sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A novidade de Ratzinger.

Corrado Augias* 

As cartas de Francisco e de Bento XVI refletem o período de forte crise, de escândalos financeiros e sexuais graves, e a indiferença generalizada com relação a preceitos e comportamentos coerentes com a moral da Igreja.

Por que os papas escrevem? Ainda mais aos não crentes? Valendo-se de um canal de comunicação como o La Repubblica, do qual são conhecidas as posições distantes de todo clericalismo?

Que o Papa Francisco conceda uma longa entrevista à Civiltà Cattolica, de jesuíta para jesuíta, poderíamos dizer, isso faz parte da ordem das coisas. Das coisas novas, que fique claro, porque estávamos acostumados a ler as comunicações pontifícias em uma encíclica ou resumidas em um comunicado no órgão da Santa Sé, o L'Osservatore Romano.

Mas escrever a dois não crentes declarados, embora de nível, é uma história bem diferente. Eu não acredito que os papas escreveriam se a Igreja Católica não atravessasse na Europa, incluindo a Itália, um período de forte crise, se não estivesse saindo com dificuldade de um período de escândalos financeiros e sexuais graves, se ele não tivesse constatado uma indiferença generalizada com relação a preceitos e comportamentos coerentes com a sua moral.

Considero que o aspecto mais inquietante seja justamente este: a indiferença. Os católicos italianos sempre foram brandos observantes. Maquiavel já havia captado o ponto escrevendo que a Igreja tinha tornado os italianos "sem religião e maus".

O chicote da Contrarreforma, as condenações exemplares não bastaram, então, para mudar as coisas. Hoje, porém, a atitude negligente é tão difusa que requer uma reação forte. As comunicações intra moenia, confiadas a piedosos boletins de circulação limitada, inutilmente edificante, adocicados, já não bastam mais. Ao contrário, digamo-lo: não servem para nada.

São necessários intercâmbios certamente respeitosos, mas que realmente enfrentem os problemas, que soltem faíscas. Na esperança de que algum fogo posa novamente se acender.
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*A opinião é do jornalista e apresentador de TV italiano Corrado Augias, ex-membro do Parlamento Europeu, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 25-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Fonte: IHU on line, 27/09/2013
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