segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Como ler Marx e Nietzsche, tendo uma segunda chance?

Paulo Ghiraldelli*
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Marx e Nietzsche deram muito ao século XX e têm ainda uma boa mensagem para o século XXI. É que há neles algo que transcende o tempo e que talvez nunca deixe de valer. Marx capta a sensação de que a sociedade é alguma coisa que deu errado. Nietzsche capta a sensação de que errado foi a produção do homem. Ora, há dias que levantamos de manhã com essa sensação e há noites que dormimos com ela. Haveria como não ser assim? Temos a capacidade de entrar em um tempo em que nunca mais teríamos, em nenhum dia ou noite, essa sensação?

Não temos que saltar para fora do homem, como Nietzsche disse que Zarathustra anunciaria, ou saltar para fora da sociedade, como Marx disse que a Toupeira anunciaria. Não há razão para dar tanta trela para Zarathustra ou para a Toupeira. Talvez esses dois personagens – um profeta de uma religião perdida e um animal cego – nunca tenham sido escolhidos senão como claras ficções, exatamente para que os leitores não deixassem de notá-los esquisitos. O leitor esperado seria aquele que, vendo-os do modo que são, pudessem se interrogar sobre a função deles na narrativa. Personagens fictícios em tramas históricas são enfiados, não raro, para promover uma espécie de metanarrativa no contexto da própria narrativa, uma forma de autoironia.

Zarathustra pode querer anunciar o Übermench. Mas para que vamos apostar no Übermench se o próprio Zarathustra é alguém de um passado persa, ou seja, algo desde sempre envolto no nosso folclore popular? A Toupeira anunciaria o comunismo. Ora, mas por que teríamos de ouvir um bicho? Um bicho cego!

Como que não percebemos, em mais de um século, a função praticamente cômica dessas figuras escolhidas pelos dois mestres do ensaio filosófico e sociológico?

Nesse século XXI a leitura de Marx e Nietzsche pode começar a ser uma boa leitura se pegarmos os seus escritos como quem lê livro na praia ou em uma casa nas montanhas, em férias. Não tivemos a oportunidade de fazer isso no século XX. Não tiramos férias naquele século. Foi um século em que o próprio paradigma sob o qual Marx e Nietzsche escreveram não permitia muitas férias. Nossa referência e vida estavam na “sociedade do trabalho”. Ela imperou de tal maneira que nem deu para ir à praia. Os que foram, aliás, devem ter ido a trabalho, pois poluíram tudo onde pisaram e nadaram. Mas no século XXI, nas primeiras férias que tivermos, podemos fazer diferente. Podemos realmente passar as férias como férias, e lermos de modo a curtir o entretenimento. Livros de filosofia não são para serem levados a sério. Ao menos não com a seriedade vinda do modo de vida do século XX.

Richard Rorty foi o filósofo que procurou de toda maneira dizer isso para nós todos: não se levem tão a sério a ponto de acreditar que Nietzsche os levaria a sério.

Peter Slotedijk é o filósofo que, na atualidade, por outras vias e estilo, também tem dito algo semelhante.  Não se levem tão a sério a ponto de acreditar que Marx os queria como sisudos.

São filósofos irônicos, ambos. Rorty e Sloterdijk. Ora, Marx e Nietzsche também não o seriam? Afinal, que fundamentos forneceram Marx e Nietzsche? Fundamentos metafísicos? De modo algum. A metafísica aprendida por Marx foi a de Hegel, que ele tratou de dizer que estava de ponta cabeça. A metafísica lida por Nietzsche foi a de Schopenhauer, que ele usou exatamente para pensar contra o próprio, buscando escapar do pessimismo.

É difícil hoje, após Rorty e Sloterdijk, levarmos a sério, a não ser Platão, e isso porque ele é o da cadeira número 1, qualquer filósofo que queira elaborar um projeto grave, sisudo, capaz de dar fundamentos para teorias científicas ou de outro caráter.

Filósofos ironistas contam as coisas como Zarathustra ou a Toupeira, mas sem a solenidade tola que, por obra do “paradigma do mundo do trabalho”, atribuímos a tais personagens. Aliás, olhando hoje para uma a Toupeira e para o Zarathustra, como não perceber que tais personagens poderiam ter vivido em Patópolis?

Zarathustra e a Toupeira falam de modo solene. Um mago persa e um animal cego falando solenemente sobre futuros fantásticos! Por si só isso não é para rir? É como se tivéssemos de assistir um hipopótamo dançando tango. Ora, por obra de sermos crianças metidas no trabalho muito cedo, não tivemos imaginação para ver que aquilo era uma grande narrativa de Disney. Não! Tomamos aquilo quase como quem faz o curso de física e leva Newton a sério.

Marx e Nietzsche quiseram nos fazer rir em um século em que tudo parecia ser só trabalho, trabalho e trabalho. Mas por tudo ser trabalho, trabalho e trabalho, não pudemos rir. Afinal de contas, se um sacerdote persa do passado nos conta algo como o “além do homem”, isso em si já não é uma pândega? Ora, se alguém vai anunciar uma sociedade comunista, isso é engraçado por si só, imagine então se esse alguém é uma Toupeira! Meu Deus, como que pudemos ler isso para além de histórias de entretenimento nas férias?

Claro que voltar de férias tendo lido coisas interessantes mudam nossas vidas às vezes. Mas, se saímos de férias e lemos lá na praia tudo que queríamos como se tivéssemos levado trabalho para fazer em casa, seriamente, eis que vamos voltar para o trabalho mais tensos e carregados, mais irritados do que quando saímos. E então, no trabalho, vamos estar nervosos e cometeremos erros e mais erros por conta da cobrança de rigor quando não é o rigor que pode nos dar frutos, mas a inteligência.

Esperamos mais de um século para termos filósofos ironistas que pudessem nos dizer que Marx e Nietzsche eram ironistas. Ah, antes tarde que nunca. Vamos nos divertir agora.

Sei que é duro convencer os filósofos atuais de que desde Platão a filosofia é engraçada. Os filósofos têm senso de humor, mas raramente são inteligentes para terem senso de humor de modo quanto à filosofia. Mas isso pode mudar. Pode ser que, longe de uma sociedade exclusivamente envolvida com o trabalho, possamos curtir nossa infância e sermos mais leves para rir.

Essa esperança minha pode ser ela própria uma tolice. Afinal, ontem na quadra de esportes do meu prédio notei que as crianças brincavam de skate, de futebol e de basquete sem rir. Nem as meninas pré-adolescentes riam.
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* Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
Fonte: http://ghiraldelli.pro.br/como-ler-marx-e-nietzsche-tendo-uma-segunda-chance/

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