de novos horizntes para todos, em direção a um sentido de comunidade que não se restringe a delimitações geopolíticas como Estado-nação, União Europeia, “zonas econômicas” ou a qualquer outra nomenclatura que venham a criar para “etiquetar” os seres humanos e lhes afastar da sua natureza eminentemente orgânica e, por isso mesmo, consciente da importância da solidariedade e do reconhecimento social (e porque não fraterno) mútuo.

É por conta desta complexa circunscrição de fatores socioculturais, econômicos e (geo)políticos que o leitmotiv presente no Manifesto dos Convivialistas e a admirável trajetória acadêmica e intelectual de Edgar Morin apresentam profícuas sinergias epistemológicas entre si: ambos possuem a similaridade de deixarem evidentes aos seus leitores mais atentos que a  possível apropriação de teorias como as suas ou a mera reflexão sobre alguns dos seus pontos não constituem um ato ideologicamente neutro, especialmente em virtude do reconhecimento das relações entre ciência e poder, particularmente na área das Ciências Sociais. Tal reconhecimento é importante, pois – como os signatários do Manifesto Convivialista sugeriram – contribui tanto para desvelar as dinâmicas relações de poder, quanto para revelar novas possibilidades de articulação do saber científico e do chamado “saber comum”. Assim, apenas visões não-compartimentalizadas acerca das realidades sociais e que contemple os seus conflitos e controvérsias inerentes, é que podem permitir uma compreensão das mudanças culturais e ideológicas que circunscreveram a trajetória de Morin em particular ou das atuais mobilizações populares mundo afora em geral. Ao evidenciar a urgência de uma “tomada de posição” neste emblemático contexto histórico-mundial, tais mobilizações suscitaram a articulação dos pensadores que idealizaram e assinaram o Manifesto Convivialista.

Dessa forma, assim como a Teoria da Complexidade de Morin, o grupo dos convivialistas (do qual o próprio Morin faz parte) convida para o que podemos chamar de um “viver científico” que é dialógico, simétrico, participativo e no qual a crescente pluralização das arenas e expressões dos conflitos sociais é refletida tendo os seus protagonistas/agentes como efetivos interlocutores, e também como parceiros destes heterogêneos, difíceis, porém já iniciados processos de eminente mudança social. Sintam-se todos partícipes destes processos. Afinal de contas, daqui pra frente aqueles que lutam ou vierem a lutar por mais solidariedade e por mais justiça social, são todos, de certa forma, convivialistas.

[1] Pesquisador do NUCEM e do NESG/UFPE, Pesquisador Colaborador do Departamento de Sociologia e Análise das Organizações da Universitat de Barcelona. E-mail: marcosimonstock@gmail.com
 
[2] Na Espanha, este termo designa iniciativas ou negócios de legalidade duvidosa nos quais algumas pessoas lucram muito e de uma maneira rápida. Na linguagem popular, pelotazo é utilizado como sinônimo de golpe ou de qualquer prática na qual exista indício de corrupção.
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TRIBUNES le 19 Juillet 2013

Penser un monde nouveau 5/34

Edgar Morin: “A ideia de metamorfose basicamente diz que tudo deve mudar” (PT)

Palavras-chave: Edgar Morin, manutenção, sociologia, pensar um mundo novo mundo,

Se o mundo tal como ele é vem produzindo desastres, Edgar Morin convida a acreditar que “o improvável benéfico” pode acontecer. Para o sociólogo, a mudança irá ocorrer em uma escala global.
Edgar Morin é um pensador que viaja pelo mundo por prazer: conhecedor da América Latina, ele é regularmente convidado para realizar conferências pelos quatro cantos do planeta, e com isso, viaja pelo mundo divulgando seu pensamento. Sociólogo, filósofo e antropólogo, ele é fascinado pelos olhares transversais, que se cruzam para confrontar o conhecimento e questionar as disciplinas.
Nascido em 1921, Edgar Morin iniciou na Resistência[1] aos vinte anos, quando ingressou no Partido Comunista Francês em 1941, antes de ser expulso sob a acusação de ter se distanciado do stalinismo. Em 1950, ingressou no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique/Centro Nacional de Pesquisa Científica) e foi nomeado Diretor de Pesquisa deste Centro em 1970. Este pensador inclassificável é também um homem engajado, um ativista.
Muito cedo, Edgar Morin conclamou a necessidade de “cruzar conhecimentos”. Esta é a sua marca registrada, que o levou a desenvolver o conceito de “pensamento complexo”, entendido como “aquele que é elaborado junto” e que foi iniciado no livro “Ciência com Consciência” de 1982. Nos seis volumes da sua obra “Método” (1977-2004), que conta com os sugestivos títulos de “Vida da Vida”, “Conhecimento do conhecimento” ou ainda “Humanidade da humanidade”, ele explica os desafios da complexidade.
Observador dos distúrbios do mundo, Edgar Morin produz uma reflexão na qual o fio de Ariadne procura um caminho para o futuro. “Estamos caminhando rumo a um conjunto de catástrofes? Isto é o que parece provável se não conseguirmos mudar o rumo das coisas”, questiona ele em “O Caminho da Esperança”, escrito em 2011.

Você acabou de assinar com dezenas de outros intelectuais, o Manifesto dos convivialistas, que se propõe a tentar definir uma filosofia comum para movimentos tão diversos como são os antiglobalização, os indignados espanhóis, o slow food ou os da economia social e solidária. Você acha que essas iniciativas estão delineando o futuro?
Edgar Morin: Os movimentos existem, mas eles não têm conseguido uma convergência entre si. Todas estas iniciativas formam uma constelação, mas que ainda não estão organicamente relacionadas umas com as outras. O Manifesto dos convivialistas, que eu efetivamente assinei, faz parte desta perspectiva. Precisamos reintroduzir a convivialidade em nossa sociedade. “Convivialismo” é um bom termo, mas não cobre todo o problema, que é complexo. Eu atribuo grande importância ao pensamento de Ivan Illich, um dos pensadores da nossa civilização que, na década de 1970, fez uma crítica da nossa civilização bastante radical, tanto em termos de industrialização, quanto em termos dos padrões de consumo, educação, etc. Entretanto, estamos em um momento na história em que tudo é problemático: a dominação do capitalismo financeiro, a agricultura e a pecuária industrializadas, cujos consumos levam a efetivas intoxicações. As instituições globais tornaram-se completamente insuficientes, impotentes e arbitrárias, como a ONU, ou desviadas, como o FMI. A política chegou a um nível zero de pensamento.

Diante desta situação, nós deveríamos irradiar mais pessimismo ou mais otimismo?
Edgar Morin: Devemos procurar um novo caminho. Eu desenvolvi a ideia de uma metamorfose para dizer que, basicamente, tudo deve mudar. Países latino-americanos como Equador e Bolívia têm desenvolvido uma política do “buen vivir”. Esta é uma ideia pra ser levada adiante. “Bem-viver” é uma bela palavra cujo significado foi completamente desvirtuado. O problema não é apenas alcançar um nível de conforto com bens materiais tais como uma televisão, um refrigerador ou um carro. Isto é importante. Mas o que importa, acima de tudo, no sentido do “buen vivir” baseia-se na realização de um desenvolvimento pessoal dentro de um desenvolvimento coletivo, de uma comunidade fraternal. O desejo de uma outra vida através da história. Ele tem sido incorporado ao longo dos tempos na ideia de paraíso. Então, esse desejo desceu para a terra com a Revolução Francesa, com o socialismo e com Karl Marx. Minha ideia é permitir a conexão entre três fontes: a libertária para o indivíduo, a socialista para melhorar a sociedade, a comunista para viver em comunidade, e eu adicionaria a vertente ambientalista. O desejo por uma outra vida através do socialismo tem sido enfraquecido. O comunismo, cujos ideais levantaram a juventude em maio de 68, foi desviado. Tal desejo por uma outra vida agora anima os jovens da Primavera Árabe, os do movimento Occupy Wall Street nos EUA, os Indignados espanhóis, os manifestantes no Brasil. Mas para chegar a uma mudança de rumo, lhes faltam o pensamento político. As pessoas estão frustradas, resignadas, sem esperança. Isso é verdade, mas isso ocorre principalmente porque ainda não houve uma chama digna de confiança.

Basicamente, o que é uma sociedade convivial? Uma sociedade na qual a cooperação entre os homens têm precedência sobre a exploração do homem pelo homem?
Edgar Morin: O filme de Vittorio De Sica, Milagre em Milão, termina com a ideia de uma sociedade onde todo mundo diz “olá” para o outro. Em uma sociedade convivial, as pessoas não são anônimas, elas se cruzam e se reconhecem. Não se trata apenas de civilidade ou cortesia. O outro existe e ele é reconhecido como diferente de você, mas também como semelhante a você. Essa necessidade de reconhecimento existe em todos os seres humanos. Aqueles que são privados disso porque são humilhados, escravizados ou dominados, sofrem. Nas administrações, nas empresas, em todos os lugares, as pessoas estão separadas umas das outras. Na verdade, poderíamos falar da necessidade de “confiança”.

Estar conectado ao seu vizinho ao nível do indivíduo, vila ou cidade é fácil de imaginar. Mas em um nível mundial, não teria que se partir do conceito de que você colocaria tal conexão na frente da “terra pátria”?
Edgar Morin: Em todo ser humano, existem dois princípios fundamentais. Primeiro, o “eu” egocêntrico e vital para nos defender diante da adversidade. Mas também o “nós” que floresce através da família, dos amigos, nos partidos políticos, na religião, etc. Nossa civilização supervalorizou o “eu” e menosprezou o “nós”. Precisamos mudar este curso e desenvolver um “nós” novamente. A antiga visão se voltava contra o inimigo, contra o invasor. Em todo o mundo de hoje, a convivialidade é descrita como a percepção de que nós, seres humanos, possuímos um destino comum. Estamos na mesma aventura, vamos para o mesmo abismo, e nós devemos reagir juntos e em uma escala global. A questão é como salvar a nossa terra pátria da destruição. Nós somos produtos de uma evolução biológica, que foi construída ao longo de dois bilhões de anos e que a espécie chamada Homo sapiens usou demasiadamente mal. Essa identidade comum produz diferenças. A palavra “pátria” remete à sensibilidade, ao ato de confraternizar-se. É concebível que, no Respeito de todas as diversidades nacionais e culturais, pudéssemos ter condições, contudo, de insistir na unidade. Porque existem aqueles que percebem a diversidade humana esquecendo a unidade. E há aqueles que veem a noção de unidade como uma concepção abstrata que esqueceria a diversidade humana. A globalização tecno-econômica de hoje ignora a diversidade de culturas e a sensibilidade das pessoas. No entanto, se a “terra pátria” inclui pátrias, então a diversidade humana é o tesouro da unidade humana e a unidade é o tesouro da diversidade.

Há momentos na história da humanidade em que acontecem mudanças de rumo, bifurcações. Que indícios você vê de que nós realmente estaríamos vivendo numa fase deste tipo?
Edgar Morin: Estamos em uma situação em que as coisas não são formadas a priori, não sabemos nem quando e nem como o momento de mudança chega. O mundo está em efervescência. Nós não sabemos o que pode surgir disso. Os ímpetos de morte e destruição são muito fortes. Mas isso não deveria fazer com que deixássemos de ter esperança. Existem muitos conflitos que podem disseminar uma conflagração geral. Cada um é como uma árvore. O vento espalha as sementes. Quando caem em solo fértil, eles crescem. Na Índia, as reflexões do príncipe Buda Shakyamuni sobre o sofrimento humano e a verdade deram origem a uma religião que une milhões de pessoas. Em outro domínio, Marx e Proudhon foram considerados, pela intelligentsia das suas épocas, como marginais e desviantes antes dos seus pensamentos permitirem o surgimento de consideráveis forças políticas.

Mesmo que o futuro próximo não forneça otimismo, ainda assim você afirma que o improvável benéfico acontece. Em sua opinião, as revoluções árabes são sinais de que o improvável pode se tornar provável?
Edgar Morin: A Primavera Árabe, especialmente na Tunísia e no Egito, são movimentos muito importantes, pacíficos. Mas, no momento, o que vem se originando dela em termos de processos eleitorais tem sido tanto coisas positivas, quanto coisas negativas. A maioria dos partidos de esquerda era perseguido pelos regimes ditatoriais. Isso fez com que eles muitas vezes perdessem o contato com o povo. Os islamistas então tiveram a opção de votar e eleger a si próprios, e assim ocorreu. Mas isso não diminui a importância do evento. Hoje, as pessoas são capazes de vencer o presidente Morsi. Mas a oposição é muito heterogênea. A Primavera Árabe representa um despertador original que irá fecundar o futuro, mas eu não sei exatamente como.

Os manifestantes responsáveis pela Primavera Árabe descreveram seu movimento de “revolução”. Você optou por abandonar este termo e prefere se referir a este movimento como metamorfose. O que é exatamente esse conceito?
Edgar Morin: Ele nos permite pensar na metáfora da lagarta ainda presa dentro no casulo e pronta para se tornar uma borboleta. Ela se destrói completamente para se tornar outra. Na história da humanidade, o mundo está repleto de metamorfoses. A próxima metamorfose acontecerá num nível planetário. O conjunto das relações, as organizações, tudo vai mudar e neste momento atual, é impossível prever que forma terá esta nova sociedade mundial. Abandonei a ideia da revolução por duas razões. A primeira diz respeito ao objetivo de não mais dar credibilidade à ideia de que “fazemos do passado uma tábula rasa”. Precisamos de todas as culturas do passado, de todas as conquistas do pensamento passado. A ideia de metamorfose envolve tanto a ruptura, quanto a continuidade. A segunda razão é que eu queria deixar para trás a ideia de que a revolução teria mais aspectos autênticos do que violentos. A violência às vezes é inevitável, mas é um erro pensar que ela é justificável e necessária já que, em seguida, ela acarreta mais violência.

O tratamento imposto à Grécia e os planos de austeridade que levam à recessão alimentam uma rejeição da Europa em grandes segmentos da população. A Europa ainda pode desempenhar um papel significativo na política de civilização que você defende?
Edgar Morin: A crise econômica revelou uma crise que já havia antes. A Europa se desenvolveu economicamente, mas sem uma unidade fiscal e continuou a ser um anão político, incapaz de conduzir a ideia de sua origem: se unir pela paz e de acordo com as características comuns das civilizações. Diante deste vazio, existe hoje então um perigo real. A Alemanha tornou-se o poder político dominante e impôs aos outros o falso remédio da austeridade. Para mim, atualmente existem dois sinais de alerta. As respostas que estão sendo dadas ao domínio do neoliberalismo econômico produzem o caos na Grécia e conduzem a Hungria a um novo sistema autoritário, que ainda não podemos chamar de fascista, mas que é perigoso.

Na França, você recentemente conclamou o presidente da República (François Hollande) a mudar de rumo. O que você pensa sobre a situação?
Edgar Morin: Digamos que, neste momento, eu esteja esperando. Eu não estou desesperado ainda. Quero expressar uma crítica construtiva. Trata-se de uma situação que eu chamo de “livro dos sintomas inquietantes”. Nós encontramos as mesmas pessoas em gabinetes ministeriais, que emitem os mesmos relatórios e que pensam a política a partir de idéias já internalizadas acerca de crescimento e competitividade. O presidente da República vai ter que entender que devemos mudar de rumo e que o longo caminho para a verdadeira renovação que se abre é o da economia verde. A falta de reflexão sobre o mundo contemporâneo e a crise atual da humanidade nesta era da globalização são fatores que conduzem a uma visão míope, que frequentemente sugestionam a responsabilizar os partidos políticos.

Você fala de regenerar o pensamento político. O que quer dizer com isso?
Edgar Morin: Os políticos vivem o seu dia a dia. Eles não têm uma visão global. Obviamente, eles não devem ser condenados a virarem sonâmbulos, mas me parece útil que eles se esforcem e comecem a desenvolver um pensamento político que saiba reunir diversos conhecimentos. Tomemos como exemplo a globalização. Ela é tanto um processo econômico, quanto demográfico, sociológico, psicológico, religioso, etc. Todos os pensamentos interferem uns nos outros. Os eventos também. Em 2001, vimos que um grupo político marginal e minoritário, a Al-Qaeda conseguiu destruir duas torres em uma cidade, Nova Iorque, e a consequência é uma conflagração mundial. As partes estão no todo, assim como o todo está nas partes. O mundo somos nós. E este fato leva a uma maneira muito diferente de pensar: complexa, de longo prazo e não maniqueísta. O mundo necessita da globalização (as culturas, por exemplo) e ao mesmo tempo, de uma desglobalização (o caso da agricultura). Ou seja, o mundo precisa, simultaneamente, de crescimento e de decrescimento. Ele deve se desenvolver, a fim de que todos possam se beneficiar do progresso positivo, e também deve envolver as pessoas de modo contínuo a fim de que elas se sintam como pertencentes a uma comunidade. Esse é o sentido de um pensamento político que poderia nos conduzir a uma metamorfose, a uma mudança de direção.

Tradução para o português: Marcos de Araújo Silva

[1] A Resistência Francesa, chamada na França de La Résistance, designa o conjunto de movimentos e redes que durante a Segunda Guerra Mundial prosseguiu a luta contra o Eixo e os seus delegados colaboracionistas desde o armistício de 22 de Junho de 1940 até a Liberação em 1944.
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Fonte:  http://www.jornaldomauss.org/periodico/?p=2619

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