terça-feira, 21 de novembro de 2017

Os riscos de 2018

Delfim Netto*

Congresso Nacional
Se continuarmos a namorar a utopia “populista”, estaremos nos preparando para mais uma década perdida 
 
Desde a sua origem, o estudo da economia teve por objeto tentar entender como funciona o mundo e encontrar meios para torná-lo mais eficiente na satisfação das necessidades materiais da sociedade. Trata-se de encontrar uma organização econômica, porosamente ligada a toda atividade social, que satisfaça pelo menos duas condições: 1. Permita ampla liberdade individual. 2. Proporcione crescente igualdade de oportunidade sem restrição de qualquer natureza (local do nascimento, étnica, religiosa etc.).

A produção “eficiente” de bens e serviços por um grupo de empreendedores é um problema técnico, mas a alocação do produzido entre os fatores que a geraram – trabalhador + empreendedor que detém o capital – é um problema largamente decidido por quem tem o poder político. A produção “eficiente” e a sua distribuição “sentida” como relativamente “justa” são ingredientes fundamentais inseparáveis na construção da sociedade civilizada.

É o direito de propriedade sustentado pelo Estado, que garante a coordenação entre os bens e serviços desejados pela sociedade (a demanda) e o que uma parte dela, os capitalistas-empreendedores, que vão atender (a oferta) seguindo os sinais estabelecidos pelos preços nos mercados, uma instituição espontânea nascida das relações sociais. Eles foram sendo sofisticados pelo próprio conhecimento de como funciona a economia em resposta aos estímulos que recebem seus agentes.

A efetividade do processo depende do poder de um Estado forte constitucionalmente contido, capaz de regular o funcionamento dos “mercados”, particularmente o financeiro. Esse é um ponto muito importante para entender as visões ideológicas que dividem a sociedade. Desde o início do século XIX, os fatos exigiram uma organização dos trabalhadores através de sindicatos, de partidos políticos e do sufrágio universal (o eleitor é qualquer cidadão, não apenas os que detêm renda ou patrimônio).
Para quê? Para estabelecer a “paridade” de poder entre o “trabalho” e o “capital” numa dimensão que transcende os “mercados”. Nestes, o “capitalista” tem tantos votos quanto o capital que acumu­lou. Na urna – no sufrágio universal, parte essencial do regime democrático –, todos têm apenas um voto, o que entrega o poder político à maioria dos que não empreendem e não possuem capital.

Por que, então, a “maioria” não destruiu o poder do capitalista-empreendedor? Porque nas sociedades mais bem-sucedidas no caminho civilizatório constatou-se, empiricamente, que a despeito das diferenças desagradáveis construídas pelo “capitalismo” (um aumento da desigualdade), ele pode ser utilizado num jogo que beneficia os dois lados (um “ganha-ganha”), capaz de encontrar para a maioria uma distribuição aceitável do produzido e deixar nas mãos do empreendedor-capitalista os recursos para gerar o crescimento econômico, a condição necessária, ainda que não suficiente, para a construção da sociedade civilizada. Até agora, não se encontrou melhor alternativa.

A confirmação desse fato são as experiências malsucedidas que chegaram ao poder para produzir liberdade, igualdade e eficiência e terminaram no mais absoluto autoritarismo na tentativa de construir o “homem novo”. Os fracassos verificaram-se desde as pequenas experiências do socialismo “utópico” que povoaram o século XIX, até a que nasceu em 1917 sob o entusiasmo da intelectualidade mundial e terminou tragicamente, depois de ter “educado” vários milhões de “homens renitentes”...

Isso é uma lição para o Brasil, um país que empobreceu nos últimos 30 anos com relação à economia mundial e ainda mais com relação aos outros emergentes, mas não é um fracasso. Já viveu todas as experiências políticas: foi colônia, império, ditadura, e agora somos uma democracia, um Estado de direitos sem adjetivos.

Hoje sabemos que, com todos os seus problemas, o sistema democrático é o único que permite a correção de rumos pela substituição pacífica do poder incumbente através de eleição livre em tempo certo. Pois bem, se não levarmos a sério a eleição de 2018 e continuarmos a namorar a utopia “populista”, estaremos nos preparando para mais uma década perdida...
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 * Formado pela USP, é professor de Economia, foi ministro e deputado federal.
Fonte:  https://www.cartacapital.com.br/revista/978/os-riscos-de-2018 21/11/2017
 Foto: Leonardo Sá/Agência Senado
 

Erling Kagge chegou aos “três polos” a pé. Descobriu o silêncio e agora quer salvá-lo


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Erling Kagge foi o primeiro homem a atingir os "três polos" a pé. Enquanto atravessa a Antártica, sozinho, descobriu o silêncio. Passados 20 anos, decidiu tentar descrevê-lo com palavras.
Erling Kagge tinha 27 anos quando decidiu aventurar-se no Ártico, “um oceano rodeado por continentes”. Partiu da ilha Ellesmere, no Canadá, a 8 de março de 1990 e, durante cerca de um mês, caminhou em direção ao Polo Norte sem qualquer apoio. Atingiu o ponto mais a norte do planeta a 4 maio de 1990, tornando-se — juntamente com Børge Ousland, que o acompanhou durante todo o percurso — no primeiro homem a chegar ao polo sem ajuda.

Quando chegaram ao polo, Kagge e Ousland estavam esfomeados. Durante os 58 dias que durou a viagem, caminharam diariamente 17 horas seguidas, com temperaturas de -58ºC. Às vezes a fome e o frio eram tantos que nem conseguiam dormir. Como que adivinhando, um avião norte-americano que estava de passagem decidiu atirar-lhes uma caixa com comida. Kagge estava prestes a dar uma dentada no arenque fumado quando Ousland sugeriu que não deviam começar logo a comer e que, primeiro, deviam fazer uma pausa e contar até dez. Era uma “demonstração coletiva de contenção”, para se lembrarem de que “a satisfação também tem a ver com sacrifício”. “Ficar esse tempo à espera pareceu estranho”, escreveu muitos anos depois Erling Kagge. “Mas nunca senti tanta plenitude como naquele momento de silêncio.”

Aqueles compassos de espera foram o primeiro contacto de Kagge com o silêncio. Mas, só mais tarde, é que descobriu realmente o seu significado. Em 1992, decidiu aventurar-se mais a sul e percorrer os trilhos gelados da Antártida, novamente sem qualquer apoio. Pé ante pé, caminhou ao longo de 1.310 quilómetros até que, no início de 1993, chegou ao seu destino — o Polo Sul. Ao contrário do que tinha feito em 1990, Erling Kagge caminhou sozinho. A experiência mudou-o profundamente.

Durante 50 dias, Erling Kagge caminhou sozinho pela Antártica até chegar ao Pólo Sul. Tinha 29 anos (© Kjell Ove Storvik)

Antes de iniciar a caminhada, Kagge fez questão de tirar as pilhas do rádio que a companhia proprietária do avião que o deslocou até ao sul do mundo o obrigou a levar. O objetivo inicial era — como lembrou em conversa com o Observador, durante a sua recente passagem por Lisboa — chegar ao Polo Sul sem qualquer ajuda (e sem qualquer conversa). Mas, a meio do longo caminho, alguma mudou. “À medida que o tempo foi passando e comecei a entrar no ritmo, tornou-se mais uma expedição ao interior de mim próprio do que ao Polo Sul”, contou. Atingir a meta — sobreviver — continuava a ser “o mais importante”, mas o objetivo transformou-se noutro. “Comecei a apreciar o silêncio, a ver a importância do silêncio de uma forma mais ampla.”

Isso não foi possível no Ártico porque esteve sempre rodeado de ruído — o ruído do gelo que se move com a força do vento e das correntes, das “enormes massas” que “ribombam enquanto lutam com os elementos da natureza”, do gelo fino que “balança e estala quando caminhamos sobre ele”. Na Antártida era tudo mais silencioso. “Tudo parecia completamente liso e branco, quilómetro após quilómetro, durante todo o caminho em direção ao horizonte, à medida que me dirigia para o sul através do continente mais frio do planeta. Debaixo do gelo, fazendo pressão sobre a superfície da terra”, referiu em Silêncio na Era do Ruído, o livro que não poderia existir sem aqueles 50 dias na Antártida. Sem isso e sem “a experiência de ter de cuidar de três filhas adolescentes”. Há coisas que nos mudam.

“À medida que o tempo foi passando e comecei a entrar no ritmo, tornou-se mais uma expedição ao interior de mim 
próprio do que ao Pólo Sul.”
Erling Kagge

“Silêncio” não é o antónimo de “ruído”. É outra coisa

Apenas um ano depois de ter chegado ao Polo Sul, Erling Kagge decidiu aventurar-se nos Himalaias. Depois de subir ao cimo do Monte Evareste, no Nepal, tornou-se na primeira pessoa a atingir “os três polos” a pé, um feito que só foi ultrapassado em 1997, pelo francês Antoine de Choudens, que subiu à montanha mais alta do mundo sem usar oxigénio artificial. A aventura seguinte foi menos perigosa: apesar de na altura trabalhar como advogado na empresa de energia renovável norueguesa Norsk Hydro, Kagge decidiu ir para Cambridge estudar Filosofia. Não muito tempo depois disso, em 1996, decidiu abrir uma editora só sua e pendurar as botas. A epifania ocorreu-lhe enquanto lavava a loiça “na maior das calmas”. A mulher estava grávida da sua segunda filha e o aventureiro norueguês decidiu que estava na altura de prestar mais atenção à família, arranjar um emprego e regressar à Noruega. Com alguma sorte até talvez conseguisse comprar uma casa.

Em 1996, quando abriu a Kagge Forlag, em Oslo, Kagge já tinha quatro livros editados sobre as suas aventuras. Depois disso, ainda lançou outros dois: A Poor Collectiors Guide to Buying Great Art (além de explorador e editor, o norueguês é um famoso colecionador de arte contemporânea) e Manhattan Underground, sobre a sua aventura de cinco dias nos esgotos e túneis subterrâneos de Nova Iorque com o explorador urbano e fotógrafo Steve Duncan, em 2010. Não falou sobre o silêncio em nenhum deles. Ou, pelo menos, no silêncio que descobriu durante a caminhada até ao Polo Sul. Só o fez muito tempo depois, em Silêncio na Era do Ruído, publicado em recentemente em Portugal.

A edição portuguesa de Silêncio na Era do Ruído, da Quetzal, foi publicada no final de outubro.

Quando lhe perguntámos porquê, sentados na mezzanine do Altis Grand Hotel, Erling Kagge estava de t-shirt. Estava um frio de rachar na rua, mas o norueguês de 54 anos não parecia estranhar a temperatura. Quando acordou, bem cedo naquela manhã, a primeira coisa que fez foi abrir a janela e sentir o sol quente de Lisboa a bater-lhe na cara. E também aí encontrou o silêncio. “O livro é uma combinação da vida antes e depois da expedição. E não só dessa expedição, mas de muitas outras”, explicou. Depois de percorrer os túneis subterrâneos de Nova Iorque, em 2015, Kagge fez uma caminhada de três dias ao longo da Sunset Boulevard, em Los Angeles, com o guionista Petter Skavlan e o galerista Peder Lund. Tal como tinha prometido quando abandonou Cambridge, as suas aventuras abrandaram. “Todas estas experiências enriqueceram o livro”, acrescentou. “Não o teria escrito há dez anos, nem acho que fosse necessário nessa altura.” Hoje a situação é “mais extrema” — o ruído está por todo o lado e não há como fugir dele. E o silêncio está em vias de extinção.

Para entender Silêncio na Era do Ruído é preciso entender de que silêncio Erling Kagge fala. Porque, para o norueguês, o silêncio não é apenas a ausência de ruído, é algo mais profundo. “Quando comecei a escrever o livro, estava a pensar no silêncio dos lugares sossegados, em fugir do ruído. No ruído enquanto barulho, stress, etc. Mas depois fiquei mais interessado no silêncio interior, em nos conhecermos a nós próprios, em nos explorarmos a nós próprios. Esse silêncio é diferente”, afirmou. “O silêncio que experienciei hoje quando estava a olhar para Lisboa da janela do meu quarto é diferente do silêncio que experienciei ontem no aeroporto. Isso acontece porque nunca estamos no mesmo lugar, mas também porque conseguimos olhar para nós próprios quando estamos em silêncio. Isso pode ser confortável, mas às vezes pode ser duro.”

“Quando comecei a escrever o livro, estava a pensar no silêncio dos lugares sossegados. Mas depois fiquei mais interessado no silêncio interior, em nos conhecermos a nós próprios, em nos explorarmos a nós próprios. Esse silêncio é diferente.”
Erling Kagge


O silêncio é “amar ainda mais aquilo que nos rodeia”

A definição que Erling Kagge tem de “silêncio” não é nada simplista. Para ele, não se trata apenas do antónimo de “ruído”, porque “o ruído pode ser um conjunto de sons ou distrações” físicas — como o telemóvel que toca porque acabámos de receber uma mensagem — mas também psicológicas — como quando estamos a pensar na resposta que vamos dar à mensagem que acabámos de recebemos. “Neste sentido, o silêncio é muito diferente do ruído, mas não é o oposto.” Essa foi uma das razões pelas quais demorou mais de um ano a escrever Silêncio na Era do Ruído, um livro com apenas 156 páginas — fotografias e agradecimentos incluídos. Ao Observador, o norueguês explicou que queria escrever um livro completamente original, diferente de todos os outros. Além disso, também achou que era “muito complicado agarrar o silêncio”. “É fácil falar de pouco ruído ou da inexistência de ruído, mas ir mais longe é complicado. É difícil. E também é uma coisa que é preciso compreender”, afirmou. “Provavelmente pensam que, como tive todas estas experiências, compreendo o que é o silêncio mas, quando me sentei e tentei escrever sobre ele, nem sempre fazia sentido. Tive de pensar mesmo a fundo, falar com pessoas, ler livros sobre o silêncio, fazer longos passeios e tentar agarrá-lo. Queria escrever um ensaio filosófico e muito pessoal sobre um tema muito importante.”

As três filhas — Nor, Ingrid e Solveig — desempenharam um importante papel no processo. Kagge admite mesmo que sem elas nunca teria conseguido. Todas leram o produto final, mas apenas duas — as mais velhas — gostaram. “A minha filha de 15 anos começou a ler o livro e achou que era um desperdício de tempo”, contou. “Para ela, o silêncio é o mesmo que estar aborrecida, não ter com quem brincar, que solidão ou que tristeza. Ela não se sente enriquecida ou inspirada pelo silêncio.” Nas primeiras páginas do livro, Erling Kagge começa por contar que, certa vez, ao jantar, tentou convencer Nor, Ingrid e Solveig de que os segredos do mundo se escondem dentro do silêncio. Já passaram alguns anos. Será que entretanto conseguiu? “Está a acontecer aos poucos. Elas ainda estão muito conectadas, é normal, mas começam a aperceber-se que a vida é muito mais do que isso.”

Børge Ousland acompanhou Erling Kagge durante a expedição ao Polo Norte, em 1990 (© Kjell Ove Storvik)

Apesar de as distrações terem aumentado com o desenvolvimento de novas tecnologias que permitem que estejamos sempre conectados, Kagge acredita que o ruído não é coisa de agora. “Desde a Revolução Industrial que o mundo se tornou mais ruidoso”, explicou. “As pessoas começaram a mudar-se para as grandes cidades, a vida mudou. Mas, nos últimos cinco anos, tem havido uma mudança inacreditável. Nasci em 1963 e, há 40 anos, as pessoas não tinham qualquer relação com a Internet. Hoje em dia, os telemóveis tornaram-se numa extensão dos nossos corpos e, nos últimos três anos, houve uma mudança dramática.” E será que as pessoas têm consciência disso? “No dia-a-dia, é mais importante comer, dormir, beber, tomar conta da família. Há coisas que são mais importantes. Se estivermos no Sudão, obviamente que temos coisas mais importantes e mais sérias com que nos preocupar. Mas, se vivermos confortavelmente em Portugal ou na Noruega, as pessoas precisam de silêncio a um nível mais profundo porque o silêncio implica fazer pausas, apreciar essas pausas e sentirmo-nos mais enriquecidos, conhecermo-nos melhor.”

Para o explorador, apreciar um momento de silêncio não é o mesmo que virar as costas ao mundo — “é sobre abrimos-nos para o mundo, é sobre amar ainda mais aquilo que nos rodeia”. E isso pode ser importante para encontrar a felicidade. Claro que a felicidade é algo “difícil de agarrar” e até de definir mas, “ao vivermos através das pessoas, através de aparelhos, estamos a fugir de nós próprios”. “Eventualmente começamos a sentir que a vida passa muito depressa, que não acontece nada.” É por isso que é importante “parar por um momento e olhar à nossa volta”. Se o fizermos, “começamos a “encarar-nos a nós próprios e a vida torna-se mais rica, com mais significado”. “Para mim, tem sido importante procurar o silêncio”, admitiu Kagge. “Mas também aceitar que a solução mais fácil é sempre aceitar o ruído.” É mais “tentador” e mais fácil a curto prazo. Apesar de “toda a gente saber que é um desperdício de tempo, toda a gente o faz”. “A vida pode ser brutal, não é suposto estarmos sempre a divertirmo-nos. É difícil ser humano. É por isso que, às vezes, temos de escolher a opção mais difícil, e a opção mais difícil é o silêncio.”

"A vida pode ser brutal, não é suposto estarmos sempre a divertirmo-nos. É difícil ser humano. É por isso que, às vezes, temos de escolher a opção mais difícil, e a opção 
mais difícil é o silêncio."
Erling Kagge

Ir viver para um mosteiro está fora de questão

Quando regressou do Polo Sul, Erling Kagge era um homem mudado: “A certa altura, nesse isolamento total, comecei a dar-me conta de que afinal nada era completamente liso. O gele e a neve dispunham-se formando pequenas e grandes figuras abstratas. A brancura uniforme transformava-se em inúmeras matizes de branco. Uma tonalidade azul emergia da neve, em tudo-nada avermelhada, esverdeada e vagamente rosada. A paisagem parecia mudar à medida que eu avançava, mas eu estava enganado. O que me rodeava mantinha-se constante; quem mudava era eu”, escreveu em Silêncio na Era do Ruído. “O silêncio acabou por colar-se a mim.” De tal forma que, quando tentou falar com alguém ao fim de 50 dias, as palavras custaram-lhe a sair. Ficaram coladas ao céu-da-boca.

Não foi fácil regressar à civilização. Nos primeiros tempos, teve de fazer um esforço para se reajustar a um mundo ao qual parecia já não pertencer. Teve de aprender a lidar novamente com pessoas, com o trânsito, com o telefone que não parava de tocar. Todas as rotinas do dia-a-dia. “Isso muda-nos completamente, mas depois voltamos para casa e temos de pagar as contas, tirar a loiça da máquina”, admitiu. “A vida volta ao normal muito depressa.” E isso não é necessariamente mau — pode não parecer, mas Kagge não acredita que seja possível viver isolado numa caverna, em silêncio absoluto. Para o norueguês, isso não passa de uma ideia romantizada e utópica.

“Não há nada de errado com este ideal romântico de viver sem pessoas, sozinho num mosteiro ou no meio da floresta, mas acho que nascemos para nos conectarmos com outras pessoas. Nascemos para ser animais sociais”, afirmou. “Nesse sentido, não há nada de errado com a tecnologia em si, o problema está na forma como nos relacionamos com ela e nos deixamos ser manipulados.” Kagge acredita que existe um problema de adição que, a determinada altura, se tornará normal. “Se visse isto a acontecer há 20 anos, se visse um homem adulto a caminhar na rua todo encolhido, agarrado a um telemóvel como se fosse um urso de peluche, achava que o mundo inteiro tinha enlouquecido. Mas isto agora é normal.”

Erling Kagge chegou ao Polo Sul no início de 1993. No ano seguinte, aventurou-se nos Himalaias 
(© Kjell Ove Storvik)

Além do mais, encontrar o silêncio absoluto pode ser uma tarefa difícil — ou mesmo impossível. Em Silêncio na Era do Ruído, Erling conta a história de um amigo que tentou fazer uma experiência para provar que este tipo de silêncio não existe, construindo um quarto à prova de som e metendo-se lá dentro. A verdade é que, passado pouco tempo, apercebeu-se que, até dentro de quatro paredes isoladas, continuava a ouvir barulhos. “A respiração, o sangue que circula… Existem todos estes sons”, concluiu o norueguês. “E mesmo que não existam, começamos a imagina-los.” Isso não significa que o ser humano precisa de ruído? “Sim, sem dúvida”, garantiu Kagge. “E acho que isso também é importante. Não há mal nenhum em nos mudarmos para um mosteiro e passarmos lá o resto da vida, mas a maioria das pessoas precisa de estar conectada. Precisa de estar perto dos colegas, da família, dos amigos. Isso é uma das coisas que dá sentido à vida.”

Mas isso não significa que o barulho em excesso não seja um problema. Quando se sente assoberbado pelo dia-a-dia — pelo ruído —, Erling Kagge refugia-se nas montanhas, no meio da natureza. Acredita que essa é a melhor maneira de “escutar o silêncio”. Marina Abramovic — que Kagge conheceu e que cita no livro — para de pensar porque, para ela, o contrário do silêncio é o cérebro a trabalhar. Mas há outras formas de abrandar: “No meio dia-a-dia, encontro o silêncio quando acordo de manhã, às vezes quando tomo o pequeno-almoço, quando caminho para a estação de metro ou para o trabalho. Quando fico farto de estar no escritório, dou um pequeno passeio pelo bairro e depois volto. Encontro o silêncio enquanto ando, enquanto lavo a loiça. Quando fazemos sexo, também nos fechamos para o mundo, claro”. Tricotar — a moda mais recente na Noruega — ou tocar um instrumento também podem ser uma forma de encontrar o silêncio, por mais contraditório que possa parecer. Porque “o silêncio tem a ver com afastarmo-nos do mundo” — e não virar as costas — “e criar uma ligação com nós próprios”.

"Não há mal nenhum em nos mudarmos para um mosteiro e passarmos lá o resto da vida, mas a maioria das pessoas precisa de estar conectada. Precisa de estar perto dos colegas, da família, dos amigos. Isso é uma das coisas que dá sentido à vida.”
Erling Kagge 
 
Aos 54 anos, Erling Kagge passa a maioria do tempo no interior do seu escritório, em Oslo, de onde gere a editora Kagge Forland (que editou, entre muitos outros êxitos, o bestseller sobre cortar madeira Norwegian Wood), que se tornou numa das maiores na Noruega. Os tempos das aventuras nos polos já lá vão, mas isso não quer dizer que não gostasse de lá voltar. “Um dia vou voltar à Antártida, mas não tenho pressa”, admitiu. “Há tantos outros sítios para explorar” e a viagem é “longa e cara”. Além disso, Kagge acredita que os maiores mistérios estão “no nosso quintal, em casa”. E o maior de todos “está aqui”, disse, apontado para o coração. Dentro de nós.
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Reportagem por Rita Cipriano
Fotografia de Erling Kagge de © Simon Skreddernes
Fonte:  http://observador.pt/especiais/erling-kagge-chegou-aos-tres-polos-a-pe-descobriu-o-silencio-e-agora-quer-salva-lo/ 19/11/2-17

sábado, 18 de novembro de 2017

Os frutos do ensino à distância

Educação

Rinaldo Cuco,60 anos faz Licenciatura em Geografia (Foto: Anna carolina Negri/ÉPOCA)

Como as matrículas nos cursos com horários flexíveis estão dando aos brasileiros mais oportunidades de transformação em suas carreiras e até na vida pessoal

MARTA AVANCINI
14/11/2017 - 

Todos os dias, o paulistano Rinaldo Luiz Cuco levanta-se antes de o sol nascer e passa de três a quatro horas em frente ao computador estudando: assiste a videoaulas, atualiza a leitura e participa de chats e fóruns on-line. Por volta de 8 horas, sai de casa para trabalhar e às 12 horas retorna para o almoço. Após a refeição, sai para a segunda jornada de trabalho numa escola estadual de São Paulo, onde leciona história e geografia aos alunos do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio. “O tempo é escasso e a rotina cansativa, mas vale a pena”, conta o professor, que no primeiro semestre de 2018 concluirá a licenciatura em geografia num curso à distância. Cuco formou-se em estudos sociais em 1981 e, perto dos 60 anos, numa fase da vida em que as obrigações familiares aliviaram, decidiu retomar os estudos a fim de se aperfeiçoar no ofício que considera sua verdadeira vocação: ser professor. “O tempo passa, e a gente acaba ficando para trás. Voltei a estudar para atualizar o conteúdo de geografia.”

"A rotina do curso intensifica o envolvimento mesmo que as pessoas não convivam no dia a dia"
Ivete Palange, conselheira da Abed
Cuco faz parte de um grupo que não para de crescer no Brasil: os estudantes que optam por fazer cursos à distância, seja em nível de graduação ou de pós-graduação, seja em cursos livres. Segundo o Censo da Educação Superior de 2016 do Ministério da Educação (MEC), o número de matrículas em cursos de graduação à distância aproxima-se de 1,5 milhão, o que corresponde a 18,6% dos 8,04 milhões de universitários no país. Somam-se a esse contingente cerca de 2,9 milhões de alunos dos cursos livres corporativos e não corporativos, conforme contabilizou o censo da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed). Uma década atrás, a educação à distância (EAD) respondia por 4,2% dos graduandos brasileiros e os cursos presenciais concentravam 95,8% das matrículas. Apenas em um ano, de 2015 para 2016, a educação à distância assistiu ao aumento de 7,2% das matrículas, ao passo que a educação presencial teve queda de 1,2%. O MEC projeta que em cinco anos a educação à distância deverá responder por metade das matrículas na educação superior brasileira.

"Os cursos atendem quem quer um diploma, quem quer se aperfeiçoar ou tem motivações pessoais para estudar"
Betina von Staa, coordenadora técnica do censo da Abed
O avanço do ensino à distância começou para atender as salas de aula do ensino básico. “No Brasil, houve fomento à educação à distância a partir de 2004 porque havia a necessidade de qualificar os professores. Muitos não tinham a formação de nível superior exigida pela lei e era preciso aumentar a quantidade de docentes com licenciatura”, diz William Klein, CEO da Hoper Educacional. Passada pouco mais de uma década, as pessoas começaram, de um lado, a enxergar a educação à distância como uma alternativa para se formar, se especializar ou mesmo satisfazer uma necessidade de aprender algo importante para a vida. “A educação à distância está atendendo pessoas que buscam todo tipo de objetivo: quem quer um diploma, quem quer se aperfeiçoar profissionalmente e quem tem motivações pessoais para estudar”, analisa Betina von Staa, consultora em inovação educacional e coordenadora técnica do censo da Abed.

Junto com a demanda, a oferta cresce. Segundo o censo da Abed, o número de novas instituições que oferecem EAD aumentou em 22%, ao passo que a quantidade de estabelecimentos que oferecem educação em geral aumentou 4%. O negócio está concentrado nas mãos de grandes grupos privados, com capacidade de investimento para implantar os polos e investir em tecnologia, materiais e conteúdos didáticos. O setor privado corresponde a 68% das instituições que atuam no segmento.

"Hoje, a educação à distância é natural, sobretudo
 para os mais jovens"
João Vianney, consultor da Hoper Educacional
Outros fatores ajudam a compreender a explosão da educação à distância no Brasil: da diversidade da oferta, passando pela mensalidade que “cabe no bolso”, à diminuição do preconceito quanto à qualidade dos cursos. Ao contrário do que muitos acreditam, a legislação estabelece que os diplomas de educação à distância possuem o mesmo valor dos diplomas dos cursos presenciais. Em 2007, única vez em que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) divulgou uma análise do desempenho dos dois grupos no Enade, os alunos à distância se saíram melhor em sete das 13 áreas comparadas. “Vinte anos atrás, a educação à distância era uma inovação. Hoje, a EAD é natural, sobretudo para os mais jovens”, afirma João Vianney, consultor da Abed e da Hoper Educacional. Além disso, a tecnologia permite levar a educação para quem não tem outra opção. “No interior e em regiões como a Amazônia, muitas vezes a única alternativa para quem quer estudar é o ensino à distância”, afirma Betina.
Andréa de Almeida,36 anos cursando pedagogia (Foto:  Rogério Cassimiro/ÉPOCA)

Foi a solução para Andréa Aparecida de Almeida. Ela mora em Taiaçupeba, distrito na zona rural de Mogi das Cruzes, São Paulo, e cursa o 1º semestre de pedagogia à distância na Universidade do Norte do Paraná (Unopar). Casada e mãe de dois filhos, Andréa trabalha como monitora numa reserva florestal da Suzano Papel e Celulose. Ela passa o dia percorrendo trilhas no meio da Mata Atlântica com os visitantes, ensinando os moradores da cidade a se entender com a floresta, longe do sinal do celular. “Minha rotina exige muito deslocamento. Dependendo da época do ano e da demanda de visitação, passo o dia no parque atendendo estudantes e professores”, diz. Sua formação original, mais de dez anos atrás, foi em radiologia. Mas no contato com a reserva decidiu virar educadora ambiental. “Como o curso é à distância, consigo estudar dentro de casa, nos horários possíveis”, explica. “Pensei em fazer biologia, mas escolhi pedagogia porque sentia necessidade de aprofundar o meu lado educadora”,  diz Andréa.  “Quero trabalhar com educação e com crianças de uma maneira aberta, sem os limites de uma sala de aula.”

Um curso à distância também ajudou Letícia Monte Faustino, de Campinas (no interior de São Paulo), a reposicionar sua carreira. Aos 26 anos, ela está cursando o 3º semestre de análise de sistemas à distância na Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul). O curso é sua segunda graduação. Em 2014, ela se formou em engenharia de materiais na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Mas teve dificuldade para entrar no mercado de trabalho. “O tempo foi passando e eu fiquei numa situação delicada, pois não era mais uma recém-formada nem tinha experiência profissional”, conta Letícia. Então, voltou a estudar. “Queria ingressar numa área com o mercado de trabalho mais aquecido e que tivesse a ver comigo”, aprofunda Letícia, que diz gostar de tecnologia. Ela afirma que a comodidade foi fundamental para poder estudar.  “Quando comecei o curso, ainda estava procurando emprego em engenharia, então não queria ter todo o dia tomado com aulas e estudo.” Com a guinada profissional, Letícia agora faz estágio no Instituto de Pesquisa da Samsung, em Campinas, onde trabalha com o desenvolvimento de games.

A flexibilidade da tecnologia e das metodologias dos cursos à distância não significa, necessariamente, uma rotina de estudos leve. Pelo contrário. O sucesso do aluno depende essencialmente de organização e disciplina. Por isso, a motivação interna para se aperfeiçoar é fundamental, analisa Ivete Palange, conselheira da Abed. Para evitar a falta de estímulo e a sensação de isolamento, em decorrência da ausência de contato físico com os colegas de turma, a recomendação é criar uma rotina de estudos, com dias, horários e tempo de dedicação definidos. E segui-la rigorosamente. “A rotina evita o abandono do curso”, diz.

Juan Severo,36 anos graduado em administração (Foto:  André Feltes/ÉPOCA)


O curso à distância abriu as portas para a ascensão profissional do administrador Juan Pablo Diehl Severo, de Porto Alegre. Ele começou a estudar assim em 2006, quando ingressou na graduação em administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), num projeto pioneiro da Escola de Administração da UFRGS e do Banco do Brasil voltado para funcionários, mas aberto a qualquer pessoa em busca de formação na área. Durante quatro anos, Juan Severo, funcionário do Banco do Estado do Rio Grande do Sul,  sustentou uma rotina diária de aulas e estudo, complementada por provas presenciais a cada quinzena. “Foi uma experiência importante e diferente. Apesar da flexibilidade, o curso era muito estruturado, com tutores e professores bem preparados”, lembra. Pouco depois de se graduar, em 2010, Severo participou de um processo seletivo do banco e foi transferido do atendimento em agência para a área administrativa, conforme almejava. Depois da graduação, ele iniciou uma especialização em marketing, que abandonou, porque avaliou que o material didático era de má qualidade. “Todo o conteúdo era oferecido em CDs e o suporte ao aluno era precário”, lembra. Em 2015, iniciou e concluiu uma especialização em gestão de pessoas. Atualmente, faz dois cursos de francês on-line, pois planeja viajar para a França com a esposa em 2019.
Daniela Stump,34 anos estudando a ciência da felicidade (Foto:  Lufe Gomes/ÉPOCA)



Essa flexibilidade do curso à distância também pode ser útil para o desenvolvimento pessoal, independentemente de alguma aplicação imediata na carreira. Foi o que descobriu a advogada Daniela Stump. Mestre em Direito Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP) e sócia da Machado Meyer Advogados em São Paulo, Daniela está fazendo um curso livre de oito semanas ofertado pela Universidade Berkeley, nos Estados Unidos, chamado “A ciência da felicidade” na plataforma edX, que reúne algumas das mais renomadas instituições americanas. “Troquei o Netflix pela edX”, brinca Daniela, entusiasmada com o curso. “Sempre fiz cursos presenciais, não tinha ideia de como é estudar à distância. É muito estimulante! Dá vontade de sentar-se ao computador para assistir a videoaulas e participar dos chats, mesmo que seja entre as 22 horas e a meia-noite, quando os filhos estão na cama e depois de um dia de trabalho”, conta, ao descrever sua rotina. “Estou aprendendo muito sobre mim mesma e sobre as pessoas de maneira geral.” Daniela diz que graças ao curso está compreendendo a origem de seu interesse por temas como diversidade e inclusão. Hoje ela atua num projeto voltado para ampliar a participação de minorias no escritório. “Já existem estudos de neurociência e psicologia que mostram que a felicidade está ligada a quanto nos dedicamos aos outros. Isso me fez entender por que gosto tanto do projeto.”

Mudanças recentes na legislação sobre educação à distância prometem romper as fronteiras que ainda restam. O novo marco legal acaba com exigências do MEC para o credenciamento de instituições e abertura de cursos. Isso favorece a entrada de instituições de pequeno e médio porte num mercado hoje dominado por grandes grupos educacionais. Até então, era preciso esperar até dois ou três anos para ter um pedido limitado de abertura de polos com a tramitação concluída pelo MEC. Agora, a instituição pode abrir certo número de polos todo ano. A diversidade de opções deve se multiplicar. Voltar a estudar ficará cada vez mais irresistível.
CADA VEZ  MAIS PRÓXIMOS Os cursos à distância atendem uma parcela cada vez maior do ensino superior (Foto: Fonte: Inep/MEC)
Fonte:  http://epoca.globo.com/educacao/noticia/2017/11/os-frutos-do-ensino-distancia.html

A pílula inteligente

Aval para o primeiro remédio com sensor que rastreia informações dentro do paciente representa um grande avanço na medicina, mas levanta questões éticas



A era da pílula digital começou. Na segunda-feira 13, a agência reguladora de remédios dos Estados Unidos, a FDA, aprovou o uso de um comprimido que leva embutido um sensor capaz de informar aos médicos se e quando o paciente tomou o medicamento. O chip tem o tamanho de um grão de areia. É feito de magnésio, cobre e silício, minerais comumente encontrados nos alimentos. Ele começa a funcionar entre trinta minutos e duas horas após a ingestão e, depois disso, é naturalmente absorvido pelo organismo, sem provocar efeito tóxico algum.

Desenvolvida pela Proteus Digital Health, empresa americana especializada em produtos tecnológicos para a área de saúde, em parceria com o laboratório japonês Otsuka, a novidade com ares de ficção científica é a versão moderna de um dos antipsicóticos mais consumidos do mundo, o aripiprazol (cujo nome comercial é Abilify), indicado para esquizofrenia, mas também usado nos casos de depressão severa e transtorno bipolar.

O mecanismo do Abilify MyCite, eis o nome do “robozinho”, é ao mesmo tempo extraordinariamente simples e espetacularmente engenhoso (veja a ilustração na pág. ao lado). Sua grande vantagem é permitir ao médico controlar os horários exatos em que o remédio foi tomado e a dose administrada. Na medicina, e em especial na psiquiatria, o controle rigoroso da ingestão dos medicamentos é fundamental, sobretudo no caso de pacientes muitas vezes arredios. O portador de esquizofrenia é refratário a tratamentos e tem dificuldade extrema para manter a terapia durante longo tempo. Dos 21 milhões de portadores da doença no mundo (no Brasil são 2 milhões), apenas três em cada dez aderem aos tratamentos. Isso ocorre pelo conjunto de sintomas característicos da condição — alucinações, surtos de desconfiança ou ideia fixa de não apresentar a patologia. O paciente pode, portanto, estar certo de ter tomado a medicação, sem tê-lo feito. Ou, então, achar que não precisa dela. A postura já seria danosa em qualquer tipo de afecção. Mas, no caso de doenças psiquiátricas como a esquizofrenia, o risco da não adesão tende a ampliar o descontrole dos sintomas. O Abilify convencional foi um dos primeiros antipsicóticos de uso contínuo e com reduzidos efeitos colaterais. Ele age na dopamina, um neurotransmissor que tem ação desregulada no portador de doenças psiquiátricas. Sua principal ação é melhorar os sintomas maníaco-depressivos.

Afinal, até onde vai o direito de alguém, mesmo um médico ou um familiar, de ter acesso a informações tão íntimas 
de modo tão invasivo?

A pílula digital é um extraordinário passo de um movimento que, nos últimos anos, pôs a medicina em outro patamar, na antessala de um novíssimo capítulo. Vive-se no mundo do big data, termo que designa a capacidade tecnológica de capturar, organizar e interpretar automaticamente uma enormidade de dados, num dos mais interessantes saltos permitidos pela internet. Ganham-se tempo e dinheiro com a vastidão de informações coletadas em bancos de dados de hospitais e centros de pesquisa a partir das condições de saúde de milhões de pessoas. Estima-se que, se os médicos tivessem acesso às informações de todos os doentes do planeta, seria possível reduzir em 20% a mortalidade mundial. Uma das mais recentes e impactantes conquistas ocorreu com o programa Watson Health, lançado em 2015 pela IBM. O sistema de inteligência artificial, alimentado pelos servidores da empresa americana, já agrupa grande parte dos dados medicinais do planeta para facilitar o trabalho dos profissionais e acelerar as pesquisas (leia mais). Não há risco de fake news, como acontece em outros setores da informação compartilhada. Em Genebra, há outro polo espetacular, o centro de pesquisa Campus Biotech, referência em biotecnologia, que usa o big data para levantamentos na área de epidemiologia e saúde.

Researchers in a laboratory are seen during a press visit at Campus Biotech on November 4, 2014 in Geneva. A few meters from the international institutions in Geneva, a new research center called Campus Biotech is currently drawing the contours of tomorrow's medicine, research-based and "big data". Based in a huge complex of metal and glass, which housed two years ago the now closed Swiss pharma group headquarters Merck-Serono, the campus has more than 230 researchers currently and is expected to accommodate 600 soon. Credito: FABRICE COFFRINI/AFP PHOTO
Avanço - O centro de pesquisa suíço Campus Biotech é referência no big data (Fabrice Coffrini/AFP)

Remédios como a pílula inteligente podem servir de ferramenta de controle para evitar um dos maiores nós da medicina atual: o desperdício de medicamentos. A cada ano, no sistema de saúde dos Estados Unidos, jogam-se fora cerca de 750 bilhões de dólares (o equivalente a 2,4 trilhões de reais) com receitas que não são seguidas fielmente, fraudes, serviços desnecessários, entre outros. No Brasil, esse dado nunca foi levantado. O Abilify MyCite surge, portanto, também como atalho econômico. Ele foi o primeiro de sua família a ter o aval da FDA, mas existem outros na fila. Atualmente, há uma dezena de sensores semelhantes acoplados a dispositivos sendo desenvolvidos nos Estados Unidos e na Europa. As doenças avaliadas são dos mais variados tipos, como hepatite, problemas cardíacos, derrame e diabetes. A tecnologia da pílula inteligente poderá também ser usada no monitoramento de pacientes que abusam de remédios, como analgésicos e ansiolíticos. O campo é amplo.

E, como ocorreu, ocorre e ocorrerá com todas as revoluções tecnológicas, ao anúncio das maravilhas apresentadas, abre-se imensa discussão ética. A decisão de usar um recurso de rastreamento interno do corpo humano envolve questões morais delicadas. Evidentemente, o uso do remédio com o chip espião só acontecerá com o consentimento do paciente. Ainda assim, apesar dessa certeza, uma pergunta se impõe: até onde vai o direito de alguém, mesmo um médico ou um familiar, de ter acesso a informações tão íntimas de modo tão invasivo? Ressaltem-se, ainda, a fragilidade e a vulnerabilidade de uma pessoa doente, ansiosa por cura. São dilemas de cunho ético inescapáveis na era da internet, da informação democratizada, da facilidade de acesso a quase tudo e a quase todos.


Making CAR T cells. The name of the cell processing specialist that was working in the bio-safety cabinet is Dipti Sahoo. Photo by Sam Ogden Credito: Cortesia Dana-Farber Cancer Institute
Oncologia - O aval da FDA para o Car-T, droga individual para o câncer, foi o primeiro salto 
na farmacologia neste ano (Dana-Farber Cancer Institute//)

Instado sobre a possibilidade de o comprimido inteligente ferir as liberdades individuais, no caso de utilização indevida das informações médicas, o diretor executivo do laboratório Otsuka, Kabir Nath, vai direto ao ponto: “Acima de tudo, deve-se valorizar a relação com o médico”.

A pílula com o sensor terá venda controlada. Já se estuda a possibilidade de torná-la compulsória, em casos específicos, desde que o paciente e corpos médicos concordem — e nessas situações haveria determinação judicial. Por enquanto, será vetada para crianças e idosos, uma vez que são pacientes mais vulneráveis. Chegará às prateleiras somente em meados de 2018. Não se sabe quando será lançada no Brasil. Há uma certeza: ela representa, além do sucesso científico, uma mudança de comportamento. Um grãozinho de tecnologia afeito a transformar o modo como lidamos com a saúde. “Abre um imenso caminho para desvendarmos doenças dramáticas como a esquizofrenia”, diz Acioly Lacerda, professor do departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo e associado da Universidade de Pittsburgh, nos EUA. Afinal, o chip fornecerá, com extrema precisão, informações às quais o médico terá acesso e que poderão ajudá-lo a chegar a conclusões inovadoras.

O anúncio da FDA celebra um ano luminoso para a evolução da medicina. A pílula inteligente é o segundo grande avanço deste ano na farmacologia. Em setembro, a FDA aprovou o Car-T, uma revolução na oncologia, a primeira terapia celular totalmente individual. São tempos de mudança.

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557 pg. 68 a 70.
Fonte: http://veja.abril.com.br/revista-veja/a-pilula-inteligente/

Ginni Rometty, o passado passou, afirma CEO da IBM

Ginni Rometty, CEO da IBM (Ben Baker/Redux//)

Cientista da computação diz que empresa de tecnologia que fica atada à própria história não sobrevive e declara não gostar de ser exemplo só porque é mulher


Como CEO da IBM, a cientista da computação americana Ginni Rometty, de 60 anos, tem a árdua tarefa de fazer a tradicionalíssima empresa sobreviver ao que julga ser o maior período de renovação da marca. Funcionária da companhia há 36 anos, ela presenciou, na última década, a transformação da IBM de líder na fabricação de PCs em locomotiva do desenvolvimento de inteligência artificial (IA). Ao assumir em 2012 o cargo máximo, Ginni foi considerada pela imprensa americana a melhor esperança para garantir que a empresa dure mais um século no ramo. Agora, porém, com o faturamento da IBM em queda e seu salário aumentado para 33 milhões de dólares anuais, tem enfrentado duras críticas. Na entrevista a seguir, feita no hotel no qual se hospedou em uma rápida passagem por São Paulo, Ginni defende a ideia de que os seres humanos não devem temer as máquinas, explica os motivos de ter sido conselheira do presidente Donald Trump (e por que deixou de ser) e ainda mostra aversão a ser chamada de “feminista”.

Nos anos 80 e 90, a IBM se consagrou como uma marca presente na casa das pessoas por meio de seus computadores. Só que em 2005 a empresa vendeu sua divisão de PCs à chinesa Lenovo e, para o consumidor final, parece ter sumido. O que ocorreu? É engraçado como a forma de se lembrar da IBM depende da idade de cada um. Fomos fundados em 1911. Somos a única empresa de tecnologia a durar mais de um século no ramo. Completamos agora, em 2017, 100 anos de presença no Brasil, o primeiro país estrangeiro onde abrimos filial internacional. Hoje, somos a companhia de tecnologia com maior presença no exterior, atuante em 170 nações. Um dos segredos para perdurar é que a IBM ficou diferente a cada era. Nunca a empresa se definiu pela existência de somente um produto. Se tivesse feito isso, teria se tornado irrelevante. Sim, continuamos com as nossas duas características principais:  sermos uma empresa de inovação e aplicarmos novas tecnologias para transformar o modo como a sociedade realiza negócios. Dentro desse mote, a IBM se reinventou. No começo, fabricava cortadores de carne e queijo. Depois, passou aos relógios, à tabulação, aos sistemas de transações e à era dos PCs. Agora, entra em seu maior período de reinvenção, girando em torno do valor da coleta e organização de dados em grandes quantidades. Podemos não ser mais tão evidentes para o consumidor, mas estamos em quase todos os processos computacionais com os quais as pessoas deparam. Não se realiza uma transação bancária, nem se pilota um avião, sem ter de confiar numa de nossas tecnologias.

 "Há muita informação circulando, mas existe pouco conhecimento de como chegar a ela. Por isso, apenas 
20% dos dados do planeta são rastreáveis. 
Há 80% ainda não aproveitados."


Quais são os outros segredos da IBM que fizeram com que ela sobrevivesse numa indústria caracterizada por mudanças rápidas, na qual, há uma década, a Microsoft era a marca mais forte e, hoje, passou a ser dominada por novatas como o Google? A lição é: não proteja o próprio passado. Deixamos o que eram nossos principais produtos, os PCs, para focarmos o futuro, para o qual desenvolvemos ferramentas de IA. Há a sensação de que esta era é marcada por avanços mais rápidos porque existem várias transições tecnológicas ocorrendo. Empresas como o Google e o Facebook se apoiaram no que chamo de efeito das redes. É a era atual. Mas a IBM tem a visão de que está se preparando para o próximo passo. O valor que se possui em dados digitais será o grande diferencial na competição entre as pessoas, empresas e governos. Há muita informação circulando, mas existe pouco conhecimento de como chegar a ela. Por isso, apenas 20% dos dados do planeta são rastreáveis. Há 80% ainda não aproveitados.

Onde estão esses 80%? Trata-se, por exemplo, de todo o histórico de investimentos de risco dos bancos. Ou dos registros de compras das companhias de varejo. Ou de todos os históricos médicos de todos os seres humanos. Sistemas tradicionais não conseguem organizar esse mundaréu de dados. Então precisamos desenvolver IAs que possam realizar isso. Numa comparação, transformam-se os dados em um tipo de recurso natural. E quem ganha em cima de recursos naturais? Quem os detém? Lucra quem consegue extrair algo deles. Com isso, entramos no que considero ser a era da cognição, na qual as máquinas poderão aprender sozinhas, com base no conhecimento que humanos experts oferecem a elas, como lidar com esses dados. As IAs fornecerão bases para que profissionais possam tomar melhores decisões. Temos um estudo que revelou que um terço das escolhas humanas é acertado, enquanto outro terço engloba as medianas, e o outro acaba em erros brutais. A inteligência cognitiva, nome que prefiro ao de inteligência artificial, poderá aumentar nosso índice de acerto, criando um mercado que a IBM estima valer 2 trilhões de dólares.

Já há exemplos práticos do impacto dessa tecnologia? Destacarei um de fácil compreensão. Como funciona se alguém tem câncer e consulta um oncologista com acesso ao nosso software mais popular, o Watson? O profissional perguntará ao programa, frente às informações que possui, quais são os resultados prováveis. Nisso, o Watson acessará, automaticamente, 20 milhões de páginas de pesquisas sobre câncer, qualquer artigo científico publicado sobre o assunto, registros médicos e o histórico daquele paciente específico. Após essa análise, o sistema apresentará uma resposta com diagnósticos possíveis, testes recomendáveis e ideias de tratamento. A consequência é que o médico terá em mãos as melhores ferramentas, e o paciente, respostas objetivas. Recentemente, encomendamos uma pesquisa ao Massachusetts Institute of Technology, o MIT, sobre qual seria o impacto da IA nos empregos. Em termos de substituição, apenas 10% dos postos de trabalho estão diretamente sob risco. No entanto, 100% das carreiras vão se transformar, de alguma forma.

Quando a senhora assumiu o cargo de CEO, foi louvada pela imprensa como a melhor esperança para pôr ordem na casa. Hoje, cinco anos depois, a imprensa contrapõe o faturamento em constante queda da IBM com o tamanho de seu salário. A senhora dá bola às críticas? Não. É preciso administrar empresas pensando a longo prazo, não a curto. Foi isso que garantiu a força da IBM no último século e ainda fará com que a empresa dure outro século. Para tanto, escolhemos, por exemplo, vender partes bilionárias de nosso negócio, enquanto também comprávamos empresas de vanguarda. O resultado é que, agora, 45% de nossos produtos, ao todo um negócio de 80 bilhões de dólares, são novíssimos. Reinventamo-nos para o futuro.

 "Lidero quem produz essas inovações e tenho certeza de que estamos a décadas de distância daquele momento apontado pelos críticos em que será possível replicar tudo o que o homem é capaz de fazer —  se é que a tecnologia um dia atingirá esse patamar. Mesmo se chegar lá, sei que a inteligência cognitiva sempre trabalhará em conjunto com o ser humano, 
ajudando-nos a nos superar."


Figuras de renome, como o empreendedor sul-africano Elon Musk e o físico inglês Stephen Hawking, defendem a tese de que as tecnologias de IA, como as desenvolvidas pela IBM, estão pavimentando um futuro perigoso, no qual as máquinas poderão dominar a humanidade. Eles estão completamente errados. Por isso, na IBM, optamos por usar o termo inteligência cognitiva, não inteligência artificial. O termo “artificial” gera temores infundados. Lidero quem produz essas inovações e tenho certeza de que estamos a décadas de distância daquele momento apontado pelos críticos em que será possível replicar tudo o que o homem é capaz de fazer —  se é que a tecnologia um dia atingirá esse patamar. Mesmo se chegar lá, sei que a inteligência cognitiva sempre trabalhará em conjunto com o ser humano, ajudando-nos a nos superar. Alimentar essa ideia, de um apocalipse protagonizado pelas máquinas, representa um desserviço à civilização. Isso porque não podemos conter as enormes vantagens que essas tecnologias proporcionam e proporcionarão. Por exemplo, há 700 oncologistas na Índia, para uma população de 1,4 bilhão de indivíduos. Apenas com esses médicos, nunca será possível fornecer a todo esse povo um serviço de qualidade. Nem mesmo em países ricos o atendimento é ideal. Nos Estados Unidos, 15% dos pacientes com câncer têm acesso ao atendimento de centros especializados. Os outros 85% se contentam com médicos generalistas. Com tecnologias como o Watson, temos a oportunidade inédita de levar um suporte de altíssimo nível a todos os seres humanos que precisam disso. Tenho certeza de que a mesma tecnologia transformará o sistema educacional, a fabricação de remédios, entre tantas outras áreas.

A senhora foi criticada por integrar o conselho administrativo do presidente Donald Trump, conhecido por declarações preconceituosas, e, depois, também atacada por ter deixado o cargo. Outro ensinamento que a IBM, assim como eu, aprendeu com o tempo: é preciso envolver-se para promover mudanças. CEOs da empresa aconselharam todos os governos federais desde Lyndon Johnson (presidente entre 1963-1969). Recentemente, passei uma semana na União Europeia e lá conversei com líderes como o francês Emmanuel Macron. Só o envolvimento torna possível impulsionar o progresso. Por exemplo, é preciso trabalhar com governos para reformular sistemas educacionais com o intuito de preparar gerações para lidar com as novas tecnologias. Sem isso, indivíduos podem chegar ao mercado sem o mínimo de qualificação. Mas deixei o conselho de Trump após as declarações do presidente no episódio de Charlottesville (em agosto, supremacistas brancos tomaram as ruas da cidade do Estado de Virgínia e houve enfrentamentos violentos), que não condizem com os valores da empresa. Vislumbrei, então, a possibilidade de a IBM colaborar com o país de forma mais produtiva.

Por que a senhora não se sente confortável ao ser apontada como referência de sucesso para mulheres? Não concordo com rótulos, como o de feminista. Incomodava-me quando me inseriam em listas como a das “maiores executivas do mundo”. Respondia: “Não frise que sou uma mulher. Considere-me como profissional, e ponto”. Entretanto, tive um momento de elucidação após uma palestra na Austrália. Um executivo veio até mim e acreditei que ele fosse apenas me elogiar. Mas ele me disse assim: “Queria que minha filha estivesse aqui para se espelhar na senhora”. Notei, assim, a importância de existirem modelos de referência para as minorias. Só que, mais do que batalhar por um rótulo, é preciso agir para que todos, homens ou mulheres, possam se sentir confortáveis com quem são, em qualquer lugar. Assim, inclusive, produzirão mais. Na IBM, usamos IA para analisar candidatos, externos ou internos, justamente para que avaliadores não levem em conta os próprios preconceitos na hora da escolha.
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Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557 - Folha Amarelas pg. 19/23.
Fonte: http://veja.abril.com.br/revista-veja/o-passado-passou-afirma-ginni-rometty-ceo-da-ibm/

Steve Pinker : «La diminution de la violence dans le monde est un phénomène massif et incontestable»

Par Laurent Joffrin, illustration Christelle Enault

Selon le professeur de psychologie cognitiviste à l’université Harvard, dont l’ouvrage vise à démontrer et à expliquer la baisse de la violence au fil des siècles, l’humain accorde beaucoup plus d’importance à la vie aujourd’hui, et c’est sans doute pour cela que le nombre d’accidents diminue sans cesse.

D’origine canadienne, professeur de psychologie cognitiviste à l’université Harvard, Steve Pinker vient de publier un livre essentiel, la Part d’ange en nous (Les Arènes). Au fil de ces 1 000 pages appuyées sur une imposante bibliographie, on apprend que la violence ne fait que régresser depuis les premiers temps de l’humanité, qu’il s’agisse de la violence guerrière ou de la criminalité. On note au passage que 90 % des mouvements terroristes répertoriés jusqu’à aujourd’hui ont échoué dans leur entreprise. Ce qui est le cas des mouvements jihadistes : nul territoire conquis, nul basculement massif des musulmans de leur côté, nulle guerre civile déclenchée dans les pays occidentaux où vivent des minorités islamiques.
Terrorisme, violences urbaines, guerre en Syrie, en Irak, au Soudan ou en Centrafrique. Beaucoup de gens ont du mal à penser comme vous que la violence ne cesse de décroître dans le monde…
C’est pourtant un fait établi. En premier lieu, le nombre des homicides dans nos sociétés ne cesse de diminuer depuis de nombreux siècles. C’est un chiffre fiable : un homicide ne passe pas inaperçu, les archives en gardent toujours une trace. Or toutes les sources dont nous disposons montrent une baisse continue du taux d’homicides par rapport à la population au fil du temps. En second lieu, chacun peut constater que les institutions les plus violentes - les sacrifices humains, l’esclavage, l’inquisition, la torture dans les procédures judiciaires, la peine de mort - ont été abolies dans la plupart des pays de la planète. Enfin, les guerres entre nations sont devenues de plus en plus rares au fil du temps, tout comme les guerres civiles. Les organisations qui tiennent la statistique des morts, civils ou militaires, au cours des conflits armés constatent un abaissement continu des pertes humaines.
Pourtant les deux conflits mondiaux du XXe siècle ont entraîné des massacres inédits…
Certes, mais il y a parfois, dans l’histoire, des rechutes, des retours en arrière. Cela ne contredit pas l’évolution globale. Depuis 1945, la tendance historique à la décroissance des pertes pour cause de guerre a repris son cours, comme avant 1914. Et si on considère non le nombre absolu des morts pendant les deux Guerres mondiales, mais leur proportion par rapport à la population, on a connu des périodes plus violentes, où les pertes étaient en proportion supérieures. Par exemple pendant les invasions mongoles de Gengis Khan ou de Tamerlan, pendant les guerres de religion en Europe ou encore lors de la chute de la dynastie Ming en Chine. La conquête de l’Asie par Gengis Khan a provoqué en proportion autant de morts, sinon plus, que les exactions nazies. Les guerres et les génocides ont émaillé l’histoire de l’humanité depuis l’origine. Mais leur fréquence tend à se réduire. Ce qui est clair, en tout cas, c’est que la violence guerrière a diminué de manière spectaculaire depuis 1945.
Vous donnez un exemple frappant, l’extrême violence des événements rapportés dans la Bible, dont la recension reflète non la volonté de Dieu mais l’esprit du temps où elle a été écrite.
C’est une belle légende de l’ancien temps. Mais si vous comptez (grossièrement) le nombre de personnes tuées à l’occasion de cette histoire, qui raconte à la fois certains faits réels et d’autres imaginaires, vous arrivez à un chiffre nettement supérieur à 1 million de morts. Sachant que les populations concernées étaient beaucoup plus petites qu’aujourd’hui, cela reflète bien la violence - inimaginable aujourd’hui - des mœurs de ce temps et l’habitude qu’avaient, à la fois Dieu et les hommes, de recourir à une violence extrême.
Vous prenez encore l’exemple de la violence des hommes préhistoriques, ou celle des «peuples premiers».
Oui. Les universitaires ont dénombré, à partir des cadavres d’hommes ou de femmes des temps les plus reculés retrouvés un peu partout sur la planète - «l’homme de Totavel», «Lucy», etc. - le nombre d’individus tués par leurs contemporains. Il apparaît que le nombre de cadavres portant des traces de violence administrées par des congénères est en proportion considérable. On aboutit à un taux de morts violentes supérieur à 10 %. Autrement dit, les pourcentages de meurtres par rapport à la population sont, à ces époques, environ 1 000 fois supérieurs au pourcentage que nous connaissons aujourd’hui en Europe.
Pour nos contemporains des pays occidentaux, le terrorisme est la forme de violence la plus spectaculaire et souvent la plus redoutée. Cette réalité vient-elle contredire votre diagnostic ?
Certainement pas. Le terrorisme est un phénomène terrible. Mais son importance statistique est minime. Cela correspond d’ailleurs à sa définition : ce sont des actes peu nombreux destinés à produire un effet psychologique massif. Les terroristes visent avant tout à manipuler les médias pour attirer l’attention sur une cause particulière. Statistiquement, le terrorisme d’aujourd’hui est infiniment moins dangereux que la jalousie des maris qui assassinent leurs femmes, ou le mauvais fonctionnement de certains appareils ménagers qui causent des accidents domestiques. J’ajoute qu’en Europe, le terrorisme jihadiste, qu’on appelle parfois «hyperterrorisme», cause moins de victimes que les terrorismes des années 70, ceux de l’IRA, d’ETA ou des «années de plomb» en Italie. En fait, son effet psychologique est important parce que la population estime aujourd’hui que le seul niveau acceptable de violence politique se situe aux alentours de zéro, alors qu’on se résignait dans le passé à des niveaux très supérieurs.
La sensibilité à la violence a augmenté alors que le nombre d’actes violents diminue… Comment l’expliquer ?
Parce que notre système de valeurs évolue. Nous accordons aujourd’hui à la vie humaine un prix très supérieur à celui du passé. C’est peut-être aussi parce que le nombre des accidents et des morts par maladie diminue lui aussi sans cesse. On meurt moins que par le passé de noyade, de chute inopinée, d’accident de voiture, d’incendies ou de maladie. Le monde est de plus en plus sûr, c’est un phénomène fondamental. Sauf bien sûr dans certains pays comme l’Irak ou la Syrie. Mais partout ailleurs, la sécurité de la vie quotidienne ne cesse de progresser.
En Europe, la violence est moindre qu’aux Etats-Unis…
L’Union européenne est l’ensemble politique où l’on observe le moins de violence depuis les origines de l’humanité. Les morts par action de guerre y sont rarissimes, et le taux de criminalité y est historiquement le plus bas de tous les temps. Le nombre des crimes est nettement supérieur aux Etats-Unis, même s’il a chuté de moitié depuis les années 90 pour remonter légèrement depuis deux ans.
Vous notez un phénomène qui risque de déplaire aux baby-boomers : la criminalité a connu une remontée importante aux Etats-Unis dans les années 60 et 70. Vous liez cette rechute à l’émergence d’une culture plus libre, plus permissive.
Je suis moi-même un baby-boomer et j’adhère à beaucoup de valeurs de cette génération. Mais c’est un fait que le taux de criminalité a progressé notablement pendant ces années-là, qui furent pourtant celles d’une grande prospérité et d’un faible taux de chômage. Je ne peux pas l’expliquer autrement que par l’évolution démographique, avec l’augmentation du nombre de jeunes dans la population, et par le changement des mentalités. Le contrôle social s’est relâché à la faveur de la montée de la contre-culture et de la libéralisation des mœurs. A cela s’est ajoutée la situation des minorités noires dans les quartiers les plus pauvres, chez les jeunes notamment. A la fin des années 80, les autorités ont réagi par des politiques plus resserrées, comme à New York, par des condamnations plus lourdes et par une montée du taux d’incarcération. Je ne dis pas que cela me plaît, mais je constate que la criminalité a repris depuis son mouvement de baisse.
Voilà qui flattera les idées des conservateurs…
Les conservateurs disent des bêtises dans 90 % des cas. Mais dans ces années-là, la gauche a commis une erreur tragique en négligeant le phénomène de l’insécurité. Elle en a laissé le monopole à la droite, qui a marqué des points politiques considérables.
Certains mettent en rapport des inégalités du système capitaliste et la violence contemporaine. Est-ce votre avis ?
Historiquement, c’est complètement faux. Le commerce, l’échange, la libre entreprise sont des sources d’apaisement des relations humaines. Il vaut mieux acheter des produits que les voler à son voisin, il vaut mieux produire de plus en plus pour partager le surplus plutôt que de s’enrichir par la rapine ou la conquête, comme c’était le cas avant l’émergence des économies d’échange. Le commerce oblige aussi les hommes à se connaître, à trouver des règles communes, à comprendre les civilisations étrangères. Il y a un proverbe très juste : «Si vous faites la guerre à votre boulanger, il faut apprendre à faire le pain vous-même.» La spécialisation de la production amène l’échange et l’échange oblige à des systèmes juridiques et politiques plus stables. Depuis l’émergence du capitalisme au XVIIe siècle, la violence sociale ne cesse de décroître en moyenne. Ce sont les inégalités qui sont un facteur de violence, en produisant de la pauvreté et de l’injustice.
Comment expliquer sur le long terme cette décroissance de la violence ?
Je cite trois facteurs essentiels. C’est d’abord la construction longue et patiente d’Etats organisés dont l’autorité a permis d’instaurer l’ordre, le respect des lois communes. Pendant longtemps, ces gouvernements royaux, impériaux ou dictatoriaux usaient eux-mêmes de violence. Mais ils ont aussi dissuadé la majorité de leurs contemporains de se tuer les uns les autres. C’est ensuite la naissance du mouvement des Lumières, qui a limité le pouvoir de l’Etat et créé des gouvernements représentatifs où la loi était l’expression de la volonté générale, et donc mieux acceptée, tout en favorisant les échanges et l’amélioration de la production. Peu à peu, sous l’influence des Lumières, les droits des citoyens ont été mieux respectés, leur sécurité mieux garantie contre les actions arbitraires des puissants et le règne de la loi mieux établi, ce qui a pacifié les relations sociales. Enfin, la montée en puissance des économies libres, régulées par la loi, a favorisé le commerce et les échanges, qui ont aussi pacifié la vie des sociétés. De toute évidence, la démocratie libérale, à condition qu’elle soit régulée, qu’elle ne devienne pas une jungle, est le système qui assure le mieux la diminution de la violence.
Vous décrivez un progrès continu, pour ainsi dire inexorable…
Non, je me situe sur le long terme. Dans cette perspective, la diminution de la violence est un phénomène massif et incontestable. Mais il peut y avoir des périodes de rechute, de recul, de régression bien sûr. L’homme se civilise mais il ne change pas en profondeur. Les pulsions, les frustrations, les tentations violentes demeurent et tout peut basculer très vite. Mais sur le long terme, la violence recule, de toute évidence.
Certains philosophes, et certains intellectuels, ont vu dans le XXe siècle et ses deux Guerres mondiales la preuve de la fausseté de la philosophie des droits de l’homme et de l’idée de progrès.
Non, les deux Guerres mondiales, le fascisme, le totalitarisme ont eu lieu justement parce que certains partis, certains hommes, avaient récusé la philosophie des Lumières, les droits de l’homme, la démocratie, au nom du sang, de la race, de la nation, de la lutte contre la décadence supposée des «démocraties bourgeoises». Cela ne démontre en rien la fausseté des Lumières, bien au contraire.
Un courant important en France diagnostique lui aussi la décadence des démocraties, le déclin de notre civilisation. En quoi votre livre leur apporte-t-il une réponse ?
La thèse du déclin des civilisations est éternelle. Schopenhauer, déjà, avait prophétisé le déclin de la civilisation des Lumières. Ce déclin ne s’est pas produit, au contraire. Mon livre est une réponse sur la question de la violence, qui est une dimension essentielle de la condition humaine. Il montre qu’il y a, dans ce domaine en tout cas, un progrès massif, continu, spectaculaire. En ce sens, il est clairement antidécliniste.
Est-ce une idée très répandue aux Etats-Unis ?
Sur la question de la violence, je ne suis pas le seul à poser ce diagnostic. Mais sur le progrès, la défense de la civilisation des Lumières, nous ne sommes pas nombreux. Mais j’ai un défenseur assez connu : Barack Obama. Il a dit que s’il avait été blanc ou noir, pauvre ou riche, homosexuel ou hétéro, et qu’il avait pu choisir l’époque dans laquelle il souhaitait vivre, il aurait choisi la nôtre.
N’êtes-vous pas comme le docteur Pangloss, dans le Candide de Voltaire, qui ne cesse de répéter que tout est pour le mieux dans le meilleur des mondes ?
Non, certainement pas ! Le docteur Pangloss disait qu’on ne pouvait pas rêver meilleur monde que celui dans lequel il vivait. C’était un pessimiste : le monde s’est beaucoup amélioré depuis. Notamment grâce à Voltair
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Fonte:  http://www.liberation.fr/debats/2017/11/17/steve-pinker-la-diminution-de-la-violence-dans-le-monde-est-un-phenomene-massif-et-incontestable_1610799?xtor=EPR-450206&utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=quot