domingo, 10 de janeiro de 2016

O que a mulher e o homem querem

Paulo Germano* 
 O que a mulher e o homem querem Gilmar Fraga/ Arte ZH/Agência RBS
 Na rede social Meu Patrocínio, tanto elas quanto 
eles procuram o que sempre procuraram 
em um relacionamento

Essa nova rede social, Meu Patrocínio, que aproxima homens ricos de mulheres atraentes, muita gente falou que é prostituição. Não me pareceu. Também acusaram o site de promover “relações movidas por interesses”, o que é verdade, só que todos os relacionamentos da face da Terra são movidos por interesses.

A novidade é que, no Meu Patrocínio, esses interesses são comunicados antes mesmo de a relação começar – e é isso, na verdade, que as pessoas ainda consideram uma indecência.

Vamos por partes.

Com dois meses de existência e 12 mil cadastrados (9 mil são mulheres), Meu Patrocínio só cobra inscrição dos homens. Eles pagam R$ 169 e precisam informar sua renda mensal: as opções vão de “R$ 10 mil ou menos” até a alternativa “Ok, sou muito rico”, que ultrapassa os R$ 150 mil. Depois vem o mais importante, a declaração de “expectativa do estilo de vida”. É aí que o homem informa quanto está disposto a gastar por mês com uma mulher. A categoria inicial aponta para até R$ 2 mil, a intermediária vai de R$ 6 mil a R$ 10 mil, e a máxima é para quem topa desembolsar mais de R$ 20 mil mensais.

Às mulheres, basta caprichar nas fotos e esperar – ou partir para cima dos partidões. Mas é simplista concluir que a maioria delas busca dinheiro acima de tudo. A verdade é que tanto elas quanto eles procuram no site o que sempre procuraram em qualquer relacionamento. Só que de forma menos, digamos, poética.

Quando um homem se apresenta como bem-sucedido e vitorioso na vida, brotam outras percepções no inconsciente feminino: segurança, cooperação, estabilidade (emocional, principalmente) e bem-estar. Essas, sim, são prerrogativas fundamentais para quem nasce aparelhada para ter filhos. Não tem nada de machismo nisso – machismo é pensar que essas mulheres são batedoras de carteiras.

Claro que, se as primeiras percepções não se concretizam, se o ricaço revela-se um estúpido intratável, ou simplesmente há pouca afinidade entre os dois, o relacionamento naufraga. Justamente porque o dinheiro não basta – o dinheiro pode sugerir, mas não garante segurança, cooperação, estabilidade nem bem-estar, coisas que um homem pobre, aliás, pode muito bem oferecer.

E por que os homens buscam mulheres no Meu Patrocínio? Porque, seja pobre ou seja rico, ainda querem a velha função provedor. É uma decorrência da sociedade patriarcal que recém começa a mudar, mas o ímpeto masculino mais atávico segue gritando: seja homem!, tenha atitude!, erga a mulher nos braços!, asse o churrasco!, traga o sustento para casa como quem traz para a janta um antílope recém-caçado!

São os verdadeiros interesses, permeiam as relações o tempo todo. A mulher busca benefícios, o homem também – e nenhum benefício tem relação direta com o dinheiro, mas é muito fácil introduzir o dinheiro quando se cobiça qualquer coisa. Por isso, o sucesso do Meu Patrocínio. Só que essa coisa de deixar os interesses tão claros, tão explícitos, como você pôde notar ao longo do texto, é mesmo uma indecência.
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*Jornalista formado pela PUC-RS, já atuou nas editorias de Política, Geral, Segundo Caderno e Esportes de ZH. Entre outras distinções, venceu o Prêmio Petrobras de Jornalismo e foi finalista do Prêmio Esso. 
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4948136.xml&template=3916.dwt&edition=28180&section=70

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