quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A reabilitação que vem com a morte

Ruy Calor Ostermann*

 É a morte. Para ela, não tem consolo. Ela vem e fica. 
Nela fica essa memória, que é perdida, também. 
Mas é uma memória que atualiza um fato: 
nós prestamos pouca atenção na vida.
A morte não tem consolo. Não só a morte, é verdade, mas ela, particularmente. Quer dizer, não há como substituí-la por outra coisa. Ela é o encerramento de uma memória, o encerramento de um fato. Assim como ela é também capaz de reabilitar, uma vez exercida, as relações de conhecimento, de admiração e até mesmo aquelas que invadiriam o futuro, se houvesse futuro. 

O candidato à presidência da república pelo partido PSB, Eduardo Campos, não era suficientemente conhecido. Era um homem vivo, ativo, surpreendente até, de boa frase, de boas ideias, um socialista moderado, que tinha uma visão de mundo. Não seria agora, talvez. Talvez fosse nas próximas eleições. Mas agora ele começava gradativamente a exercitar uma posição. E o que é importante é que essa posição ficou clara só com a sua morte. 

Quando morreu, todos se deram conta de que tinha se perdido uma oportunidade, uma saída para acontecimentos políticos nacionais. Morreu e com ele ficou a memória póstuma, em que todos reabilitam o homem público, o ex-governador de Estado, o sujeito que se elegeu com mais de 60% dos votos e se reelegeu com quase 90%. Todos estão a falar daquilo que era uma frase limpa, uma frase clara e uma visão de mundo razoável. Mas, era tudo muito cedo. Era tudo muito inoportuno ainda. 

A morte, sob a forma como se fez, numa tragédia, num avião que cai, na qual morrem os amigos, morrem os companheiros, morre ele, reabilita exatamente essa memória póstuma. Vem toda ela, inteira. E nisso, exatamente, começam a aparecer algumas coisas que de outro modo não apareceriam.
Curiosamente, essa é uma virtude da morte, porque ela reabilita alguma coisa que, enquanto ela não foi chamada, não foi requerida, não faz sentido. Não faria sentido ficar discutindo o projeto de governo futuro de Eduardo Campos. Não faria sentido. Mas, com a sua morte, não só tudo se abreviou como tudo se tornou perdido. E na perda, uma reavaliação, que continua sendo feita, ampliando muito o quadro. 

Hoje, todos têm certeza de uma coisa impossível de ser confirmada. Inacreditavelmente distante da realidade, mas todos têm o mesmo sentimento: ele certamente seria um presidente da república muito competente, muito surpreendente e ainda muito jovem. 

É a morte. Para ela, não tem consolo. Ela vem e fica. Nela fica essa memória, que é perdida, também. Mas é uma memória que atualiza um fato: nós prestamos pouca atenção na vida. 
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* Jornalista. Escritor.
Fonte:  http://www.encontroscomoprofessor.com.br/index.php 14/08/2014
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