sábado, 12 de agosto de 2017

MÍSTICA E MEDITAÇÃO CRISTÃ

Fr. Luiz Carlos Susin(1)
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“Que te agradem as palavras de minha boca e o meditar
 do meu coração em tua presença”. 
( Sl 19,15)

                  A espiritualidade é como navegação em largo oceano: precisa de barcos. O espírito, como o corpo, precisa não só de alimento, mas de ginástica, de práticas, e até de “técnicas” para seu exercício. Por mais que compreendamos que “tudo é oração”, que “orar sem cessar” é simplesmente tomar consciência de que estamos sempre na presença amável de Deus, inclusive quando estamos nas refregas da ação, dos engajamentos, da política, a espiritualidade é algo que, para que seja vida incessante, precisa ser “praticada” em tempos, lugares e formas específicas. É nisto que vamos focar este artigo: na prática de exercícios de espiritualidade. Especificamente, escolhemos aqui a prática da meditação, um dos exercícios mais exigentes e gratificantes ao mesmo tempo em toda espiritualidade. Trataremos especificamente da meditação com características cristãs. Pois nem toda meditação é cristã. Filósofos, poetas, cientistas, mas também mães de família, crianças e religiosos de todas as tradições, quedam-se pensativos em meditações, às vezes criativas, às vezes sofridas, às vezes propositadamente e disciplinadamente vazias. Há uma forma especificamente “cristã” de meditar.

                  É constrangedor constatarmos que ao nosso redor crescem as propostas de meditação oriental, de tradição budista ou hindus, ou inclusive em estilo sufi e baha’i, de fundo muçulmano – todas admiráveis por seus aspectos variados de métodos e propósitos, e também por seus benefícios espirituais e terapêuticos – enquanto grande parte dos cristãos desconhece o tesouro da tradição cristã em termos de exercício de meditação. Não é nosso foco aqui apresentar uma história da meditação percorrendo os dois mil anos de cristianismo, mas convém enumerar brevemente alguns traços, começando pelos anacoretas dos desertos, pelos cenobitas habitando suas celas em torno de uma capela. Depois vieram os mosteiros, a vida contemplativa dos cristãos era incentivada a partir de uma leitura bíblica. Com espaços e tempos de retiros, de “deserto”, e a introdução regrada da prática de meditação na vida monacal como Lectio Divina, depois nas Ordens religiosas mendicantes e nas Congregações, até mesmo as mais apostólicas e missionárias, masculinas e femininas. Todos se inspiraram cristãmente e ainda têm como referencia as narrativas de retiros de Jesus ao deserto e à montanha, passando ali longos tempos, dias e noites inteiras diante da Palavra. Fundamentar a meditação cristã em Jesus é óbvio e cristalino. A pergunta é sobre como se ocupava Jesus retirado uma noite inteira em oração. É lógico: a oração que Jesus ensinava – o Pai-Nosso – é a oração que ele mesmo rezou. Mas ele se entreteria toda a noite rezando o Pai-Nosso? Desceremos ao detalhe mais adiante.

                  Seria a meditação um privilégio da Vida Religiosa Consagrada (VRC)? Nos dias em que vivemos, em que quase todos, consagrados e consagradas, têm agendas tão ativas e aceleradas como de executivos de empresas, são justamente os executivos, os profissionais liberais, etc. que clamam por tempos de meditação, por cursos e mestres, por Transcendental Meditation Training, haja vista a repercussão do livro “O monge e o Executivo” de James Hunter, sucesso inclusive no Brasil. Mas perto de nós, a literatura de Anselm Grun, de Henri Nouwen e de Jean-Yves Leloup, apenas para ficar em alguns exemplos, tem nos ajudado a praticarmos leituras meditativas, um modo substancioso e importante – e simples – de meditação. Hoje há recursos audiovisuais pipocando por todo lado: mensagens com imagem e som em youtube, em whatsapp, sem falar dos já clássicos slides de Data Show. Mas isso ajuda? A saturação e a pirotecnia de belas mensagens pela tela não conseguem exatamente o contrário de uma verdadeira meditação? Enchem ao invés de esvaziar? Vamos aprofundar.

1. O QUE É UMA MEDITAÇÃO “CRISTÔ?

                  Antes de tudo, o que não é uma meditação propriamente cristã, pois há muitas tradições religiosas que têm suas formas próprias de meditação, e hoje, até mesmo sem motivação religiosa, há quem busque meditar por outras razões. Há, de fato, um nível que poderíamos chamar de “antropológico” na busca e na prática da meditação: a concentração e o cultivo cuidadoso que ela exige é eficaz para a integração psíquica, para melhorar as funções do corpo em geral, para melhorar o rendimento no trabalho, nas relações, na atenção à ação, enfim para conseguir equilíbrio interior e nos relacionamentos com os outros e com o ambiente, já que cria sensibilidade. A meditação, nesse caso, está voltada para o cultivo da subjetividade, para o bom desempenho do “eu”. Embora não se deva suspeitar necessariamente de narcisismo, ela tem um caráter “narcísico”, algo como cultivar o próprio sorriso olhando-se ao espelho. Assim, ela pode ajudar a ser melhor, a ter uma personalidade mais sensível, mais bondosa, etc. É claro que não é preciso ser cristão para ter este cultivo. É coisa boa e justa, mas é algo que “os pagãos também fazem”.

                  A meditação cristã pode ser compreendida por seu histórico, sobretudo por seu nascedouro em termos de prática regrada e constante. Vamos situá-lo no deserto: afinal, cristãos foram ao deserto sobretudo para meditar e orar. Parece que o fato de um número considerável de analfabetos terem ido ao deserto tenha ajudado a estruturar a meditação cristã: eles se localizavam nas redondezas de um mestre que pudesse ler para eles o texto da Escritura. Então o mestre “entregava” aos demais o versículo bíblico a ser bem guardado na memória e então lembrado e repetido centenas e centenas de vezes ao longo da jornada. Como a leitura, também o versículo a ser lembrado repetitivamente era feito originalmente pronunciando-o em voz alta. Mas logo passou a ser uma repetição “em pensamento”. (2)

                  A meditação cristã tem assim duas características:

1.         É meditação de uma “palavra”, e a palavra  “sagrada” porque é uma palavra das fontes da revelação e da salvação, palavra que transmite vida, palavra de “alguém”, de uma alteridade que, em si mesma, ainda que se dê generosamente na palavra, permanece além dela no mistério insondável. A meditação cristã não visa o despojamento de qualquer pensamento interior até chegar ao silencioso e libertador “vazio transcendental”. O cristão aprende a meditar depois de escutar e acolher em si a palavra, depois da proclamação da palavra que provém de “alguém”: a palavra é relação com uma alteridade. É bem verdade que a palavra, a linguagem, é sempre pará-bola: lança para além dela como uma metá-fora: toda palavra tem caráter metafórico, cumpre sua missão quando se transcende a palavra em direção à fonte mesmo da palavra, que é inefável mistério de alguém, silêncio pleno de presença. Mas a espiritualidade cristã mantém a diferença, não mergulha em uma com-fusão com o mistério de uma alteridade que, mesmo intensamente presente, tão presente a ponto de se fazer carne e humildade criatural, se mantém uma “alteridade” divina. A palavra é ao mesmo tempo a relação íntima e a distância transcendente na qual a criatura se mantém respeitosamente diante do mistério e o reconhece e adora como mistério. Daqui decorre o privilégio da palavra sobre o silêncio na meditação cristã. Não só porque no princípio de tudo “Deus disse” (Gn 1,3a) mas porque a palavra permanece relação até o último versículo bíblico e até a adoração celeste no canto de louvor eterno.

2.         A meditação cristã se tornou repetição de palavra: palavra e relação de longa duração, algo comparável à ruminação bovina, retomando e mastigando repetidas vezes o mesmo bocado para chegar a integrá-lo inteiramente como alimento da vida. Repetição que, como toda meditação, chega ao silêncio exterior, concentrando o movimento para dentro de si, do próprio corpo, até o silêncio também interior mais completo, mas silêncio da intimidade com alguém, com a fonte da palavra, “união” e comunhão, que são mais do que contemplação. É a realização da metáfora joanina: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3,20).

Com estas premissas que devem permanecer firmemente no exercício da meditação cristã, o ponto seguinte é não uma teoria, mas a prática meditativa.

2. A FORMA E O EXERCÍCIO DA MEDITAÇÃO CRISTÃ

                  Em termos de forma, inclusive de técnicas – operacionalização – pode-se ganhar muito com outras tradições. É sabido que o budismo, apenas para exemplificar, desenvolveu formas admiráveis de concentração da mente, que estão disponíveis cada vez mais perto de nós no Brasil. Lançando um olhar, ainda que superficial, para a exuberância das culturas religiosas, poderíamos dividir as formas de meditação que levam à aquietação,, aos estados modificados de consciência, ou ao êxtase, ao transe, entre dois extremos: a quietude que chega a uma respiração lenta e profunda em um corpo inteiramente imóvel, por um lado, e, por outro lado, o movimento até espasmódico e frenético do corpo em danças e contorções. Entre os extremos há um aspecto grande de movimentos e aquietamentos. (3)

                  A meditação, inclusive etimologicamente – do latim, o verbo reflexivo meditari  tem um significado medicinal de se dobrar sobre algo com atenção, para cuidar, tal como “pensar” arcaicamente, mesmo em português significa “pensar feridas”, ter o cuidado terapêutico, de socorro, à dor. Podemos até verificar que pessoas ficam “pensativas”, “reflexivas” e “meditativas” diante da dor, da morte, da finitude, da fragilidade, do perigo. Em algumas línguas evoca uma tomada de distância, uma saída do ruído do cotidiano, que nos envolve para prestar atenção a algo essencial. No entanto, rituais os mais diversos segundo as culturas religiosas tão variadas à fragilidade e ao perigo, mas juntam a afirmação da força e da confiança, da exuberância da vida, e justamente como remédio, como socorro, como cura e superação. Por isso se dança diante do nascimento e da morte, se levanta as mãos na dor tanto quanto na alegria. A meditação tem algo de cuidado medicinal.
                  Agora, a nossa meditação tem uma forma pacata, até bem simples e prosaica, comparada à imensa riqueza cultural de rituais religiosos. É simplesmente colocar-se diante da palavra, da presença a que ela nos apresenta e permanecer simplesmente nesta face a face espiritual mediado pela palavra e pelo silêncio. Isso precisa de alguma explicação:
1.         A nossa fé na proximidade de Deus na carne de Jesus simplifica muito a nossa forma de religião e a aproxima muito do cotidiano. Não há mais necessidade de observação de luas e de rituais alimentícios, etc., o que Paulo viu muito bem. Isso vale também para a oração e para a meditação. Mas isso não significa que possamos esquecer as exigências antropológicas da religião, com toda a liberdade e a criatividade de filhos e filha de Deus.
Tudo o que faz bem não só é permitido, mas deve ser apreciado, inclusive certas “técnicas” vindas de diferentes tradições, como é o caso do rosário, que abordaremos logo em seguida.

2.         Pela mesma razão, a tradição cristã sente como exotismo, portanto algo estranho, a preocupação exagerada com a forma. Ela ajuda, mas não decide. Se decidisse, teríamos em nossas mãos uma poderosa magia capaz de subjugar o mistério divino, e isso soa praticamente como uma blasfêmia. Assim também as nossas palavras e os nossos pensamentos: eles não são mágicos ou poderosos, não nos inclinam para uma onipotência do narcisismo. São simplesmente a nossa expressão, o nosso coração e a nossa cordialidade levada à boca – sinceridade – no reconhecimento da presença do mistério que se apresenta a nós de face pela mediação da palavra sagrada que nos é dada na leitura orante.

Dito isso, além da evocação dos inícios da meditação cristã nos desertos e na mente dos anacoretas que ruminavam se alimentando da palavra do dia, vamos evocar as lições de duas tradições meditativas, ainda que tenham uma estrutura comum de fundo, o hesicasmo e o rosário:

1. O hesicasmo, atualizado em pílulas urbanas no “terço bizantino” do Pe. Marcelo Rossi, em São Paulo, é uma grande tradição do oriente cristão, também celebrizada na oração do “peregrino russo”. De certa maneira, é herdeira dos monges do deserto, e foi um vasto movimento espiritual de simplicidade e despojamento para se centrar no essencial, para estar na presença divina. A “oração de Jesus” é o essencial: tomando um verso, uma palavra ou uma frase curta e simples dos evangelhos, ela se torna uma recitação contínua, uniforme, monótona e longa até perder a noção do tempo.

                  Na liturgia bizantina, e mesmo na liturgia latina, se conservou esta simplicidade recitativa nos “tropos”. Em grego tropos, do verbo trepein, que significa “virar” e “tomar um caminho”, uma nova direção, tinha a ver com os pensadores da corrente “cética”. Skeptos significa justamente refletir, meditar, pensar melhor, pensar diferente. Assim sinalizavam a necessidade de suspender o pensamento, os juízos, buscando outra verdade, não evidente. Esse ato de suspender, voltando à oração hesicastas e depois à sua herança litúrgica, está na repetição de antífonas, que retornam em meio às estrofes. As “grandes antífonas” porém, podem ser recitadas muitas vezes sem mesmo intercalar estrofes. A palavra antífona já indica a existência de dois grupos ou dois coros em contracanto, mas o essencial em tudo isso é a repetição de algo simples, que conduz à suspensão e à docilidade do pensamento em se deixar conduzir pelas poucas palavras que se repete. Um exemplo excelente que ficou na tradição hesicasta e do peregrino russo é a confissão do publicano: “Senhor, tem piedade de mim, pecador!” – repetida três ou cinco mil vezes no decorrer do dia... recolhido ou andando, coincidindo cada “jaculatória” dos lábios e da mente com o movimento rítmico da respiração.

                  De fato, sem pretender exagerar nas posturas corporais, mas, pelo contrário, colocando-se em posturas simples e despojadas, é importante que o corpo inteiro seja oração. Por isso, uma postura não só “confortável” – palavra repetida nos cursos seculares de Meditation Training –, mas também postura “elegante” é a recomendação. Elegância coincide com postura correta em todo o corpo. Quando é meditação sentada, é importante uma coluna reta, braços descansados, pés bem postados, cabeça que seja também de ombros e peito erguido, passos ritmados com suave firmeza. Tudo – sentado ou andando – sem rigidez. Portanto, músculos relaxados, olhos pousados sem inquietação. Ou seja, o aquietamentos começa em um corpo com posturas calmas e elegantes. Uma “passada” consciente por todo o corpo para ir se colocando, parte por parte, em boa e elegante disposição, é uma exigência de preparação.

                  E, como ensina a “oração de Jesus”, coincidindo com todos os métodos de meditação, é importante uma respiração bem ritmada, mais profunda e calma do que no cotidiano. Uma boa respiração afasta a ansiedade, acalma os pensamentos. No nosso caso, em que a primazia da meditação é a palavra, o hesicasmo e o peregrino russo levam o ritmo da respiração a coincidir com o ritmo das poucas palavras repetidas. Assim a própria respiração vai assumindo as palavras, e mesmo quando já não se pronuncia, quando se está distraído ou se dorme, o coração vela e ora – pela respiração!

2. O rosário, do ponto de vista formal, ou seja, como “técnica” de oração, é a tradição que os católicos latinos receberam do oriente mais distante e transformaram em meditação cristã. Basta constatar que hindus e budistas recitam mantras, e muçulmanos, ayat’s ( versículos do Alcorão), desfiando contas ou algo semelhante. A repetição de um som, de um nome, de um versículo, é das mais universais formas de se recolher para a meditação silenciosa. Assim, o rosário, como o Angelus, foi adaptação que se popularizou desde a Idade Média, como sabemos. Nele estão os “mistérios” narrados para a meditação, lembrados de forma absolutamente simples, e logo a recitação mantém o ritmo, que deve ser calmo, intencionalmente monótono, despreocupado, sem perder a boa forma. Não se trata de encher os ouvidos de Deus com a ansiedade de muitos pedidos “como fazem os pagãos”, mas de repetir com a docilidade de quem diz, sem parar, “eu te amo!”.
O rosário – ou o terço – é a oração de recolhimento, justamente para meditar. A televisão é um complicador, pois é espetáculo, requer fluxo constante de imagens, de brilhos e cores. Dificilmente consegue induzir ao silêncio. Está mais para carnaval. Ajuda para uma mensagem, para pregação ou catequese. O terço recitado com o rádio recolhe mais, é só ouvido – o que, aliás, pode-se fazer também com a televisão fechando os olhos. Paul Claudel, o poeta francês, teve uma conversão súbita ao entrar sozinho, distraído, na catedral de Notre Dame, quando o organista ensaiava uma partitura. A profundidade e a altura sonora do órgão tornavam aquele silêncio mais eloquente, e ele se viu caído de joelhos em pranto, ficando ali um tempo longo, indefinível, imóvel. O som, a música, é frequentemente um grande sustento de momentos místicos e de meditação, mas é necessário discernimento e cuidado, porque ela tem a mesma ambiguidade da imagem.

Do oriente se aprendeu também que estar sempre no mesmo lugar e na mesma posição (sutra), assumir sempre a mesma fórmula e o mesmo som (mantra), e contemplar sempre o mesmo simples e despojado objeto de atenção (uma vela, um ícone, o sacrário), são elementos simples e importantes ao mesmo tempo, ao alcance de todos. Rezar um terço lá de vez em quando... não ajuda muito. É na repetição cotidiana que está sua eficácia meditativa. Muitas vovós analfabetas, por ele, foram pessoas de alta contemplação e mística.

Não é necessário ter almofadões e ambientes sofisticados, desenhados por experts em meditação. Basta sentar-se bem na cadeira ou no banco, ter uma roupa simples, um calçado simples ou pés descalços, pouca luz, um pouco de beleza. Nesse sentido, Taizé é um bom exemplo de vida simples, até rude em alguns aspectos, sem muito conforto, mas centrada na oração – uma capela voltada para o ícone iluminado de muitas velas, uns banquinhos teresianos, uma túnica branca, repetição de refrãos e silêncio depois de proferir o texto bíblico.

Aqui sublinhamos o respeito à forma, às “técnicas” mínimas que devem ser observadas se não quisermos defraudar a dimensão antropológica da meditação, lembrando mais uma vez, porém, que o que decide na meditação cristã é a interiorização da palavra e a consciência da presença amorosa e adorante de quem a enviou.  Por isso, nossa repetição do rosário é escandida por mistérios de Cristo, segundo a tradição medieval da cristologia dos “mistérios da vida de Jesus”, os eventos de revelação e salvação condensados nesses mistérios.

2. AS POSSIBILIDADES DE MEDITAÇÃO NO CONTEXTO URBANO CONTEMPORÂNEO.

Embora breve, este último item deve ser considerado com realismo e como desafio. Não é necessário dizer o que todo mundo sabe a respeito do tumulto das agendas, da locomoção, dos horários, dos arranjos da cidade grande. Do caos, porém, vem a energia e a inspiração criativa. Também para a meditação e a oração, justamente mais necessária. É uma questão de oportunidade e de exercício, e até de sobrevivência. Pe. Marcelo Rossi, a seu modo, ajudado por seu bispo, especialista em patrística, encontrou uns minutos à meia-noite da grande São Paulo. A televisão torna a meditação um pouco afetada, mas, se fecharmos os olhos, melhora. É que se não se consegue meditar meia hora como mínimo ideal ao nascer e ao se pôr o dia, segundo os ritmos do sono e da vigília natural, então no meio da loucura que não deixa respirar bem, parar três minutos para respirar com calma e em cada respiração repetir um versículo do salmo, isso pode salvar nossa alma, ao menos naquele dia.

As recomendações do item anterior poderão soar luxuosas para quem vive o cotidiano das megalópoles. Mas se houver tempos “fortes” (em um retiro, ou em tempos de férias) para enraizar um pouco mais a meditação, ela pode ser transferida de alguma forma para o ônibus, mesmo em pé no meio do aperto, como Thomas Merton ao sair do mosteiro em uma tarde em plena praça movimentada de Louisville, no Kentucky. Ele meditou contemplando tudo o que estava ao seu redor, sem recusar nada e recolhido ao mesmo tempo, porque trazia consigo o exercício da meditação.
Embora a meditação seja um exercício eminentemente pessoal, individual, a meditação em comunidade de meditantes tem uma eficácia maior do que as palavras e as confidências para criar comunhão. É algo como o êxtase vivido por Agostinho e Mônica juntos: tornaram-se uma só alma. Quedar-se meia hora em silêncio lado a lado diante da Palavra e da Presença que está na raiz de todos os seres faz destes um só coração. Se isso vale para com a paisagem, os pássaros e as estrelas, vale na mesma ou maior intensidade para com quem medita ao nosso lado. Para dificuldades irracionais de relações, terapeutas recomendam simplesmente olhar-se em silêncio de face por algum minuto, diversas vezes, em silêncio, e a reconciliação acontece. A meditação comunitária, lado a lado, cura as feridas e os ressentimentos, cria boa disposição ao perdão e à leveza das relações, aumenta a união entre os participantes.

A medida que se progride na meditação, não há distração que não seja alimento para a própria contemplação e meditação. Uma distração é uma “concentração em outro lugar”, um lugar que está pedindo atenção do meditante.  Até o diabo se torna interessante, ao menos mais manso. No entanto, em meio à tecnologia e o “diabo a quatro” do agito urbano, um jejum de tecnologia, um despojamento de máquinas e aparelhos, uma desconexão geral, para ter o prazer de uma interiorização, é saudável em todos os sentidos. Entregar-se no meio do cansaço a uma meditação sonolenta, entre a vigília e o sono, revela-se também muito fecundo, pois nesse lusco-fusco da consciência entregue é que ficam as impressões que vão orientar a vigília do coração enquanto o corpo descansa no sono. Até que tudo se torne, até mesmo a cidade grande com seu fascínio e suas misérias, parte do ícone, do salmo, do face a face adorante e reconhecido por uma presença: “tu me envolves por trás e pela frente (...) se eu descer até os infernos, aí também te encontro”(Sl 139,5;8b). Mas, para tanto – ai de mim! – meditar é preciso.


NOTAS:
1.  Luiz Carlos Susin, frei capuchinho. Doutor em Teologia. Professor da PUCRS. Direção editorial da revista Concilium.

2. Os cristãos fizeram também o caminho inverso: assim como meditavam, começaram a ler sem mais pronunciar o que liam, segundo o que nos conta Santo Agostinho, admirado pela forma como encontro Santo Ambrósio mergulhado em sua leitura sem pronunciar o que lia. Essa mudança e essa economia na leitura provieram da meditação.

3. Por exemplo, a dança sufi dos dervixes em ritmo e movimento circular com rituais dos braços e de pés, além dos rituais de saudação e concentração que precedem e seguem o tempo da dança mística. Se mergulharmos na exuberância dos povos indígenas do Brasil, a dança ganha uma coreografia mais compacta e o silêncio do corpo e do olhar se estende para o texto cósmico lido na retina profunda dos olhos escuros. Outro exemplo de forma de meditação, agora claramente diante da palavra e do texto, é o movimento da inclinação da cabeça ritmado da tradição judaica. E também do coro dos monges em suas estelas, um movimento suave e adorante que acompanha a doxologia trinitária. Na outra ponta extrema nos deparamos com o ritmo do tambor: indígenas das Américas à África profunda e ao pacífico, quando bate o tambor abrem-se os diques que separam interior e terra, e tudo entra em vibração, a massa toda transforma em energia e espírito numa grande comunhão. Dos xamãs da Sibéria, das diversas escolas budistas e das alegres tradições hindus até a energia vibrante da África, o corpo orante em êxtase ou meditação se sustenta com expressões culturais impressionantes.
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 FONTE: Revista CONVERGÊNCIA, CRB. Setembro/2017. Ano II, nº 504, pg.38 a 47.

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