sábado, 23 de setembro de 2017

Dona Wally, minha mãe

Lya Luft*

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 "Eu achava aquilo uma perda de tempo lastimável. 
Queria ler, sonhar, ser feliz, quieta e em paz.
 Queria entender o mundo."

Minha mãe, dona Wally, foi uma mulher linda, alegre, otimista. Lembro de seu passo enérgico no corredor, a voz cantando no jardim quando mexia nas suas rosas, a risada clara conversando com meu pai. Adorava viajar, adorava suas tardes com amigas (e primas) jogando cartas, adorava jogar tênis, e adorava acima de tudo meu pai, meu irmão e esta que aqui escreve - que, eu acho, nunca correspondeu direito ao que ela imaginava ser uma menina, jovem ou mulher contente, normalzinha. Nunca aprendi a jogar cartas, a jogar tênis, a arrumar o quarto (a empregada fazia isso muito melhor do que eu, era o meu argumento). Na cadeira, empilhavam-se minhas roupas, o armário era uma confusão, até ela jogar tudo no chão para eu arrumar do jeito que era bonito. "Tem meninas que empilham calcinhas e pijamas conforme a cor, e amarram com fitas lindas". Eu achava aquilo uma perda de tempo lastimável. Queria ler, sonhar, ser feliz, quieta e em paz. Queria entender o mundo.
Tivemos uma relação tumultuada. Nada dramático, apenas as diferenças entre uma mãe ansiosa e controladora e uma filha rebelde e amante da liberdade. Ainda que fosse a liberdade boba de andar descalça no pátio, acender o abajur do lado da cama e ler madrugada adentro, rir alto demais, rir fora de hora, e ter uma quase absoluta incompetência e desgosto pelas coisas domésticas. Isso, e ler demais, segundo minha mãe e seu bando de primas e amigas, me impediria de conseguir marido: coisa gravíssima, aliás. 

Minha mãe era ansiosa em parte porque a gente nasce assim ou assado, mas também - aprendi quando tive meus filhos - porque o primeiro bebê tinha morrido e ela talvez nunca se recuperasse dessa angústia. Seja como for, fui muito cuidada, vigiada, controlada, e detestava isso embora dissessem que era "para o meu bem". Uma prenda doméstica que tentei dominar foi bordado. Lembro encantada de tardes que passávamos juntas na grande sala, cada uma com seu bordado, conversando animadas, ela falando da infância, da família, de como conheceu meu pai. Naturalmente, os bordados dela eram perfeitos, e os meus, uma confusão de fios tortos, encardidos, o lado avesso cheio de grandes nós. Eu era um desastre nisso e em outras coisas, como cozinha. 

"As filhas de minhas amigas e primas sabem cozinhar, fazer bolo, arrumar a mesa lindamente. Pra outras coisas, você é tão inteligente, por que não aprende?". Eu não me interessava, e pela vida afora, sem interesse ou entusiasmo, em geral faço tudo malfeito. Brigamos incrivelmente, pelas coisas mais bobas, ligadas a esses meus defeitos. Mas ela curtia imensamente sua casa, os netos e a neta. Era ótima parceira nos assuntos que eu deveria cultivar: comprar roupas bonitas, me vestir melhor, gostar de festas. Às vezes me olhava como quem diz "Que pessoa é essa que eu pari e não entendo?" - nada original em muitas mães. 

Nos últimos 10 anos de vida, até os 90, foi prisioneira na clausura do Alzheimer. Cuidei dela até o fim: já não me reconhecia, enrolada no xale da sua ausência. Guardei algumas mágoas infantis, mas agora, tantos anos depois, quando me dói não ter mais a quem chamar de "mãe", sei que fizemos as pazes. Acreditem, é uma sensação maravilhosa. Onde quer que você esteja, dona Wally: você me faz muita falta.
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* Escritora. Tradutora. 
lya.luft@zerohora.com.br
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=8466f9ace6a9acbe71f75762ffc890f1 23/09/2017
Foto da Internet

“Gandhi não nasceu santo. Roubou, mentiu, até que se transformou”


“Gandhi não nasceu santo. Roubou, mentiu, até que se transformou”
Neto de Gandhi tem novo livro e defende que a ira pode ser um sentimento maravilhoso, desde que o saiba controlar. E acusa Arundhati Roy de quer destruir a imagem do avô. Leia ainda uma parte de "O Dom da Ira"
Arun Gandhi tem 83 anos e é o quinto neto de Mahatma Gandhi. Viveu com o avô durante dois anos, entre os 12 e os 14, e nunca esqueceu as lições que recebeu. Falou sobre elas em conferências durante décadas, até que resolveu reunir tudo no livro O Dom da Ira. Uma obra repleta de histórias pessoais, de reflexões filosóficas e de exemplos práticos. Arun foi jornalista, fundou um Instituto para a Não-Violência e conta como o avô vendia autógrafos - para juntar dinheiro para ajudar os pobres - e que as polémicas experiências sexuais foram consensuais e que serviam para Gandhi testar o seu controlo mental.

Qual é a primeira memória que tem do seu avô, Mahatma Gandhi? Conheci-o aos 5 anos, mas não me lembrava muito bem dele. Tinha uma imagem de uma pessoa muito importante, no meio da política, e quando fui viver com ele, aos 12 anos, pensava que o ashram (local de retiro religioso), apesar de ser simples, seria uma casa normal, com paredes de cimento, mobília... Cheguei e vi a cabana de lama, ele sentado no chão, sem mobília e disse: "Uau! Não era nada disto que eu imaginava."

Achava que ia ter um tratamento especial por ser o neto de Gandhi?
Sim. Não foi fácil, porque era um miúdo e tinha de fazer tudo o que os outros faziam. Pôr termo às distinções entre as pessoas acabava com a discriminação, defendia ele. As tarefas eram iguais, até limpávamos as latrinas. Mas quando vi que o meu avô fazia o mesmo que nós, percebi que também tinha de o fazer.

[...]


Como vê as declarações de Arundhati Roy que diz que Gandhi era um defensor das castas?
Acho que ela é muito ignorante e não sabe muito sobre Gandhi. Ela quer ser a campeã dos oprimidos, por isso pensa que a única forma de o ser é explorar Gandhi. Há quem chegue ao topo pelas suas conquistas, outros a puxar alguém para baixo. Ele era contra o sistema de castas legalizado, mas referiu que as sociedades humanas são automaticamente divididas em classes. Essas divisões vão existir e não conseguimos eliminá-las. O que devemos eliminar é a institucionalização dessas diferenças. As pessoas não entenderam isso e citam-no mal.
Livro O Dom da Ira reúne 11 lições de vida

Descubra uma parte do livro, O Dom da Ira, editado em Portugal pela Planeta:
"Lição um


Usem a ira para o bem

O meu avô surpreendeu o mundo ao responder a violência e ao ódio com amor e perdão. Ele nunca foi refém da toxicidade da ira. Eu não fui tao bem-sucedido. Enquanto criança indiana crescendo numa Africa do Sul carregada de racismo, era atacado por crianças brancas por não ser suficientemente branco e por crianças negras por não ser suficientemente negro.

Lembro-me de ir comprar rebuçados, certo sábado a tarde, num bairro branco e de três adolescentes se atirarem a mim. Um deu-me uma bofetada na cara e, quando cai ao chão, os outros dois começaram a pontapear-me e a rir-se. Os três fugiram a correr antes que alguém os pudesse apanhar. Eu tinha apenas 9 anos. No ano seguinte, durante o Festival das Luzes hindu, a minha família estava a festejar com amigos, na cidade. Ao dirigir-me para casa de um deles, passei por um grupo de jovens negros que estava numa esquina. Um deles aproximou-se e atingiu-me com um pau nas costas com toda a forca, só por eu ser indiano. Fiquei a ferver de raiva e queria retaliar.

Comecei a levantar pesos com a vaga ideia de me tornar suficientemente forte para ter a minha vingança. Os meus pais, que se viam como embaixadores dos ensinamentos de não violência do bapuji, afligiam-se por eu me meter em tantas brigas. Tentaram tornar-me menos agressivo, mas pouco podiam fazer quanto a minha ira.

Eu não estava feliz com o facto de estar sempre enraivecido. Guardar rancores e fantasiar sobre a vingança faziam-me sentir mais fraco, ao invés de forte. Os meus pais tinham esperança de que ficar no ashram com o bapuji me ajudaria a compreender a minha fúria interior e a conseguir lidar melhor com ela. Também eu tinha essa esperança.

Nos meus primeiros encontros com o meu avo, ficava impressionado por ele parecer sempre calmo e controlado, não importava o que alguém dissesse ou fizesse. Prometi a mim mesmo que iria seguir o seu exemplo e não me sai mal durante algum tempo. Depois de os meus pais e de a minha irmã terem partido, conheci alguns rapazes da minha idade que viviam numa aldeia um pouco mais adiante na estrada e começamos a jogar a bola juntos. Eles tinham uma bola de ténis velha que usavam para jogar futebol e eu punha duas pedras a marcar a baliza.

Eu adorava jogar futebol. Apesar de, desde o primeiro dia, os miúdos fazerem pouco do meu sotaque sul-africano, eu tinha enfrentado muito pior, por isso tolerava bem a sua troca. Mas a meio de um jogo bastante movimentado, um dos rapazes passou-me uma rasteira quando eu ia atras da bola. Cai no chão de terra dura e poeirenta. O meu ego ficou em tao mau estado quanto o meu joelho – e senti um familiar ataque de raiva, com o meu coração a bater muito depressa no peito e a minha mente a querer vingança. Peguei numa pedra. Levantando-me do chão, furioso, ergui o braço para atirar a pedra ao meu atacante com toda a forca que conseguisse.

Mas uma voz, na minha mente, disse baixinho: "Não atires." Deitei a pedra ao chão e voltei a correr para o ashram. Com lágrimas a correrem-me pela cara, procurei o meu avo e contei-lhe a história toda.

– Estou sempre furioso, bapuji. Não sei o que fazer.

Eu tinha-o desiludido e pensava que ele estaria descontente comigo. Mas deu-me umas palmadinhas reconfortantes nas costas e disse:

– Vai buscar a tua roca e vamos os dois fiar algum algodão.

Assim que chegara ao ashram, o meu avo tinha-me ensinado a trabalhar com uma roda de fiar. Fiava uma hora todas as manhas e mais outra todas as noites; era muito relaxante. O bapuji gostava de fazer multitasking, ainda antes de alguém usar essa palavra. Dizia muitas vezes: "Enquanto estamos sentados e a conversar, podemos usar as mãos para fiar."

Naquele momento, fui buscar a pequena maquineta e montei-a junto a nós. O bapuji sorriu e preparou-se para tecer uma lição, juntamente com o algodão.

– Quero contar-te uma história – disse, enquanto eu me sentava a seu lado. – Era uma vez um rapaz da tua idade que estava sempre furioso porque nunca nada parecia acontecer como ele queria. Não era capaz de dar valor a perspectiva dos outros e, por isso, quando as pessoas o provocavam, respondia com explosões de raiva.

Suspeitei que o rapaz era eu, por isso continuei a fiar e a ouvir ainda com mais atenção.

– Um dia, o rapaz meteu-se numa luta muito seria e, por acidente, cometeu um homicídio – continuou. – Num momento de cólera irreflectida, destruiu a sua vida ao acabar com a vida de outra pessoa.

– Prometo, bapuji, que vou ser melhor. – Eu não fazia a mais pequena ideia de como ser melhor, mas não queria que a minha ira matasse alguém.

O bapuji acenou com a cabeça.

– Tens muita ira dentro de ti – disse-me. – Os teus pais contaram-me acerca de todas as brigas em que te meteste na tua terra.

– Peco muita desculpa – disse eu, temendo desatar a chorar outra vez.

Mas o bapuji tinha planeado uma moral diferente da que eu esperava. Olhou para mim, por cima da sua roda de fiar.

– Fico contente por ver que podes ser levado a sentir ira. A ira e boa. Eu estou sempre a ficar zangado – confessou, enquanto os seus dedos faziam girar a roda.

Mal podia acreditar no que estava a ouvir.

– Nunca o vi zangado – respondi.

– Porque eu aprendi a usar a minha ira para o bem – explicou.

– A ira e, para as pessoas, como o combustível para os automóveis: ela alimenta-nos impelindo-nos a seguir em frente para chegarmos a um sítio melhor. Sem ela, não nos sentiríamos motivados a responder a altura aos desafios. E uma energia que nos obriga a definir o que e justo e o que e injusto.
O meu avô explicou que, quando era miúdo, na África do Sul, também tinha sofrido com os violentos preconceitos e que isso o deixava enraivecido. Mas acabou por aprender que procurar vingança não ajudava nada e começou a lutar contra o preconceito e a discriminação com compaixão, respondendo a ira e ao ódio com bondade. Ele acreditava no poder da verdade e do amor. Procurar vingança não fazia sentido para ele. A regra do olho por olho só fazia com que o mundo inteiro ficasse cego.

Fiquei admirado por saber que o bapuji não tinha nascido com um temperamento tão equilibrado assim. Agora, ele era reverenciado e chamado pelo nome honorífico Mahatma, mas em tempos tinha sido apenas um miúdo rebelde. Quando tinha a minha idade, roubava dinheiro aos pais para comprar cigarros e meteu-se em sarilhos com outros miúdos. Depois de um casamento arranjado com a minha avó, quando os dois tinham apenas 13 anos, por vezes ele gritava com ela e houve uma altura, depois de uma discussão, em que tentou pô-la fora de casa a forca. Mas não gostava da pessoa em que se estava a tornar, por isso começou a moldar-se para ser a pessoa com melhor temperamento e mais controlada que queria ser.

– Então eu podia aprender a fazer isso? – perguntei.

– Já estás a faze-lo, neste momento – disse ele, com um sorriso.

Enquanto estávamos os dois ali sentados, manobrando as nossas rocas, tentei absorver a ideia de que a ira pode ser usada para o bem. Eu podia continuar a sentir ira, mas podia aprender a canaliza-la para atingir fins positivos – como as alterações politícas que o avo defendera com toda a calma na Africa do Sul e na India.

O bapuji explicou-me que mesmo as nossas rodas de fiar eram um exemplo de como a ira podia criar alterações positivas.

A produção de tecido tinha sido uma indústria artesanal na India durante séculos, mas agora a grande industria têxtil inglesa estava a levar o algodão da India, a manufactura-lo e a vendê-lo de novo aos indianos a preços elevados. As pessoas estavam zangadas; andavam vestidas com farrapos porque não tinham meios para pagar tecidos feitos em Inglaterra. Mas ao invés de atacar a indústria britânica por empobrecer as pessoas, o bapuji começou, ele próprio, a tecer algodão como forma de encorajar as famílias a terem a sua própria roda de fiar e a serem auto-suficientes. Isto teve um grande impacte por todo o pais e em Inglaterra.

O bapuji viu que eu estava a ouvi-lo com atenção, por isso fez outra analogia – ele gostava mesmo de analogias! – comparando a ira a electricidade.

– Quando canalizamos a electricidade de forma inteligente, podemos usá-la para melhorar as nossas condições de vida, mas, se a usarmos mal, podemos morrer. Tal como acontece com a electricidade, temos de aprender a usar a ira com sabedoria, para o bem da humanidade."
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Reportagem  por Vanda Marques
Fonte:  http://www.sabado.pt/vida/detalhe/gandhi-nao-nasceu-santo-roubou-mentiu-ate-que-se-transformou?utm_campaign=Newsletter&utm_content=1498473353&utm_medium=email&utm_source=diaria

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

PODER, MEDO E RAZÃO

FRANKLIN CUNHA*

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O historiador italiano Guglielmo Ferrero, escreveu, em seu livro O Poder, sobre o medo paranoico que sofrem os ditadores. Contou que em pleno regime fascista, certo dia foi convocado pelo prefeito de Florença, em outros encontros risonho e gentil, agora com semblante negro e inquisitorial, que lhe entregou uma carta de Benito Mussolini, a qual entre outras admoestações dizia: "Lembro ao Signore Ferrero que a Revolução Francesa tratava seus inimigos de maneira muito diferente". Ao sair do Palácio Riccardi, Ferrero se perguntou que crime tinha cometido para que o ditador poderoso lhe mostrasse a guilhotina como término de sua carreira.

Tudo foi originado por um texto no qual Ferrero zombava das frustradas lutas pela liberdade, pela democracia e pelos direitos civis, as quais acabaram por entregar a Itália às mãos de um ditador. O referido texto foi parar num jornal de Nova York que a publicou com um tom levemente mordaz.

Na ocasião, a Itália desmoronava por todos os lados e, por isso, tinham sido conferidos plenos poderes a um ditador para que ele evitasse a definitiva debacle do país.

Então, no meio dos monstros que devia matar diariamente para cumprir sua hercúlea tarefa, o déspota deixava-se tomar pela paranoia provocada por algumas linhas perdidas num jornal de outro continente e por um opositor político incipiente e fraco.

Para Ferrero, os detentores do poder aspiram conservá-lo, os amedronta a lembrança de sua transitoriedade e que uma democracia só é legítima quando a possibilidade de sua renúncia e substituição preventiva é algo que pode se realizar quando os eleitos frustram as esperanças neles depositadas por seus eleitores.

Opinião semelhante tinha Isaiah Berlin. Dizia o filósofo britânico que a verdadeira democracia não se resume à eleição de candidatos nos quais confiamos, mas também na possibilidade de destituí- los no momento em que verificamos terem eles fraudado nossas justas e legítimas expectativas. "Ser liberal", afirmava Berlin, "não é somente aceitar opiniões divergentes, senão admitir também que são talvez nossos adversários os portadores da razão".

Nada, portanto, mais antiliberal e mesquinho do que retaliá-los com ações discriminatórias, ressentidas e com falsos juízos quando eles questionam e denunciam a precariedade legal e consensual dos detentores do poder, principalmente quando sobre eles pesam fortes acusações de arbitrariedades e de corrupção.
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Médico, membro da Academia Rio-Grandense de Letras franklincunha@terra.com.br
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=07470878bde1b126f2cc4b0f9d9b9798

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Em 16 pontos, os projetos em disputa na Igreja: Vaticano II ou Trento?

                    Restaurar ou reformar? Igreja entre Francisco e a Cúria romana
A Igreja Católica vive hoje a disputa aberta entre dois projetos: um deles, liderado pelo Papa Francisco, pretende aprofundar o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965); o segundo, liderado por um grupo de cardeais e bispos conservadores e por larga fatia da Cúria romana, pretende ver restaurado o espírito do Concílio de Trento (1545-1563).

Há um julgamento consensual entre os teólogos e a hierarquia sobre a relevância do Concílio de Trento, que viu-se obrigado a dar conta das novas realidades surgidas à época: o fim da Idade Média, a Reforma e o nascimento da Modernidade hostil à religião. A questão não é o julgamento histórico daquele concílio, mas o desejo dos segmentos conservadores da hierarquia e do laicato de restaurar seu espírito, transplantando para o século 21 a doutrina e o modo de ser e fazer Igreja de meio milênio atrás.

O julgamento sobre o Vaticano II não tem nada de consensual. Os segmentos progressistas, que apoiam o Papa Francisco, consideram-no com o evento que marcou a retomada do diálogo da Igreja com o tempo, a Modernidade e a pós-Modernidade. Os conservadores atacam-no duramente, de maneira velada (a maioria) ou aberta (caso de líderes como o cardeal Robert Sarah, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos do Vaticano): consideram o concílio liderado por João XXIII a “porta aberta” na Igreja para a licenciosidade, a anarquia, a “subversão”.
O centro de aglutinação e liderança conservadora na Igreja esteve (e ainda está) solidamente ancorado na Cúria romana. Não é à toa que o aspecto central do governo de Francisco no que toca à estrutura eclesial é a reforma radical da Cúria e o esvaziamento de seu poder, com a valorização das conferências eclesiais nacionais, conforme o projeto do Vaticano II e que foi abortado por João Paulo II e Bento XVI.

Leia o quadro-resumo abaixo e saiba quais são os 16 pontos que separam os restauradores tridentinos dos reformadores  do Vaticano II.


O PROJETO DE RESTAURAR O ESPÍRITO DE TRENTO
O PROJETO DE APROFUNDAR O CAMINHO DO VATICANO II
A igreja é uma sociedade perfeita A Igreja é uma comunidade com falhas
A igreja é o clero A Igreja é Povo de Deus
Jesus é um rei, acima de todos,  imperial Jesus desceu para ser um com seu povo
A Igreja é uma monarquia, de estrutura hierárquica, verticalizada A Igreja é uma comunidade de irmãos e irmãs, em conformação circular
O Papa é a encarnação de Cristo e, por sucessão, os bispos e todo o clero. O povo é secundário. Na missa, os sacerdotes são “persona Christi”, pessoa de Cristo O Papa e todo o clero devem ser servidores pobres do povo pobre, de uma Igreja pobre. A missa é a celebração do encontro de Cristo com seu povo
Os fiéis devem obedecer ao clero sem questionamentos O clero deve servir o povo e com ele aprender
Só dentro da Igreja Católica as pessoas podem “salvar-se” Jesus Cristo encarnou para salvar todos e não um grupo “eleito”
Combate ao ecumenismo e ao diálogo com outras religiões Prioridade ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso
O centro da doutrina é marcado pelo pecado e a ameaça do inferno O amor e o perdão ocupam o centro da doutrina do Vaticano II
No imaginário tridentino há uma oposição quase absoluta entre as “coisas celestes” e as “coisas terrestres”, entre corpo e alma. As “coisas do corpo”, como o sexo, são objeto de repressão e vergonha No imaginário do Vaticano II deixa de existir a dicotomia entre corpo e alma, e todas as “coisas terrestres” estão permeadas pelas “celestes”. O sexo passa a ser visto como celebração da vida
A relação com os que divergem é de perseguição, censura, exclusão e excomunhão A relação com os que divergem é de convivência, mesmo que marcada por tensões
Defesa do “direito à riqueza” e relação com os pobres distante e assistencialista. Prioridade aos ricos e “doadores” A Igreja deve fazer uma opção preferencial pelos pobres e entendê-los como protagonistas centrais da história
Sob a tese de que “Cristo merece tudo” e que “nada é suficiente para louvar Cristo”, os altares enchem-se de ouro e o clero, “encarnação de Cristo”, enriquece. Os anéis dos bispos e cardeais são joias de alto valor A Igreja deve ser pobre, o altar da celebração eucarística deve ser simples, e o clero deve viver em condições materiais idênticas à das comunidades que servem. Abandono às roupas suntuosas e anéis de alto valor
A relação com a sociedade é marcada por uma agenda moral conservadora com o objetivo de controlar o corpo das pessoas e a oposição à ampliação dos direitos sociais, a qualquer possibilidade de ameaça ao capitalismo e aos movimentos sociais A relação com a sociedade é marcada por uma agenda social voltada aos mais pobres, por uma visão de liberdade e responsabilidade, pela “cultura do encontro”, pela crítica ao capitalismo e pelo apoio e inserção nos movimentos sociais
Pretendem  a reversão da reforma litúrgica do Vaticano II,  e o retorno da missa tridentina, em latim e com o padre de costas para a assembleia. Rejeitam totalmente a ideia de inculturação da liturgia Defendem o aprofundamento da reforma litúrgica do Vaticano II, com a retomada das iniciativas de criatividade e inculturação totalmente bloqueadas durante os papados conservadores.
Tem como referência os papas Pio X, João Paulo II e Bento XVI Tem como referência os papas João XXIII e Francisco

[Mauro Lopes]
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Fonte:  http://outraspalavras.net/maurolopes/2017/09/20/em-16-pontos-os-projetos-em-disputa-na-igreja-vaticano-ii-ou-trento/

Os jantares tristes de Luís Felipe Pondé

170920-Pondé
Irritam-no as mulheres, os jovens, os pobres. Em sua cruzada contra a esquerda nosso autor expõe, talvez sem se dar conta, os preconceitos e frustrações que povoam sua alma

Por Thiago Dias da Silva

Alguns pensamentos e sensações me ocorrem regularmente quando leio os textos de Luiz Felipe Pondé. Talvez o mais frequente se resuma na seguinte exclamação: este cara deve viver no pior círculo social da cidade! É claro que ninguém tem controle completo sobre as pessoas que compõem o entorno, mas parece existir alguma coisa que o aproxima de pessoas chatíssimas, que o aborrecem talvez diuturnamente. O resultado é a insistência com que ele reclama em seus textos das situações sociais em que se vê enfiado.

Esta impressão se impõe desde pelo menos seu grito contra os “jantares inteligentes”, apresentados com muito deboche, mas com uma precisão e uma argúcia acessíveis apenas a quem os frequenta. Estes jantares são marcados por um refinamento falso, fútil e passavelmente informado que satisfaz aos convivas por garantir-lhes sua posição na competição social mais mesquinha. Ninguém está inteiramente livre deste tipo de disputa, evidentemente, mas há níveis e aquele descrito pelo colunista é certamente um dos piores.

Em sua descrição, Pondé oferece uma lista do que é bem visto nestes lugares e curiosamente vincula à esquerda aquela situação toda. Digo que é curioso porque frequento o círculo social da FFLCH-USP há mais de uma década e a experiência mais próxima que tive de um “jantar inteligente” foi lendo aquele famoso texto de Joel Silveira sobre os grã-finos de São Paulo. Talvez este estranhamento não esteja tanto no conteúdo da tabela ali apresentada, mas na incapacidade do colunista em notar os afetos tristes que organizam todos os preconceitos ali colocados e que tão pouco têm a ver com a esquerda.

Neste “antro comunista” que frequento há anos, as festas raramente têm vinhos bons (quem dera!) e as cervejas baratas em botecos sem nome são a regra. Todo mundo prefere cervejas artesanais, mas, sabe como é, elas são mais caras e o pessoal em geral trabalha com educação…

Nestes encontros, até acontece de algum novato, talvez impressionado pelos diplomas e títulos acadêmicos dos presentes, aparecer falando seriamente sobre isto ou aquilo. Se ele for um pouco esperto, no entanto, percebe rapidamente que a única filosofia ali aceita por mais de dez minutos é a de boteco; nota que a única discussão que pode durar muito é entre um anarquista e um psolista embriagados, que interrompem a discussão às gargalhadas quando se lembram que ambos votaram na Dilma.

Talvez seja por isto que Pondé tenha reclamado que seu pessoal não é lá muito bom em “pegar mulher”, para usar os termos dele. Do lado de cá, é óbvio, há uns mais hábeis e outros menos, mas ele tem razão ao afirmar que a abertura aqui é muito maior. Ela é tão mais ampla, aliás, que é bastante comum – pasmem! – ver mulher pegar homem, e com muita habilidade. Isto sem falar dos homossexuais, sempre muito bem-vindos e dispensados de serem “exóticos”, como parece ser necessário nas soirées chiques que torturam o colunista.

Mais recentemente, Pondé afirmou ainda que é importunado reiteradas vezes com a pergunta a respeito da capacidade dos jovens de hoje mudarem o mundo de amanhã. Ele responde com a velha crítica aos melhoradores do mundo (tão antiga quanto Nietzsche, talvez Burke). De modo bem característico, no entanto, sua resposta vem na forma de um “choque de realidade”.

O chacoalhão se dirige claramente aos grã-finos de seus tristes jantares inteligentes, para quem é necessário repetir que “os jovens estão com medo, e com razão.” Isto porque a situação do capitalismo atual é assustadora e os laços sociais estão destruídos, de modo que “generosidade é um termo desconhecido no mundo em que os jovens habitam.”

Ora, o movimento dos estudantes secundaristas mobilizados nas ocupações das escolas oferece a evidência exatamente oposta. Eles também são jovens e também se veem diante desta “máquina do mundo [que] tritura esperanças, projetos e corpos a cada dia mais e de modo mais veloz.” Sua reação, no entanto, não é se apoiar no afeto triste do medo, mas se organizar em uma luta contra esta máquina, do que resulta a produção de muitos afetos alegres que se multiplicam na sociabilidade quente que eles têm criado. Entre esses jovens, a generosidade é abundante!

Além de colunas de jornal, Pondé escreve livros também. O único que eu li foi aquele que resulta de sua tese de doutorado – muito bom, aliás. Li ainda na graduação por insistência de um dos “vários” professores esquerdistas da FFLCH que “impedem o acesso a autores conservadores”. Certa vez, em pé numa livraria, comecei a ler seu Guia politicamente incorreto da filosofia. Lembro-me que o livro se abre com o relato em primeira pessoa de uma deslumbrante experiência de turismo feita, é claro, longe dos lugares comuns, como Paris e New York, e viajando de classe executiva, não no pombal que é a classe econômica. Perfeita para contar em um jantar inteligente, não?

Elaborando uma captatio benevolentia daquela classe média aspirante a grã-fina que reclamava do “rebaixamento” dos aeroportos a rodoviárias, Pondé mobiliza o mesmo “horror a povo” por ele denunciado no jantar inteligente. Como o livro parece ter vendido bastante, imagino que a captura deve ter funcionado e resultado na ampliação do círculo social que tanto o perturba. A sedução não me atingiu e minha leitura do livro, é claro, se interrompeu ali.

Mas não parei de ler porque a demora no check-in e os biscoitinhos das companhias aéreas me agradam. Parei porque não são estes os elementos que mobilizam meus afetos diante da tímida inclusão de pobres na sociedade. O incômodo gerado pela estreita estrutura por onde mais gente agora deve passar tem pouca força porque tem que conviver com a satisfação diante da alegria de ver alguém viajando pela primeira vez. A alegria dos recém-chegados à sociedade vence o incômodo que possam causar. O oposto acontece diante do faniquito de quem “perdeu seu aeroporto” ou “não aguenta mais esse país”.

Estas diferenças de afetos e sociabilidades devem ter algo a ver com o fato de Pondé se situar à direita no espectro político e frequentar o círculo social a ela correspondente. Embora eu tenha dificuldades de definir com precisão o que é a esquerda hoje em dia e tenha algumas reclamações a fazer do meu círculo social, fico bastante contente de estar ao lado de pessoas animadas pelos afetos opostos.
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 Fonte: http://outraspalavras.net/destaques/os-jantares-tristes-de-luis-felipe-ponde/

Agora é o momento

Diogo Alves* 
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A verdadeira questão é como preparar os futuros líderes. Cerca de 50% da população mundial tem menos de 30 anos e esta é a geração que tem de ser mais envolvida como parte da solução para os problemas

Muitas vezes dizemos que “o céu é o limite” para descrever que as oportunidades são infinitas se lutarmos pela sua conquista. Este artigo foi literalmente escrito no alto dos céus, num avião de volta do Encontro Anual dos Global Shapers na Suíça. Durante quatro dias verdadeiramente inspiradores, juntaram-se mais de 350 representantes das várias cidades/hubs que fazem parte da comunidade dos Global Shapers do Fórum Económico Mundial.

O mote do evento foi “The time is now” e, de facto… “agora é o momento”. Momento para refletirmos sobre o passado e começar a enfrentar e desenhar um futuro que apresenta um conjunto de desafios nunca antes vistos. Desde logo, desafios supranacionais e globais como a crise dos refugiados, as alterações climáticas, modelos inovadores de educação ou a revolução tecnológica e o seu impacto nas empresas, pessoas e governos.

Em artigos anteriores, outros Shapers já abordaram temas tão importantes como a inovação científica e social, a igualdade de género ou a educação. Neste artigo, gostaria de me focar nas várias lições que retirei da minha participação como representante do hub de Lisboa na Suíça e falar de histórias que considero serem verdadeiramente inspiradoras e impactantes de liderança e mudança.

Comecemos então a viagem em Nicósia. Na capital do Chipre, os Shapers locais organizam e oferecem workshops a centros de refugiados, ajudando-os a aceder a serviços públicos ou apoiando-os na sua integração com aulas de ioga e meditação. De Nicósia caminhemos até Manila, nas Filipinas, onde os Shapers da mesma cidade reconheceram a necessidade de fazer algo face aos elevados índices de poluição da atmosfera. Ainda na Ásia, em Katmandu, no Nepal, a comunidade dos Shapers conseguiu apoio financeiro local e está neste momento a trabalhar na construção de uma clínica e de uma escola que irá albergar cerca de mil estudantes.

Do Nepal vamos até Ulan-Ude, na Rússia, onde a equipa dos Shapers desenvolveu uma aplicação móvel para apoiar na identificação do aparecimento de fogos e na rápida atuação dos bombeiros nestas situações. Da Rússia, partimos para o Gana onde a comunidade dos Shapers do hub da cidade de Ho está a apoiar a introdução de dispositivos de realidade virtual em escolas locais. Para além disso, estão também a trabalhar num projeto de tratamento de água potável, devido à poluição na região.

Podia continuar a transmitir os inúmeros e extraordinários exemplos que tive a oportunidade de conhecer, mas gostaria de realçar três elementos transversais a todos: liderança, sentido de comunidade e impacto.

Falando da primeira, o professor Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Económico Mundial, definiu liderança com uma analogia simples, em seis dimensões: corpo, cérebro, alma, coração, músculos e nervos. Por um lado, um líder tem de estar em boa forma física e mental, alicerçando-se num sistema e conjunto de valores que o unam à sua comunidade ou equipa. Por outro lado, um bom líder caracteriza-se pela sua paixão e a capacidade de transformar a sua visão em ação, nunca esquecendo que terá de se adaptar e ser bastante flexível durante o seu caminho.

Atualmente, e em muitos casos, existe um descrédito face a muitos dos líderes dos nossos tempos. Contudo, a verdadeira questão não é só e apenas como lidamos com as lideranças atuais, mas sobretudo como preparamos as lideranças futuras. Cerca de 50% da população mundial (3,5 mil milhões de pessoas) tem menos de 30 anos e esta é a geração que tem de ser progressivamente mais envolvida como parte da solução para problemas locais, nacionais e globais. Com o objetivo de enfrentar este problema, também os Global Shapers de Lisboa decidiram agir, através de iniciativas como o Leadership Summit Lisbon que co-organizamos. A conferência irá decorrer no dia 26 de Setembro em Lisboa e debruçar-se-á sobre a partilha de diversos exemplos de liderança nas mais diversas áreas, do mundo dos negócios às artes ou até mesmo ao humor.

Da liderança passamos ao sentido de comunidade. E até pode parecer fácil escrever ou falar sobre o assunto — difícil é agir. A realidade é que, em todas as iniciativas acima referidas, há denominadores comuns que devem ser práticas do dia-a-dia de todos os cidadãos. Desde logo, o sentimento de inclusão dos outros, seja qual for a sua raça, credo, género ou nacionalidade, bem como o reconhecimento da necessidade de atuar sobre problemas que nos tocam a todos, procurando soluções inovadoras. Um exemplo prático disto mesmo é o Global Dignity Day, no qual vários dos nossos hubs a nível mundial intervém junto de crianças desfavorecidas, debatendo o real sentido da dignidade humana. Em Portugal, já o fazemos desde 2013, tendo recentemente conseguido uma parceria com a Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade, o que permitirá o alargamento da iniciativa que terá agora impacto junto de cerca de cinco mil crianças e jovens estudantes no nosso país.

Criar impacto significa respeitar as aprendizagens do passado, viver ao máximo o presente e criar mecanismos para, em comunidade, construir um futuro melhor.

Sendo jovem, acredito que é sempre necessário fazer mais. É preciso ajudar a potenciar projetos de impacto social e ambiental. É preciso procurar soluções inovadoras para os problemas globais. É preciso reconverter, reforçar e, no limite, modificar mentalidades e competências neste mundo de rápido desenvolvimento económico, social e tecnológico em que vivemos. É preciso deixar uma marca em quem nos rodeia e em nós mesmos. É preciso agir. Agora é o momento.
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* Cronista
Fonte:  http://observador.pt/opiniao/agora-e-o-momento/
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O super-homem não é o super pai

Francisco Alvim*
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Isso sim pode ser um rombo na imagem e na marca CR7. E não há milhões que lhe valham, a ele ou aos filhos. 
Uma mãe não tem preço.

Depois de mais um ano cheio de conquistas e recordes, eis que Cristiano Ronaldo é notícia por duas razões bem diferentes: alegadamente deve uma brutalidade de dinheiro ao fisco (são 14,7 milhões de euros!); e parece que encomendou mais dois filhos – um par de gémeos – a uma barriga de aluguer.

A nossa admiração por Ronaldo não nos pode impedir de analisar a realidade que o envolve. Confesso que nunca esperei ver o nosso super-homem embrulhado em esquemas de fraude fiscal. E muito menos esperei vê-lo como protagonista de uma novela com filhos sem mãe. Se há quem diga que a primeira trapalhada belisca a sua imagem, eu cá acho que a segunda a mancha de outra forma.

Diferente de tentar “poupar” uns milhões, comprar filhos por encomenda, privando-os de terem mãe, é algo mais preocupante. Já com o primeiro filho tinha sido assim. Talvez seja um devaneio excêntrico, diziam uns. É uma manifestação pura de egoísmo, diziam outros. Não podemos saber o que vai na cabeça de Ronaldo, mas a ser verdade o que se diz, o que me apoquenta é o seguinte: insistir nesta prática indicia que talvez o nosso “mais que tudo” não saiba ao certo o que significa ser família.

Não creio que a culpa seja exclusiva de Ronaldo. Pelo contrário, creio que ele é apenas mais uma vítima do seu tempo e da ideologia dominante. Mas no caso dele, e por ser quem é, o problema assume outras proporções. E por isso o que escrevo vale para Ronaldo como para qualquer um que entre nesta deriva. Porque não se coleccionam filhos como se coleccionam bolas de ouro. Os filhos não são troféus; não são bens transacionáveis; nem deviam ser fruto de um simples acto de vontade de um super-herói. Os filhos não podem ser um caminho de auto-satisfação ou realização pessoal, como quem põe um “check” na obrigação de ser pai.

Não se trata de fazer um juízo moral sobre a actuação de Ronaldo; trata-se de constatar e compreender a natureza como ela é. Tipicamente, a expressão família refere-se a um conjunto de pessoas com um grau de parentesco entre si e que habita na mesma casa. Mas no que respeita ao modelo de família, só conheço um: o natural. Ou seja, aquele que resulta da união entre homem e mulher geradora de filhos.

Naturalmente, isto não significa que os casais que não podem ter filhos deixem de ser uma família, nem significa que os viúvos ou os cônjuges abandonados, a partir desse momento, vejam desvanecer-se a família existente. Nenhum desses circunstancialismos é auto-imposto. A família subsiste. Por isso, todas as aproximações desse conceito serão consideradas família na medida em que procurem respeitar a sua natureza original. O resto serão reproduções mais ou menos incompletas da mesma e não deixarão de ser válidas, excepto quando a falta de completude é deliberadamente provocada. Quem se lixa, convençam-se, é a criança.

Por exemplo, o instituto da adopção foi pensado para conferir às crianças privadas dos seus pais a possibilidade de experimentarem um modelo o mais aproximado possível da realidade que teriam caso aquela privação não tivesse ocorrido – e isso só é possível com um pai e uma mãe adoptivos. O que se fez depois com a adopção é outra conversa e tenho dúvidas de que a preocupação central tenha sido o superior interesse da criança.

Os que legitimam estes comportamentos alegam que todos devem ter direito ao desenvolvimento da sua personalidade e à realização pessoal, justificando assim que quem quer ser pai, pode e deve sê-lo. E pode, ninguém diz que não, mas e porque não arranjar uma mulher que queira ser mãe dos seus filhos? É que também temos direito à nossa identidade e à filiação natural, coisa que estas atitudes ignoram. É a dignidade do ser humano (no caso, da criança) que é posta em causa.

Por outro lado, não cola a ideia de que os homens, querendo, devem poder recorrer a um óvulo ou a barrigas de aluguer apenas porque as mulheres podem recorrer a um dador de esperma anónimo para serem mães, de acordo com as técnicas de procriação medicamente assistida. Se formos sérios no debate e se pusermos o olhar na criança, facilmente se percebe que não se trata de uma questão de igualdade e será injusto (e muito redutor) resumir a discussão a uma luta de sexos.

Lá porque são legais, não quer dizer que essas técnicas estejam certas. Como explicava o professor Bigotte Chorão, as leis iníquas não são para cumprir. E o mesmo vale para a co-adopção por casais homossexuais. Basta pensar na aberração da semana: na Colômbia, três homens decidiram “casar”. Querendo, qualquer um deles pode adoptar ou “mandar vir” um filho e a criança terá então três pais e nenhuma mãe.

A falácia está aqui: pegaram no modelo natural de família e chamaram-lhe tradicional e depois inventaram uma série de outros modelos e disseram que são formas modernas de família. A semântica, essa grande arma.

O ataque ideológico à família é avassalador. E ver Ronaldo embarcar nisso, mesmo sem se aperceber, entristece quem o admira. Não digo que não seja carinhoso com os seus filhos ou que não lhes proporcione todas as condições (desde logo, materiais) para que tenham uma vida confortável. Mas no dia em que os seus filhos lhe perguntarem porque é que os seus colegas na escola têm mãe e eles não, o que lhes dirá o super pai?

Custa ver que uma pessoa que muito se apoiou na sua mãe, Dolores, e que sempre fez um esforço por se rodear dos seus irmãos, assim se preservando de outros males, prive agora os seus filhos de terem uma mãe biológica e uma família completa. Isso sim pode ser um rombo na imagem e na marca CR7. E não há milhões que lhe valham, a ele ou aos filhos. Uma mãe não tem preço.

Podia ser qualquer outro, mas a responsabilidade de Ronaldo não é só a nível social ou fiscal. Ela implica também ser um modelo a nível familiar. Basta pensar na quantidade de miúdos que, ao verem esta confusão, se perguntarão se isto é normal. Por favor, alguém lhes explique que não é. Afinal, o super-homem não é o super pai.
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Advogado
Fonte:  http://observador.pt/opiniao/o-super-homem-nao-e-o-super-pai/

Rachel Cusk: “Os ingleses têm desdém pelo intelectualismo e pela arte”

Rachel Cusk usa a realidade à sua volta para os seus livros. "Tenho de estar preparada para aborrecer e irritar as pessoas."

"A Contraluz" foi um dos 10 melhores livros de 2015 para o New York Times. A imprensa americana adora-a. Já o Reino Unido, onde cresceu, não lhe tem dado descanso.  
"Talvez eu não seja britânica", diz.

Faye chega a Atenas, no pico do verão, para lecionar um curso de escrita. A primeira pessoa da narrativa conhece-a logo no avião. A primeira de muitas, que lhe hão de contar, à vez, a história das suas vidas: os amores falhados, os medos, as esperanças. Há tudo isso que é viver ao longo das 233 páginas do romance A Contraluz (Quetzal), na forma de longos diálogos. O que Rachel Cusk não deu aos leitores foi um início, um meio e um fim clássicos de uma história. “O livro é uma fotografia de um momento”, justifica, em entrevista ao Observador.

Primeiro volume de uma trilogia, da qual se acaba de publicar em inglês o segundo volume, intitulado Transit, basta ler sobre a vida de Rachel Cusk para começar a juntar as coincidências entre a realidade e a ficção. Faye vai até à Grécia para um curso de escrita criativa e Cusk já foi professora de escrita criativa — o livro dá até alguns conselhos úteis sobre o processo de escrever. É defensora da utilização da realidade, por oposição à invenção pura e dura. Mas essa opção já lhe trouxe problemas pessoais.

A escritora nascida no Canadá, em 1967, mas a viver no Reino Unido há já vários anos, tem nove romances lançados. O primeiro, Saving Agnes, ganhou o prémio Whitbread em 1993. Em 2003, foi escolhida pela Granta como uma das melhores jovens romancistas britânicas. O mundo literário não anda distraído.

Em 2014 ganhou mais visibilidade ao lançar A Contraluz (Outline, no original), que no ano seguinte chegou à América e integrou a lista dos 10 melhores do ano para o New York Times. A história, que o jornal considerou na altura “subtil, não convencional e letalmente inteligente”, também foi finalista do prémio Baileys, que distingue a melhor obra de ficção escrita por uma mulher.

Rachel Cusk vê material literário nas coisas mais corriqueiras, nos problemas habituais de cada pessoa, nas rotinas. Eventos únicos, verdadeiros, especiais, que distingam a sua vida da das outras pessoas, não lhe interessam. A imprensa americana venera-a. Mas os críticos ingleses, que com ela partilham o sotaque, não têm sido meigos. Numa conversa com o Observador, durante o festival Literatura em Viagem, em Matosinhos, a autora assume a diferença de tratamento que existe entre os dois lados do Atlântico. E isso está a mexer com a sua identidade. “É engraçada a questão que está a abrir-se na minha vida atualmente. Que talvez eu não seja britânica, que afinal eu venho da América. É um sentimento engraçado, pensar que talvez toda esta hostilidade e rejeição seja uma projeção da pessoa adotada e que o meu verdadeiro lar seja onde compreendem o meu trabalho.”

“A Contraluz” foi publicado este ano (2017) pela Quetzal. Custa 16,60€.

A sua honestidade trouxe-lhe alguns problemas no passado. No livro In The Last Supper: A Summer in Italy, um dos personagens que descreve moveu-lhe um processo, porque considerou que podia ser identificado. O livro Aftermath, lançado há cinco aos, foi muito, muito falado e discutido, porque abriu uma janela para os detalhes do seu divórcio, desde as crianças até às partilhas e pensões. Que marcas é que isto deixou? Mudou algo na sua forma de escrever depois de tanta atenção mediática?
Suponho que me afetou a mim e, consequentemente, a minha escrita. Fiquei muito cansada disso tudo, do facto de os livros não serem compreendidos da maneira correta, porque não foram escritos para provocarem as pessoas. Percebi que tinha de encontrar uma nova forma de… Fazer o que quero fazer. Sem entrar em campos como o da raiva. É uma pergunta muito técnica. Não foi difícil perceber como é que eu podia ser eu mesma e continuar a fazer o que eu quero fazer, sem esta problemática.

Mas o problema era as pessoas ficarem zangadas com o que escreveu sobre a maternidade ou sobre o divórcio, ou era andarem a discutir a sua vida pessoal?
O problema para mim era a maldade, a crueldade, a desaprovação. Porque é um livro, não é que eu tenha poderes, não sou política. Percebi que as pessoas estavam a usar-me como um escape, uma desculpa para defender certos valores ou atacá-los. O problema era eu usar as memórias enquanto estilo. Escolhi fazer assim de uma forma fria e deliberada, por razões artísticas e não porque queria escrever sobre a minha vida. Nem é particularmente sobre a minha vida, é… Uma tentativa de representar certas experiências que me parecem pessoais de uma forma diferente, como ter um filho ou divorciar-me. São experiências em que, por serem contigo, são muito intensas. Desejarias ser outra pessoa durante essas experiências, então a memória pareceu-me absolutamente certa enquanto estilo. Mas foi interpretada como uma confissão, o que tornou mais fácil o ataque das pessoas.

Sentiram-se no direito de discutir a sua vida pessoal porque estava ali, escrita.
Sim, sim. Ou parecia que estava, o que não é o que eu faço. Eu uso pedaços da minha vida porque é o material que eu tenho, mas há muitos, muitos outros aspetos da minha vida sobre os quais eu nunca sonharia escrever. Como crescer na América, por exemplo. Simplesmente porque isso não é habitual, são coisas que apenas eu experienciei, só me vão servir a mim. Mas senti que fui mal compreendida.

O que mudou então quando partiu para este livro?
Vi que a artificialidade, a tela do romance, não precisava de estar lá. Senti que podia tirá-la, deixar a memória de lado e a confissão pessoal, sem perder na narrativa. E não foi assim tão difícil, eu já escrevi vários livros e sei como funcionam as frases.

Ao ler A Contraluz, senti que as várias pessoas com quem a narradora, Faye, se cruza partilham muitos episódios da sua vida. Mas ela resguarda-se mais, comenta, conta algumas coisas, mas não partilha da mesma forma. Não é uma consequência da sobre-exposição que viveu no passado?
É uma forma de fazer com que a superfície do romance funcione. No meu entendimento sobre o que divide a memória da ficção entendi que, na ficção, o narrador sabe muita coisa que finge não saber. Essa é a base de grande parte da escrita descritiva. Eu quis livrar-me disso, então tudo tinha de ser visível à superfície do livro. Nada de entrar nos pontos de vista ou na consciência dos personagens, porque isso é, essencialmente, falso. Na vida real, não podes entrar na cabeça de uma pessoa. Então, quando o narrador diz algo, ela diz o que diz, são os pensamentos dela. Como é que experiências a realidade humana? Vês o que as pessoas fazem e ouves o que elas dizem. E isso era tudo o que eu tinha.

A vida real supera a ficção na hora de fazer literatura?
Eu não estou interessada em inventar coisas. Não é que eu ache que há alguma coisa particularmente interessante na minha vida. Só que é o material que eu tenho à disposição. A maioria dos escritores que eu admiro fazem o mesmo e, quando lês, não é que as vidas deles sejam assim tão diferentes das coisas sobre as quais estão a escrever. Quando lês Thomas Mann, normalmente não encontras nada muito desconexo de um alemão do século XX. A arte não é invenção, é representação. Não estou a tentar entreter as pessoas para fazer dinheiro.

E em relação ao anonimato? É uma escritora muito conhecida, que escreve também sobre a sua vida e a das pessoas que a rodeiam. Não se autocensura por vezes?
Não. É o meu processo. Embora tu possas pensar que eu estou a escrever sobre uma pessoa, mas na verdade não sabes. Acho que a única área em que tive de aprender a ter mais cautela foi essa, porque houve uma ação judicial em que a pessoa achou que se reconhecia no livro.

Como é que isso terminou?
O livro foi retirado e eu tive de pagar uma compensação. Bom trabalho, ãh? [risos] Eu… uso o que está à minha volta e não discrimino assim muito. Quando estou a escrever, uso o que quer que esteja disponível. É verdade que, por vezes, esqueço-me de… Às vezes uso compósitos de coisas diferentes, mas não faço isso deliberadamente, é apenas o que preciso. Este processo não é muito consciente e por vezes posso escrever algo que seja reconhecível, por isso tive de me tornar um pouco mais consciente. E não gosto.

Sente que lhe tira liberdade?
Sim. As pessoas querem manter boas relações umas com as outras, é normal pensar-se “eu não vou fazer isto ou dizer aquilo para não perder o meu amigo, ou para manter a paz”. E isso está certo, mas eu não conseguiria fazer o que faço se pensasse dessa forma. Por isso, tenho de estar preparada para aborrecer e irritar as pessoas.

Assim as pessoas que conhece estão sempre alerta quando estão consigo.
Por vezes, algumas pessoas mais próximas dizem-me: “vou contar-te uma coisa, mas não é para tu usares.” E a partir do momento em que dizem, eu respeito. O que eu acho é que tudo o que é dito para a esfera pública pertence a toda a gente. Isto para mim é óbvio, se andares nua pelo hotel, as pessoas vão olhar para o teu corpo nu. Se não queres que olhem, não andes nua. A discrição é uma decisão pessoal.

Entre os críticos americanos goza de ótimas avaliações. Sente que os críticos ingleses são demasiado duros consigo?
Sim. É engraçada a questão que está a abrir-se na minha vida atualmente. Que talvez eu não seja britânica, que afinal eu venho da América. É um sentimento engraçado, pensar que talvez toda esta hostilidade e rejeição seja uma projeção da pessoa adotada e que o meu verdadeiro lar seja onde compreendem o meu trabalho.

Está a sentir que talvez se deva mudar para a América?
Eu tenho dois filhos… Acho que isto está a acontecer quase com toda a gente, porque o país está a dividir-se em dois. E a parte feia está a ganhar poder. Acho que estas questões estão a levar toda a gente a pensar onde é que pertencem e qual é a sua identidade.

A América está a passar por uma fase semelhante.
É verdade, mas a cultura intelectual americana está mais robusta do que a nossa. Os ingleses têm desdém pelo intelectualismo e pela arte. Os americanos não. Além de que o Donald Trump são quatro anos, o Brexit é para sempre. É diferente.

Ao falar sobre o livro com uma amiga, ela disse-me que sentia que todos os personagens estavam como que inacabados. Posso perguntar porque escolheu Outline (em tradução literal para português, esboço] como título do livro? Tem a ver com o facto de os personagens, tal como cada pessoa, estarem em constante construção?
Em parte é para descrever a paisagem mental do romance, que é sobre perda, alienação e perda de identidade. Em particular, a perda de formas de vida, de um casamento, da vida familiar, do anonimato. E no que, nestas circunstâncias, se podem tornar os encontros com outras pessoas. Por outro lado, é sobre escrita, é um esqueleto literário. Quanto aos personagens estarem inacabados, as pessoas também estão. O livro é uma fotografia de um momento.

A Contraluz foi o primeiro volume de uma trilogia, da qual também já publicou, este ano, o segundo volume, Transit [ainda sem título em português]. Já terminou a terceira parte?
Ainda o estou a escrever e vou publicá-lo no próximo ano.

É a primeira vez que se envolve numa trilogia. Quando é que percebeu que a história sairia em três livros? Já tinha tudo planeado desde o início?
Acho que quando terminei A Contraluz percebi que, por um lado, tinha mais a dizer dentro daquela forma, que era uma boa forma. No final do livro havia tantas questões… Sobre como é que se continua a viver. Interessou-me ver se conseguia respondê-las. E tinha de haver uma ponte entre elas. De certa forma, Transit é essa ponte.

Os três volumes tocam todos na nova fase da sua vida após o divórcio?
São o movimento entre uma realidade e outra completamente diferente. Entre uma realidade que a certo ponto é tão sobrecarregada que cede e desaba. Há um período de trauma e há depois um desejo de encontrar algo mais verdadeiro, em termos pessoais e do outro. Foi mais ou menos isso que eu percebi. Que era um processo, e que, por isso, precisava de mais fases.

É por isso que não dá ao leitor um início, um meio e um fim clássicos.
Exatamente. O segundo livro também vai ser narrado por Faye mas, desta vez, ela vai estar em casa, não vai ser uma estrangeira numa terra estranha. Ela vai ter de revelar coisas sobre si, porque aí ela vai estar no seu meio, onde as pessoas a conhecem. Ela muda-se para Londres e vai tentar criar um lar. Será sobre esse processo e a história, mais uma vez, vai passar-se num curto espaço de tempo, apenas alguns dias. Ela corta o cabelo, conversa com o seu empreiteiro. Essencialmente, vê-se obrigada a lidar com a vida e com o facto de as pessoas a responsabilizarem pelo seu passado. Há ganhos, mas há uma perda de liberdade e ela questiona-se se é isso que ela quer. E se quer viver.
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Reportagem por  Sara Otto Coelho
Fonte:  http://observador.pt/2017/08/26/rachel-cusk-os-ingleses-tem-desdem-pelo-intelectualismo-e-pela-arte/ - acesso 21/09/2017

TOTALITARISMO


 Paulo Tunhas* 
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Age-se como se cada um fosse como um camaleão, pronto a se metamorfosear naquilo a que aspira. Podemos descer na escala dos seres até aos animais ou tornarmo-nos divinos, de acordo com a nossa vontade

É verdade que ainda me surpreendo de vez em quando. Mas o sentimento mais recorrente, desde há algum tempo, é mesmo o tédio. Estou-me a referir aos furores legislativos em matérias que têm a ver com o que dantes se via como vida privada, nomeadamente com a sexualidade. Segundo li, os maiores de dezasseis anos poderão em breve escolher em Portugal qual o seu “género”, e em Espanha o Podemos reivindica naturalmente maior precocidade: os doze anos. E concebem-se penas pesadas para os pais que se oponham a tais decisões da sua prole.

O tédio tem certamente a ver com a frequência com que estas questões são apresentadas no chamado espaço público (a repetição, salvo para os maníacos, afasta a curiosidade) e com o desinteresse político que me sugerem. No que diz respeito ao essencial, a complexidade da psique humana em matéria de sexualidade, Freud, há mais de um século, disse o que havia para dizer, e é muito curioso que, sinal dos tempos, o seu nome se veja arredado de qualquer discussão. Não é só ignorância: Freud, para quem se der ao trabalho de o ler, continua a inquietar. Para mais, e continuando no essencial, a vida dos outros é a vida dos outros e quanto menos nos metermos nela, pretendendo dirigi-la, melhor. Mas, é claro, a questão que hoje é discutida pouco se ocupa destas coisas. Mais uma vez sinal dos tempos, ela centra-se por inteiro na legislação. A legislação tomou todo o espaço do essencial e a complexidade da psique não é para aqui chamada. O inconsciente, para voltar a Freud, não existe no quadro legal. A única coisa que interessa é o modo como o Estado nos pode obrigar à liberdade concebida segundo as modas quadriculadas do dia.

Francisco José Viegas, discutindo brevemente esta questão ontem num artigo do Correio da Manhã, citou o escritor inglês Martin Amis: “Pessoas que querem mudar a natureza humana – é isso o totalitarismo”. A frase toca sem dúvida em algo de importante, e algo que tem uma história que vem de há muito atrás, no início nada tendo a ver com o Estado, totalitário ou outro: a plasticidade do ser humano. Num escrito célebre, publicado em 1480, o humanista italiano Giovanni Pico della Mirandola afirmou a ilimitação do indivíduo. Deus – ele chamava-lhe: “o óptimo artífice” – fez com que os homens tivessem em si algo de todas as outras criaturas, de modo a nenhuma limitação os constranger. Mais: cada ser humano decide aquilo que é, cria a sua maneira particular de ser, nascer é exactamente poder ser aquilo que se quer. Cada um é assim como um camaleão, pronto a se metamorfosear naquilo a que aspira. Podemos descer na escala dos seres até aos animais ou tornarmo-nos divinos, de acordo com a nossa vontade. O ser humano não se encontra preso a nenhum lugar específico.

Pico não pensava certamente nas matérias que hoje ocupam os legisladores, mas a questão da plasticidade dos seres humanos estava no centro das suas preocupações. No entanto, essa plasticidade era para ele sinal de uma mobilidade cósmica dos seres humanos, que correspondia efectivamente a um gesto de liberdade essencial. A coisa no entanto muda com o início do século XIX. Cada um à sua maneira, Hegel, Auguste Comte e Marx desenvolveram filosofias que enquadraram essa plasticidade da natureza humana no contexto de teorias que apontavam, embora com óbvias e significativas diferenças, para a necessidade de uma evolução (ou, se se quiser, de um progresso) orientada para um fim. Os modos de ser humano mudariam necessariamente de acordo com uma sucessão mais ou menos rígida de etapas com vista à realização plena das suas possibilidades.

Essa visão das coisas encontra-se ainda, de uma maneira ou outra, presente entre nós. O exemplo mais notório, embora não o único, é o discurso do marxismo ordodoxo do PC (lembram-se do “homem novo socialista”?). No entanto, sensivelmente a partir dos anos oitenta do século passado, uma doutrina algo equívoca mas com indiscutível sucesso mediático, o chamado “pós-modernismo”, proclamou, pela voz de um dos seus teóricos mais eminentes, o filósofo francês Jean-François Lyotard, o fim das “grandes narrativas”. Significava isso, entre outras coisas, que as teorias da história teleologicamente orientadas (isto é, concebidas a partir da ideia de um fim, previsto desde o início, que haveria necessariamente de se realizar: o comunismo, por exemplo) se encontravam ultrapassadas. Reinaria antes uma nova pluralidade, que não importa aqui detalhar.

O que interessa salientar é que, nessa dissolução da ideia de um fim único da história e na pluralidade conquistada de fins diversos, permaneceu, na prática, a ideia da necessidade da realização de cada um desses fins. As tais “grandes narrativas” bem podem ter colapsado, embora tal seja matéria para discussão, mas o impulso humano para detectar necessidade na realização dos vários estilhaços resultantes da explosão das causas únicas não colapsou de forma alguma.

Mais do que isso. À sombra protectora de um Estado tutelar guiando os nossos mínimos passos, cujo advento Alexis de Tocqueville, para sua grande glória, previu quase até ao mais ínfimo detalhe no século XIX, o universo das causas necessárias e urgentes proliferou como nunca. Talvez, como disse, as “grandes narrativas” tenham conhecido um fim. Mas, em sua substituição, lidamos quotidianamente com um universo em expansão de “pequenas narrativas”. E os seus apóstolos não são menos ferozes nem menos convictos do que os das outras. Como não é menos forte a sua convicção na plasticidade da natureza humana e do papel que o Estado tem em a detalhar no papel da lei.

É nisto que estamos. E a palavra “totalitarismo” que Martin Amis usa convém aqui plenamente. Porque o conceito de “totalitarismo”, um conceito razoavelmente equívoco, como o são todos os conceitos de teoria política, implica não apenas, como, por exemplo, o de despotismo, um poder autoritário que suprime as opiniões políticas divergentes, mas a intromissão na vida concreta de cada um na sua esfera íntima. Em última análise, a indistinção da esfera pública e da esfera privada. Não se trata apenas de calar as opiniões divergentes (embora isso, é claro, também aconteça), mas sobretudo de afirmar a necessidade de, no nosso próprio coração, pensarmos como o Estado quer. E se isso é feito em nome da nossa própria liberdade, que maravilha que é.

A concepção da plasticidade humana ganha assim uma nova forma inteiramente distinta daquela que gozava em Pico della Mirandola. A natureza humana é plástica por um decreto do Estado, que só encontra felicidade em, em nome da nossa própria libertação, estender o seu poder sobre os mais íntimos detalhes da vida individual. Na prática, isso traz o benefício suplementar de calar as questões políticas verdadeiramente substantivas. Dantes, chamava-se a isso alienação. O totalitarismo, versão democrática, não quer outra coisa. O tédio vem também daí: já sabemos como vai ser.
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Nasci a 18 de Maio de 1960. Licenciei-me em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e doutorei-me, também em Filosofia, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Sou professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador no Instituto de Filosofia da mesma Universidade. 
Fonte:  http://observador.pt/opiniao/totalitarismo/ 21/09/2017
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Nanotecnologia “para uma sociedade mais segura”

O chão e o tecto são perfurados para facilitar a circulação do ar
Células solares para o revestimento de edifícios sustentáveis e bio-sensores que monitorizam a presença de toxinas na água são desenvolvidos no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga. São dispositivos medidos ao milímetro, feitos numa sala limpa de ambiente espacial

De regresso à sala de aspecto ficcional, com um permanente ruído de fundo a lembrar o que se ouve na cabina de um avião em pleno voo. Investigadores e funcionários de manutenção cruzam-se no corredor principal de acesso, com o tecto e o chão perfurados para facilitar a circulação do ar, de fato branco vestido e máscara na cara. Não é fácil identificarem-se, mas cumprimentam-se sempre em inglês — a língua oficial de trabalho do INL. Pedro Salomé, doutorado em Física Aplicada pela Universidade de Aveiro, chega a entrar e a sair da sala limpa “umas 30 vezes por dia”. Descrever os equipamentos, alguns do tamanho de automóveis e até de autocarros, a quem de laboratórios com tecnologia de ponta pouco ou nada sabe — a não ser o que os filmes sobre catástrofes químicas vão revelando — é um desafio para os cientistas. As analogias tornam-se indispensáveis.

Só mais uma, para terminar a visita guiada à sala permanentemente a 20.3 graus celsius, na passagem pela área cinzenta, mais técnica: “Se estivéssemos num teatro, esta seria a parte por detrás do palco.” Aqui, as regras de higiene são um pouco menos apertadas, culpa dos equipamentos de dimensão considerável e ruído mais elevado. Uma das aplicações destas máquinas é o desenvolvimento de sensores de campo magnético. “Quando bate, o coração cria um pequeno campo magnético”, explica. “Novos sensores estão a tentar fazer uma monitorização contínua desse campo magnético” — e sem ser necessário “perfurar ou fazer uma micro-cirurgia de instalação do próprio sensor”, algo que pode ser útil, por exemplo, em unidades médicas de queimados. “No protótipo criado, temos uma cama onde o dispositivo é instalado e onde a pessoa se deita, de peito para baixo, para que o dispositivo faça a medição.” Tudo numa escala inferior a um milímetro quadrado. 
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Fonte:  https://www.publico.pt/2017/09/21/ciencia/noticia/nanotecnologia-para-uma-sociedade-mais-segura-1786077